Presidente do Equador enfrenta a brutal Gestapo britânica

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Manifesta��o em favor de Assange, frente � Embaixada do Equador em Londres.

 

O outrora orgulhoso governo britânico, agora reduzido a uma puta servil de Washington, envergou as suas botas de Gestapo e declarou que se a Embaixada equatoriana em Londres não entregasse Julian Assange, da WikiLeaks, tropas de assalto britânicas invadiriam a embaixada pela força militar e arrastariam Assange para fora.

O Equador manteve-se erecto. "Queremos ser muito claros, não somos uma colónia britânica", declarou o seu ministro das Relações Exteriores. Longe de se deixar intimidar, o presidente do Equador, Rafael Correa, replicou à ameaça pela concessão de asilo político a Assange.

O governo britânico, outrora respeitador da lei, não teve vergonha de anunciar que violaria a Convenção de Viena e assaltaria a Embaixada Equatoriana, tal como os estudantes islâmicos, na Revolução de Khomeini no Irão em 1979, tomaram a Embaixada dos EUA e mantiveram cativa a equipe diplomática. Pressionados pelos seus senhores de Washington, os britânicos recorreram a tácticas de um estado pária. Talvez devêssemos preocupar-nos acerca das armas nucleares britânicas.


Deixe-me ser claro: Assange não é um fugitivo da justiça. Ele não foi acusado de qualquer crime em qualquer país. Ele não violou nenhuma mulher. Não tem processos pendentes em qualquer tribunal e nenhumas acusações foram produzidas contra ele, não há validade no pedido sueco de extradição. Não é normal que pessoas sejam extraditadas para interrogatório, especialmente quando, como no caso de Assange, ele exprimiu sua total cooperação para ser interrogado uma segunda vez por responsáveis suecos em Londres.


O que é tudo isto? Primeiro, segundo noticiários, Assange foi cativado por duas mulheres suecas caçadoras de celebridades que o levaram para as camas das suas casas. Depois, por razões desconhecidas, uma delas queixou-se de que ele não havia usado um preservativo, e a outra queixou-se de que ela havia oferecido um mas que ele havia tomado dois. Um promotor público sueco examinou o caso, descobriu que não havia nada e descartou-o.


Assange foi para a Inglaterra. Então outro promotor sueco, uma mulher, alegando uma autoridade que desconheço, reabriu o caso e emitiu uma ordem de extradição para Assange. Isto é um procedimento inabitual que tramitou através de todo o sistema judicial britânico até o Tribunal Supremo e a seguir retornou ao Tribunal Supremo em recurso. No fim a "justiça" britânica fez o que o senhor de Washington ordenou e aceitou o estranho pedido de extradição.


Assange, percebendo que o governo sueco se preparava para entregá-lo a Washington para ser mantido em detenção indefinida, torturado e enquadrado como espião, pediu a protecção da Embaixada do Equador em Londres. Por mais corruptos que sejam as autoridades britânicas, o governo do Reino Unido não desejava entregar Assange directamente a Washington. Ao transferi-lo para a Suécia, os britânicos poderiam achar que as suas mãos estavam limpas.


A Suécia, antigamente um país honrado como o Canadá foi outrora quando resistentes americanos à guerra ali podiam procurar asilo, foi subornada e submetida ao polegar de Washington. Recentemente, diplomatas suecos foram expulsos da Bielorússia onde tudo indica terem estado envolvidos em ajudar Washington a orquestrar uma "revolução colorida" pois governo dos EUA continua a tentar estender as suas bases e estados fantoches mais profundamente junto à Rússia tradicional.

O mundo inteiro, incluindo os servis estados fantoches de Washington, entendeu que quando Assange estivesse nas mãos dos suecos Washington apresentaria uma ordem de extradição, a qual a Suécia, ao contrário dos britânicos, cumpriria. O Equador entende isto. O ministro das Relações Exteriores, Ricardo Patiño, anunciou que o Equador concedeu asilo a Assange porque "há indicações para presumir que pode tratar-se de perseguição política". Nos EUA, reconheceu Patiño, Assange não obteria um julgamento justo e enfrentaria a pena de morte num processo fabricado.


O Estado Fantoche estado-unidense da Grã (sic) Bretanha anunciou que não permitiria que Assange deixasse o país. Já chega quanto à defesa da lei e dos direitos humanos por parte do governo britânico. Se os britânicos não invadirem a Embaixada Equatoriana e arrastarem Assange para fora, morto ou em grilhões, a posição britânica é que Assange viverá o resto da sua vida dentro da Embaixada do Equador em Londres. Segundo o New York Times, o asilo de Assange deixa-o "com protecção à prisão só no território equatoriano (o que inclui a embaixada). Para deixar a embaixada rumo ao Equador, ele precisaria da cooperação que a Grã-Bretanha disse não proporcionar".

Quando se trata do dinheiro de Washington ou de se comportar honradamente de acordo com o direito internacional, o governo britânico inclina-se para o lado do dinheiro.  O mundo anglo-americano, que pretende ser a face moral da humanidade, agora revelou para todos verem que sob esta máscara está a cara da Gestapo.

16/Agosto/2012


 

  • Declara��o do Governo da Rep�blica do Equador sobre a solicita��o de asilo de Julian Assange
  • O original encontra-se em www.paulcraigroberts.org/2012/08/16/...
  • Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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    A ascendência de uma elite financeira criminosa

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    12:17

    – As duas faces de um estado policial:   Abrigar evasores fiscais, trapaceiros das finanças e lavadores de dinheiro enquanto policia os cidadãos

    por James Petras

    "O coração apodrecido das finanças".
    The Economist


    "Há um grau de cinismo e cobiça que é realmente bastante chocante"
    Lord Turner, Bank of England, Financial Service Authority

    Nunca na história dos Estados Unidos testemunhámos crimes cometidos na escala e do âmbito dos dias actuais, tanto pela elite privada como estatal.
    Um economista de credenciais impecáveis, James Henry, antigo economista chefe na prestigiosa firma de consultoria McKinsey & Company, investigou e documentou evasão fiscal. Ele descobriu que os super-ricos e suas famílias têm até US$32 milhões de milhões (trillion) de activos escondidos em paraísos fiscais offshore, o que representa mais de US$280 mil milhões de receita perdida no imposto sobre o rendimento! Este estudo excluía activos não financeiros tais como imobiliário, metais preciosos, jóias, iates, cavalos de corrida, veículos de luxo e assim por diante. Dos US$32 milhões de milhões de activos escondidos, US$23 milhões de milhões pertencem a super-ricos da América do Norte e da Europa.


    Um relatório recente do Comité Especial das Nações Unidas sobre Lavagem de Dinheiro descobriu que bancos dos EUA e da Europa têm lavado mais de US$300 mil milhões por ano, incluindo US$30 mil milhões apenas dos cartéis de droga mexicanos.


    Novos relatórios sobre trapaças financeiras de muitos milhares de milhões envolvendo os grandes bancos dos EUA e Europa são publicados a cada semana. Os principais bancos da Inglaterra, incluindo o Barclay's e um bando de outros, foram identificados como tendo manipulado o LIBOR, ou inter-bank lending rate, durante anos a fim de maximizar lucros. O Bank of New York, JP Morgan, HSBC, Wachovia e Citibank estão entre a multidão de bancos acusados de lavar dinheiro da droga e de outros fundos ilícitos segundo investigações do Comité Bancário do Senado dos EUA. Corporações multinacionais receberam fundos federais de salvamento e isenções fiscais e então, em violação dos acordos publicitados com o governo, relocalizam fábricas e empregos na Ásia e no México.
    Grandes casas de investimento, como a Goldman Sachs, enganaram investidores durante anos investindo em acções "lixo" enquanto os correctores puxavam e afundavam ( pumped and dumped ) acções sem valor. Jon Corzine, presidente do MF Global (bem como antigo presidente da Goldman Sachs, antigo senador dos EUA e governador de Nova Jersey) afirmou que "não podia explicar" os US$1,6 mil milhões de perdas de clientes investidores de fundos no colapso de 2011 do MF Global.


    Apesar do enorme crescimento do aparelho policial do estado, da proliferação de agências de investigação, das audiências no Congresso e dos mais de 400 mil empregados do Ministério da Segurança Interna (Department of Homeland Security), nem um único banqueiro foi para a cadeia. Nos casos mais chocantes, um banco como o Barclay pagará uma pequena multa por ter facilitado a evasão fiscal e efectuado trapaças especulativas. Ao mesmo tempo, de acordo com o princípio "canalha" [implícito] na trapaça LIBOR, o Director de Operações (Chief Operating Officer, COO) do Barclay's Bank, Jerry Del Missier, receberá uma indemnização de 13 milhões de dólares pelo seu afastamento.
    Em contraste com a complacente aplicação da lei praticada pelo florescente estado policial em relação a trapaças da banca, das corporações e das elites bilionárias, tem-se intensificado a repressão política de cidadãos e imigrantes que não cometeram qualquer crime contra a segurança e ordem pública.


    Milhões de imigrantes têm sido agarrados nas suas casas e lugares de trabalho, presos, batidos e deportados. Centenas de bairros hispânicos e afro-americanos têm sido alvo de raids policiais, tiroteios e mortes. Em tais bairros, a polícia local e federal opera com impunidade – como foi ilustrado por vídeos chocantes dos tiros e brutalidade da polícia contra civis desarmados em Anaheim, Califórnia. Muçulmanos, asiáticos do Sul, árabes, iranianos e outros são racialmente perfilados, arbitrariamente presos e processados por participarem em obras de caridade, de fundações humanitárias ou simplesmente por participarem de instituições religiosas. Mais de 40 milhões de americanos empenhados em actividade política legal são actualmente vigiados, espionados e frequentemente molestados.
    As duas faces do governo dos EUA:   Impunidade e repressão
    Documentação esmagadora confirma a deterioração total da polícia e do sistema judicial dos EUA no que respeita à aplicação da lei quanto a crimes entre a elite financeira, bancária e corporativa.


    Evasores fiscais de triliões de dólares, trapaças financeiras bilionárias e lavadores de dinheiro multi-bilionários quase nunca são enviados para a cadeia. Se bem que alguns paguem uma multa, nenhum deles têm os seus ganhos ilícitos apreendidos, apesar de muitos serem criminosos reincidentes.

    A reincidência entre criminosos financeiros é comum porque as penalidades são leves, os lucros são altos e as investigações pouco frequentes, superficiais e sem consequências. O United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC) informou que, só em 2009, foram lavados US$1,6 milhão de milhões, principalmente em bancos ocidentais, um quinto vindo directamente do comércio de droga. O grosso do rendimento do comércio de cocaína foi gerado na América do Norte (US$35 mil milhões), dois terços dos quais foram lavados em bancos locais. O fracasso em processar banqueiros empenhados numa ligação crítica do comércio da droga não se deve à "falta de informação", nem tão pouco à "frouxidão" por parte dos reguladores e aplicadores da lei. A razão é que os bancos são demasiado grandes para processar e os banqueiros demasiado ricos para prender.

    A aplicação efectiva da lei levaria a serem submetidos a processo todos os principais bancos e banqueiros, o que reduziria lucros drasticamente. Encarcerar banqueiros de topo fecharia a "porta giratória", o portão dourado através do qual reguladores do governo asseguram a sua própria riqueza e fortuna pela entrada em casas de investimento privadas depois de deixarem o serviço "público". Os activos dos dez maiores bancos nos EUA constituem uma porção apreciável da economia estado-unidense. Os gabinetes dos directores dos maiores bancos entrecruzam-se com todos os principais sectores corporativos. Os responsáveis de topo e médios e seus confrades no sector corporativo, bem como seus principais accionistas e possuidores de títulos, estão entre os maiores evasores fiscais do país.


    Se bem que a Security and Exchange Commission, o Departamento do Tesouro e o Comité Bancário do Senado finjam publicamente que investigam altos crimes financeiros, a sua função real é proteger estas instituições de quaisquer esforços para transformar a sua estrutura, as suas operações e o seu papel na economia estado-unidense. As multas recentemente impostas são altas pelos padrões anteriores mas ainda assim seus montantes, na maior parte, correspondem aos lucros de um par de semanas.


    A falta de "vontade judicial", o colapso de todo o sistema regulamentar e a ostentação do poder financeiro manifestam-se nos "pára-quedas dourados" habitualmente concedidos a presidentes de conselho de administração criminosos após sua revelação e "renúncia". Isto se deve ao enorme poder político que a elite financeira exerce sobre o estado, o judiciário e a economia.


    Poder político e morte da "lei e ordem"


    Em relação a crimes financeiros, a doutrina que guia a política do estado é "demasiado rico para encarcerar, demasiado grande para falir", o que se traduz nos salvamentos pelo tesouro, com muitos triliões de dólares, de instituições financeiras cleptocráticas em bancarrota e num alto nível de tolerância do estado para com evasores fiscais, trapaceiros e lavadores de dinheiro. Devido ao colapso total da aplicação da lei em relação a crimes financeiros, há altos níveis de delinquentes contumazes. É o que um responsável financeiro britânico descreve como "cobiça cínica (e cíclica)".
    A palavra de ordem sob a qual a elite financeira tomou o controle total do estado, do orçamento e da economia foi "mudança". Isto refere-se a desregulamentação do sistema financeira, à expansão maciça dos alçapões fiscais, a fuga livre de lucros para paraísos fiscais além-mar e a dramática comutação da "aplicação da lei" da prossecução dos bancos que lavam os ganhos ilícitos da droga e de cartéis criminosos para a perseguição dos chamados "estados terroristas".

    O "estado da lei" tornou-se um estado sem lei. "Mudanças" financeiras permitiram e mesmo promoveram trapaças reiteradas, as quais defraudaram milhões e empobreceram centenas de milhões. Há 20 milhões de hipotecados que perderam seus lares ou não são capazes de manter pagamentos; dezenas de milhões de contribuintes da classe média e da classe trabalhadora que foram forçados a pagar impostos mais altos e a perder serviços sociais vitais devido à evasão fiscal da classe superior e corporativa. A lavagem de milhares de milhões de dólares de cartéis da droga e de riqueza criminosa pelos maiores bancos levou à deterioração de bairros inteiros e à ascensão do crime, o que desestabilizou a vida familiar da classe média e trabalhadora.

     
    Conclusão


    A ascendência de uma elite financeira criminosa e a cumplicidade do estado complacente levaram ao colapso da lei e da ordem, à degradação e ao descrédito de toda a rede regulamentar e do sistema judicial. Isto levou a um sistema nacional de "injustiça desigual" onde cidadãos críticos são perseguidos por exercerem seus direitos constitucionais ao passo que elites criminosas operam com impunidade. As mais duras sanções do estado policial são aplicadas contra centenas de milhares de imigrantes, muçulmanos e activistas de direitos humanos, ao passo que trapaceiros financeiros são cortejados por colectores de fundos de campanhas presidenciais.


    Não é de surpreender que hoje muitos trabalhadores e cidadãos da classe média considerem-se "conservadores" e serem "contra a mudança". Na verdade, a maioria quer "conservar" a Segurança Social, a educação pública, pensões, estabilidade de emprego e planos médicos federais tais como o MEDICARE e o MEDICAID em oposição aos advogados da "mudança" da elite "radical" que quer privatizar a Segurança Social e a educação, acabar com o MEDICARE e amputar o MEDICAID.

    Trabalhadores e classe média pedem estabilidade no emprego e nos bairros habitacionais, assim como preços estáveis contra a disparada de inflação nos cuidados médicos e na educação. Cidadãos assalariados apoiam a lei e a ordem, especialmente quando isto significa o processamento de evasores fiscais bilionários, banqueiros lavadores de dinheiro criminoso e trapaceiros, os quais, na maior parte, pagam uma pequena multa, emitem uma "desculpa" e a seguir prosseguem a repetição das suas trapaças.
    As "mudanças" radicais promovidas pela elite devastaram a vida de milhões de americanos em todas as regiões, ocupações e grupos etários. Elas desestabilizaram a família ao minarem a segurança de emprego enquanto minavam bairros habitacionais com a lavagem dos lucros da droga. Acima de tudo elas perverteram totalmente todo o sistema de justiça no qual "os criminosos são tornados respeitáveis e os respeitáveis tratados como criminosos".


    A primeira defesa da maioria é resistir à "mudança da elite" e conservar os remanescentes do estado previdência (welfare state). O objectivo da resistência "conservadora" será transformar todo o corrupto sistema legal de "criminalidade funcional" num sistema de "igualdade perante a lei". Isto exigirá uma alteração fundamental no poder político, ao nível local e regional, dos gabinetes dos banqueiros para os conselhos dos bairros populares e lugares de trabalho, dos juízes e reguladores acomodatícios nomeados pela elite para representantes reais eleitos pela maioria que geme sob o nosso actual sistema de injustiça.

    05/Agosto/2012

    O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=32220

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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    Thomas Sankara (21/12/1949 – 15/10/1987) : um percurso revolucionário inacabado?

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    11:55

    http://25.media.tumblr.com/tumblr_m0r1bxIxCB1rpd5d0o1_500.jpg

     

    Abundam informações sobre a biografia deste líder africano na Internet. Todavia isto não torna ilegítimo que este espaço, Pró-África, cumprindo, em toda a liberdade, o seu papel pedagógico e emancipador, proponha em jeito de efeméride uma breve retrospectiva analítica do pensamento e das acções políticas de Sankara. Para isso, é necessário ter em devida  consideração diferentes abordagens : a política interna e as suas medidas de carácter nacionalista, a abordagem externo-diplomática influênciada pela corrente neomarxista das relações internacionais e, por fim, o carácter inacabado da Revolução Democrática Popular, apesar deste líder ter afirmado semanas antes da sua    morte:“(…) pode-se matar líderes revolucionários mas as ideias permanecem”.


    “A Pátria ou a morte, venceremos!” Eis uma expressão predilecta proferida em praticamente todos os discursos oficiais por Sankara, fazendo alusão à importância da “luta” e do “povo” no processo revolucionário anti-imperialista em Burkina Faso. Esta frase sintetiza, de certa forma, o pensamento e as acções deste líder carismático, nacionalista e panafricanista. Vinte e três anos após o seu desaparecimento é légitimo questionar : terá a revolução posta em prática por Sankara triunfado? Terá Sankara equacionado a implementação de uma revolução sem revolucionários? Responder em breves linhas e de forma peremptória a estas interrogações  é  um exercício delicado. Com efeito, trata-se de uma tarefa árdua porque exige o devido enquadramento e noções claras sobre o pensamento e as influências ideológicas de Sankara no contexto pós-colonial africano e de guerra fria. Ora, o mesmo dizia não aceitar etiquetas para caracterizar as acções da Revolução Democrática Popular (rdp), pese embora elegera os profetas Mohamed e Cristo como ídolos e considerar Lenine como um dos maiores líderes que o mundo viu nascer ; a nível regional o seu principal mentor político foi J. Rawlings do Gana.

    Abundam informações sobre a biografia deste líder africano na Internet. Todavia isto não torna ilegítimo que este espaço, Pró-África, cumprindo, em toda a liberdade, o seu papel pedagógico e emancipador, proponha em jeito de efeméride uma breve retrospectiva analítica do pensamento e das acções políticas de Sankara. Para isso, é necessário ter em devida  consideração diferentes abordagens : a política interna e as suas medidas de carácter nacionalista, a abordagem externo-diplomática influênciada pela corrente neomarxista das relações internacionais e, por fim, o carácter inacabado da Revolução Democrática Popular, apesar deste líder ter afirmado semanas antes da sua morte:“(…) pode-se matar líderes revolucionários mas as ideias permanecem”[1].

    Figura política

    Thomas Sankara foi militar de carreira. Nos seus discursos revendicou incessantemente tratar-se de um patriota preocupado com a dignidade e o desenvolvimento do seu torrão natal. Em 1981, foi Secretário de Estado da Informação – ainda que apenas alguns meses, devido à sua demissão – antes de ser Primeiro Ministro sob a presidência de J.B. Ouédraogo. Neste mesmo ano, 1983, ascendeu à Presidência da República. Meses antes, fora preso durante alguns dias por alegadamente ter defendido posições radicais segundo a ala reaccionária do partido CSP (Conseil du Salut des Peuples) dividido em duas principais facções: a reaccionária liderada por quadros mais antigos do partido e a revolucionária por Sankara. Esta facção interna precipitou um golpe de Estado em 1983. O golpe de Estado de 1983, sob a liderança de Blaise Compaoré, favorecia então a tomada de poder da ala revolucionária do CSP e transformava consequentemente Thomas Sankara no quinto chefe de Estado do então Alto Volta.

    Sankara incarna assim um projecto político inspirando-se do nacionalismo e recorrendo ao populismo num regime político-militar. O líder espelha junto de jovens e da população uma imagem de energia, orgulho, rejeição de injustiças e esperança. As linhas mestras da sua política e acções foram expostas no DOP[2] (Discurso de Orientação Política) no qual privilegiou a Revolução Democrática Popular[3]. Inspirando-se no marxismo, tinha por principal objectivo a transformação da sociedade, favorecendo o desenvolvimento autocentrado e dando,nomeadamente, mais poderes às classes populares em detrimento da burguesia e de um segmento da elite política. A partir de 1984, ordena a mudança de bandeira, de vários símbolos nacionais e do nome do país: Alto Volta transforma-se em Burkina Faso ou “terra de homens integros” (segundo as línguas nacionais Mossis e Djulai). Em cinco anos, o país conhece ganhos sociais e económicos records, contribuindo para melhorar o nível de vida da população. Todavia, a burguesia compradora, a pequena burguesia urbana, vários administradores de regimes anteriores, assim como os cidadãos avessos à revolução em marcha, foram marginalizados pelo Governo.

    As medidas da política interna revolucionária

    As principais políticas nacionais foram marcadas por medidas em prol do desenvolvimento socioeconómico e ambiental que podem ser expostas em quatro principais vertentes: (i) a luta contra a corrupção e uma melhor gestão de recursos públicos, (ii) o desenvolvimento económico e social autocentrado, (iii) a promoção da saúde e educação e da cultura ao serviço da revolução, (iv) a luta contra a desertificação:

    (i) É promovido um maior contrôlo sobre a gestão da coisa pública, reduz-se os salários do Chefe de Estado, de ministros e altos funcionários do Estado. Criam-se Tribunais Populares da Revolução (TPR) para julgar em público casos de corrupção, nomedamente vários ex-governantes;

    (ii) A autonomia e independência económica do país passam por um sistema de produção auto-centrado, priviligiando a apologia “Faso dan Fani” (consumir o que é nacional). As ajudas internacionais são evitadas assim como a participação de empresas capitalistas estrangeiras no processo de desenvolvimento. Em quatro anos, o país consegue ser autosuficiente em matéria de produção alimentar. Uma importante campanha de luta contra a desertificação é priviligiada em todo o território nacional; a reforma agrária diminui o privilégio feudal, redistribuindo terras cultiváveis aos camponeses ;

    (iii) São construidas mais escolas, infrastructuras desportivas, hospitais e é posta em prática uma campanha de criação de “um centro de saúde para cada localidade”. A promoção da emancipação das mulheres quer-se parte integrante das medidas do regime. O governo demonstra vontade política em proíbir a prática da excisão genital feminina e a poligamia. Estas duas últimas medidas colidem com alguma resistência de mulheres do mundo rural. São nomeadas mulheres para cargos importantes, como o  de Ministra do orçamento ou ainda da saúde. O nível de alfabetização da população aumenta de 12%  para 22%, sendo as mulheres as principais beneficiárias. O défice público de 695 milhões de CFAs em 1983 é transformado em excedentes na ordem de 2 milhares de CFAs em 1985. Contudo, paralelamente, multiplica-se o número de prisoneiros políticos no país; cerca de 2600 professores qualificados são despedidos e substituidos por militantes revolucionários sem formação pedagógica no sector da educação ;

    (iv) Para proteger o meio ambiente, uma importante campanha de luta contra a desertificação é levada a cabo através da operação “a cada localidade um bosque.

    Sendo dois sectores interligados, as acções internas influenciaram a ossatura das relações externas regionais e internacionais do Burkina Faso.

    Conduta política e diplomática externa

    Sankara adopta uma conduta externa anti-imperialista e contesta o néocolonialismo, por considerar esta prática difusa nas ajudas exteriores. A influência ideológica néomarxista guia a sua análise das relações de força e dominação na cena internacional. Assim, adopta uma postura política próxima de regimes considerados progressistas, como o da Líbia de M. Khadafi, Gana de J.Rawlings, Cuba de F. Castro, ou ainda Uganda de Y.Musseveni. Nas tribunas internacionais (onu e oua), defende o panafricanismo mas também o não reembolso (por parte de países pobres e africanos) da divída contraída junto do fmi e do Banco Mundial. Como contra-proposta, exorta os outros Chefes de Estado e de Governo africanos a promover a criação do “Clube de Adis-Abeba”, tendo como objectivo uma campanha contra o endividamento excessivo.

    De ressalvar que tanto as acções internas como as externas imprimidas pela revolução popular encontraram resistências, barreiras e limites. Resistências e barreiras a nível interno e limites além fronteiras.

    Balanço da revolução e herança pós Sankara

    A partir de 1985, assiste-se a uma certa deriva dos Comités de Defesa da Revolução (cdr). Em nome da “emancipação feminina” e da luta contra a prostituição, todas as mulheres controladas na rua por um agente do cdr, entre as 20h e as 2h da madrugada, sem provas de identificação, eram imediatamente detidas. Antes de serem soltas, tinham que apresentar provas concretas de que não eram prostitutas. Quanto à luta contra a poligamia, as principais victimas – nomeadamente as mulheres do meio rural – manisfestaram-se contra a medida, defendendo a prática como sendo benéfica para aumentar a mão de obra comunitária.

    O Tribunal Popular Revolucionário, instrumento criado para lutar contra a corrupção, conhece derivas. Os acusados não têm o direito de ser representados por advogados de defesa, além de serem obrigados a provar a sua inocência em público, na rádio e televisão estatais. Por causa de uma greve contra certas práticas do regime, cerca de 2600 professores são despedidos e substituídos por agentes da revolução sem formação pedagógica. Para além disso, a manifestação de alguns segmentos da sociedade cívil (sindicatos por exemplo), bem como dos partidos de oposição, continua proibida, à semelhança do que acontecera nos regimes anteriores. Estas derivas contribuem, para o enfraquecimento do regime a partir de 1985.

    Aumentam as contestações populares. Blaise Compaoré, que controlava o essencial do poder militar, começa a manifestar ambição de substituir Sankara na Presidência. Acresce os diferendos políticos com Hophfouët-Boigny  da Costa do Marfim, assim como os desentendimentos com a antiga potência colonizadora que agia através da rede de influências da Françafrique. De salientar que, na época tanto Boigny, como Mitterand e mesmo a cia (The Central Intelligence Agency) não viam com bons olhos uma provável propagação da Revolução Democrática Popular na África  ocidental.

    Neste contexto tenso, a 15 de Outubro de 1983, Thomas Sankara e doze dos seus colaboradores são fuzilados por militares no palácio da Presidência. Terminara assim o processo revolucionário. Caem também por terra os ideais daquele que defendera “Viver africano para viver livre e digno”[4].

    Vinte e três anos depois, Sankara não é no seu torrão natal mais do que um mártir da revolução. Os ideais defendidos deixaram marcas indeléveis e suscitam nostalgia junto de alguns segmentos da população local e não só. Contudo, o poder instituído por Blaise Compaoré, seu sucessor pela via das armas, procurou, não sem sucesso, ofuscar todas as marcas do Sankarismo. O novo regime mudou de paradigma de cooperação, restabelecendo o capitalismo de Estado, abolindo várias práticas revolucionárias como por exemplo o desporto, obrigação individual de todos enquanto terapia de massa. Decorridos vinte e três anos sobre o último golpe de Estado, Compaoré ainda é Presidente deste país oeste-africano.

    Em jeito de conclusão, convém destacar não só os importantes ganhos socioeconómicos que beneficiaram as classes populares durante os cinco anos de regime revolucionário, mas também alguns erros políticos cometidos pelo regime. O assassinato prematuro de Sankara contribuiu para deixar inacabada a Revolução popular inciada em 1983. Por seu lado, a contestação crescente contra certas práticas do regime a partir de 1985 serviram para ilustrar alguns limites da revolução, assim como um certo défice de consciência revolucionária no país. Este défice foi inegável e erradamente relegado para segundo plano por Sankara e pelo regime. Se considerarmos a situação política e económica actual de Burkina Faso (um dos pma – Países Menos Avançados – mais pobres de África, segundo os critérios do pnud) podemos constatar que o povo burkinabé ainda está longe de vencer a batalha do desenvolvimento. Uma das vias para se inverter esta situação é, sem duvida, a de promover um desenvolvimento que tenha em consideração a evolução do contexto político e económico mundial. Será todavia este impulso possível sem um renovar das elites dirigentes, sejam elas políticas, económicas,  militares…?

    João da Veiga

    Referências

    Entrevista a Thomas Sankara http://www.thomassankara.net/spip.php?article921#outil_sommaire_0 ;

    Filme sobre a vida política de Sankara http://video.google.com/videoplay?docid=-1568227149281410076#

    Discours et contrôle politique : les avatars du Sankarisme » http://www.politique-africaine.com/numeros/pdf/033011.pdf

    « Les CNR face au monde rural : le discours à l’épreuve des faits »http://www.politique-africaine.com/numeros/pdf/033039.pdf

    Carina Ray, Who really killed Thomas Sankara ? : http://www.pambazuka.org/en/category/features/45420

    Politique Africaine, “Au Sport les citoyens”: http://www.politique-africaine.com/numeros/pdf/033059.pdf


    [1] http://www.thomassankara.net

    [2] http://www.thomassankara.net/spip.php? ; article51

    [3] T. Sankara e David Gakunzi (1991), Oser inventer l’avenir : la parole de Sankara (1983-1987), Parthfinder Press et l’Harmattan.

    [4] Um dos slogans prononciados em vários discursos de Sankara.

     

     

    ORIGINALMENTE PÚBLICADO EM Pro Africa

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    Líbia: O que os media escondem

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    13:48

    por Miguel Urbano Rodrigues

     

     

    Transcorridas duas semanas das primeiras manifestações em Benghazi e Tripoli, a campanha de desinformação sobre a Líbia semeia a confusão no mundo.  Antes de mais uma certeza: as analogias com os acontecimentos da Tunísia e do Egipto são descabidas. Essas rebeliões contribuíram, obviamente, para despoletar os protestos nas ruas do país vizinho de ambos, mas o processo líbio apresenta características peculiares, inseparáveis da estratégia conspirativa do imperialismo e daquilo que se pode definir como a metamorfose do líder.


    Muamar Kadhafi, ao contrário de Ben Ali e de Hosni Mubarak, assumiu uma posição anti-imperialista quando tomou o poder em 1969. Aboliu uma monarquia fantoche e praticou durante décadas uma politica de independência iniciada com a nacionalização do petróleo. As suas excentricidades e o fanatismo religioso não impediram uma estratégia que promoveu o desenvolvimento económico e reduziu desigualdades sociais chocantes. A Líbia aliou-se a países e movimentos que combatiam o imperialismo e o sionismo. Kadhafi fundou universidades e industrias, uma agricultura florescente surgiu das areias do deserto, centenas de milhares de cidadãos tiveram pela primeira vez direito a alojamentos dignos.


    O bombardeamento de Tripoli e Benghazi em l986 pela USAF demonstrou que Reagan, na Casa Branca identificava no líder líbio um inimigo a abater. Ao país foram aplicadas sanções pesadas.


    A partir da II Guerra do Golfo, Kadhafi deu uma guinada de 180 graus. Submeteu-se a exigências do FMI, privatizou dezenas de empresas e abriu o país às grandes petrolíferas internacionais. A corrupção e o nepotismo criaram raízes na Líbia.


    Washington passou a ver em Kadhafi um dirigente dialogante. Foi recebido na Europa com honras especiais; assinou contratos fabulosos com os governos de Sarkozy, Berlusconi e Brown. Mas quando o aumento de preços nas grandes cidades líbias provocou uma vaga de descontentamento, o imperialismo aproveitou a oportunidade. Concluiu que chegara o momento de se livrar de Kadhafi, um líder sempre incómodo.
    As rebeliões da Tunísia e do Egipto, os protestos no Bahrein e no Iémen criaram condições muito favoráveis às primeiras manifestações na Líbia.
    Não foi por acaso que Benghasi surgiu como o pólo da rebelião. É na Cirenaica que operam as principais transnacionais petrolíferas; ali se localizam os terminais dos oleodutos e dos gasodutos.

     
    A brutal repressão desencadeada por Kadhafi após os primeiros protestos populares contribuiu para que estes se ampliassem, sobretudo em Benghazi. Sabe-se hoje que nessas manifestações desempenhou um papel importante a chamada Frente Nacional para a Salvação da Líbia, organização financiada pela CIA. É esclarecedor que naquela cidade tenham surgido rapidamente nas ruas a antiga bandeira da monarquia e retratos do falecido rei Idris, o chefe tribal Senussi coroado pela Inglaterra após a expulsão dos italianos. Apareceu até um "príncipe" Senussi a dar entrevistas.


    A solidariedade dos grandes media dos EUA e da União Europeia com a rebelião do povo da Líbia é, porem, obviamente hipócrita. O Wall Street Journal, porta-voz da grande Finança mundial, não hesitou em sugerir em editorial (23 de Fevereiro) que "os EUA e a Europa deveriam ajudar os líbios a derrubar o regime de Kadhafi".


    Obama, na expectativa, manteve silêncio sobre a Líbia durante seis dias; no sétimo condenou a violência, pediu sanções. Seguiu-se a reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU e o esperado pacote de sanções.


    Alguns dirigentes progressistas latino americanos admitiram como iminente uma intervenção militar da NATO. Tal iniciativa, perigosa e estúpida, produziria efeito negativo no mundo árabe, reforçando o sentimento anti-imperialista latente nas massas. E seria militarmente desnecessária porque o regime líbio aparentemente agoniza.
    Kadhafi, ao promover uma repressão violenta, recorrendo inclusive a mercenários tchadianos (estrangeiros que nem sequer falam árabe), contribuiu para ampliar a campanha dos grandes media internacionais que projecta como heróis os organizadores da rebelião enquanto ele é apresentado como um assassino e um paranóico.


    Os últimos discursos do líder líbio, irresponsáveis e agressivos, foram alias habilmente utilizados pelos media para o desacreditar e estimular a renúncia de ministros e diplomatas, distanciando Kadhafi cada vez mais do povo que durante décadas o respeitou e admirou.


    Nestes dias é imprevisível o amanhã da Líbia, o terceiro produtor de petróleo da África, um país cujas riquezas são já amplamente controladas pelo imperialismo.

    Vila Nova de Gaia, 28/Fevereiro/2011

    O original encontra-se em http://www.odiario.info/?p=1993
    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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