Radiohead em São Paulo

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16:53
Foto: joão Leno Lima

Assim que ouvi Ok computer pela primeira vez, acredito que por volta de agosto de 1997, tomei um susto tão grande que decidi dividir a experiência com meu padrasto. Fã de Kraftwerk e de Pink Floyd (cresci ouvindo sinos em volume máximo), provavelmente ele entenderia aquilo tudo melhor que eu. Lembro até hoje a reação desejeitada daquele homem grisalho, já turrão e (às vezes terrivelmente) cético: depois de um longo período de silêncio, o Mr. Sisudez se deu por satisfeito lá pela quinta ou sexta faixa. “É impressionante”, ele observou, quase cientificamente. “Se eu tivesse a sua idade, ouviria sem cansar.”

Ficamos nisso. Acredito que, depois daquela impressão animadora, meu padrasto nunca voltou a um disco do Radiohead. Como se, incapaz de acompanhar o galope de uma geração por ele desconhecida, preferisse manter distância das estranhas (e talvez maravilhosas) novidades cultuadas por meninos de 14 anos de idade. Como se dissesse: “ok, Tiago, agora você sabe o que sinto quando ouço The dark side of the moon.”

Duvido que me padrasto tenha assistido aos trechos do show de sábado em São Paulo, exibido na tevê por assinatura. Não o interessa. Posso dizer sem margem de erro: foi retrato de uma geração. A minha geração.

Provavelmente ele teria gostado do que vi (que, para mim, não vale menos que 10/10). A sensibilidade musical do meu padrasto, apesar de excessivamente seletiva (cinco ou seis bandas são o suficiente para mapear toda uma existência), foi moldada por um rock inventivo e atmosférico, ambicioso e monumental. Anos antes de Ok computer, mostrei a ele Nevermind e tudo o que recebi em troco foi um “tsc, o ser humano é um projeto que não deu certo”.

O show do Radiohead é ambicioso e monumental como eram os álbuns de rock progressivo dos anos 70. Mas também é catártico, emotivo e atormentado como o pós-punk do final daquela década. Há como identificar essa mão-dupla de referências em cada um dos álbuns da banda. Em Ok computer. Em Kid A (ainda que rarefeita). Em In rainbows (ainda que coberta por um bafo quente de soul music). Mas, no palco, essa equação se faz visível, reluzente, pulsando diante dos nossos olhos (deslumbrados, talvez cansados, talvez incomodados ou frustrados, mas hipnotizados).

É nosso reflexo. A imagem de quem viveu os anos 90 e seguiu se transformando até chegar aqui, no final da primeira década do século 21. Radiohead é, de certa forma, nossa história (minha e dos outros que o adotaram como trilha sonora para a adolescência). E, de outra forma, a história muito precisa de um período de transformações fundamentais para a música pop. Intencionalmente ou não, os ingleses refletiram o furor grunge (no hit Creep), a desilusão do fim de século (em Ok computer) e a fragmentação do pop via web (Kid A foi o primeiro grande filho do Napster) até antecipar a morte da indústria fonográfica (em In rainbows, distribuído de graça, independente de verdade).

A discografia do Radiohead pode sim ser encarada como um tratado para um mundo em transe. Você ouve Ok computer, por exemplo, e entende a crise econômica. Sério.

No palco, a banda tenta resumir essa ópera sem soar didática ou acomodada (a liberdade de criação é a bandeira que eles continuam levantando). Trata-se de um desafio e tanto. Dois dias antes, assisti a um show do Iron Maiden e tudo o que os velhos metaleiros conseguem (dignamente, para os padrões do metal; nada contra) é enfileirar canções conhecidas da forma mais plana possível, com um ou outro cenário engraçadinho - o que 90% das bandas praticam desde os anos 60. O show do Radiohead vai bastante além desse formato-padrão. É um espetáculo mais intrincado.

Assisti ao show com uma amiga que não conhecia nada além de In rainbows. No final da apresentação, virei-me para ela e disse: “Você acabou de ouvir tudo o que precisa saber sobre a banda. Isto é Radiohead.” Pouco depois, ouvi reclamações de fãs que queriam ter cantarolado hits de The bends. Mas faria algum sentido? A jornada do Radiohead não tem volta. Entendi muito bem que Creep, escondida lá no terceiro bis, era uma faixa bônus que, apesar de agradar aos fãs (e foi uma apoteose), destoa bastante da fase em que a banda se encontra.

A banda se jogou tão decididamente na própria aventura que muitos dos fãs ficaram pelo caminho. Natural. Conheço que deteste Kid A. Também sei dos que desprezam hits como High and dry. O show abraçou essas duas facetas, mas resgatadas a partir dos climas quase transcendentais de In rainbows (a iluminação é, por si só, obra-prima: engolida por tubos de luz, a banda toca literalmente dentro de um arco-íris). Uma banda na trilha do sublime.

Mais que isso: uma banda madura. Quem dera se toda maturidade soasse assim. O rigor técnico aliado à interpretação emotiva, a pompa de superprodução afinada à elegância do conceito (até as cores do telão, em meios-tons, impressionavam pelo detalhismo, pela finesse). Os sets que mudam a cada concerto, mas são sempre executados de forma impecável. Improvisos calculados, mas que soam vivos, doídos, frágeis. Thom Yorke é o Kurt Cobain que cresceu, entendeu os mecanismos da música pop e venceu o monstro sem desligar-se da angústia (e viver neste mundo continua difícil, com ou sem maturidade). Hoje, não há band leader que o supere.

O show de São Paulo oscilou do folk mais cru (a emocionante Faust arp, com dois violões e ponto final) à eletrônica mais cerebral (a geleira chamada Idioteque) - e cobriu uma série de etapas intermediárias entre um extremo e outro. As canções menos virulentas acabaram se destacando - com momentos arrasadores como Karma police, Fake plastic trees, Exit music (for a film) e Pyramid song -, interrompidas vez ou outra por espasmos de ruído (Bodysnatchers, The national anthem). Síntese do show e da carreira da banda, Paranoid android foi reconstituída com fidelidade absoluta - e agarrada pelo público, que fez coro, prolongou os versos, não quis soltar. Sete minutos que passaram como sete segundos.

No total, ficamos perplexos por cerca de 2h20. Pareceu pouco. Eu ficaria ali, de pé, apertado pela multidão, talvez de cabeça para baixo, por mais quatro horas (ouvir Lucky e Climbing up the walls assim, no susto, é de provocar parada respiratória). O golpe de misericórdia veio no final do segundo bis, com uma versão acelerada para Everything in its right place: as luzes vomitavam os versos da canção mais surrealista da banda, enquanto Thom Yorke ia desaparecendo lentamente.

Sabemos tudo o que precisamos saber sobre o Radiohead. O resto é mistério.


Resenha por: Tiago Superoito
site> superoito

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Radiohead: Agora é oficial

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11:24
Foto por: João Leno Lima


Agora é oficial. O século 21, musicalmente, começou e quem veio pra mostrar e comprovar foi uma banda inglesa, de Oxford, a melhor banda de rock do mundo, também conhecida como Radiohead

Um outro inglês, Eric Hobsbawn, já tinha nos informado que o século 20 foi meio preguiçoso e só resolveu começar já entrado na adolescência, em 1914, com a Primeira Guerra Mundial. Apesar de meio temporão, o século 20 também foi um apressado, e resolveu se terminar todo bem antes da hora marcada, lá por 1989, com o final do império soviético.

Já são vinte anos e a gente aqui, batendo o pezinho e perguntando a nós mesmos qual o sinal ou sinais de que o novo século 21 começou e quando. Eu, pelo menos, entendi a mensagem no último domingo, quando o messias apareceu na forma do Thom Yorke, um vocalista desse tamanhinho e muito atormentado, que cantou os novos tempos e nós, mais de trinta mil seguidores, fomos junto. Que momento, minha gente! Até esse insensível aqui se emocionou e isso não acontecia desde, quando mesmo?

Porque eu não vou a shows. Já que somos íntimos, meus milhares de leitores e eu, posso confessar vários dos meus muitos pecados, em especial os piores. Não gosto de brócolis, não gosto de teatro, ou ao menos de atores vivos na minha frente, e não vou a shows por motivos parecidos.

Adoro música, como todos os leitores e o senhor aqui ao lado. Mas não sinto um interesse especial por músicos, que falam uma língua que eu entendo quando escuto a musica que fazem, e várias linguas que eu não entendo se estamos no mesmo bar.

Não só por isso. Shows, concertos de rock em espaços grandes, fazem parte da minha visãozinha do inferno, que inclui encontros evangélicos, festivais de axé e festa do peão boiadeiro. Pagar muito dinheiro, achar uma forma de transporte que nos leve e traga, enfrentar o calor, ou a chuva, ou ambos e, muito pior, os banheiros químicos, para finalmente ver lá longe em um palco um grupo de músicos que eu escutaria melhor em casa, simplesmente não faz sentido pra esse neto inconformado da minha avó Jovita.

E tudo isso eu enfrentei nesse ultimo domingo.

Já comecei treinando no sábado, rompendo com a minha norma de não ir ao teatro ou a shows e indo ver uma algo que era ambos, o confuso espetáculo Homemusica do Michel Melamed. Devidamente aquecido, lá fui eu Francisco Morato abaixo, até a distante Chácara do Jockey, um lugar que reúne todos os ingredientes que listei acima e ainda um suave cheiro de estábulo, uma beleza.

E não foi apenas isso: para finalmente poder ver em ação a melhor banda de rock do mundo, eu precisei ver a pior, enfrentando a indigência musical da Los Hermanos. Uma banda carioca chamada Los Hermanos deveria se limitar a churrascarias, e essa resolveu ganhar o mundo. Azar nosso. O oposto de amor não é o ódio, mas a indiferença. O oposto de boa música não é música ruim, mas musica que não faz diferença.

Portanto, prezados leitores, tudo que eu odeio em shows de rock se fez presente nesse show e o sofrimento foi, sim, enorme. Eu me senti como um peregrino se dispondo a fazer o Caminho de Santiago, pagando pelos pecados e por não gostar de brócolis, esperando apenas que tudo isso me trouxesse, ao final, uma visão do Senhor e um tubo de Cataflan em spray.

A visão eu tive. A visão deslumbrante de um espetáculo de grande música, de um tipo incomum e que melhor se constrói ao vivo, em um grande espaço, diante de uma multidão a ser convertida, na melhor síntese do que possa ser um espetáculo de rock nesses tempos e do que ele pode proporcionar, quando se dispõe a isso.

A nossa época, no que ela tem de civilizado, oferece dois momentos para o encontro de grandes números de pessoas. Jogos de futebol e concertos de música. Os jogos substituem as batalhas e os concertos substituem as igrejas, acho, talvez essa seja a razão para a força de uma banda messiânica, como U2, ou pseudo-satânicas, como Rolling Stones e toda aquela cambada do metal. Nesses encontros, a música cede lugar para um sentimento místico e estar presente é mais importante do que ouvir, mais ou menos como uma missa, nos velhos tempos. Nesse sentido, iluminação, efeitos especiais, telões, todos compõe essa construção do ambiente de templo. Isso se fez particularmente presente no palco da Radiohead, mas deixou de ser um problema segundos após a abertura do concerto, quando tudo aquilo fez absoluto sentido, essa sendo a maior diferença entre decoração e arquitetura. O que a Radiohead fez foi construir o seu templo e oferecer o seu ritual, a todos, até mesmo aos fans do Los Hermanos, que devem estar sofrendo as sequelas psicológicas até agora.

E o ritual da Radiohead era centrado no ouvir! O que seduzia era a música e não a iluminação ou os fogos de artifício. Os telões mostravam não os músicos, mas a manufatura da música, ali, sendo construída diante dos nossos olhos e ouvidos e esse discurso fundamental mostra porque Radiohead é a banda que é, tão superior, musical e conceitualmente a tudo isso que está aí.

Desde a abertura, com 15 Steps, até o final, com a tradicional Creep, tudo que a banda fez foi apresentar o seu som único e manter uma multidão presa a ele. Não importava se a música era conhecida, se tinha feito sucesso nas rádios ou na web, não importava a complexidade e relativa atonalidade de algumas construções, contra tudo, contra o século 20 e suas promessas de facilidades das ultimas décadas, a Radiohead manteve todo mundo atento, comendo o que era oferecido em um banquete ritual dos mais raros, talvez o único que eu tenha presenciado, salvo um comício com o Lula dos velhos tempos.

talvez por isso eu tenha sentido o século 21 entrando por ali, por alguma fresta. Aquela música representa ao mesmo tempo a continuidade do rock - em sua capacidade única de traduzir essa época de transformações intensas, o seu presente constante e aceleração rumo a um futuro mais e mais imprevisível -, com a era pós-industrial, centrada na multiplicidade, onde o diverso e o fragmental são áreas escassamente separadas. A musica do Radiohead nega a fragmentação, afirma a complexidade e aponta o caminho da salvação, a capacidade que precisamos desenvolver de nos sustentarmos na multiplicidade, e não na unicidade, dos discursos. A música que a Radiohead nos apresentou é a alternativa mais elaborada, porque compreendida por todos, para o fundamentalismo, e nosso século implorava por algo assim, para finalmente poder começar.



Resenha por: Marcelo Carneiro da Cunha
site> terra magazine.

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Radiohead inesquecível - Creep

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11:47

video

Gravei Alguns segundos históricos do radiohead em sampa.

Show para uma vida!

Show da década

show pra contar pro filhos...

...

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O dia que não terminou

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09:12

Às dez e pouco do último domingo começaram os gritos e ruídos que anunciavam a entrada do Radiohead no palco da Chácara do Jóquei. A noite estava clara, a temperatura amena e a anunciada chuva não veio. Ao meu redor, todos estavam na ponta dos pés, de pescoços erguidos, como se assim ficassem mais próximos do palco. Os britânicos entraram em cena e começaram o show com 15 Step. Som perfeito, o público não se continha.


Por alguns instantes ouviu-se pouco a música que vinha do palco. Eu não sabia se me deixava levar pela canção ou se prestava atenção à apresentação - só depois de um tempo eu soube equilibrar as duas coisas. A primeira música indicou o que as 30 mil pessoas que lotavam o espaço poderiam esperar das próximas duas horas. Na sequência, vieram There there, do Hail to Thief e National Anthem, do Kid A, disco que deu início à fase mais experimental do grupo.


No palco, via-se um equilíbrio entre feeling e profissionalismo. Thom Yorke parece sentir profundamente cada palavra e acorde que toca. Johnny Greenwood cuida feito louco para que saia tudo bem com os apetrechos eletrônicos que acompanham a banda desde Kid A. Durante o show, os telões trouxeram imagens dos cinco músicos em enquadramentos inusitados.


Apesar de os trintões de Oxford não terem dito mais que uns poucos "obrigados" entre as músicas, a comunicação com o público não poderia ter sido melhor. O auge foi ao fim de Paranaiod Andriod, um dos hits da noite. A música terminou, mas a galera não parou de fazer o backing vocal. Com o violão em mãos, Yorke entrou no clima e, em coro com a platéia, continuou a primeira voz, estendendo o final da canção. Isso foi no primeiro bis. A banda ainda voltaria ao palco outras duas vezes.


Dramas contemporâneos


O set list da noite teve por base o último disco, In Rainbows, que foi disponibilizado para download pela própria banda. A apresentação deixou claro porquê o Radiohead é um dos nomes mais importantes do pop contemporâneo. Os ingleses estão antenados com o que se passa em seu tempo. Em todos os sentidos. Tanto no que diz respeito às tendências musicais quanto à compreensão dos dramas do século 21. As críticas acerca do show foram unânimes em dizer que a noite foi histórica.


As coisas, no entanto, ainda me são um pouco nebulosas, confusas. É como se o último domingo ainda não tivesse terminado. A distorção pesada antes do refrão de Creep, que encerrou o espetáculo, ainda paira na memória. Junto a ela, o monte de copos plásticos espalhados pelo local após a apresentação e o estacionamento surreal, que trazia à tona a realidade de São Paulo. O evento refletiu bem as contradições da vida contemporânea nas grandes cidades, regada a desigualdades, congestionamentos, gás carbônico e consciência ambiental. A noite não poderia ter sido mais Radiohead.





Resenha por: Diego Dacax

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O show da década

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17:14

Difícil escolher por onde começar ao falar sobre o show do Radiohead, no último domingo, na Chácara do Jockey, em São Paulo. A esta altura, o caro leitor já deve ter lido de tudo na extensa cobertura feita pela internet – até mesmo boas gravações piratas já podem ser baixadas na rede. Mas há coisas que merecem a tinta do papel para a posteridade, e a noite de domingo é uma delas. Se o Radiohead mudou os rumos da música pop com o disco Ok Computer (1997), podemos dizer que a turnê atual, do disco In Rainbows, é a continuação desta revolução nos palcos.

O Brasil recebeu o show de rock da década. Que me perdoe o U2 e sua pirotecnia, mas a banda de Thom Yorke mostrou que não são grandes telões que fazem o rock virar arte. A escolha do set list, completamente intuitiva – as músicas de São Paulo foram diferentes das do Rio, sem prejuízo para nenhum dos lados –, demonstra a diferenciada relação que o grupo mantém com sua música. “Vamos com o que estamos sentindo”, definiu Thom Yorke em entrevista a Edgar Piccoli, antes do show. Enquanto o pessoal do Rio conferiu Street Spirit, No Surprises e Just, o de São Paulo ganhou Exit Music, Lucky e Fake Plastic Trees. Quantas bandas no mundo podem se dar ao luxo de fazer dois set lists perfeitos e diferentes em uma mesma turnê?

A infraestrutura do palco fica na medida certa entre o espetacular e o econômico: várias câmeras – pelo menos três delas sobre Yorke – garantem uma edição instantânea e frenética nos telões. A fantástica iluminação, assinada por Andy Watson, que trabalha com a banda desde 1993, é ecologicamente correta, consumindo apenas 30% da energia de luzes convencionais. O resultado é exagerado – no bom sentido. As lâmpadas finas e compridas garantem luzes que parecem dançar com as músicas. Mas nenhum desses detalhes supera a essência do que foi o show: uma banda no seu auge do ponto de vista artístico – coisa rara de aparecer por aqui – e em completa sintonia com o público.

Dois momentos resumem bem a atmosfera de êxtase que envolveu a Chácara do Jockey. Em Exit Music, o silêncio entre as 30 mil pessoas era inacreditável – nada além da voz e do violão de Thom Yorke podiam ser ouvidos. Em Paranoid Android, a música já havia sido encerrada quando a multidão entoou novamente, sozinha, os versos “rain down, camon rain down”, obrigando a banda a retomar alguns acordes e acompanhar o público. Até mesmo quem já havia assistido ao mesmo show fora do país (meu caso e de outros jornalistas com quem conversei) não tem dúvida em dizer que o de São Paulo foi superior e único. Os descontos: a desnecessária e desentusiasmada reunião do Los Hermanos – que teve um inevitável cheiro de caça-níquel – e a péssima infraestrutura do festival. Nada que vá impedir este show de ser lembrado como o grande show de rock dos anos 2000 – o show de uma geração inteira.

*** Texto publicado no Segundo Caderno da Zero Hora de hoje.

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No pé do arco-iris, uma banda de ouro

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14:38

É fácil, quase clichê, dizer que o Radiohead é uma banda histórica, o nome mais importante da música nos anos 2000. Está tudo ali: da fase "patinho feio do britpop", no começo de carreira, passando pelas guinadas de OK Computer-Kid A-Amnesiac e chegando ao tapa na indústria de In Rainbows, oferecido em MP3 ao público a preço livre.

Mas essa impressão só ganha peso ao se ver o quinteto interagindo no palco, cada um com sua personalidade, funcionando como uma orquestra bem afinada. Ao centro, Thom Yorke parece suar para resumir em si as características dos colegas: a estranheza do guitarrista Johnny Greenwood e o porte do grandão Ed O'Brien, mais a técnica do baterista Phil Selway e até o jeito pimpão do baixista Colin Greenwood.

Yorke não é estranho à toa. E leva a sério o seu papel de anti-herói do pop. No primeiro gemido de "15 step", que abre In Rainbows e deu o pé na porta do show, o vocalista já tinha agarrado o público pela espinha. Nem precisou do "boa noche" a seguir, uma das suas raras frases.

Afinada e esperta, a sessão de descarrego dos ingleses também passa pelo palco e sua iluminação, com dezenas de grandes pilares refletores: as luzes seguem as cores do arco íris, esquentando e esfriando o espaço, e chegam a "chover" durante "Paranoid Android". A descrição soa cafona, mas é eficiente. Ao fundo, o telão com jeito de videoclipe é dividido com as câmeras individuais dos músicos, focalizando cada um de um ângulo diferente.

In Rainbows pautou as duas horas de show: a banda tocou o ótimo álbum na íntegra, levantando a noite com a forte "Reckoner", a linda "House of Cards" e "All I Need". Mas é nos seus outros hits que o Radiohead conquistou os fãs, que esperavam este show há mais de uma década.

Como a passagem por aqui era inédita, a banda fez questão de incluir faixas que não fazem mais parte do circuito de shows do lado de lá do Equador. Foi um resumão de tudo o que a gente perdeu nesse tempo todo.

Hail to the Thief apareceu pouco, mas deu o duelo de tambores abrindo "There There". Assim como Amnesiac que, além de "Pyramid song" (com Johnny Greenwood tocando sua guitarra com um arco de violino), gerou um dos pontos altos da noite, já no segundo bis: Yorke ao piano, tocando "You and Whose Army?" e encarando a platéia diretamente nos olhos (tortos) com uma câmera em close. E, claro, "Fake Plastic Trees", representando The Bends, o segundo álbum.

Os clássicos Kid A e OK Computer foram os mais lembrados. "Idioteque" levantou o coro, "Optmistic" foi o momento hipnose e "Climbing up the Walls" teve Yorke cantando de um jeito mais selvagem que nunca. Aqui e ali, o grupo se esforçava para surpreender e mudar os arranjos das faixas. Johnny, por exemplo, se divertia em usar um velho rádio para samplear emissoras locais durante algumas faixas, como "The National Anthem".


Depois do segundo bis (que acabou com "Everything in its Right Place"), a banda volta ao palco e Yorke oferece "Creep", o sucesso da sua outra encarnação, para acabar com a noite. Ele explode ao microfone, o público explode no coro e o palco explode em luz e interferência, como ainda não tinha acontecido
É como se tivessem guardado algumas surpresinhas para a platéia ainda virgem. E mostra que, mesmo demorando, a banda aportou por aqui no momento certo - se essa passagem única acontecesse há cinco anos ou daqui a cinco anos, não teria metade da relevância que teve agora.

Resenha por: Eduardo Viveiros

Site> Omelete

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Radiohead para fãs – espera recompensada

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14:09
Se você está lendo esta resenha, é o tipo de pessoa que, de algum modo, vai saber responder à pergunta: “onde você estava quando o Radiohead tocou no Brasil?”. As respostas podem ser inúmeras: “Viajei de Recife para ver os dois shows”, “só fui no Rio”, “vi pela TV”, “fiquei do lado de fora negociando com cambistas”, “eu trabalhei”, “fiquei com raiva do preço (ou do tamanho do público, ou da distância do local do show) e resolvi passar o domingo em casa”.

Provavelmente deve ter alguma história sobre como conheceu a banda: comprou o CD importado do álbum “The bends” ou a edição nacional de “Ok computer” após ler alguma resenha, baixou por curiosidade o primeiro pirata de “Kid a”, ou fez download gratuito (e legal) de “In rainbows”. E deve ter aguardado ansiosamente, desde então, o dia em que a banda tocaria ao vivo no Brasil.

Mas como diria o quinteto inglês em uma de suas próprias canções, “true love waits” (“o amor verdadeiro espera”). E o Radiohead se esforçou em cada momento de seu show para fazer a espera valer. Começando pelo repertório: no primeiro bis, o set list inicialmente incluía “Wolf at the door”, mas a música foi trocada para “Fake Plastic trees”, um dos maiores hits do grupo no país.

Foi uma apresentação para fãs fiéis, daqueles que conhecem todas as músicas de “In rainbows” (o álbum de 2007 foi tocado na íntegra) ou a letra do lado b “Talk show host”, da trilha sonora do filme “Romeo + Juliet”. Em retorno, a banda sorria, pulava, dançava, olhava feliz e perplexa (como deve fazer noite após noite) para a plateia.

O Radiohead não é uma banda comum, e eles demonstram isso até na hora de fazer o público participar do show. Além das tradicionais palminhas e mãos para cima, a banda grava a própria plateia cantando e depois toca a gravação de volta, gerando momentos emocionantes como em “Karma police” e especialmente “Paranoid android”, quando a música virou um dueto entre o público e o vocalista Thom Yorke.

Arriscando uns “obrigado” e “boa noitchi”, Yorke foi o mestre de cerimônias tímido que o som do Radiohead promete e precisa. Sorri, canta de olhos fechados, faz gestos para o público, dança desajeitadamente, fala pouco. Em um dos momentos mais estranhos e intensos do show, para em frente da câmera (uma das inúmeras espalhadas pelo palco, mistos de webcam com vídeo de segurança) instalada no piano, olhando fixamente enquanto canta “You and whose army” – vai se aproximando, e a lente parece que vai perfurar seu olho.

Desde “Kid a”, o Radiohead vem ensinando como se fazer rock sem usar guitarras – isso faz com que Ed O’Brian e Jonny Greenwood transformem-se em muilti-instrumentistas, tocando percussão, teclados, samplers e o que mais vier pela frente. Por outro lado, exploram o potencial das próprias guitarras – assim como Jimmy Page do Led Zeppelin, Greenwood chega a usar um arco de violino para tocar “Pyramid song”.

Além do telão mostrando as imagens das câmeras fixas apontadas para a banda, o palco também é adornado por uma série de colunas luminosas, que vão mudando de cor a cada nova música.


Mas o principal personagem do show foi o próprio público, reagindo entusiasmado o tempo todo a um som nem sempre convidativo ou “fácil”, pulando, acendendo isqueiros, pedindo músicas, dizendo que “o mundo pode acabar agora”, chorando, ficando no mais absoluto silêncio. Foi para aquelas duas horas e vinte minutos de show que cada uma das trinta mil pessoas esperaram por muito tempo (uns doze anos, outros nove, outros dois). E o pacto informal entre banda e plateia foi cumprido à risca: todos ali fizeram valer a pena, até o fim.

Radiohead

Chácara do Jóquei, São Paulo,

Brasil22, Março, 2009

Resenha Por Amauri Stamboroski Jr.

para o portal G1]

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22 de março de 2009, Chácara de Jockey, São Paulo

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13:44

Depois de uma estréia histórica no Rio de Janeiro, a banda rumou para São Paulo e lá mudou o repertório, surpreendeu ainda mais quem já havia visto a banda no Rio ou fora do Brasil e não fez concessões comuns a bandas que se apresentam por aqui (camisa da seleção brasileira, bandeiras nos amplificadores, etc). Não deixou espaço para mais nada além de seu espetáculo.

E que espetáculo! Talvez seja um pouco cedo para definir como histórico o último fim de semana, mas ao mesmo tempo não dá pra escapar do clichê. O showbiz brasileiro já pode se dividir entre antes e depois da visita do Radiohead ao país (esperamos que seja a primeira de muitas). Perto deles, quase todos os outros shows viram brincadeira de criança e alguns soam até mesmo amadores (inclusive os dois que abriram o tal "Just a Fest": Los Hermanos e Kraftwerk). O leitor pode achar que este escriba está exagerando. Sou obrigado a me defender colocando na roda a pesquisa informal que fiz pela Chácara do Jockey.

O Instituto Datajames perguntou a alguns presentes o que haviam achado do show. As respostas não foram iguais, mas todas rumavam para a mesma direção: "histórico", "melhor show da minha vida", "incrível", "inacreditável". Não houve quem não gostasse. Zero porcento. O Radiohead conseguiu 100% de aprovação e não é difícil entender o porquê. Banda amada pelos indies, prometia uma visita ao país há mais de dez anos. Possui um séquito de fãs fiéis e influenciou gerações e gerações de músicos e amantes da boa música. Ainda assim você pode afirmar que isso tudo é exagero. Bem, então você não viu o show.

No palco, o Radiohead é ainda melhor. Cenário, iluminação, performance cênica e musical, setlist, tudo funciona! E tudo é perfeito. Por vezes chega a ser inacreditável que aquele som é produzido por apenas cinco pessoas. A diferença está exatamente na competência. Enquanto a elegância de Ed O Brien e a postura guitar hero de Jonny Greenwood constroem camadas e camadas de guitarras e climas, a cozinha absurda de Colin Greenwood e Phil Selway parece ser discreta e não se sobressai. Apenas parece. E Thom Yorke? O "ratinho" mais famoso da música mundial canta como poucos, é carismático, capaz de deixar a multidão sem fôlego, mas ao mesmo tempo é tímido de dar dó. Um contrasenso? Sim, mas o que seria da banda sem este delicioso contrasenso?


o que dizer do setlist do show? Diferente em uns 60% do show do Rio, a banda mostrou uma faceta um pouco mais indie, ao tirar da cartola pérolas como "Optimistic" e "Pyramid Song", mas sem se esquecer dos hits. Difícil mesmo é apontar destaques, mas talvez a comunhão público-banda na dobradinha "Paranoid Android/Fake Plastic Trees" e a versão de tirar o fôlego de "Exit Music (For a Film)" tenham sido os destaques.


Sim, teve "Creep" e um final apoteótico. Teve também todo o álbum "In Rainbows" e mais pérolas ("Climbing Up The Walls", "You and Whose Army"). E teve também uma mensagem de uma amiga hoje de manhã, que eu vou reproduzir na íntegra:


"James, to totalmente sequelada do show. Acordei hj e fui direto comprar um violão. Mais uma cantora de chuveiro que renasce das cinzas"


É este tipo de reação que um show do Radiohead causa nas pessoas. Ninguém fica indiferente. Em inglês, existe a expressão "of a lifetime". A tradução semi-literal seria "show para uma vida".


E foi mesmo.




SETLIST



15 Step (In Rainbows)


There There (Hail To The Thief)


The National Anthem (Kid A)


All I Need (In Rainbows)


Pyramid Song (Amnesiac)


Karma Police (Ok Computer)


Nude (In Rainbows)


Weird Fishes/Arpeggi (In Rainbows)


The Gloaming (Hail To The Thief)


Talk Show Host (B-side - Trilha Sonora do filme Romeu e Julieta)


Optimistic (Kid A)


Faust Arp (In Rainbows)


Jigsaw Falling Into Place (In Rainbows)


Idioteque (Kid A)


Climbing Up The Walls(Ok Computer)


Exit Music (For A Film) (Ok Computer)


Bodysnatchers (In Rainbows)


Encore 1


Videotape (In Rainbows)


Paranoid Android (Ok Computer)


Fake Plastic Trees (The Bends)


Lucky (Ok Computer)


Reckoner (In Rainbows)


Encore 2


House of Cards (In Rainbows)


You and Whose Army (Amnesiac)


True Love Waits (I Might Be Wrong)/Everything In Its Right Place (KidA)


Encore 3


Creep (Pablo Honey)


Resenha por: Rodrigo James

Site> programaaltofalante.uol.com.br

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RADIOHEAD: W E H O P E T H A T Y OU C H O K E

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13:27


A fase In Rainbows do quinteto inglês Radiohead é seu momento mais alegre, era de maior doçura desde que a banda inglesa assumiu a cabine da nau que leva o rock pelos mares profundos da experimentação eletrônica, eletroacústica e orquestral. Aportados na fama, a banda ganhou leva de fãs e apontou um novo modo de criar música pop. O show apresentado no Just a Fest foi a perna latinoamericana da turnê madura de uma banda que não quer ser a maior do mundo, apenas é naturalmente atual.



Tudo fluiu para que o grupo encantasse: o dub opiáceo no intervalo, o suntuoso palco dórico de som cristalino (sem logotipia), a psicodelia política das bandeiras do Tibete, os tubos acortinados que, como bits gigantes decorativos, podia ser um vela flutuante, um mármore caramelizado, ou o mais puro vermelho sanguinário e estróbico. Tudo no show deles soa novo ou simplesmente estupefato. Os holofotes eram paradoxalmente lindos, em forma de brilhantes, ao mesmo tempo que o telão exibia closes viscerais do rosto de Thom Yorke cantando. Ou gemendo, porque a musicalidade do quinteto é tanta e a resposta do público era tão proporcional, que ele só precisava balbuciar para assumir tons de um barítono púbero.



Foram 20 e poucas músicas, mais de duas horas, três bis e todas aquelas que milhares de fãs queriam ouvir. "Creep" foi redentora e encerrou com o palco fluorescente e cores epilépticas. A banda e seu "you're fucking special" subvertem a o american dream roqueiro de banda perfeita, carismática e bonita. E isso sem bater continência a qualquer outro engodo que, assim como os EUA, a Inglaterra pode criar. Num só riff e gemido de "Lucky", Ed'O Brien engole e vomita tudo que Pulp, Strokes, Oasis, Blur e o britpop criaram em anos. Eles são tímidos e reservados, mas não humildes - apenas objetivos. "The best you can is good enough" (em "Optimistic") resume bem as sempre pontuais intenções da banda, enquanto guitarras flamejantes empurravam a tensão até uma explosão de luzes de lava e epopéia rocker, a bateria posta estratégicamente lá atrás para exigir mais de Phil Selway.



Ali na muvuca do meio, não muito longe de Thom mas também não no gargarejo, as reações eram múltiplas: berros e saudações, canto espontâneo - palmas, muitas palmas - e um bingo de fã pedindo, decifrando ou adivinhando o nome de alguma canção, o que criava uma mistura de verbetes extranhos como "subterranean telex just, just! JUST! paranoid android"... Nessa confusão do som pós-moderno os hits, momentos tão humanos e identificáveis entre artista e público. "Paranoid Android" consumiu um bloco inteiro com seu refrão detentor de guitarra arisca e suja, o back2back entre o público na letra certa e Yorke cantando inverso, toda uma missa Radiohead com ápice na moribunda e acústica "Exit Music": o céu estrelado, notas flutuantes e assustadoras de Jonny Greenwood e público em silêncio cantando o vale das almas. "Breathe, keep breathing"...



Em "The Gloaming" (o crepúsculo), a dicotomia rock e eletrônica da banda teve seu ponto alto, com o verde cor de bit, a base dubstep achatada e Thom Yorke cantando mais melódico e delicado do que o que se ouve no disco (Hail to The Thief, 2003), quando no final alguém na mesa ou sei lá onde picota a saída do microfone em diferentes caixas e lugares no espaço. Mais intervenção na inserção de rádio local em "The National Anthem", que Yorke explica em sua única e boa entrevista ao Brasil; e também na gravação do barulho e das reações da platéia perto do fosso, utilizadas como interlúdios e camadas de um modo que não se entendia de onde vinha aquele som. É como um grande "live act", em que tudo é construído e orquestrado ali. Como quando alguma guitarra geme e os bumbos são golpeados em marcha por Ed e Jonny, Thom dançando esquisofrênico e bizonho, até que num pulo ele para tudo o que acontece, a música acaba e ele no mesmo instante vai até a lateral e conversa algo muito que precisamente com alguém da produção.

Como dito, In Rainbows é doce, quase pueril, mas quente - em "House of Cards", o infalível verso "I don't wanna be your friend / i just wanna be your lover". Sobre a doçura, "Weird Fishes/Arpeggi" e "Reckoner" são tão possíveis de associação com a infância quanto "Fake Plastic Trees", conhecida aqui por uma campanha de TV para crianças deficientes. Em "Videotape", o espamo de delicadeza de Thom (que ele comenta na entrevista do Edgard Piccoli) abre para um dos encerramentos, o arpeggio de "Everything in It's Right Place" e a acidez do limão matinal.

E o show é mesmo como um choque, que frita o cérebro e arregala os olhos alma adentro a serviço da expressão humana, algo muito além de rock'n'roll, música eletrônica, "coisa de depressivo" e uma ou duas canções famosas. Para os iniciados, Radiohead ao vivo é a entrada tridimensional para um mundo sonoro e visual de questões conflituosas e canções dançantes e assustadoras - o que importa é que elas são intensas.

Os não-iniciados puderam entender mais a banda nestes shows brasileiros, e fica a apresentação de uma epopéia sonora e confusa, mas fascinante como o brilho mais intenso de um diamante luminoso em forma de LED, ou o simples e contagiante solo de guitarra dançante. Mesmo que não tenha despertado o deslumbre, a incompreensão é prova da amplitude artística da banda.

Para muitos do que saíram da Chácara do Jockey, algo muito sério acabara de acontecer. Ficou a sensação abobada de ver o espetáculo musical mais significativo da nossa geração, com todos os superlativos que sua alma disconexa possa arranjar. Nós vimos o futuro, e ele estava logo ali.

Fotos: Julio Taubkin, Alisson Gothz, Marcos Hermes e Bianca Tatamiya

Resenha de: Jade Augusto Gola

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