Atentado em Paris contra o Charlie Hebdo: o horror

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08:47

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por PRCF

 

Saídos das trevas medievais, terroristas abateram friamente homens desarmados. Estupor e indignação. Doze mortos, feridos graves... Partilhamos a dor e o horror ressentidos pelos próximos das vítimas e pelos cidadãos de todas as convicções amantes da laicidade e da liberdade de expressão, por todos aqueles que recusam que fanáticos restaurem sobre o nosso solo o pretenso "delito de blasfémia" abolido pelas leis laicas e façam reinar o terror clerical. Um pensamento especialmente particular para o nosso querido Wolinski que foi, durante décadas, um dos raros desenhistas a combater o anticomunismo, o anti-sovietismo e a defender com coragem Cuba socialista . O PRCF condena este horror absoluto e seus autores que não merecem nenhuma espécie de desculpa.


PARA ALÉM DO HORROR, DEVEMOS ENFRENTAR TAIS ACTOS COM SANGUE FRIO E ANALISAR O QUE ESTE CRIME REVELA


Ninguém conhece claramente os instigadores deste atentado neste momento. Ora, Marine Le Pen acaba de denunciar um atentado dos "fundamentalistas islâmicos". Esta hipótese é evidentemente plausível mas não é senão uma hipótese e há uma vontade provocação na proposta da FN que espera certamente aproveitar os acontecimentos para dinamizar seu empreendimento xenófobo. Não esqueçamos as 77 pessoas assassinadas pelo nazi Anders Breivik na Noruega ou os quarenta sindicalistas queimados vivos emOdessa pelos nazis apoiados por Kiev. Os integristas religiosos não têm o monopólio do terror, longe disso!


QUANTO AO FUNDAMENTALISMO ISLÂMICO, QUEM O ARMA? QUEM O INSPIRA? QUEM O FINANCIA? QUEM O FAZ PROSPERAR?


O governo dos Estados Unidos e seus vassalos, a Arábia Saudita, o Qatar, certos governos de países muçulmanos na bota da NATO. São estes que têmn recrutado e utilizado os integristas contra os comunistas árabes, contra o movimento operário e democrático destes países: os Estados Unidos sustentaram Ben Laden e seus torcionários contra o governo popular afegão e contra o Exército Vermelho que o governo de Cabul havia chamado para ajuda em virtude de um tratado de assistência conforme ao direito internacional. Recorde-se de Sadate que utilizou os Irmãos Muçulmanos contra os progressistas egípcios. Ainda hoje quem arma e financia Daesh senão os regimes amigos dos imperialistas do Qatar ou do Koweit cujo inimigo principal é a Síria independente e soberana?


Que se recorde também de quem fez assassinar o chefe de Estado da Líbia pouco se importando por entregar este país próximo das nossas fronteiras aos integristas fanáticos: trata-se dos srs. Sarkozy, Cameron e Obama que respondiam então às pregações do grande cruzado ocidental BHL (Bernard-Henry Lévy). Na realidade, o fundamentalismo islâmico é uma das criaturas do imperialismo, criatura que por momentos, segundo um esquema clássico, volta-se contra o seu criador: Sadate abatido pelos Irmãos Muçulmanos, 11 de Setembro em Manhattan, os Talibans voltam-se contra os ocidentais depois de terem linchado aos milhares os estudantes, os comunistas e os professores laicos que alfabetizavam o país...
A QUEM APROVEITA O CRIME?


Esta deve ser a pergunta. Quais são as forças políticas que prosperam sobre o racismo anti-árabe? Quais forças políticas querem substituir a realidade da luta das classes pela fantasmagórico luta das raças, das etnias, das religiões? São as forças da fascização galopante , onde elementos da direita clássica juntam-se cada vez mais aos semeadores de ódio da FN com o apoio de pseudo-intelectuais como Zemmour. Mais do que nunca, esta estigmatização permanente das populações muçulmanas ou classificadas como tais alimentam, sem os legitimar, os piores ressentimentos. E por sua vez, estes permitem aparentemente "justificar" o ódio do trabalhador muçulmano numa espiral que é preciso romper antes que resulte na fascização do nosso país e de toda a UE, a qual não pede senão isso (conferir Ucrânia, países bálticos, Hungria, direita dura flamenga, etc).


E qual força social vendo pela frente o risco de uma revolução social tenta fazê-la desviar, apodrecer, matá-la transformando-a em luta interna nas classes populares de origem ou/e de religiões diferentes que poria em abrigo seus interesses de classe? O grande capital!


EM QUAL CLIMA IDEOLÓGICO ESTE CRIME ESPANTOSO TEVE LUGAR?


É o da fascização da sociedade, da campanha mediático-ideológica em torno dos Zemmour, Soral, Dieudonné, em torno do bobo islamófobo Houellebecq, de um racismo anti-trabalhador árabe cada vez mais aberto, pela recusa de um presidente de municipalidade a enterrar um bebé cigano (rom), pelas declarações de um primeiro-ministro julgando os ciganos "não integráveis", em suma, num clima apodrecido que recorda as horas mais sombrias do nosso país.


O GOVERNO HOLLANDE NÃO ESTÁ INOCENTE NA CRIAÇÃO DESTE CLIMA MORTÍFERO!


Por espírito neocolonial e por submissão à UE-NATO, ele impeliu ainda mais longe que Sarkozy as ingerências no conflito sírio, as práticas neocoloniais intervencionistas da Françáfrica (Costa do Marfimn, R. Centroafricana, Mali), as escaladas contra o Irão, o apoio apenas disfarçado ao massacrador Netanyahou, sempre continuando a compactuar diariamente com os piores regimes feudais do Golfo. Como sempre dissemos, o combate contra o terrorismo fanático na própria França é inseparável da luta contra "nosso" imperialismo, que criar dia-a-dia o terreno propicio para as violências mais selvagens.


EIS PORQUE O PRCF REJEITA CATEGORICAMENTE A "UNIÃO SAGRADA" POR TRÁS DE HOLLANDE E CAZENEUVE


Em graves dificuldades no terreno social, estes vão muito certamente explorar a situação para acentuar os ataques contra os direitos sociais adquiridos e contra as liberdades (cf nossa denúncia da recente lei Cazeneuve de que se fez prova de que reduz ainda mais nossas liberdades sem diminuir a força de ataque dos assassinos). O Polo dos Renascimento Comunista em França apela, pelo contrário, a uma grande "Frente antifascista, patriótica e popular voltada para o progresso social, a laicidade republicana verdadeira, as liberdades democráticas, a paz, a soberania nacional, contra o grande capital e sua UE atlântica pois a corrida ao lucro máximo semeia o caos no mundo inteiro.


Os assassinos, os degoladores, os fanáticos, os manipulados e os manipuladores encontrão diante deles os comunistas que farão tudo para reforçar sua unidade de acção e para permitir a constituição de uma vasta Frente Antifascista, Popular e Patriótica tendo em vista um novo Conselho Nacional da Resistência. Conclamamos nosso povo a um imenso sobressalto progressista e republicano para barrar o caminho à peste que ganha terreno, pois quer se camufle em verde, em negro, em azul mariano, em azul-marinho ou em castanho, o fascismo serve sempre os mesmos interesses: os do capitalismo.
A melhor resposta aos assassinos é nossa unidade de combate, nossa determinação, nosso sangue frio e a perspectiva de uma sociedade desembaraçada da exploração da miséria, do imperialismo e da guerra, a perspectiva do socialismo.


Sempre condenando sem a menor restrição os assassinos, não nos deixamos encerrar no "choque das civilizações" com que sonham os cruzados de todas as plumagens: avancemos sem enfraquecer a luta das classes e construamos por toda parte a resposta social à euro-austeridade para que no 10º aniversário do 29 de Maio de 2005 (não à euroconstituição), ascenda a exigência de uma república social, soberana e fraternal desembaraçada do capitalismo, do imperialismo e do fascismo .

07/Janeiro/2015/16h15


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  • O original encontra-se em www.initiative-communiste.fr/...
  • Este comunicado encontra-se em http://resistir.info/ .
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    07/Jan/15

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    Nebraska e a permanência daqueles que amamos

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    09:58

    Quem cuidará de nós nos derradeiros anos de nossas vidas? Esta é só uma entre tantas perguntas implícitas em Nebraska, último filme de Alexander Payne de (Os Descendentes, 2011 e Sideways - Entre umas e outras, 2004) lançado em 2013, mas que estreou no Brasil apenas em 2014.

     

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    E esse questionamento assustador é vivido com maestria por Bruce Dern na pele de  Woody Grant, um idoso que ao receber um panfleto publicitário pelo correio, passa a acreditar cegamente que ficou milionário. Grant quer viajar para o estado de Nebraska, andando se for o caso, para receber o prêmio. O roteiro escrito por Bob Nelson vai aos poucos escancarando as feridas e as relações do patriarca da família com seus próximos. Isso envolto em um preto e banco estático, quase desbotado, como o percurso do tempo, em personagens perdidos em meio ao fim das grandes ilusões do mundo. Tudo na fotografia magistral do ateniense Phedon Papamichael. Em sua terceira parceria com Alexander Payne.

     

    Como são frágeis as relações humanas. É o que parece sugerir a película em sua jornada adentrando o passado de Woody. Alcoólatra e absurdamente teimoso, não muito distante da realidade de muitos senhores de idade que conhecemos. Sua história com cada um dos dois filhos, esposa, amigos, conhecidos, o próprio país, tudo parece desaguar num limbo daquilo o que foi um dia e que jamais retornará. Grant, ao saber que está possivelmente rico, depara-se, quase, inconscientemente, com velhas dívidas e cobranças. Vem à torna, questões do passado e o peso de quem ele foi. Emergem em disputas ocultas e verdades sendo confessadas. Em meio à crise econômica, famílias se desfazendo, antigos sonhos americanos sendo destroçados pela realidade dos fatos, tudo é condensado em uma grande panela de pressão de palavras que implodem inevitavelmente.

     

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    O que você vai deixar para seus filhos? Ou, o que você vai deixar para as outras pessoas? Outro ponto relevante nesse trabalho de Alexander Payne. Ao ser questionado pelo filho David Grant (Will Forte) sobre, o porquê, querer tanto ficar milionário neste - ponto da vida - Se ele já tinha tudo que precisava, o impetuoso Sr. Grant releva que quer deixar alguma coisa para os seus descendentes. Até então, para nós, era apenas uma estripulia da meia idade, mas agora sabemos que existia uma causa permanente, singela e desesperadora em toda essa obsessão pelo eventual bilhete premiado. Automaticamente nos perguntamos: O que vamos deixar? Nosso caráter? Nossa moral? Nossa casa? Nosso amor pela pátria? (Woody Grant era um veterano da Guerra), um bem material, imaterial? Depende de cada um responder. Uma resposta que não será dada por nós, certamente.

     

    A solidão e iminência da morte. A fantástica atuação de Bruce Dern se mostra quase como um espelho, do que, por ventura, podemos nos tornar. A realidade de que o tempo permanece voraz em nossa pele, em nossa sanidade, em nossas palavras e gestos. A solidão do incomunicável. Do não poder locomover-se, não como antes, das necessidades de ter alguém por perto, das mudanças de humor, o passado como um retrato distante e impenetrável. O ciclo da vida seguindo em seu leito natural para o esquecimento, ou não. Nunca saberemos.

     

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    Aqueles que nos amam, permanecem conosco. No final das contas, já nos fins dos dias, só aqueles que de fato viveram com verdade ao nosso lado é que são provas da existência do amor. Como o jovem David Grant, que mesmo sabendo que tudo terminaria em uma frustrante constatação, acompanhou o pai nesta insana aventura e o fez para se reaproximar. Unir a família novamente, todos juntos, com seus defeitos e qualidades. Essas sim são as memórias que devem ser carregadas eternamente. A vida, um único percurso, para errarmos ou não, mas nunca deixarmos de viver.

     

    Nebraska é daqueles filmes que nos tomam. Pela experiência com a arte. Pelo olhar ácido, corrosivo sobre a realidade da vida, mas também um trabalho que versa sobre as relações que realmente valem a pena. O seguir em frente como um ato natural e o amar, como aquilo que ficará impregnado em nosso rastro oculto.

     

    Um grande filme, uma bela obra prima de Alexander Payne.

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