Visão de São Paulo à noite - Poema Antropófago sob Narcótico

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mais um poema do mestre Roberto Piva*

Na esquina da rua São Luís uma procissão de mil pessoas acende velas no meu crânio há místicos falando bobagens ao coração das viúvas e um silêncio de estrela partindo em vagão de luxo fogo azul de gim e tapete colorindo a noite, amantes chupando-se como raízes Maldoror em taças de maré alta na rua São Luís o meu coração mastiga um trecho da minha vidaa cidade com chaminés crescendo, anjos engraxates com sua gíria feroz na plena alegria das praças, meninas esfarrapadas definitivamente fantásticas há uma floresta de cobras verdes nos olhos do meu amigoa lua não se apóia em nada eu não me apóio em nada sou ponte de granito sobre rodas de garagens subalternas teorias simples fervem minha mente enlouquecidahá bancos verdes aplicados no corpo das praças há um sino que não toca há anjos de Rilke dando o cú nos mictórios reino-vertigem glorificado espectros vibrando espasmos beijos ecoando numa abóbada de reflexos torneiras tossindo, locomotivas uivando, adolescentes roucos enlouquecidos na primeira infânciaos malandros jogam ioiô na porta do Abismo eu vejo Brama sentado em flor de lótus Cristo roubando a caixa dos milagres Chet Baker ganindo na vitrola eu sinto o choque de todos os fios saindo pelas portas partidas do meu cérebro eu vejo putos putas patacos torres chumbo chapas chopes vitrinas homens mulheres pederastas e crianças cruzam-se e abrem-se em mim como lua gás rua árvores lua medrosos repuxos colisão na ponte cego dormindo na vitrina do horror disparo-me como uma tômbola a cabeça afundando-me na garganta chove sobre mim a minha vida inteira, sufoco ardo flutuo-menas tripas, meu amor, eu carrego teu grito como um tesouro afundado quisera derramar sobre ti todo meu epiciclo de centopéias libertas ânsia fúria de janelas olhos bocas abertas, torvelins de vergonha, correias de maconha em piqueniques flutuantes vespas passeando em voltas das minhas ânsias meninos abandonados nus nas esquinas angélicos vagabundos gritando entre as lojas e os templos entre a solidão
e o sangue,
entre as colisões,
o parto
e o Estrondo




Roberto Piva (1963)

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Manifesto Antropofagico

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Quadro O Abaporu, de Tarsila do Amaral

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi, or not tupi that is the question.
Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.
O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.
Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.
Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.
Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.
Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.
Queremos a Revolução Caraiba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem n6s a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.
A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.
Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre. Montaig-ne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos..
Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.
Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.
Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe : ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.
O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.
Só podemos atender ao mundo orecular.
Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.
Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.
Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.
O instinto Caraíba.
Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.
Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.
Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.
Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.
Catiti Catiti
Imara Notiá
Notiá Imara
Ipeju*
A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.
Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comia.
Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?
Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.
A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.
Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.
Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.
Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.
Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.
Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.
As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.
De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.
O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.
É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.
O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?
Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.
Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.
A alegria é a prova dos nove.
No matriarcado de Pindorama.
Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.
Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.
Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.
A alegria é a prova dos nove.
A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.
Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.
A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.
Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.

OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha."
(Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)

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Boicote à Cultura Policial

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Hakim Bey


Se podemos dizer que um personagem ficcional tem dominado a cultura popular atual, esse personagem é o policial. Os meganhas desgraçados estão em todo lugar. É pior do que na vida real. Que chateação incrível.
Policiais poderosos – protegendo os manos e humildes – à custa de mais ou menos meia dúzia de artigos da declaração dos Direitos Civis – "Dirty Harry". Ótimos policiais, humanos, lidando bem com a perversidade humana, agridoces, você sabe, durões e arrogantes, mas mesmo assim, meigos por dentro: Hill Street Blues – o mais maléfico programa de TV de todos os tempos.
Tiras negros sabichões fazendo observações espirituosas e racistas contra tiras brancos e jecas, mas todos se amando no final – Eddie Murphy, traidor da classe. Numa dessas histórias masoquistas, vemos policiais corrompidos que ameaçam implodir nossa Realidade Konfortável e Konsensual, como tênias solitárias desenhadas por Giger, mas que naturalmente são detonados na hora H pelo último policial honesto, Robocop, amálgama ideal de próteses e pieguice.
Somos obsediados por policiais desde o início – mas os guardas de outrora atuavam como tolos empavonados. Car 54, Where Are You?, trouxas feitos na medida para serem arrasados e ridicularizados por Fatty Arbuckle ou Buster Keaton. Mas, no drama ideal dos nossos dias, o "pequeno homem", que uma vez detonou centenas de varejeiras azuis com aquela bomba anarquista inocentemente usada para acender um cigarro – o Vagabundo, a vítima com o repentino poder do coração puro –, não tem mais um lugar no centro da narrativa. Antes, "nós" éramos aquele vagabundo, aquele herói caótico quase surrealista que, através do wu-wei, sai-se vitorioso sobre ridículos meganhas de uma Ordem irrelevante e desprezível. Mas, agora, "nós" estamos reduzidos ao status de vítimas sem poder, ou criminosos. Já não representamos o papel principal; já não somos os heróis de nossas próprias histórias, fomos marginalizados e substituídos pelo Outro, o policial.
Dessa forma, o show policial possui apenas três personagens – a vítima, o criminoso e o policial –, mas os dois primeiros não logram ser completamente humanos – apenas o meganha é real. Estranhamente, a sociedade humana de agora (como percebida pelas outras mídias) algumas vezes parece ser constituída pelos mesmos três clichês/arquétipos. Primeiro, as vítimas, as minorias chorosas reclamando por seus "direitos" – e, por deus, quem não pertence a alguma "minoria" hoje? Porra, até mesmo os meganhas reclamaram que seus "direitos" estavam sendo infringidos. Depois, os criminosos: em sua maioria, não brancos (apesar da obrigatória e delirante "integração" mostrada pela mídia), muitos pobres (ou então obscenamente ricos, e portanto ainda mais distantes) e pervertidos (isto é, os espelhos proibidos de "nossos" desejos).
Ouvi dizer que uma em cada quatro casas nos Estados Unidos é assaltada todo ano e que todo ano cerca de meio milhão de pessoas são presas só por fumar maconha. Diante de tais estatísticas (mesmo pressupondo que elas não passam de "mentiras deslavadas"), perguntamos a nós mesmo quem NÃO é vítima ou criminoso em nosso estado-de-consciência-policial. Os detetives policias devem fazer a mediação por todos nós, por mais que a interface seja obscura – eles são apenas sacerdotes-guerreiros, embora profanos.
O America's Most Wanted – o programa de TV mais bem-sucedido dos anos 1980 – possibilitou para todos nós o papel de tira amador, até então uma mera fantasia da mídia produzida pelos sentimentos de ressentimento e vingança da classe média. Naturalmente, ninguém é mais odiado pelo policial da vida real do que aqueles que resolvem cuidar da própria comunidade – veja o que acontece à s iniciativas de autoproteção comunitária de vizinhanças pobres e/ou não brancas, como os muçulmanos que tentaram eliminar o tráfico de crack no Brooklyn: os tiras afugentaram os muçulmanos, os traficantes ficaram livres. Vigias de verdade ameaçam o monopólio do cumprimento da lei, lèse majesté, o que é mais abominável do que incesto ou assassinato.
Mas os vigilantes da mídia (mediados) funcionam perfeitamente bem dentro do estado Policial. De fato, seria mais acurado considerá-los informantes não pagos (eles nem mesmo possuem um conjunto de malas que combinam!): emissários telemétricos, pombos eletrônicos, dedos-duros por um dia.
O que é que a "América mais procura"? Essa frase refere-se aos criminosos – ou a crimes, a objetos de desejo em sua presença real, não representados, não mediados, literalmente roubados e apropriados? A América mais procura... dar um "foda-se" para o trabalho, abandonar o casamento, drogar-se (porque somente as drogas fazem você se sentir tão bem quanto as pessoas que aparecem nos comerciais de TV parecem se sentir), fazer sexo com ninfetas núbeis, sodomia, arrombamentos, sim, o inferno! Quais prazeres não mediados NÃO são ilegais? Até mesmo churrascos ao ar livre violam regulamentos sobre emissão de fumaça, hoje em dia. As diversões mais simples acabam por infringir alguma lei; por fim, o prazer torna-se estressante, apenas a TV permanece – e o prazer da vingança, a traição vicária, a emoção doentia do mexerico. A América não pode ter o que ela mais procura, então, em vez disso, ela tem o America's Most Wanted. Uma nação de bobalhões ginasianos lambendo o rabo de uma elite de brutamontes ginasianos.
É claro que o programa ainda sofre de algumas poucas e estranhas distorções da realidade: por exemplo, os segmentos dramatizados são interpretados no estilo cinema-verdade por atores; alguns telespectadores são tão estúpidos que acreditam que estão assistindo a uma filmagem real de crimes reais. Por isso, os atores são continuamente importunados e mesmo presos, junto com (ou no lugar de) os verdadeiros criminosos cujas fotos de identificação são exibidas depois de cada pequeno documentóide. Que curioso, não? Ninguém experimenta nada de verdade – todos estão reduzidos ao status de fantasmas – imagens da mídia se descolam e se deslocam de qualquer contato com a vida real de cada dia – telessexo – sexo virtual. A transcendência final do corpo: cibergnose.
Os policiais da mídia, assim como os seus precursores televangélicos, preparam-nos para o advento, a vinda final ou o Êxtase do estado policial – as "guerras" ao sexo e à s drogas – controle total e totalmente esvaziado de qualquer conteúdo; um mapa sem coordenadas, em nenhum espaço conhecido; muito além do mero Espetáculo; puro êxtase ("permanêcia-fora-do-corpo"); simulacro obsceno; violentos espasmos sem significado elevados ao último princípio de governo. A imagem de um país consumido por imagens de ódio a si mesmo, guerra entre as metades esquizóides de uma personalidade dividida, Super-Ego contra Id Kid, para o campeonato de pesos pesados de uma paisagem abandonada, queimada, poluída, vazia, desolada, irreal.
Assim como o romance policial é sempre um exercício de sadismo, o seriado policial, sempre envolve a contemplação do controle. A imagem do inspetor ou detetive mede a imagem de "nossa" falta de substância autônoma, nossa transparência ante o olhar fixo da autoridade. Nossa perversidade, nossa impotência. Não importa se o consideramos "bons" ou "maus", nossa invocação obsessiva dos espectros policiais revela a extensão da nossa aceitação da perspectiva maniqueísta que eles simbolizam. Milhões de meganhas minúsculos formigam em toda parte, como larvas de fantasmas famintos – eles enchem a tela, como no famoso filme de Keaton, abarrotando o primeiro plano, uma Antártica onde nada se move a não ser multidões de sinistros pingüins azuis.
Propomos uma exegese hermenêutica e esotérica do slogan surrealista "Mort aux vaches!" (1) Não o usamos ao nos referir à morte de policiais individuais ("vacas", na gíria da época) – o que seria uma mera fantasia de vingança esquerdista – sadismo mesquinho à s avessas –, mas à morte da imagem do policial, o Controle interior e suas miríades de reflexos no Lugar Nenhum da mídia – o "quarto cinza", como Burroughs o chama. Autocensura, medo do próprio desejo, "consciência" com a voz interiorizada da autoridade consensual. O assassínio dessas "forças de segurança" de fato libertaria uma enchente de energia libidinosa, mas não a violenta irrupção prevista pela teoria da Lei e da Ordem.
A "auto-superação" nietzschiana provê o princípio da organização para o espírito livre (e também para a sociedade anarquista, ao menos em teoria). Na personalidade do estado policial, a energia libidinosa é represada e desviada para a auto-repressão; qualquer ameaça ao Controle resulta em espasmos de violência. Na personalidade do espírito livre, a energia flui desimpedida e portanto turbulenta, mas gentil – o seu caos encontra o seu estranho atrator, permitindo que novas ordens espontâneas surjam.
Sendo assim, clamamos por um boicote à imagem do Policial e por uma moratória da sua produção na arte. Sendo assim...



MORT AUX VACHES!



Nota



"Mort aux vaches!" significa "Morte às vacas" (N.R.)

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O Status Ontológico da Teoria da Conspiração

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Hakim Bey



A teoria da conspiração é uma ilusão da Direita que também infectou a Esquerda? Teóricos da conspiração esquerdistas algumas vezes fazem um uso acrítico dos textos dos mais direitistas teóricos da conspiração – pesquisando por detalhes do Assassinato de JFK no trabalho do Liberty Lobby (1), adquirindo noções no estilo da John Birch Society (2) sobre os internacionalistas "liberais" CFR/Bilderberg/Rockefeller (3) etc. etc. Como o anti-semitismo pode ser encontrado tanto na Esquerda quanto na Direita, ecos dos Protocolos podem ser escutados de ambas as direções. Mesmo alguns anarquistas são atraídos pelo "Revisionismo Histórico". O anticapitalismo (4) ou populismo econômico na Direita tem seu contraponto na Esquerda com o "Fascismo Vermelho", que irrompeu na superfície da História no pacto Hitler/Stalin, e retornou para nos assombrar na bizarra combinação européia de "Terceira Onda" do extremismo de esquerda com o de direita, um fenômeno que aparece nos EUA com o niilismo libertino e o "satanismo" de grupos anarco-fascistas como a Amok Press (5) e a Radio Werewolf (6) – e a teoria da conspiração desempenha um importante papel em todas estas ideologias.
Se a teoria da conspiração é essencialmente da facção da direita, só pode ser assim por que ela pressupõe uma visão da História como o trabalho de indivíduos mais que de grupos. De acordo com este argumento, uma teoria no estilo de Mae Brussel (7) (ela acreditava que os nazistas tinham se infiltrado na Inteligência e Governo americanos no nível administrativo) poderia parecer esquerdista mas de fato não fornece nenhuma sustentação para uma genuína análise dialética, uma vez que ignora a economia e a luta de classes como forças causais, e em vez disso atribui todos os eventos às maquinações de indivíduos "escondidos".
Mesmo a Esquerda anti-autoritária pode algumas vezes adotar esta opinião rasa sobre a teoria da conspiração, apesar do fato de não estar presa a nenhuma crença dogmática no determinismo econômico. Tais anarquistas concordariam que acreditar em teoria da conspiração é acreditar que as elites podem influenciar a História. O anarquismo postula que as elites são simplesmente arrastadas pelo fluxo da História e que sua crença em seu próprio poder ou instrumentalidade é pura ilusão. Se fosse para se acreditar no contrário, tais anarquistas argumentam, então Marx e Lênin estariam certos, e o vanguardismo conspiratório seria a melhor estratégia para o "movimento do social". (A existência do vanguardismo prova que a Esquerda – ou pelo menos a Esquerda autoritária – não foi simplesmente contaminada acidentalmente pela teoria da conspiração: o vanguardismo É conspiração!) Os Leninistas dizem que o estado é uma conspiração, seja de Direita ou de Esquerda – faça a sua escolha. Os anarquistas argumentam que o estado não "tem" poder em nenhum sentido absoluto ou essencial, mas que ele meramente ursupa o poder que, em essência, "pertence" a cada indivíduo, ou à sociedade em geral. O aspecto aparentemente conspiratório do estado é portanto ilusório – pura masturbação ideológica da parte de políticos, espiões, banqueiros e outras escórias, servindo cegamente aos interesses de sua classe. A teoria da conspiração é, por conseguinte, de interesse apenas como um tipo de sociologia da cultura, um rastreamento das fantasias ilusórias de certos grupos de incluídos e de excluídos – mas a própria teoria da conspiração não tem nenhum status ontológico.
Esta é uma hipótese interessante de muito valor, especialmente como uma ferramenta crítica. No entanto, como uma ideologia, ela sofre da mesma falha que qualquer outra ideologia. Ela constrói uma Idéia absoluta, então explica a realidade em termos de absolutos.
A Direita e a Esquerda autoritárias compartilham uma visão do status ontológico das elites ou das vanguardas na História; a resposta anti-autoritária é transferir o peso ontológico-histórico para indivíduos ou grupos; mas nenhuma das teorias se importou em questionar o status ontológico da História, ou, quanto a isso, da própria ontologia.
No sentido tanto de confirmar quanto de negar a teoria da conspiração categoricamente, deve-se acreditar na categoria da "História". Mas desde o século 19, a "História" se fragmentou em dúzias de partículas conceituais – etno-história, psico-história, história social, história das coisas e idéias e mentalidades, cliometria ( 8 ), micro-história – tais não são ideologias históricas rivais, mas simplesmente uma multiplicidade de histórias. A noção de que a História é o resultado da luta cega entre interesses econômicos, ou de que a História "É" sob qualquer condição algo específico, não pode realmente sobreviver a esta fragmentação numa infinidade de narrativas. A abordagem produtiva a uma tal idéia fixa não é ontológica mas epistemológica; ou seja, agora perguntamos não o que a "História" "é", mas de preferência o que e como podemos saber sobre e a partir das muitíssimas estórias, supressões, aparecimentos e desaparecimentos, palimpsestos e fragmentos dos múltiplos discursos e múltiplas histórias das complexidades inextricavelmente emaranhadas do devir humano.
Então deveríamos pressupor (como um exercício epistemológico, se nada mais) a noção de que embora seres humanos sejam arrastados ou movidos por interesses de classe, forças econômicas, etc., podemos também aceitar a possibilidade de um mecanismo de feedback, por meio do qual as ideologias e ações tanto de indivíduos quanto de grupos possam modificar as reais "forças" que as produzem.
De fato, me parece que, como anarquistas de um tipo ou de outro, devemos adotar uma tal visão das coisas, ou então aceitar que nossa agitação, educação, propaganda, formas de organização, levantes, etc., são essencialmente fúteis, e que só a "evolução" pode ou irá ocasionar qualquer mudança significativa na estrutura da sociedade e da vida. Isto pode ou não ser verdade a respeito da longa duração do devir humano, mas é evidentemente falso no nível da experiência individual da vida cotidiana. Aqui, uma espécie de existencialismo tosco prevalece, de tal forma que devemos agir como se nossas ações pudessem ser efetivas, ou então sofrer em nós mesmos uma escassez de devir. Sem a vontade da auto-expressão em ação, somos reduzidos a nada. Isto é inaceitável. Portanto, mesmo que se pudesse provar que toda ação é ilusão (e não acredito que qualquer evidência nesse sentido esteja disponível), ainda nos defrontaríamos com o problema do desejo. Paradoxalmente somos forçados (sob a pena da total negação) a agir como se livremente escolhêssemos agir, e como se a ação pudesse causar mudança.
Com base nisso, parece possível elaborar uma teoria da conspiração não-autoritária que nem negue isso completamente, nem o eleve ao status de uma ideologia. Em seu sentido literal de "respirar junto", a conspiração pode até ser pensada como um princípio natural de organização anarquista. Face a face, não mediados por qualquer controle, juntos construímos nossa realidade social para nós mesmos. Se devemos portanto fazê-lo clandestinamente, no sentido de evitar os mecanismos de mediação e controle, então perpetramos um tipo de conspiração. Mas tem mais: podemos também ver que outros grupos podem se organizar clandestinamente não para evitar o controle mas para tentar impô-lo. É inútil fingir que tais tentativas são sempre fúteis, porque mesmo que eles fracassem em influenciar a "História" (ou o que quer que isso seja), eles podem certamente ter impacto e se intersectar com nossas vidas cotidianas.
Para tomar um exemplo, qualquer um que negue a realidade da conspiração deve certamente encarar uma difícil tarefa quando tentar justificar as atividades de certos elementos dentro da Inteligência e do Partido Republicano nos EUA durante as últimas poucas décadas. Não importa o Assassinato de Kennedy, esta perda de tempo espetacular; esqueça os remanescentes da Organização Gehlen (9) que estavam à espreita em Dallas; porém, como se pode sequer começar a discutir sobre os arapongas de Nixon, o Irã-Contra, a "crise" das poupanças e empréstimos (S&L) (10), as guerras-show contra a Líbia, Granada, Panamá e Iraque, sem alguma recorrência ao conceito de "conspiração"? E mesmo que acreditemos que os conspiradores estavam agindo como agentes de forças ocultas, etc., etc., podemos negar que suas ações tenham realmente produzido ramificações no nível de nossas próprias vidas cotidianas? Os Republicanos lançaram uma aberta "Guerra às Drogas", por exemplo, enquanto secretamente usaram dinheiro da cocaína para financiar insurreições de direita na América Latina. Alguém que você conhecia morreu na Nicarágua? Alguém que você conhecia foi apanhado na hipócrita "guerra" à maconha? Alguém que você conhecia caiu na desgraça do vício em crack? (Não vamos nem mencionar os negócios da CIA com heroína no sudeste da Ásia ou no Afeganistão).
Como aponta Carl Oglesby, a teoria da conspiração mais sofisticada não pressupõe nenhuma trama singular, todo-poderosa, suprema, a cargo da "História".
Isso com certeza seria uma forma de paranóia estúpida, seja da Esquerda ou da Direita. Conspirações ascendem e caem, brotam e decaem, migram de um grupo para outro, competem entre si, fazem conluio, se colidem, implodem, explodem, falham, têm sucesso, suprimem, forjam, esquecem, desaparecem. Conspirações são sintomas das grandes "forças ocultas" (e portanto úteis como metáforas, se nada mais), mas elas também realimentam essas forças e algumas vezes até afetam ou infectam ou têm efeito sobre elas. Conspirações, de fato, não são A forma com que a história é feita, mas são antes partes de um vasto conjunto de miríades de formas nas quais nossas múltiplas estórias são construídas. A Teoria da Conspiração não pode explicar tudo mas pode explicar algo. Se ela não tem status ontológico, ainda assim ela realmente tem seus usos epistemológicos.
Aqui vai uma hipótese:
A história (com "h" minúsculo) é um tipo de caos. Dentro da história estão embutidos outros caos, se se pode usar um tal termo. O capitalismo "democrático" tardio é mais um destes caos, no qual o poder e o controle se tornaram extraordinariamente sutis, quase alquímicos, difíceis de localizar, talvez impossíveis de definir. Os escritos de Debord, Foucault, e Baudrillard, levantaram a possibilidade de que o "poder em si" está vazio, "desaparecido", e foi substituído pela mera violência do espetáculo. Mas se a história é um caos, o espetáculo só pode ser visto como um "atrator estranho" (11), mais que como algum tipo de força causadora. A idéia de "força" pertence à física clássica e tem pouca função a desempenhar na teoria do caos. E se o capitalismo é um caos e o espetáculo um atrator estranho, então a metáfora pode ser ampliada – podemos dizer que as conspirações "Republicanas" são como os reais padrões gerados pelo atrator estranho. As conspirações não são causais – mas, então, nada é realmente "causal" no velho sentido clássico do termo.
Uma maneira útil pela qual podemos, por assim dizer, investigar no caos que é a história, é olhar através das lentes fornecidas pelas conspirações. Podemos ou não acreditar que as conspirações são meras simulações do poder, meros sintomas do espetáculo – mas não podemos rejeitá-las como desprovidas de qualquer significação.
Mais que falar da teoria da conspiração, poderíamos em vez disso tentar elaborar uma poética da conspiração. Uma conspiração seria tratada como um constructo estético, ou constructo de linguagem, e poderia ser analisada como um texto. Robert Anton Wilson fez isso com sua longa e divertida fantasia "Illuminatti". Podemos também usar a teoria da conspiração como uma arma de agit-prop. Conspirações do "poder" fazem uso da pura desinformação; o mínimo que podemos fazer em retaliação é rastreá-la até sua origem. Sem dúvida deveríamos evitar a mística da teoria da conspiração, a ilusão de que a conspiração é todo-poderosa. Conspirações podem ser dinamitadas. Elas podem até mesmo ser impedidas. Mas temo que elas não possam simplesmente ser ignoradas. A recusa em admitir qualquer validez à teoria da conspiração é ela mesma uma forma de ilusão espetacular – crença cega no mundo cor-de-rosa liberal, racional, no qual todos temos "direitos", no qual "o sistema funciona", no qual "valores democráticos prevalecerão a longo prazo" por que a natureza assim o determinou.
A História é uma grande bagunça. Talvez conspirações não funcionem. Mas temos de agir como se elas realmente funcionassem. Na realidade, o movimento não-autoritário não somente necessita de sua própria teoria da conspiração, ele necessita de suas próprias conspirações. "Funcionem" elas ou não. Ou respiramos juntos ou nos sufocamos todos por iniciativa própria. "Eles" estão conspirando, nunca duvide disso, esses palhaços sinistros. Não apenas deveríamos nos armar com a teoria da conspiração, deveríamos ter nossas próprias conspirações – nossas TAZ – nosso comando de mercenários da guerrilha ontológica – nossos Terroristas Poéticos – nossas maquinações do caos – nossas sociedades secretas. Proudhon assim o disse. Bakunin assim o disse. Malatesta assim o disse. É a tradição anarquista.
Notas
Controversa organização política direitista de Washington, DC, conhecida como anti-comunista e anti-semita, e que através de seu jornal Spotlight lançou uma campanha contra o agente da CIA E. Howard Hunt, acusando-o de conspirador no assassinato de J. F. Kennedy. (Nota do Tradutor)
Organização de ultradireita criada em 1958 em Indianápolis em homenagem a um agente da CIA e também missionário protestante. (N. do T.)
Conta a lenda que o CFR (Council on Foreign Relations), o Conselho de Relações Exteriores, é o braço americano de uma sociedade ultra-secreta originalmente organizada na Inglaterra, com os planos de instruir e governar todas as fases da política externa americana, e o objetivo final de dissolver as fronteiras mundiais e estabelecer um governo mundial único. Do CFR teriam participado quase todos os diretores da CIA e todos os secretários da Defesa dos EUA. Os Bilderberg seriam uma poderosíssima e semi-secreta sociedade da elite internacional que se reúne anualmente para definir os programas econômicos e políticos mundiais, com representantes somente do mundo anglo-saxão e da Europa ocidental. David Rockefeller, por sua vez, teria sido patrono do CFR, membro dos Bilderberg e criador da denominada Comissão Trilateral, outra dessas sociedades secretas da elite mundial que incluiria aqui membros do Japão. Teorias conspiratórias "clássicas" ligam essas três organizações ao grupo dos Illuminati, numa trama de dominação mundial. (N. do T.)
O anticapitalismo de direita se traduz, entre outras coisas, pela nostalgia aristocrática de um passado pré-industrial por certos grupos ultradireitistas, como, por exemplo, a TFP no Brasil, ou certos grupos monarquistas. (N. Do T.)
Editora underground de Los Angeles, célebre nos meios contraculturais por publicar os Amok Dispatches, verdadeiras fontes bibliográficas de todo tipo de material subterrâneo, conspiratório, transgressor, banido. (N. do T.)
Banda gótico-eletrônica de tendência satanista formada por Nickolas Schreck e Zeena LaVey, filha de Anton LaVey, fundador da Igreja de Satã.(N. do T.)
Mae Magnin Russel é tida como a "rainha das teorias da conspiração". Ela acreditava, por exemplo, que os assassinatos de Kennedy e de Martin Luther King, os assassinatos perpertrados por Charles Manson e seu grupo, e o sequestro de Patty Hearst tinham todos sido planejados pela extrema direita juntamente com a CIA, o FBI e a Máfia numa massiva conspiração feita para desacreditar a esquerda e estabelecer um estado fascista. (N. do T.)
Cliometrics ou "história social-científica quantitativa" designa uma técnica de análise histórica fundada na quantificação de dados empíricos. Seus defensores mais radicais consideram-na o método científico por excelência da análise histórica.
Organização de inteligência baseada na Alemanha, a Gehlen Org seria composta de antigos agentes da SS e da Gestapo – incluindo, entre outros, Klaus Barbie -, tendo sido fundada, na Alemanha do pós-guerra, com a ajuda do advogado dos Rockfeller, Allen Dulles, que teria contratado o espião alemão Reinhart Gehlen para reviver a agência de espionagem SS e se tornaria depois a agência espiã BND da Alemanha Ocidental. Na verdade, a CIA teria sido formada a partir da Gehlen. (N. do T.)
S & L (Savings and Loans) – No final da década de 80 e início da de 90, as "poupanças e empréstimos" norte-americanos faliram. Em 1984, a administração e o Congresso dos EUA acreditavam que a crise das poupanças e depósitos era em torno de 20 a 30 milhões de dólares. Operadores do setor então inundaram Washington com lobistas, contribuições para campanhas, e viagens gratuitas de avião para recantos paradisíacos, entre outros agrados. Como resultado, o problema foi varrido para debaixo do tapete. Ele só voltou a aparecer nas eleições presidenciais de 1988, quando se descobriu uma crise que alcançava entre 400 e 500 bilhões de dólares. (N. do T.)
Na teoria do caos, atratores estranhos são sistemas dinâmicos atraentes e magnéticos que quando entram em estado de caos passam a ser designados como tais. Em 1970, físicos passaram a estudar os sistemas dinâmicos do imprevisível, denominando-os de atratores estranhos, expressão usada por David Ruelle e Floris Takens. Pelo fato dos atratores não serem nem curvas e nem superfícies lisas, mas objetos de dimensões não inteiras, Benoît Mandelbrot denominou-os de fractais. (N. do T.)
Traduzido por Ricardo Rosas

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Radiohead e seu arco-íris de genialidades

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12:50

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Os Radiohead, há de se falar, são um dos grandes artistas da música moderna, do imaculado Ok Computer passando pelo Irretocável Kid A (primeiro disco da historia da música a vazar todo na grande rede) o jazz esquizofrênico com camadas eletrônicas e existencialidade a flor da pele de Amnesiac ao politizadamente atemporal Hail To The Thief que estão entre sua obras de arte, a banda vem transformando o efemero mundo da música Pop num universo de possibilidades na arte com debates profundos sobre o homem moderno e a engrenagem ideologica do capital. considerados gênios e revolucionários por sua linguagem conceitual entrelaçado com suas melodias carregadas de angustia, Jazz space, Eletrônica experimental minimalista e ambientes neo-progressivos acoplados em psicodelias de vangurda, o grupo chocou o mundo em 2007 com o seu In Rainbows (7º trabalho de estudio), disco que questiona o valor da música dos tempos febris do capitalismo ideologicamente selvagem e abre espaço para um nova relação entre artista e público e dessa obra prima veio House Of Cards, uma das pérolas desse disco que fez a industria da música ruir. A banda britânica gravou o videoclip do single “House of Cards” sem utilizar câmaras ou luzes, recorrendo apenas a lasers e dados. As imagens a três dimensões de Thom Yorke e dos actores foram capturadas com recurso a 64 lasers e a luz estruturada.
No vídeo, os lasers rodam e filmam a 360 graus, 900 vezes por minuto, para produzir as cenas de exteriores. Os Radiohead voltam a criar uma grande interactividade com os fãs, pois os dados resultantes dessas imagens podem ser descarregados e utilizados livremente pelos cibernautas. Isto depois de a banda ter lançado partes do single “Nude” para os fãs remisturarem livremente a música, que faz parte do alinhamento do último álbum, “In Rainbows”.
O vocalista Thom Yorke explicou porque a banda escolheu não usar câmaras na gravação do videoclip de “House of Cards”. “Sempre gostei da ideia de usar tecnologia de uma forma que não é suposto, da luta para levar a tua mente a fazer algo com isso. Gostei da ideia de fazer um vídeo de seres humanos, da vida real e do tempo sem usar câmaras; existem apenas pontos matemáticos - e acabou por se tornar tão estranhamente emocional”, afirmou o líder dos Radiohead.

esse é o "tão estranhamente emocional mundo dos Radiohead"

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PRIMEIRO MANIFESTO DADÁ

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11:38

Hugo Ball



Dadá é uma nova tendência da arte. Percebe-se que o é porque, sendo até agora desconhecido, amanhã toda a Zurique vai falar dele. Dadá vem do dicionário. É bestialmente simples. Em francês quer dizer "cavalo de pau" . Em alemão: "Não me chateies, faz favor, adeus, até à próxima!" Em romeno: "Certamente, claro, tem toda a razão, assim é. Sim, senhor, realmente. Já tratamos disso." E assim por diante.Uma palavra internacional. Apenas uma palavra e uma palavra como movimento. É simplesmente bestial. Ao fazer dela uma tendência da arte, é claro que vamos arranjar complicações. Psicologia Dadá, literatura Dadá, burguesia Dadá e vós, excelentíssimo poeta, que sempre poetastes com palavras, mas nunca a palavra propriamente dita. Guerra mundial Dadá que nunca mais acaba, revolução Dadá que nunca mais começa. Dadá, vós, amigos e Também poetas, queridíssimos Evangelistas. Dadá Tzara, Dadá Huelsenbeck, Dadá m'Dadá, Dadá mhm'Dadá, Dadá Hue, Dadá Tza.Como conquistar a eterna bemaventurança? Dizendo Dadá. Como ser célebre? Dizendo Dadá. Com nobre gesto e maneiras finas. Até à loucura, até perder a consciência. Como desfazer-nos de tudo o que é enguia e dia-a-dia, de tudo o que é simpático e linfático, de tudo o que é moralizado, animalizado, enfeitado? Dizendo Dadá. Dadá é a alma-do-mundo, Dadá é o Coiso, Dadá é o melhor sabão-de-leite-de-lírio do mundo. Dadá Senhor Rubiner, Dadá Senhor Korrodi, Dadá Senhor Anastasius Lilienstein.Quer dizer, em alemão: a hospitalidade da Suíça é incomparável, e em estética tudo depende da norma.Leio versos que não pretendem menos que isto: dispensar a linguagem. Dadá Johann Fuchsgang Goethe. Dadá Stendhal. Dadá Buda, Dalai Lama, Dadá m'Dadá, Dadá m'Dadá, Dadá mhm'Dadá. Tudo depende da ligação e de esta ser um pouco interrompida. Não quero nenhuma palavra que tenha sido descoberta por outrem. Todas as palavras foram descobertas pelos outros. Quero a minha própria asneira, e vogais e consoantes também que lhe correspondam. Se uma vibração mede sete centímetros, quero palavras que meçam precisamente sete centímetros. As palavras do senhor Silva só medem dois centímetros e meio.Assim podemos ver perfeitamente como surge a linguagem articulada. Pura e simplesmente deixo cair os sons. Surgem palavras, ombros de palavras; pernas, braços, mãos de palavras. Au, oi, u. Não devemos deixar surgir muitas palavras. Um verso é a oportunidade de dispensarmos palavras e linguagem. Essa maldita linguagem à qual se cola a porcaria como à mão do traficante que as moedas gastaram. A palavra, quero-a quando acaba e quando começa.Cada coisa tem a sua palavra; pois a palavra própria transformou-se em coisa. Porque é que a árvore não há-de chamar-se plupluch e pluplubach depois da chuva? E porque é que raio há-de chamar-se seja o que for? Havemos de pendurar a boca nisso? A palavra, a palavra, a dor precisamente aí, a palavra, meus senhores, é uma questão pública de suprema importância.



Zurique, 14 de Julho de 1916

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Onde estivestes de noite

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11:19




A noite era uma possibilidade excepcional. Em plena noite fechada de um verão escaldante um galo soltou seu grito fora de hora e uma só vez para alertar o início da subida pela montanha. A multidão embaixo aguardava em silêncio.
Ele-ela já estava presente no alto da montanha, e ela estava personalizada no ele e o ele estava personalizado no ela. A mistura andrógina criava um ser tão terrivelmente belo, tão horrorosamente estupefaciente que os participantes não poderiam olhá-lo de uma só vez: assim como uma pessoa vai pouco a pouco se habituando ao escuro e aos poucos enxergando. Aos poucos enxergavam o Ela-ele e quando o Ele-ela lhes aparecia com uma claridade que emanava dela-dele, eles paralisados pelo que é Belo diriam: "Ah, Ah". Era uma exclamação que era permitida no silêncio da noite. Olhavam a assustadora beleza e seu perigo. Mas eles haviam vindo exatamente para sofrer o perigo.
Os pântanos se exalavam. Uma estrela de enorme densidade guiava-os. Eles eram o avesso do Bem. Subiam a montanha misturando homens, mulheres, gnomos e anões - como deuses extintos. O sino de ouro dobrava pelos suicidas. Fora da estrela graúda, nenhuma estrela. E não havia mar. O que havia no alto da montanha era escuridão. Soprava um vento noroeste. Ele-ela era um farol? A adoração dos malditos ia se processar.
Os homens coleavam no chão como grossos e moles vermes: subiam. Arriscavam tudo, já que fatalmente um dia iam morrer, talvez dentro de dois meses, talvez sete anos - fora isto que Ele-ela pensava dentro deles.
Olha o gato. Olha o que o gato viu. Olha o que o gato pensou. Olha o que era. Enfim, enfim, não havia símbolo, a "coisa" era! a coisa orgíaca. Os que subiam estavam à beira da verdade. Nabucodonosor. Eles pareciam 20 nabucodonosores. E na noite se desquitavam. Eles estão nos esperando. Era uma ausência - a viagem fora do tempo.
Um cão dava gargalhadas no escuro. "Tenho medo", disse a criança. "Medo de quê?", perguntava a mãe. "De meu cão". "Mas você não tem cão". "Tenho sim." Mas depois a criancinha também gargalhou chorando, misturando lágrimas de riso e de espanto.
Afinal chegaram, os malditos. E olharam aquela sempiterna Viúva, a grande Solitária que fascinava todos, e os homens e mulheres não podia resistir e queriam aproximar-se dela para amá-la morrendo mas ela com um gesto mantinha todos à distância. Eles queriam amá-la de um amor estranho que vibra em morte. Não se incomodavam de amá-la morrendo. O manto de Ela-ele era de sofrida cor roxa. Mas as mercenárias do sexo em festim procuravam imitá-la em vão.
Que horas seria? ninguém podia viver no tempo, o tempo era indireto e por sua própria natureza sempre inalcançável. Eles já estavam com as articulações inchadas, os estragos roncanvam nos estômagos cheios de terra, os lábios túmidos e no entanto rachados - eles subiam a encosta. As trevas eram de um som baixo e escuro como a nota mais escura de um violoncelo. Chegaram. O Mal-Aventurado, o Ele-ela, diante da adoração de reis e vassalos, refulgia como uma iluminada águia gigantesca. O silêncio pululava de respirações ofegantes. A visão era de bocas entreabertas pela sensualidade que quase os paralisava de tão grossa. Eles se sentiam salvos do Grande Tédio.
O morro era de sucata. Quando a Ela-ele parava um instante, homens e mulheres, entregues a eles próprios por um instante, diziam-se assustados: eu não sei pensar. Mas o Ele-ela pensava dentro deles.
Um arauto mudo de clarineta anunciava a notícia. Que notícia? a da bestialidade? Talvez no entanto fosse o seguinte: a partir do arauto cada um deles começou a "se sentir", a sentir a si próprio. E não havia repressão: livres!
Aí eles começaram a balbuciar mas para dentro porque a Ela-ele era cáustica quanto a não disturbarem uns aos outros na sua lenta metamorfose. "Sou Jesus! sou judeu!", gritava em silêncio o judeu pobre. Os anais da astronomia nunca registraram nada como este espetacular cometa, recentemente descoberto - sua cauda vaporosa se arrastará por milhões de quilômetros no espaço. Sem falar no tempo.
Um anão corcunda dava pulinhos como um sapo, de uma encruzilhada a outra - o lugar era de encruzilhadas. De repente as estrelas apareceram e eram brilhantes e diamantes no céu escuro. E o corcunda-anão dava pulos, os mais altos que conseguia para alcançar os brilhantes que sua cobiça despertava. Cristais! Cristais! gritou ele em pensamentos que eram saltitantes como os pulos.
A latência pulsava leve, ritmada, ininterrupta. Todos eram tudo em latência. "Não há crime que não tenhamos cometido em pensamento": Goethe. Uma nova e não autêntica história brasileira era escrita no estrangeiro. Além disso, os pesquisadores nacionais se queixavam de falta de recursos para o trabalho.
A montanha era de origem vulcânica. E de repente, o mar: a revolta rebentação do Atlântico lhes enchia os ouvidos. E o cheiro salgado do mar fecundava-os e triplificava-os em monstrinhos.
O corpo humano pode voar? A levitação. Santa Tereza D´Ávila: "Parecia que uma grande força me erguia no ar. Isso me provocava um grande medo." O anão levitava por segundos mas gostava e não tinha medo.
- Como é que você se chama, disse mudo o rapaz, para eu chamar você a vida inteira. Eu gritarei seu nome.
- Eu não tenho nome lá embaixo. Aqui tenho o nome de Xantipa.
- Ah, quero gritar Xantipa! Xantipa! Olhe, eu estou gritando para dentro. E qual é o seu nome durante o dia?
- Acho que é... é... parece que é Maria Luísa.
E estremeceu como um cavalo se eriça. Caiu exangue no chão. Ninguém assassinava ninguém porque já eram assassinados. Ninguém queria morrer e não morria mesmo.
Enquanto isso - delicada, delicada - o Ele-ela usava um timbre. A cor do timbre. Porque eu quero viver em abundância e trairia o meu melhor amigo em troca de mais vida do que se pode ter. Essa procura, essa ambição. Eu desprezava os preceitos dos sábios que aconselham a moderação e a pobreza de alma - a simplificação da alma, segundo minha própria experiência, era a santa inocência. Mas eu lutava contra a tentação.
Sim. Sim: cair até a abjeção. Eis a ambição deles. O som era o arauto do silêncio. Porque nenhum poderia se deixar possuir por Aquele-aquela-sem-nome.
Eles queriam fruir o proibido. Queriam elogiar a vida e não queriam a dor que é necessária para se viver, para se sentir e para amar. Eles queriam sentir a imortalidade terrífica. Pois o proibido é sempre o melhor. Eles ao mesmo tempo não se incomodavam de talvez cair no enorme buraco da morte. E a vida só lhes era preciosa quando gritavam e gemiam. Sentir a força do ódio era o que eles melhor queriam. Eu me chamo povo, pensavam.
- Que é que eu faço para ser herói? Porque nos templos só entram heróis.
E o silêncio de repente o seu grito uivado que não se sabia se de amor ou dor mortal, o herói cheirando mirra, incenso e benjoim.
Ele-ela cobria a sua nudez com um manto lindo mas como uma mortalha, mortalha púrpura, agora vermelho-catedral. Em noites sem lua Ela-ele virava coruja. Comerás teu irmão, disse ela no pensamento dos outros, e na hora selvagem haverá um eclipse do sol.
Para não se traírem eles ignoravam que hoje era ontem e haveria amanhã. Soprava no ar uma transparência como igual homem nenhum havia respirado antes. Mas eles espargiam pimenta em pó nos próprios órgãos genitais e se contorciam de ardor. E de repente o ódio. Eles não matavam uns aos outros mas sentiam tão implacável ódio que era como um dardo lançado num corpo. E se rejubilavam danados pelo que sentiam. O ódio era um vómito que os livrava do vómito maior, o vómito da alma.
Ele-ela com as sete notas musicais conseguia o uivo. Assim como com as mesmas sete notas podia criar música sacra. Ouviram eles dentro deles o dó-ré-mi-fá-sol-lá-si, o "si" macio e agudíssimo. Eles eram independentes e soberanos, apesar de guiados pelo Ele-ela. Rugindo a morte nos porões escuros. Fogo, grito, cor, vício, cruz. Estou vigilante no mundo? de noite vivo e de dia durmo, esquivo. Eu, com faro de cão, orgiático.
Quanto a eles, cumpriam rituais que os fiéis executam sem entender-lhes os mistérios. O cerimonial. Com um gesto leve Ela-ele tocou numa criança fulminando-a e todos disseram: amém. A mãe deu um uivo de lobo: ela toda morta, ela, também.
Mas era para ter supersensações que para ali se subia. E era sensação tão secreta e tão profunda que o júbilo faiscava no ar. Eles queriam a força superior que reina no mundo através dos séculos. Tinham medo? Tinham. Nada substituía a riqueza do silencioso pavor. Ter medo era a amaldiçoada glória da escuridão, silente como uma lua.
Aos poucos se habituavam ao escuro e a Lua, antes escondida, toda redonda e pálida, tinha lhes abrandado a subida. Eram trevas quando um por um subira "a montanha", como chamavam o planalto um pouco mais elevado. Tinham se apoiado no chão para não cair, pisando em árvores secas e ásperas, pisando em cactus espinhoso. Era um medo irresistivelmente atraente, eles prefeririam morrer que abandoná-lo. O Ele-ela era-lhes como a Amante. Mas se algum ousasse por ambição tocá-la era congelado na posição em que estivesse.
Ele-ela contou-lhes dentro de seus cérebros - e todos ouviram-na dentro de si - o que acontecia a uma pessoa quando esta não atendia ao chamado da noite: acontecia que na cegueira da luz do dia a pessoa vivia na carne aberta e nos olhos ofuscados pelo pecado da luz - a pessoa vivia sem anestesia o horror de se estar vivo. Não há nada a temer, quando não se tem medo. Era a véspera do apocalipse. Quem era o rei da Terra? Se você abusa do poder que você conquistou, os mestres o castigarão. Cheios do terror de uma feroz alegria eles se abaixavam e às gargalhadas comiam ervas daninhas do chão e as gargalhadas reboavam de escuridões a escuridões com seus ecos. Um cheiro sufocante de rosas enchia de peso o ar, rosas malditas na sua força de natureza doida, a mesma natureza que inventava as cobras e os ratos e pérolas e crianças - a natureza doida que ora era noite em trevas, ora o dia de luz. Esta carne que se move apenas porque tem espírito.
Das bocas escorria saliva grossa, amarga e untuosa, e eles se urinavam sem sentir. As mulheres que haviam parido recentemente apertavam com violência os próprios seios e dos bicos um grosso leite preto esguichava. Uma mulher cuspiu com força na cara de um homem e o cuspe áspero escorreu-lhe da face até a boca - avidamente ele lambeu os lábios.
Estavam todos soltos. A alegria também era frenética. Eles eram o harém do Ele-ela. Tinham caído finalmente no impossível. O misticismo era a mais alta forma de superstição. O milionário gritava: quero o poder! poder! quero que até os objetos obedeçam as minhas ordens! E direi: move-te, objeto! e ele por si só se moverá.
A mulher velha e desgrenhada disse para o milionário: quer ver como você não é milionário? Pois vou te dizer: você não é dono do próximo segundo de vida, você pode morrer sem saber. A morte te humilhará. O milionário: Eu quero a verdade, a verdade pura!
A jornalista fazendo uma reportagem magnifica da vida crua. Vou ganhar fama internacional como a autora de "O Exorcista" que não li para não me influenciar. Estou vendo direto a vida crua, eu a estou vivendo.
Eu sou solitário, se disse o masturbador.
Estou em espera, espera, nada jamais me aconteceu, já desisti de esperar. Eles bebiam o amargo licor das ervas ásperas.
- Eu sou um profeta! eu vejo o além! se gritava um rapaz.
Padre Joaquim Jesus Jacinto - tudo com jota porque a mãe dele gostava da letra jota.Era dia trinta e um de dezembro de 1973. O horário astronômico seria aferido pelos relógios atômicos, cujo atraso é de apenas um segundo a cada três mil e trezentos anos. A outra deu para espirrar, um espirro atrás do outro, sem parar. Mas ela gostava. A outra se chamava J.B.
- Minha vida é um verdadeiro romance! gritava a escritora falida.
O êxtase era reservado para o Ele-ela. Que de repente sofreu a exaltação do corpo, longamente. Ela-ele disse: parem! Porque ela se endemoniava por sentir o gozo do Mal. Eles todos através dela gozavam: era a celebração da Grande Lei. Os eunucos faziam uma coisa que era proibido olhar. Os outros, através de Ela-ele, recebiam frementes as ondas do orgasmo - mas só ondas porque não tinham força de, sem se destruírem, receber tudo. As mulheres pintavam a boca de roxo como se fosse fruta esmagada pelso afiados dentes.O Ela-ele contou-lhes o que acontecia quando não se iniciava na profetização da noite. Estado de choque. Por exemplo: a moça era ruiva e como se não bastasse era vermelha por dentro e além disso daltônica. Tanto que no seu pequeno apartamento havia uma cruz verde sobre fundo vermelho: ela confundia as duas cores. Como é que começara o seu terror? Ouvindo um disco ou o silêncio reinante ou passos no andar de cima - e ei-la aterrorizada. Com medo do espelho que a refletia. Defronte tinha um armário e a impressão era que as roupas se mexiam dentro dele. Aos poucos ia restringindo o apartamento. Tinha medo até de sair da cama. A impressão de que iam agarrar o seu pé embaixo da cama. Era magríssima. O seu nome era Psiu, nome vermelho. Tinha medo de acender a luz no escuro e encontrar a fria lagartixa que morava com ela. Sentia com aflição os dedinhos gelados e brancos da lagartixa. Procurava avidamente no jornal as páginas policiais, notícias do que estava acontecendo. Sempre aconteciam coisas apavorantes para as pessoas, como ela, que viviam só e eram assaltadas de noite. Tinha na parede um quadro que era o de um homem que a fixava bem nos olhos, vigiando-a. Essa figura ela imaginava que a seguia por todos os cantos da casa. Tinha medo pânico de ratos. Preferia morrer a entrar em contato com eles. No entanto ouvia os guinchos deles. Chegava a sentir-lhes as mordidas nos pés. Acordava sempre sobressaltada, suando frio. Ela era um bicho acuado. Normalmente dialogava consigo mesma. Dava prós e contras e sempre quem perdia era ela. Sua vida era uma constante substração de si mesma. Tudo isso porque não atendeu ao chamado da sirene.
O Ele-ela só deixava mostrar o rosto de andrógina. E dele se irradiava tal cego esplendor de doido que os outros fruíam a própria loucura. Ela era o vaticínio e a dissolução e já nascera tatuada. O ar todo cheirava agora a fatal jasmim e era tão forte que alguns vomitavam as próprias entranhas. A Lua estava plena no céu. Quinze mil adolescentes esperavam que espécie de homem e mulher eles iriam ser.
Então Ela-ele disse:
- Comerei o teu irmão e haverá um eclipse total e o fim do mundo.
De vez em quando ouvia-se um longo relincho e não se via cavalo nenhum. Sabia-se apenas que com sete notas musicais fazem-se todas as músicas que existem e que existiam e que existirão. Da ela-ele emanava-se forte cheiro de jasmim esmagado porque era noite de Lua cheia. O catimbó ou a feitiçaria. Max Ernst quando criança foi confundido com o Menino Jesus numa procissão. Depois provocava escândalos artísticos. Tinha uma paixão ilimitada pelos homens e uma imensa e poética liberdade. Mas por que estou falando nisso? Não sei. "Não sei" é uma resposta ótima.
O que fazia Thomas Edison, tão inventor e livre, no meio deles que eram comandados por Ele-ela?
Gregotins, pensou o estudante perfeito, era a palavra mais difícil da língua.
Escutai! os anjos anunciadores cantam!
O judeu pobre gritava mudo e ninguém o ouviu, o mundo inteiro não o ouvia. Ele disse assim: tenho sede, suor e lágrimas! e para saciar a minha sede bebo meu suor e minhas próprias lágrimas salgadas. Eu não como porco! sigo a Torah! mas dai-me alívio, Jeová, que se parece demais comigo!
Jubileu de Almeida ouvia o rádio de pilha, sempre. "O mingau mais gostoso é feito com Cremogema". E depois anunciava, de Strauss, uma valsa que por incrível que parecesse chamava-se "O pensador livre". É verdade, existe mesmo, eu ouvi. Jubileu era dono do "Ao Bandolim de Ouro", loja de instrumentos musicais quase falida, e era tarado por valsas de Strauss. Era viúvo, ele, quer dizer, Jubileu. Seu rival era "O Clarim", concorrente na rua Gomes Freire ou Frei Caneca. Jubileu era também afiador de pianos.
Todos ali estavam prestes a se apaixonar. Sexo. Puro sexo. Eles se freavam. A Rumânia era um país perigoso: ciganos.
Faltava petróleo no mundo. E, sem petróleo, faltava comida. Carne, sobretudo. E sem carne eles se tornavam terrivelmente carnívoros.
"Aqui, Senhor, encomendo a minha alma", dissera Cristóvão Colombo ao morrer, vestido com o hábito franciscano. Ele não comia carne. Se santificava, Cristóvão Colombo, o descobridor das ondas, o que descobriu S. Francisco de Assis. Hélas! ele morrera. Onde está agora? onde? pelo amor de Deus, responde!
De repente e bem de leve - fiat lux.
Houve uma debandada assustadiça como de pardais.
Tudo tão rápido que mais parecia terem se esvanecido.
Na mesma hora estavam ora deitados na cama a dormir, ora já despertos. O que existira era silêncio. Eles não sabiam de nada. Os anjos da guarda - que tinham tirado um descanso já que todos estavam na cama sossegados - despertavam frescos, bocejando ainda, mas já protegendo os seus pupilos.
Madrugada: o ovo vinha rodopiando bem lento do horizonte para o espaço. Era de manhã: uma moça loura, casada com rapaz rico, dá à luz um bebê preto. Filho do demônio da noite? Não se sabe. Apuros, vergonha.
Jubileu de Almeida acordou como pão dormido: chocho. Desde pequeno fora murcho assim. Ligou o rádio e ouviu: "Sapataria Morena onde é proibido vender caro". Iria lá, estava precisando de sapatos. Jubileu era albino, negro aço com cílios amarelos quase brancos. Ele estalou um ovo na frigideira. E pensou: se eu pudesse algum dia ouvir "O pensador livre", de Strauss, eu seria recompensado na minha solidão. Só ouvira essa valsa uma única vez, não se lembrava quando.
O poderoso queria no seu breakfast comer caviar dinamarquês às colheradas, estalando com os dentes agudos as bolinhas. Ele era do Rotary Club e da Maçonaria e do Diners Club. Tinha o requinte de não comer caviar russo: era um modo de derrotar a poderosa Rússia.
O judeu pobre acorda e bebe água da bica sofregamente. Era a única água que tinha nos fundos da pensão baratíssima onde morava: uma vez veio uma barata nadando no feijão ralo. As prostitutas que lá moravam nem reclamavam.
O estudante perfeito, que não desconfiava que era um chato, pensou: qual era a palavra mais difícil que existia? Qual era? Uma que significava adornos, enfeites, atavios? Ah, sim, gregotins. Decorou a palavra para escrevê-la na próxima prova.
Quando começou a raiar o dia todos estavam na cama sem parar de bocejar. Quando acordavam, um era sapateiro, um estava preso por estupro, uma era dona-de-casa, dando ordens à cozinheira, que nunca chegava atrasada, outro era banqueiro, outro era secretário, etc. Acordavam, pois, um pouco cansados, satisfeitos pela noite tão profunda de sono. O sábado tinha passado e hoje era domingo. E muitos foram à missa celebrada por padre Jacinto que era o padre da moda: mas nenhum se confessou, já que não tinham nada a confessar.
A escritora falida abriu o seu diário encadernado de couro vermelho e começou a anotar assim: "7 de julho de 1974. Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu! Nesta bela manhã de um sol de domingo, depois de ter dormido muito mal, eu, apesar de tudo, aprecio as belezas maravilhosas da Natureza-mãe. Não vou à praia porque sou gorda demais e esta é uma infelicidade para quem aprecia tanto as ondas verdezitas do Mar! Eu me revolto! Mas não consigo fazer regime: morro de fome. Gosto de viver perigosamente. Tua língua viperina será cortada pela tesoura da complacência".
De manhã: agnus dei. Bezerro de ouro? Urubu.
O judeu pobre: livrai-me do orgulho de ser judeu!
A jornalista de manhã bem cedo telefona para sua amiga:
- Claudia, me desculpe telefonar num domingo a esta hora! Mas acordei com uma inspiração fabulosa: vou escrever um livro sobre Magia Negra! Não, não li o tal do Exorcista, porque me disseram que é má literatura e não quero que pensem que estou indo na onda dele. Você já pensou bem? o ser humano sempre tentou se comunicar com o sobrenatural desde o antigo Egito com o segredo das Pirâmides, passando pela Grécia com seus deuses, passando por Shakespeare no Hamlet. Pois eu também vou entrar nessa. E, por Deus, vou ganhar essa parada!
Havia em muitas casas do Rio o cheiro de café. Era domingo. E o rapaz ainda na cama, cheio de torpor, ainda mal-acordado, se disse: mais um domingo de tédio. Com o que havia sonhado, mesmo? Sei lá, respondeu-se, se sonhei, sonhei com mulher.
Enfim, o ar clareia. E o dia de sempre começa. O dia bruto. A luz era maléfica: instaurava-se o mal-assombrado dia diário. Uma religião se fazia necessária: uma religião que não tivesse medo do amanhã. Eu quero ser invejado. Eu quero o estupro, o roubo, o infanticídio, e o desafio meu é forte. Queria ouro e fama, desprezava até o sexo: amava depressa e não sabia o que era amor. Quero o ouro mau. Profanação. Vou ao meu extremo. Depois da festa - que festa? noturna? - depois da festa, desolação.
Havia o observador que escreveu assim no caderno de notas: "O progresso e todos os fenômenos que o cercam parece participar intimamente dessa lei de aceleração geral, cósmica e centrífuga que arrasta a civilização ao "progresso máximo", a fim de que em seguida venha a queda. Uma queda ininterrupta ou uma queda rapidamente contida? Aí está o problema: não podemos saber se esta sociedade se destruirá completamente ou se conhecerá apenas uma interrupção brusca e depois a retomada de sua marcha". E depois: "O Sol diminuiria seus efeitos sobre a Terra e provocaria o início de um novo período glacial que poderia durar no mínimo dez mil anos". Dez mil anos era muito e assustava. Eis o que acontece quando alguém escolhe, por medo da noite escura, viver a superficial luz do dia. É que o sobrenatural, divino ou demoníaco, é uma tentação desde o Egito, passando pela Idade Média até os romances baratos de mistério.
O açougueiro, que nesse dia só trabalhava das oito às onze horas, abriu o açougue: e parou embriagado de prazer ao cheiro de carnes e carnes cruas, cruas e sangrentas. Era o único que de dia continuava a noite.
Padre Jacinto estava na moda porque ninguém como ele erguia tão limpidamente a taça e bebia com sagrada unção e pureza, salvando a todos, o sangue de Jesus que era o Bem. Com delicadeza as mãos pálidas num gesto de oferenda.
O padeiro como sempre acordou às quatro horas e começou a fazer a massa de pão. De noite amassar ao Diabo?
Um anjo pintado por Fra Angélico, século XV, voejava pelos ares: era a clarineta anunciadora da manhã. Os postes de luz elétrica não tinham ainda sido apagados e lustravam-se empalidecidos. Postes. A velocidade come os postes quando se está correndo de carro.
O masturbador de manhã: meu único amigo fiel é meu cão. Ele não confiava em ninguém, sobretudo em mulher.
A que bocejara a noite toda e dissera: "t'isconjuro, mãe de santo!" começou a coçar e a bocejar. Diabo, disse ela.
O poderoso - que cuidava de orquídeas, catléias, lélias e oncídios - apertou impaciente a campainha para chamar o mordomo que lhe trouxesse o já atrasado breakfast. O mordomo adivinhara-lhe os pensamentos e sabia quando lhe trazer os galgos dinamarqueses para serem rapidamente acariciados.
Aquela que de noite gritava "estou em espera, em espera", de manhã, toda desgrenhada disse para o leite na leiteira que estava no fogo:
- Eu te pego, seu porcaria! Quer ver se tu te mancas e ferves na minha cara, minha vida é esperar. É sabido que se eu desviar um instante o olhar do leite, esse desgraçado vai aproveitar para ferver e entornar. Como a morte que vem quando não se espera.
Ela esperou, esperou e o leite não fervia. Então, desligou o gás.
No céu o mais leve arco-íris: era o anúncio. A manhã como uma ovelha branca. Pomba branca era a profecia. Manjedoura. Segredo. A manhã preestabelecida. Ave-Maria, gratia plena, dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus et benedictum frutus ventri tui Jesus. Sancta Maria Mater Dei ora pro nobis pecatoribus. Nunca et ora nostrae morte Amem.Padre Jacinto ergueu com as duas mãos a taça de cristal que contém o sangue escarlate de Cristo. Eta, vinho bom. E uma flor nasceu. Um flor leve, rósea, com perfume de Deus. Ele-ela há muito sumira do ar. A manhã estava límpida como coisa recém-lavada.
AMÉMOs fiéis distraídos fizeram o sinal da Cruz.AMÉMDEUS
FIM
Epílogo:
Tudo o que escrevi é verdade e existe. Existe uma mente universal que me guiou. Onde estivestes de noite? Ninguém sabe. Não tentes responder - pelo amor de Deus. Não quero saber da resposta. Adeus. A-Deus.
in "Onde estivestes de noite" - 7ª Ed. - Ed. Francisco Alves - Rio de Janeiro - 1994



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ESTADOS ALTERADOS DE CONSCIÊNCIA (SEM DROGAS!)

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11:02

De: J. R. R. Abrahão


Desde as experiências psíquicas com o uso de drogas psicodélicas levadas adiante por personalidades como Aldous Huxley, Timothy Leary, entre outros, ocorreu urna explosão no uso desse tipo de substância por parte de quem busca "expandir os horizontes de sua mente". Na verdade, esse tipo de "estado alterado de consciência" é conhecido desde tempos imemoriais, sendo que inúmeras são as drogas capazes de provocar essas alterações na mente - mas também várias são as técnicas para se obter essa "mudança na mente sem o uso de droga alguma. Todas as civilizações primitivas conheciam e faziam uso regular de substâncias alteradoras psíquicas. Até hoje, povos primitivos de todos os continentes se utilizam liturgicamente de plantas de poder e outras substâncias mágicas de forte efeito sobre a mente. Drogas de uso entre povos nativos da América do Sul, como o Tabaco (Nicotiana tabacum), cuja folha era seca e fumada ritualisticamente - por ser um poderoso estimulante psíquico, e a Coca (Erythroxylum coca), cujas folhas, se verdes, eram mascadas, e caso secas, maceradas e misturadas com Cinzas de folhas de Bananeira (Musa spp., com numerosas variações), tendo essa mistura o nome indígena de Ypadu - usada para aliviar a fadiga, manter os níveis de açúcar do sangue, além de favorecer a permanência da mente em "estado de alerta", sem contar que era usada igualmente para facilitar as longas jornadas em altas altitudes sem comida nem descanso. Ignorando os riscos envolvidos no consumo desenfreado dessas substâncias, a ciência moderna trouxe ao seio da sociedade o Tabaco - na forma de fumo para cachimbos, charutos, cigarrilhas e cigarros - para ser fumado como forma de lazer, e o Cloridrato de Cocaína (conhecido popularmente como Cocaína), inicialmente reconhecida, além de poderoso anestésico, como droga estimulante e anti-depressiva milagrosa. Que ambas tem, ainda hoje, utilidade, é óbvio (o Tabaco tem utilidade na elaboração de inseticidas, e a Cocaína é usada como anestésico em cirurgias de ouvido, nariz e garganta, além de ter uso no tratamento de dores em pacientes acometidos de canceres em estado terminal). Mas óbvio é, também, que essas drogas, consumidas regularmente de maneira recreacional, podem causar graves enfermidades do corpo (o Tabaco, pela ação tóxica do veneno Nicotina, um de seus princípios ativos, causa vaso-constrição no sistema circulatório, provocando infartos do coração e derrames cerebrais, além de doenças do trato respiratório - sem falar de câncer em todas as áreas de contato com a fumaça, como a boca, o nariz, a garganta e os pulmões; a Cocaína, destrói o olfato, causa rinite - se aspirada -, danifica as vias aéreas - se fumada -, tira definitivamente a sensibilidade clitoriana, vaginal e anal durante o ato sexual - se espalhada na mucosa dessas regiões -, pela ação corrosiva sobre as mucosas, provoca infarto do miocárdio - pela sobrecarga imprimida ao sistema cárdio-respiratório -, e pode desencadear doenças mentais latentes, além de provocar um incontável número de suicídios, pois, após estimular, deprime, por vezes de forma insuportável). Entre as drogas psicodélicas mais conhecidas, contam-se: - LSD - Dietilamida do Ácido Lisérgico (alucinógeno semi-sintético); - Hydroxyethylamida do Ácido Lisérgico (principio ativo do Ololiuqui); - ISO-LSD (composto semi-sintético); - Amido do Ácido Lisérgico (princípio ativo do Ololiuqui); - Mescalina (princípio alucinogênico - causador de "Visões" - do Peyote) - Psilocybína (principio alucinogênico do Teonanacatil). Interessante notar, porém, que os modelos moleculares das drogas acima são muito próximos de substâncias de ocorrência espontânea no cérebro (hormônios, ou seja, agentes fisiológicos que tem papel importante na bioquímica das funções mentais). Por exemplo: - O principio ativo no cacto Peyote é o alcalóide Mescalina, muito próximo, em termos de arranjo molecular, do hormônio neurotransmissor Norepinephrina (Noradrenalina), pertencente ao grupo de substâncias que provocam a transmissão de impulsos entre os neurônios (células nervosas); quimicamente, Mescalina e Norepinephrina possuem a mesma estrutura. Ambas as substâncias são derivadas da substância conhecida em química como Phenylethylamina. Outro derivado da Phenylethylamina é o aminoácido essencial Phenylalanina (Fenilalanina), amplamente distribuída pelo organismo humano, além de presença importante em todas as bebidas dietéticas. - Psilocybina e Psilocina, os princípios ativos do cogumelo alucinógeno mexicano Teonanacatl, derivam-se do mesmo composto básico de que se deriva o hormônio cerebral Serotonina: Triptamina. A Triptamina também é o composto básico de um aminoácido essencial - o Triptophano. Mas ninguém precisa, realmente, saber nada dessas confusas e complexas nomenclaturas técnicas para constatar a realidade dos fatos aqui descritos. O fato de importantes substâncias alucinógenas e hormônios cerebrais possuírem a mesma estrutura básica não é uma simples coincidência. Essa surpreendente relação pode explicar a potência psicotrópica desses alucinogênicos. Possuindo a mesma estrutura básica, esses alucinógenos podem agir nos mesmos pontos do sistema nervoso nos quais atuam os hormônios acima, como se fossem chaves similares encaixando-se nas mesmas fechaduras. Como resultado, as funções psicofisiológicas associadas com esses pontos cerebrais são alteradas, suprimidas, estimuladas ou de alguma outra forma modificadas. Vendo-se, por exemplo, a similaridade existente entre o LSD e os hormônios citados, pode-se compreender o fenômeno conhecido como flashback: não é o improvável resíduo do LSD que provoca tal "viagem de volta ao passado", mas simplesmente o próprio cérebro cria esse fenômeno, por meio de uma produção excessiva (quiçá descontrolada) de seus hormônios neurotransmissores - identicamente aos efeitos do LSD no organismo. Fica fácil, então, concluir que utilizando-se de técnicas adequadas, não é necessário o uso de droga alguma para obter-se "estados alterados de consciência". Basta fazer uso de algumas das técnicas iniciáticas, consagradas pelo tempo, como a Respiração Consciente, a Meditação Transcendental, ou técnicas científicas modernas como a Respiração Holotrópica, criada por Stanislav Grof, cientista com larga experiência no emprego psicoterápico do LSD, conforme relatado em suas diversas obras. Além delas, o sexo pode ser uma porta para a "expansão da mente", posto as alterações bioquímicas que ocorrem durante uma relação sexual realmente intensa (não obrigatória, nem forçada), são realmente potentes. No outro extremo do eixo Eros-Thanatos (os deuses do amor e da morte, na mitologia grega), existem os esportes radicais: caça, alpinismo, vôo livre, pára-quedismo, canoagem. Todos eles provocam uma tal descarga de Adrenalina no organismo que os seus praticantes experimentam, sem dúvida, "estados alterados de consciência". E importante ter em mente que não são as drogas em si que são perigosas, mas a relação de cada indivíduo com elas. Como dissemos anteriormente, os povos indígenas faziam - e fazem - uso de substâncias psicotrópicas poderosas, potencialmente perigosas, além de capazes de levar à dependência química. E veja-se que não há, em sua vida tribal, silvícolas viciados em nenhuma substância tóxica, embora usem-nas ocasionalmente. Corriqueiro tornou-se, porém, nos depararmos com índios que, urna vez integrados na sociedade do branco, tornaram-se alcoólatras. Mais um caso de mau relacionamento com uma droga. E é esse o ponto de alto risco, Quando se consome uma droga, por mais poderosa que seja, num contexto ritual ou litúrgico, os riscos minimizam-se; já o consumo recreacional de qualquer droga maximiza os riscos - quase sempre graves. Por isso resolvemos revelar algumas técnicas de produzir-se "estados alterados de consciência' sem ter que recorrer ao consumo de droga alguma. Basicamente, daremos aos leitores as informações para a prática de exercícios poderosos, capazes de levar a mente a alterações semelhantes às obtidas com o consumo de doses psicoativas de drogas potentes como LSD, DMT, Mescalina, Psílocybina, Bufotenina, entre outras. Há, é claro, exercícios mais "leves", capazes de deixar a mente em estados alterados como os obtidos com outras drogas: Exercícios físicos de alto-impacto fazem o corpo produzir Endorfinas, um tipo de Morfina de ocorrência natural e espontânea no organismo humano. Daí se dizer que "esporte vicia". - Pode ser verdade! Práticas de Yoga física e Meditação Transcendental alteram a mente da mesma forma que o consumo de Maconha, Haxixe, Bhang, Charas, Skunk e Óleo-de-THC fazem. Esportes de luta e combate provocam estimulação psíquica extrema, parecida com a obtida com drogas como a Cocaína e o Tabaco. O sexo, liberado e adulto, desinibe como o álcool, e provoca sensações de liberdade e prazer mais fortes que as conseguidas com a Heroína - sem destruir o "usuário"! Mas sexo pode viciar, já se sabe - mais uma prova dos fatos aqui citados Estimulo psíquico pode, também, vir da leitura de livros que despertem o interesse e prendam a atenção do leitor de forma que esse não consiga deixar a leitura até que o fim chegue. Diversas pessoas disseram-me que ao ler meu livro 0 Quarto Segredo(1) experimentaram tal sensação - um impulso irresistível de ler o livro até o final, de um fôlego só, num único dia. Várias delas afirmaram terem ficado tão estimuladas que não conseguiram dormir, precisando conversar com alguém! E não houve a menor intenção, de minha parte, em provocar essa reação! ALGUMAS TÉCNICAS DE EXPANSÃO DA MENTE: Imaginemos que alguém deseje "alterações mentais", de molde a obter "insights" além dos possíveis com a mente "normal". A opção pela "Gnose-Química" não é a única disponível. EXERCÍCIOS: A) Este exercício provoca, na mente, alterações semelhantes às produzidas pelo consumo de derivados potentes da Maconha (Canabinóides como o Skunk, Haxixe, Bhang, Charas, Tintura de THC, etc.). Para realizar este exercício, as técnicas empregadas são simples. Bastará sentar-se numa poltrona bastante confortável, num ambiente pouco iluminado e longe de ruídos ou distrações. Aromas agradáveis, como os emanados da queima de incensos, são favoráveis ao momento. As roupas usadas devem ser leves e soltas, e a pessoa precisa sentir-se confortável, não passando frio nem calor. Uma música ambiente, de preferência instrumental, poderá contribuir positivamente. Primeira prática: A pessoa deverá iniciar uma respiração ritmada da seguinte forma: 1) Inspirar, pelo nariz, profundamente, mas sem esforço, contando, mentalmente, até quatro, enquanto enche os pulmões de ar; 2) Manter os pulmões repletos de ar, sem forçar, enquanto conta, mentalmente, até quatro; 3) Expirar, pela boca, todo o ar dos pulmões, enquanto conta até quatro; 4) Manter os pulmões vazios, enquanto conta até quatro; 5) Repetir todo o procedimento por pelo menos vinte vezes; 6) Nesse momento, a pessoa já deverá estar com seus horizontes mentais bastante alterados e expandidos; 7) Tendo passado algum tempo (cerca de uma hora), a pessoa já deverá estar voltando "ao normal", podendo, então, reassumir sua "mente comum". Este exercício é tão poderoso que só deve ser realizado estando seu praticante sentado, sob risco de a pessoa perder o equilíbrio e cair, caso esteja em pé. Também não deve ser realizado deitado, pois deve-se evitar adormecer no curso de sua execução. B) Este exercício produz, na mente, alterações semelhantes às provocadas pelo uso de Drogas Psicodélicas (ou Alucinógenas) como o LSD, o DMT, a Psilocibina (dos Cogumelos Psilocíbicos), a Psilocina (dos mesmos Cogumelos), a Mescalina (dos Feijões de Mescal e do Cacto Peyote), a Muscarina (dos Cogumelos 'Amanita muscaria" ou "Fly Agaric"), o TMA-2 (da Raiz do Cálamo) e as Anfetaminas Psicodélicas (ICE, CAT, MET, MDA, MDMA - o "Ecstasy"), entre outras. Este exercício chama-se, muito apropriadamente, "deixar cair". E sabem o que cai? Você! Isso mesmo! Primeiramente, você deve colocar um colchão de casal no chão. Deve forrá-lo, lateralmente, com travesseiros ou almofadas. Precisará, também, da ajuda de dois ou três amigos. Como é realizado: 1) Coloque-se em pé e de costas para o colchão; 2) Peça aos seus amigos que postem-se na parte externa do colchão, mas de forma a poderem ampará-lo antes que você atinja o solo - no caso, o colchão; 3) Procure não pensar em nada, nem sentir medo - afinal, mesmo que seus companheiros não consigam ampará-lo, você só atingirá o colchão; 4) Feche os olhos, e mantenha-os assim; 5) Coloque a ponta de sua língua no palato (céu-da-boca), o que conectará os hemisférios frontal e traseiro de seu corpo, além de fazer com que você conecte-se com sua Pituitária, localizada acima do palato, e onde se situa o centro de seu Ser; 6) Faça uma respiração ritmada inspirando e contando até 7 (sete), mantendo o ar retido nos pulmões enquanto conta 1 (um) tempo, solta o ar contando até 7 (sete), mantendo os pulmões vazios contando 1 (um) compasso. Essa respiração de poder recebe simplesmente o nome de "7-1-7-1". Outra alternativa igualmente viável é outra respiração idêntica, só que noutro compasso: "6-3-6-3", ou seja, inspirar contando até 6 (seis), reter o ar contando até 3 (três), soltar o ar contando até 6 (seis), daí mantendo os pulmões vazios contando até 3 (três); 7) Realizar uma das respirações escolhidas por, pelo menos, cinco vezes; 8) Agora é a hora de "deixar cair", ou seja, deixar-se cair para trás; 9) Seus assistentes só deverão sustentá-lo quando faltar menos de dois palmos para que você atinja o solo (o colchão), permitindo-lhe uma queda livre relativamente grande; 10) Repita o exercício por, no mínimo, três vezes, mas não mais de vinte vezes. C) Este exercício provoca alterações, na mente, semelhantes às produzidas quando se usa Afrodisíacos poderosos, como o Yohimbé, o Kala-Kiji, o Yuhba-Gold, para citar alguns. Trata-se de uma prática Tântrica, ou seja, uma fusão de sexualidade e espiritualidade. É segredo guardado zelosamente nos secretos círculos do poder oculto o fato que qualquer pensamento ou desejo mantido na mente durante o orgasmo se concretizará. Ou seja, mantendo-se na mente determinado desejo, durante a prática sexual (seja heterossexual, homossexual ou masturbatória), essa "forma pensamento" encarnará, por assim dizer, na energia do orgasmo, tendo como missão de sua existência a realização do desejo que o originou. Mas, o que poucos sabem, é que existe outra técnica sexual, de idênticos poderes mágicos, que permite, além dessa realização dos desejos, uma extraordinária expansão da mente, atido ao mesmo tempo. Trata-se da técnica conhecida como "karezza", que consiste em, repetidamente, praticar a masturbação até bem próximo do momento do orgasmo, quando então suspende-se a estimulação. Isso é feito cinco, dez vezes, até que o corpo desista de atingir o orgasmo. E é exatamente nesse momento que a mente se expande para dimensões além da imaginação... D) Este exercício altera a mente nos moldes dos efeitos provocados pelo consumo do Estramônio (ou Trombeta, Datura, Lírio Roxo), do Acônito, da Mandrágora, da Losna (ou Absinto) e da Beladona, entre outros perigosos Delirantes. Esta técnica recebe o nome, muito apropriadamente, de "postura da morte". Se você tem qualquer problema psíquico, respiratório ou circulatório, não faça, jamais, uso desta técnica. Ela consiste em, estando num lugar onde se possa cair sem ferir-se (como estando sentado numa cama, ou no chão, mas cercado de almofadas, por exemplo), manter-se a mente vazia e, ao mesmo tempo, prender a respiração. Enquanto se prende a respiração, tampa-se, com as duas mãos, a boca e as narinas, de modo a realmente sentir-se impedido de respirar. Prende-se a respiração até não poder mais, e então... prende-se mais um pouco! Manter-se assim até sentir mal, mas mal mesmo, e então... prende-se ainda mais! Quando sentir-se estar a ponto de, literalmente, morrer sufocado, libera-se a respiração, ao mesmo tempo em que solta o corpo, deixando-se cair. ** Estes exercícios, que mais parecem brincadeiras de malucos, são capazes de abrir a faculdade paranormal chamada de clarividência, ou seja, a capacidade de ver, com os olhos da mente, seres, imagens e paragens de outros planos e variadas dimensões. Duvida? Como pode algo tão simples funcionar da forma que alardeio? Simplesmente, ninguém precisa acreditar em minhas afirmações. Basta colocar os ensinamentos em prática e observar os resultados. O que tentei mostrar aqui foi que os chamados "estados alterados da mente" são apenas "estados diferentes da mente", pois as alterações psíquicas provocadas pela ingestão de qualquer fármaco alucinogênico podem ser conseguidas por simples alterações de conduta!



Fonte: Rizoma.net

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O AMANTE INVISIVEL DA INFINITUDE

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09:16
Fotografia de Rodney Smith



Tu me propões o universo?
Arrancas de mim a sublime angustia
Despedaça o inalcançável
Alvoroça todas as infinitudes
Fragmenta-me com ilusões possíveis
Fazer-me vê o impossível ao longe,
Faz-me despencar de mim mesmo
Num precipício inabitável,
Dinamita as memórias fotograficamente tênuas,
Faz-me respirar os mecanismos da natureza,
Provar as amargas galáxias distantes,
Tira-me a desolação de mim para mim,
Promete alcançar-me num abismo de relatividades,
Viajar comigo a procura de outros universos,
Olhar-me como uma criança com febre de si mesma,
Traduzir os significados do acaso,
Soltar minha mão na extremidade do absoluto,
Sou tua inconsciência consciente,
Sou aquele ausente que te faz companhia,
Quero desvendar contigo os símbolos imateriais,
Quero estar contigo quando morreres
No alem de mim e voltares para me buscar alem de ti,
Como o inserto salvo pelo gigante-poeta num pequeno oceano,
Assim como o verso que vê a luz através do sublime sentir,
Quero sentir a profundidade da tua alma e da minha
Escrevendo uma poesia.
Ao mergulhar no tempo-espaço eu mergulho em ti,
E desvendo o sentido intimo das coisas,
Os mistérios oceânicos inexplicáveis
As leis da natureza
E das divinas comedias transcendentais,
Tubarões e meteoros se entrelaçam quando te escavo
Trens me levam para o outro lado do mundo e
Chocam-se com tuas asas semi recolhidas,
Carros astrais flutuando acima do meu ombro
Atropelam tuas caldas roubadas dos cometas,
Os eus de Fernando Pessoa me pisoteando,
A inesgotável matemática da poesia
O meu impossível respirando teu soluço lagrimejante,
E Todos os universos numa só alma
E toda a poesia numa só linguagem
Rendo-me ao teu inesgotável universo infinito.


By João Leno Lima

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