Imagem | Kyle Thompson
Imagem | Kyle Thompson
“O poeta existe para impedir que as pessoas parem de sonhar.”
Por | Andrey Tasso
Nasceu na São Paulo da década de 30 e se foi em pleno século 21, mas foi certamente para provocar alucinantes orgias com Rimbaud e Allan Ginsberg nas dimensões dos poetas malditos e para pichar os mantos brancos dos anjos com eróticas poesias xamânicas e marginais. Roberto Piva escreveu algumas das mais delirantes e rebeldes paisagens da sua geração. Com forte referência surrealista, sob a batuta de André Breton e Dali, chamando Mário de Andrade, Rilke e Jorge de Lima para um jogo de transgressão e utopia. Antes, Piva foi lançado na Antologia dos Novíssimos (São Paulo: Massao Ohno, 1961) mas seu primeiro livro, Paranoia, lançado em 1963 pela editora Massao Ohno, é um clássico oculto, à margem da realidade previsível das rimas e das temáticas do amor e do ufanismo idiotizante. Piva crava seu olhar acidamente febril em São Paulo, suas vielas, sua juventude libertária, suas tramas invisíveis nas esquinas do prazer e do homoerotismo enraizado.
Ao saltarmos no urbanismo cinzento do poeta paulistano nos damos conta que a beleza obvia foi dizimada entre longos períodos serpenteando nossas percepções a fim de nos envenenar com líquidos ejaculados de catarse e turbulentos aniquilamentos. Paranoia começou a ser construído no contato e no estudo de Piva sobre A Divina Comédia de Dante Alighieri, realizado no final da década de 50. (Roberto Piva fez o curso com Edoardo Bizzarri no Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro). Foi fundamental também para a sedimentação e amadurecimento dos seus versos a experiência com William Blake, Hölderlin e dos alemães Gottfried Benn e Georg Trakl. Falando aqui do Brasil, Murilo Mendes foi um dos grandes nortes do mestre Piva. O poeta mineiro de versos que bailavam entre o abstrato e visões onírico-celestiais que sopravam as saias das meninas castas e observava a chuva como um fotógrafo Magrittiano sedento pelos corpos da beleza íntima das coisas ajudou a esculpir a desolação ambígua da obra.
Paranoia, vai nos contaminando com doses metafísicas de caos, como em "Jorge de Lima, panfletário do Caos" ou versos como “A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem de morfina” do poema “Praça da República dos meus Sonhos". Para adentrar em mais um elemento alquímico da obra, Piva relatou algumas experiências com alucinógenos e outras translucidas substâncias, aproximando-se da geração Beat de William Burroughs e Allan Ginsberg, estampado em poemas como “Os anjos de Sodoma”, por exemplo.
Mas é no desbunde da alma com entorpecimentos múltiplos vazados pelos dedos e por sua vagina transparente que Roberto Piva se releva um bruxo marginal que sai para roubar alguns livros ao lado de Baudelaire e Artaud. São Paulo ou a “Paulicéia desvairada” dos anos 60 na visão lautreamonteana de Piva vai sendo aos poucos revelada. Violada em sua pálida virgindade, agredida à tapas por um Sade doentio que se esconde nos cabelos das putas e dos bêbados e barbudos declamadores incendiários do futuro. Para o poeta, a cidade que é era paranoica e não ele e vamos sendo convencidos a tirar a roupa de nossos pudores homeopáticos e participar deste ritual que romperá os laços acadêmicos de nossos sentidos.
Essa poesia alucinatória dos detalhes rendeu a Piva a honra de ser um dos três únicos escritores brasileiros a fazer parte do Dicionário Geral do Surrealismo, publicado na França em 1965 e dirigida por ninguém menos que André Breton. (Os outros foram o Claudio Willer e o Sérgio Lima).
Paranoia foi relançado pelo Instituto Moreira Salles em 2000 ainda com as fotografias e desenhos de Wesley Duke Lee e o prefácio do jornalista Thomaz Souto Corrêa e se mostra atemporal em todos os seus sentidos vertiginosos. Piva dobrou a esquina deste mundo em 2010 depois de complicações renais mas sua poética ou seu “impulso pelo irracional” é mais atual do que nunca. Na Paranoia diária do cotidiano, nos jovens mortos em sua própria ânsia consumista, no trânsito louco e assassino das grandes cidades, na hipocrisia nefasta e no preconceito psicopata, os marginais de ontem se foram e nossos marginais não tem ética, não tem código, não conhecem Nietzsche ou Maiakóvski, querem apenas o último celular da moda e uma moto para “charlar” com suas patricinhas onde a academia é sua biblioteca vazia.
No lema “só acredito em poeta experimental que tem vida experimental” Roberto Piva nos entregou uma obra prima da poesia nacional que reflete suas intensas manifestações diárias, seu olhar cirurgicamente nebuloso, seu descabelado berro ou seria um gemido de transgressão dionisíaca gozando sobre as costelas da normalidade?. O mal-estar Piviano é onipresente e convida nosso imaginário a voos não-piedosos que levam ao transe, à transa, de sentidos ou ao pessimismo modernistas, do suor às constelações cinzentas do eu. Corremos o risco de nos tornamos “arcanjos de enxofre” querendo assim como ele quis um dia, a destruição de tudo que é frágil.
Assim diz o último verso de Paranoia “Eu sou uma alucinação na ponta dos teus olhos” Piva e sua poesia estão prontas para nos fazer ficar “sonhando pendurados” em versos da eternidade.
Livros |
Paranóia, 1963
Piazzas, 1964
Abra os olhos e diga ah!, 1975
Coxas, 1979
20 Poemas com Brócoli, 1981
Antologia Poética, 1985
Ciclones, 1997
Um Estrangeiro na Legião: obras reunidas, volume 1, 2005
Mala na Mão & Asas Pretas: obras reunidas, volume 2, 2006
Estranhos Sinais de Saturno: obras reunidas, volume 3, 2008
ContinueFotografia | Andre Kertesz
Ser contemporâneo é andar de cabeça baixa com seu aparelho de última geração daquela marca famosa que ninguém conhece de fato, atravessando a rua ou indo para o ponto de ônibus ou simplesmente batendo um selfie no meio do grande congestionamento cotidiano. Talvez ser contemporâneo seja pedir a volta da ditadura porque a também distorcida democracia ouviu alguns e não outros. Ou não, ser contemporâneo é ouvir música sertaneja que não é sertaneja, funks ostentação que ostenta apenas o desejo consumista e não a verdadeira conta bancária, ou usar o photoshop para forjar uma viagem pelos lugares mais belos do mundo. Meu Deus, ser contemporâneo é ofender pessoas de outras regiões por sua condição educacional e seus benefícios perante o governo. Ou simplesmente ser contemporâneo é atacar com racismo porque de fato o time de futebol é mais importante que as pessoas. Contemporâneo deve ser um apresentador que se diz vítima de racismo por ser branco ao mesmo tempo em que oferece uma banana nas redes sociais para uma pessoa negra.
Definitivamente ser contemporâneo deve ser fazer uns ‘rolezinhos’ para causar aquela impressão perante a sociedade e buscar aqueles minutinhos de fama. Quem sabe ser contemporâneo é roubar um carro mesmo sendo da família rica apenas para “causar”. Quem sabe ser contemporâneo é dirigir alcoolizado e matar pais de famílias e/ou arrancar os braços de algum jovem negro. Ou quem sabe ser contemporâneo é deixar os filhos serem vítimas da psicologia dos publicitários ou as filhas andarem mais pintadas que alguma dama já envelhecida de batom ultrapassado. Contemporâneo é falar em sustentabilidade para soar relevante. Contemporâneo é não se apaixonar por ninguém nem por nada e sim beijar todas as bocas possíveis e no fim da noite deitar com aquela mulher ou homem que no final das contas te fará menos solitário por algumas horas. Ser contemporâneo é fazer intercâmbio e depois voltar deprimido de morar no seu próprio país. Ser contemporâneo é sair nas ruas para protestar, mas só que não, era apenas para tirar umas fotos e jogar no Instagram. Não sei, acho que ser contemporâneo é cultuar a violência mas querer a paz. Hum, acho que ser contemporâneo é espancar mulheres porque enfim, elas resolveram terminar o relacionamento.
Ou melhor, ser contemporâneo é ler livros sobre sedução, ser espontâneo e verdadeiro para quê? Ser contemporâneo é desprezar os grandes autores do cinema e venerar algum grande filme de vampiro adolescente, porque afinal, são menos chatos e mais populares. Ser contemporâneo é ter orgulho de ser hetero mas também ter orgulho de ser diferente não sendo isso. Contemporâneo é lutar, brigar, matar e ir arduamente para o estádio toda a quarta ou domingo para que seu time seja campeão de alguma coisa, mas sentir preguiça de ir votar num domingo a cada dois anos. Ser contemporâneo é votar nulo, até porque, que novas ideias podem surgir para mudar de fato este país nas urnas? Ser contemporâneo é vaiar a presidente pelos gastos na copa, mas fazer isto de dentro do próprio estádio construído com este dinheiro. Ser contemporâneo é ser contra as graves de alguma classe de trabalhadores, além do mais, eles atrapalham o trânsito daqueles que ganham bem. Contemporâneo também é ver mulheres se humilhando em programas de TV pela efêmera fama. Ser contemporâneo é não saber bem qual faculdade fazer, afinal, queremos fazer tudo ao mesmo tempo, ou melhor, ser contemporâneo não é fazer a faculdade dos sonhos, porque sei lá, não se ganha muito dinheiro com esta profissão.
Ser contemporâneo neste mundo é se submeter a todas as sensações, desejos, tentações, consumos, moda, modinhas, gírias, compras, feriados, religiosos ou não, possuir, descartar, querer o que não precisa precisando, se cansando, buscando sei lá o que para ser feliz, não sendo, sendo, depois, insatisfeito, desfeito, refeito. Queremos tudo e um pouco mais que isso. Queremos ser contemporâneos, só isto basta, mesmo que no fim de tudo, ainda estejamos vivendo como nossos pais, como bem cantou Elis Regina.
Para terminar, ser contemporâneo é escrever esse texto, mais um, entre milhões navegando e naufragando na grande rede. Ser contemporâneo é não ser lido e se for lido, ser deixado, abandonado, esquecido ou não, não importa, algo importará mais daqui umas horas.
Nada mais contemporâneo que o esquecimento.
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Por | Andrey Tasso
ContinuePor | Cronie
Não demos certo ou simplesmente ainda precisamos acreditar que um dia resolveremos todos os problemas, filosóficos, políticos, sociais, científicos? Resolveremos a problemática da felicidade? Do Amor? Do ódio? Das guerras? Frias e calorosas, da guerra dia-a-dia pela sobrevivência, nós, de países ainda em desenvolvimento. Qual desenvolvimento? Moral? Racional? Cultural? Matamo-nos a todos diariamente, alguns se nutrem desta desgraça outros lutam para isto acabar. São sempre duas forças contínuas, uma destrutiva outra autodestrutiva, o panorama não é otimista.
Há tantas questões para serem reestruturas. Como viverão nossos netos? Como viverão nossos filhos? A tecnologia vem se mostrando fascinante e/ou viral em toda a sua opulência, mas pouco se mostra capaz de ser vantajosa para todos e não passar de um mero jogo da manipulação publicitária. O mundo de hoje, início do século 21 é uma incógnita, um oceanos escuro com vida mas que vai sendo poluído lentamente. Alguns acreditam que seja a ganância, para outros é o dinheiro, para muitos é o próprio homem.
Sim, homens e mulheres habitantes deste enorme e pequeno planeta na periferia da galáxia. Um ponto azul no meio da escuridão. Nossa raça, nossa espécie, pode ser a única e a última, o que faremos para continuar? Ir devagar, quase, parando, ou andar mais rápido rumo ao progresso, desta vez, homogêneo? Se vão se salvar a todos ou só àqueles que fazem parte do grande banquete? A gravidade implacável vai derrubando a todos, um por um. Religiões, seitas, teorias, fé, nós humanos amamos o desconhecido e amamos tão ou mais a esperança. O mergulho pelos nevoeiros da morte para quem sabe, nadar ao encontro de algo mais belo, mais real, até, infernal, céu, purgatório, adoramos dar nomes e interpretações épicas para densas incertezas. E as relações humanas? Frias em sua complexidade mas vulcânica em sua essência. Uns atacam outros salvam vidas, se doam, querem compartilhar com os outros animais deste planeta, enquanto uns querem apenas, come-lós. Há sempre o antagonismo.
Lei, regras, controle social, mídias, interesses ocultos e múltiplos, põem em jogo nosso caráter, quem por acaso tiver, alguns não têm, não sabem, não foram ensinados, ou seria, adestrados? Precisamos de tantas cargas, pesos, métodos, a juventude é tão curta, a velhice é longa e passageira e a infância inalcançável e bela, mas sabemos disso apenas tarde demais. O amor, inexorável, gélido para conservar as memórias, fogueira que queima a consciência na outra ponta. Poderoso antídoto floreado, poetizado, trágico, para alguns, irreal, químico, desnecessário. Mais uma vez as forças contrárias, agindo no final, juntas, no mesmo barco, na mesma linha mas em direções contrárias, que não raro, colidem.
Alguns chamam de bem e mal, outros preferem acreditar na força indomável da natureza. Para alguns a natureza das coisas não existe, está tudo suspenso, o destino é um conto de fadas e o acaso é o grande imperador deste mundo. Para outros, Deus impera, para muitos, nada pode ser provado, portanto, tudo pode ser verdade ou relativo, ou contrário, os deuses podem ser astronautas ou podem ser, nós mesmos no futuro ou no passado ou para muitos; deuses mesmos, maiores que nós.
O mundo está à beira do abismo como dizia o poeta beat, mas ao contrário dele, o que virá depois já se sabe: O fim, o colapso. Nossos recursos naturais, nossos animais, nossas floresta, nosso ar, nossas relações demasiadamente humanas, o futuro parece uma nuvem de fumaça assustadoramente oculta, quase imperceptível, medonha, não pessimista nem otimista, apenas um fato que podemos desprezar ao pensar nós e no presente ou mudar, ao pensar quem somos e o porquê nascemos de fato, e até isso está em cheque. Ainda não somos viajantes do tempo mas podemos hoje, mudar o futuro com a simplicidade do querer mudar esta experiência que é, viver.
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Por | Andrey Tasso
ContinueDepois de uma longa jornada de dez anos pelo Sistema Solar, finalmente chegou o grande dia para a missão Rosetta, da Agência Espacial Europeia (ESA). Nesta quarta-feira (12/11), o módulo de pouso Philae aterrissou com sucesso no cometa 67P/Churyumov–Gerasimenko por volta das 13h30 (horário de Brasília), mas só tivemos a confirmação de que tudo correu bem em torno de 14h10 - o atraso se deve ao tempo que o sinal demora para viajar pelo espaço e percorrer os cerca de 400 milhões de quilômetros até a Terra.
A sonda robótica Philae foi ejetada às 6h35 e levou cerca de sete horas para percorrer os 22,5 quilômetros que a separavam da superfície do astro. Com o pouso bem sucedido, o dia de hoje entra para a história da exploração espacial: pela primeira vez, um objeto construído pela humanidade realiza uma aterrissagem em um cometa.
Os sinais recebidos pela ESA permitiram confirmar que o pouso foi suave, e a única questão que agora preocupa os cientistas e engenheiros da agência é o indício de que os arpões que devem prender o robô ao solo parecem não ter sido disparados. Uma nova tentativa deverá ser feita em breve.
Após o evento desta quarta-feira, a sonda Rosetta continuará orbitando e estudando aspectos do corpo celeste com seus 11 instrumentos científicos, enquanto o módulo de pouso Philae conduz experimentos in loco por meio de 10 equipamentos diferentes.
O 67P/Churyumov–Gerasimenko leva em média seis anos e meio para completar uma órbita em torno do sol e, como qualquer cometa, preserva materiais intactos provenientes dos primórdios do Sistema Solar, formados há cerca de 4,6 bilhões de anos - por isso a importância da missão, que pode vir a esclarecer questões fundamentais como o surgimento da vida e a abundância de água na Terra, assim como a formação do nosso e dos outros planetas.
FONTE | Revista Galileu
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Há muito já se sabia que Alice Coltrane havia achado uma forma de explorar as galáxias, muito além da física elementar, muito além de qualquer teoria plausível, suas descobertas propulsoras estavam em harpas-pássaros que sobrevoavam as claves até então ocultas e desafiavam o som ao baile perante os Cinturões da Via láctea. Já nas primeiras faixas, Universal Consciousness vai escavando o misterioso vácuo, nossos ouvidos pressionados pelos ecos indomáveis do percurso, gritam como elefantes mágicos fugindo do circo mântrico da inconsciência e saltando pelos descampados limites onde a Voyager é fotografada e já ultrapassada progressivamente.
‘Battle At Armageddon’ segue explorando as dimensões, sobrepondo-se em uma bateria descontínua enquanto metais vão abrindo as vísceras e reconstruindo a beleza não obvia e reluzente de nossos chácaras. Aqui o jazz é o suco mítico que escorre do átomo lúdico debaixo das saias orientais de Alice Coltrane. A certeza de quem somos até aqui, dependerá de nossa retorcida natureza passageira, espontâneo em seu confuso alicerce, capaz de proezas bélicas de palavras e de ruidosos textos nas costas do espaço intrínseco.
‘Oh Allah’ nos apresenta os primeiros raios do sol de alguma nebulosa que vai sendo desvendada em pequenos olhares pelos solavancos dos ombros ou pelas silhuetas sábias da musa. Uma oração crepúsculos que se afasta de nós como um passageiro futurístico que se perdeu de vista antes da chegada inconfessável ao extremo pulsar das estrelas. ‘Hare Krishina’ é a chagada aos úteros das singularidades, desbravando os anéis muito mais distante daqueles vistos tão de perto em saturno, pelas cores que jamais poderíamos conhecer e que vão sendo escolhidas a dedo por Coltrane. Ela, na particularidade profunda de uma declamação mosaica que refaz antigas máximas humanas, que redesenha as notas musicais para além da geometria, para além do som combinado entre duas ou mais formas inventadas pelos campos harmônicos do destino.
Recriando a beleza libertadora da canção sem qualquer resquício terreno, Alice olha para os lados e entrega-se aos seus próprios limites de beleza até então desgastado pelo antigo senhor-tempo, esse já apenas uma nomenclatura em algum lugar do passado. ‘Sita Ram’ é aquela razão que emerge do líquido olhar pingando nas bordas dos exoplanetas e causando sensações de arco-íris por quem por ventura puder perceber naquele instante nas longínquas civilizações invisíveis. Mas, temos que voltar, ou não, e ‘The Ankh Of Amen-Ra’ faz nossa reentrada pelos litorais dos berços estelares. Cometas são agora pequenos golfinhos que se arremessam nas órbitas de algum satélite a fim de conhecer seu lado secreto e fabuloso. Voltamos a avistar a terra, Alice mergulha, não no mar, mas sim em harpas vestidas de oceanos que amortecem nossa consciência.
Explorar o universo sob as bênçãos de Alice Coltrane e seu Universal Consciousness é uma experiência metafísica que só a arte é capaz de abrir tal porta.
Track |
1. Universal Consciousness
2. Battle At Armageddon
3. Oh Allah
4. Hare Krishna
5. Sita Ram
6. The Ankh Of Amen-Ra
ContinueA violência que sentimos e fazemos parte nas grandes cidades e suas periferias em todo o Brasil não é fruto de um fator apenas e sim de múltiplas realidades possíveis e imagináveis. Viver e conviver próximo ao medo, em sua voraz face desconhecida, passou a ser o dia-a-dia de milhões de cidadãos neste país.
Imagine você caminhando pelas ruas desertas, esburacadas, calçadas deterioradas, asfalto feito para não durar, pessoas trancadas em seus lares, hoje grandes prisões domiciliares, você com seu aparelho moderno e sua pequena fortuna diária e o sentimento iminente que tudo pode ser tomado em alguns segundos, isso inclui inevitavelmente, a vida. Ou você com seu carro, comprado em inúmeros prestações, ou não, não importa neste caso, saindo de casa para ir ao trabalho e por sair relativamente cedo, é obrigado a monitorar a movimentação nos arredores a fim de evitar que este patrimônio seja levado e ainda seja vítima de truculência e/ou estupro. Na periferia e nas capitais todos podem ser suspeitos. Para alguns basta ser negro, vestir-se de forma descolada, pintar o cabelo ou apenas ter algumas tatuagens. Para outros, basta ver uma moto e dois passageiros homens, basta ver dois jovens em uma bicicleta, basta que estes mesmos entrem nos coletivos para alguns garantirem uma descida em um ponto de ônibus qualquer. Seja qual for as motivações elas beiram uma verdadeira paranoia coletiva.
A falta de uma educação de qualidade é um dos grandes responsáveis de fato, mas não é o único. Nesse mundo capitalista em que vivemos o governo aliado às grandes corporações midiáticas e comerciais garantem o vínculo às marcas e ao gosto pela compra. O jovem, a criança, o adulto em geral é incentivado implacavelmente ao consumo. O comércio se nutre do sedutor discurso dos publicitários e estes moldam o gosto popular em sua mais profunda ânsia de fazer parte do grande jogo de ser moderno, atual, contemporâneo. O adolescente da periferia e da grande cidade quer fazer parte do mesmo banquete que o riquinho na área nobre faz. Quer ter o mesmo carro, a mesma moto, o mesmo acesso à tecnologia, da roupa ao sapato da moda. Na verdade, na construção do pensamento consumista, muitos querem também fazer parte deste processo rumo ao luxo e até a ostentação. Outro fator crucial: O glamour da violência nos cinemas, a banalização da criminalidade transvertida de ação social pela TV, a música como motor desta calamidade amoral e a paixão pelo descartável.
O cinema americano, falando especificamente, tem um verdadeiro culto pela violência. Diretores como Tarantino, Scorsese (em alguns casos) a tornam algo natural, humano, diversão para muitos, violência gratuita para alguns, claro, eles não são culpados nem responsáveis pelo que fazem e o sentimento e indução que pode causar seu cinema, mas a brutalidade está ali e é muitas das vezes, banal e tola e um mero exercício de estilo e machismo o que acaba virando na inconsciência do garoto um paradigma de estilo e status.
Na TV, por exemplo, espalharam-se por todo o país os programais policiais. Verdadeiros banhos de sangue publicitário. Apresentadores vestidos com seus ternos para causar seriedade, mas com palavras de ordem. São contra termos como “direitos humanos”, porém não parecem saber o que realmente estão falando. Pregam o ódio de uma sociedade que já sente ódio por sua própria condição de refém do tráfico e das armas. Algumas vezes o bandido em si vira celebridade. Suas palavras e até sua postura é filmada e exposta com ridicularização. Um tiro no pé, esse mesmo bandido se torna referência em colecionar fichas criminais e prisões, em outras palavras, um anti-herói da periferia, entretanto, motivado pelo sentimento de justiça e abandono do poder público, este mesmo telespectador usa sua força coletiva e brutal para promover linchamentos deste mesmo jovem, pessoas de bem sujando suas mãos na fúria de um animal acuado.
Em suma, viver neste país nos tempos atuais do século XXI é desafiador. Se, somos ainda meras colônias capitalistas, aos poucos vamos afundando na própria lama de nossa ignorância política. Despolitizados e cada vez mais presos nas amarras do mercado financeiro, se as taxas de desemprego parecem cair por outro lado o salário é precário, como por exemplo, os professores, que em tese, deveriam ter os mais altos salários na nação. Outro exemplo são os trabalhadores do grande comércio que são explorados até os ossos e não têm a mínima condição de escolher o tempo que vão parar para respirar. Vamos sendo encurralado ciente que é por nossa própria vontade afinal, fomos educados desde pequenos pelos comerciais, pelos desenhos na ingênua televisão matinal, pela grande mídia corporativa que era assim, que temos que ganhar muito dinheiro e que “curtir a vida” dependerá destas escolhas. Nem que estás dependam de um roubo (em pequena ou grande escala), de um desvio moral, de alguma improbidade, de mero egoísmo, ganância, psicopatia associada a consumo e sede de riqueza, não importa as maneiristas justificativas, hoje, viver neste país significa um ato de sobrevivência frente à violência que vem, não só de um lado, não só de uma classe, não só de um grupo, não só de alguém, também de um pensamento destrutivo, a busca pela felicidade, pelo dinheiro, pelo consumir tudo e jogar fora na mesma proporção para enfim nos satisfazermos em ter, ser, poder, quem sabe, viver.
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Por | Cronie
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Não, não temos controle sobre tudo e sobre os acontecimentos. Podemos planejar e ter a esperança palpável que nosso plano mirabolante ou relativamente simples, tão simples que parece ser imune à falhas, jamais se revestirá em algo que nem imaginávamos. A vida é colorida para uns tantos e cruel para muitos outros. E esse é o ‘Lado Bom da vida’. Saber que a cada passagem do ponteiro temos uma chance de recomeçar. Claro, nada poderá ser mais como antes mas nunca somos mais como éramos segundos atrás. Novas sistemas foram criados em nosso cérebro, novas certezas cimentadas em cada palavras, novas dúvidas adentrando os retrovisores e as caminhadas indo ou voltando do trabalho ou de algum lugar que agora também faz parte de um passado que jamais poderá ser reconstruído. Como um trem vagando por trilhas pré-estabelecidas assim muitos se sentem ou como este mesmo trem, agora desgovernado, rumo ao abismo das lamentações, morte, suicido, saudades, fim, chão, lágrimas e incertezas profundas. Ser ser humano não é fácil, pensar, agir, escolher…

Ah escolher… Para Sartre escolhemos inegavelmente. Escolhemos o tempo todo. Estou escolhendo escrever neste exato segundo. Você escolheu terminar este textos, talvez, ambos escolhemos assistir a esta película de David O. Russell ou ler o romance de Matthew Quick e daqui algum tempo, continuaremos a fazer indefinidamente, escolhas.
Mas algo não é fácil: Escolher recomeçar. A perda é um dos sentimentos mais devastadores de nós, humanos. Perder alguém que se amava e que por inúmeros razões possíveis se foi pode nos colocar um peso muito maior do que podemos carregar. Alguns sobretudo, desfalecem. Se descontroem em labirintos jamais retornáveis, porões escuros de lamentações e desespero. Outros entram em colapso, destroem a si mesmo como punição, julgam-se culpados por toda a desgraça existencial e física que passam e se escondem num mundo cinza, escuro, frio em sua solitária respiração. Outros simplesmente, como que vítimas de um trauma, esquecem de tudo, agem como se o tempo tivesse saltado daquele momento até o agora.
Entretanto, “O Lado bom da vida” está em também escolher mudar. Se erguer, voltar ao ponto de partida de si mesmo e se permitir entrar em um novo ciclo. Para a filosofia Taoísta, ciclos fazem parte da natureza, mas apesar de serem ciclos, eles jamais se repetem. A primavera tem todos os anos mas as folhas não são as mesmas e nem nós somos. A tarefa é desafiadora e já sabemos que tudo pode ruir novamente mesmo que façamos tudo conforme algum paradigma que por ventura temos aliados a nós. Não cabe a nós ter o controle completo da vida em toda a sua circunstância mas cabe a nós estamos dispostos a arriscar novamente. Uns se fecham em tamanha redoma anti-sofrimento, como um pessimista que detém para si um lema, uma verdade, que tudo dará errado e acreditar é uma bobagem. Porém, mergulhar novamente em um novo percurso não é necessariamente um otimismo e sim uma condição.
Mais uma vez não temos ingerência sobre isto. Fizemos a escolha de retornar ao caminho, ao nevoeiro do destino que vai se materializando. Ou até mesmo querendo repetir erros, novas falhas, insistir mesmo na evidência da falência do que ainda acreditamos contra todos os fatos e depois ficarmos parados olhando nosso própria envelhecimento, mesmo assim, estaremos ainda escolhendo. Não basta querer, querer todos querem. É preciso mais que querer, é preciso amar. Amar. Não alguém. Não algo. Amar novamente, viver.
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Silver Linings Playbook (O Lado bom da vida) é um filme americano de 2012, dirigido por David O. Russell. É também uma adaptação cinematográfica do romance de Matthew Quick do mesmo nome.
Escrito por | Júlio Siqueira
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Descortinar um novo percurso até então oculto ao mundo, ao universo, ao tempo. Na máxima construção de uma nova estrada esculpida com nossos pés-mãos no chão do nosso próprio espaço interior exteriorizado. Escrever um novo verso, um novo capítulo da história jamais contada. A recriação descomunal e desproporcional de uma realidade que nem o escritor sabe ao certo medir, ver, sentir. Um furação perfurando o poço de infinidades de palavras reinterpretadas. Um plágio reflexo retorcido pela gramática e comprenssado entre os tones e as tintas não-poéticas das impressoras.
O ato-poematizar nos reintroduz no vasto campo do desequilíbrio frente ao automatismo crônico da nossa época. Celulares e Tablets agradecem nossa imersão pelo desconhecido, paralelos ao zumbinismo unilateral da modernidade. Nossa pulsação, antes congelada pelas contas do mês e pela hora do almoço longínquo, agora é uma bailarina enfurecida nos campos minados da metafísica. O lápis, ou o digitar obliquo procurador de letras envelhecidas nas artérias no novo, reciclado. O esconderijo do prazer da carne-vírgula que comemos com ânsia pelo olhar do futuro na fome do leitor pálido canibalesco. A poesia é um gemido em nossa manifestação ousada, na leitura vespertina das cigarras, no canto verdejante de um animal acuado na esquina.
Voltamos suados e mais anorexos depois de cada período composto. Voltamos a nos reutilizar depois de olhar fixamente para os semáforos torcendo pelo momento exato da partida. Voltamos a nos inscrever na instituição página. Voltamos não-sei-de-onde jamais saímos de fato. As longas carícias dos dedos-vagalumes daquilo que queremos dizer, pensar, ou não, só queremos desabafar nossas cabeças pensantes, ou não, numa poça líquida que se presumem, renovadora. Olhamos para trás e um longo rastro de objetos-sílabas e outras formas de protestos transparentes, nos garante que a viagem foi rápida mas não menos infinita. Deixamos a história correr pelos solavancos dos outros, risos e desprezo certamente serão bem vindos. Viramos para o lado do equilíbrio numa tomada com uma câmera apenas e um sem-diálogo necessário. Nossos corpos derramados de palavras pretendem não só engravidar o tempo como faze-ló gerar pequenas crianças-asas que serão ainda poetizadas inevitavelmente,como tudo e a todos.
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Júlio Siqueira
ContinueHá diversas razões que levam alguém a se tornar um escritor. Algumas podem lhe dar sustentação criativa a vida inteira outras, podem apenas ser como aquela paixão súbita que logo se apaga em meio aos afazeres contínuos da realidade de si mesmo, em outras palavras, aquilo não era para a vida toda ou simplesmente não era para você. O ventilador criativo por vezes vem de algumas manifestações propriamente humanas: A perda, a morte de uma pessoa importante ou especial, o amor não correspondido (muito comum) ou o amor dilacerado pelo fim (tão ou mais comum). A verdade é que muitos jovens entram pelas entrelinhas da poesia, do texto, do romance, motivados por sentimentos cinzentos, cheios de mágoas, tristezas contínuas ou solidão constante e assim têm suas iniciações no fabuloso mundo da literatura. Mas, e quando a nascente que o levou à criação motivadora e empolgante das palavras seca ou sobretudo, transforma-se num natural amadurecimento de outras possibilidades e anseios típicos da ânsia humana por mudanças? quando a dor que tanto machucava reverte-se em algo inócuo, esvaziada pela religiosa passagem do tempo? e aquele amor transpassado em seus íntimo dá lugar ao novo amor, algo tão elementar e que acaba trazendo e/ou mostrando que o amar é na verdade um profundo percurso de reconhecimento?. Sim, diante destas reviravoltas tão comuns na vida humana, muitos dos pretensos escritores abandonam suas trincheiras poéticas e abraçam o até então inimigo íntimo do destino.
A chama da poesia, em versos tão desbravadores da dor, se tornam gotas, que caem das torneiras do pensamento cada vez mais raras até esgotarem-se num vácuo. Para muitos isso mostra que é na adversidade existencial que somos mais criativos. Que os pesos, as vezes incarregáveis, da vida é a grande fonte que leva ao expoente acesso das letras e da arte. Falando de poesia, isso parece ser uma verdade visceral, estampada nos anseios de alguém que usava e era usado pelo desabafo, pelo desejo solitário, envernizado em cada página, à lápis , à mão.
Mas essa desmotivação, em contraste com a significância do novo estado atual de felicidades, na concretude do sorriso, do ensolarado bater de asas do destino, da mãos dadas como fotografia constatante de uma nova realidade não é causada na verdade porque o tímido e inexperiente escritor estava tão acostumado com sua condição, seus versos e suas rimas já casavam tão profundamente com a febril paisagem lacrimejante que ele parece ser incapaz de recriar sua arte além das montanhosas melancolias da vida?
Incapaz de ocupar de dialogo com o sol e suas metáforas, o que antes era chuva, incapaz de trazer o calor e derreter a gélida visão do passado, incapaz transpor os muros que ele mesmo levantou, o frágil escritor desfalece. Despenca das altas torres criativas e não raramente jamais retorna ao encontro dos motivos dos versos. Na verdade, novas motivações, imagens e oníricas reverberações passam a bailar em suas entranhas, sua dor era na verdade passageira ou descontínua? não sabemos. Sua solidão só precisava de um afago verdadeiro e sincero de outrem e seu olhar só precisava contornar as crateras e sua poética? não sabemos. Mas seus versos poderiam sobreviver a toda essa mudança?. Penso que deveria fazer parte dela, uma metamorfose de uniões vastas de verdades sobrepostas. Mas isso também não é uma lei.
Há tantas motivações que podem ser o fio condutor que revelam-se ser inesgotáveis. Há poesia depois da dor, há poesia em tudo que se pretende poetizar, basta querer e sobretudo, sentir.
Artigo | Júlio Siqueira
Continuesou par, impar, sou infinito, posso datar ou quantificar, posso somar, multiplicar, dividir ou subtrair em letras posso ser eterno, se me permite apresenta-me, prazer, AMOR.
De: Jasmim
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Jasmim é uma poetisa da cidade de Marituba/Pará. Sua influência é a vida, o ensolarado percurso pelas esquinas da racionalidade. Tão sensível quanto uma flor de jasmim, tão bela quanto uma aurora. Sua poesia é colorida com paisagens familiares e densos sorrisos tímidos porém de sons cintilantes.
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Acho que o erro está em querer ser poeta.
Poetizar-se? impossível rima absoluta.
Poetiza-se o ambiente com líquidos saídos das brechas do destino.
O mundo pouco se importa com os versos
ele quer na verdade seu licor desconhecido.
Antídoto para o esquecimento.
Provocando febre de palavras derretidas.
Ser poeta, ser escritor, ser autor, ser a mão que baila sem tinta.
O olhar dos outros se derrama sobre as páginas como ácido.
Os mesmo dedos que afagam o papel desdenham sua existência múltipla.
No meus poemas não existe rima existe a fantástica bagunça da realidade.
Essa realidade é tão real quanto a existência do tempo.
O tempo é tão real quanto Álvaro de Campos ou Bernardo Soares.
Ser poeta é dizer para si mesmo…
Eu existo.
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Júlio Siqueira | Poeta da cidade de Marituba/PA
ContinueDe repente descobri que não havia uma pedra no caminho. Ele estava vazio, solitário em sua frieza de viela esquecida. Não haviam rostos pendurados nas janelas das casas, não haviam crianças flutuando em balões mágicos anti-gravitacionais. Havia sim, sombras por trás das grades das portas do fundos. Havia celulares debatendo-se com medo das armas de fogo e outras manifestações atuais. Havia senhoras e senhores escavando a volta para suas casas por debaixo do asfáltico pó da cidade. Havia também a certeza genitora de fantasmagorias impressas em páginas A4 de lamentações. Não só não havia uma pedra como ela jamais existiu, o impossível, o incontornável, ah saudades de Roberto Piva e Withimam, saudades de nossas conversas pelos jardins dos corredores do ônibus. Éramos tão ou mais jovens no interior de nossas mães, éramos mais poetas antes de escrever, éramos mil veze mais aquela palavra jamais inventada. Computadores e outras intervenções da modernidade não passam de ideias ultrapassadas por todos os poemas já escritos.
A loucura não é uma palavra e sim a palavra que é louca.
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By Cronie | ‘Alguém ainda lê poesia’ - Zine
ContinueQuero ser poeta mas não passo de palavras.
Verso íntimo envernizando o tecido-tempo. Lúdica vitrine onde coloco as vísceras para serem expostas na passagem almeida.
A violência do mundo é uma masmorra aberta de frente para um abismo, longe, bem longe dos palcos principais e dos holofotes.
No meio termo entre o olhar do adolescente de cabelo grafitado e as bolsas-baús que guardam o invisível segredo das mulheres, resta apenas as febres das incertezas. Um vulcão sinfônico cospe em mim as páginas que jamais poderia escrever. Fotografo o momento distorcido e um vinho medonho escorre das portes de nariz empinado. Quero ser eletrocutado pelas verdades das crianças. Quero ser pisoteado pelos sorrisos mórbidos dos senadores e prefeitos e no final do dia atravessar as nuvens de asfalto a procura do abrigo.
Quero ser poeta mas não passo de palavras.
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Por que parecemos tão loucos correndo sempre atrás ou à frente do tempo?
O mundo em miúdos é feito de tão pormenores, tão despercebidos em sua essência, que somos, me parece, incapazes de ver e muito menos de viver. A antiga e supra falada expressão que rege algumas rodas de conversas e livros de auto-ajuda, que temos que viver todos os dias intensamente, como se fosse o último dia. Há algo errado nesta expressão ou há algo errado em nosso dia-a-dia?. Contudo, o tempo, independente e inquebrável, em nada importa-se com as incógnitas das atitudes humanas. Não espera que tomemos as melhores decisões, não espera o dia que teremos como observar um simples arco-íris ou escutar o canto dos pássaros, em suma, não espera que tenhamos espaço em nossas agendas para qualquer poesia. O curioso neste processo, em que travamos uma verdadeira batalha entre o todo, as inúmeras possibilidades cotidianas, as várias fases do viver, desdas primeiras horas que nos damos conta que somos humanos e na imersão do que isto significa, temos uma certeza lá (ou aqui) no fim desta estrada. A morte. Só está certeza já deveria bastar para simplesmente reinventarmos nossas vidas cotidianamente, mas não, criamos nossos vínculos, vivemos em redomas, construímos casas, vivemos em comunidades, tribais amizades, triviais ( ou não!!!) projetos de vida, sob a batuta do conforto ou do prazer momentâneo. Como um filme feito de alguns momentos clássicos mas em sua maioria, uma monótona busca pelo desconhecido que certamente conhecemos e queremos em nossa intimidade e inteligência. A Felicidade absoluta. É trágico saber, que de todo o percurso de nossas vidas, que para cada um terá um tempo determinado, alguns a vivem alguns segundos, outros horas, outros dias, meses, anos, depende da capacidade de cada um de entender o tempo, não àquele tempo que vai chegar um dia, mas o hoje, o agora, neste momento exato…O que passou é fictício, os próximos segundos serão também até você estar nele, você espera estar, eu espero estar, mas teimamos em esquecer que jamais saberemos se sim ou se não. Devemos esperar ou correr desesperados por monstruosas poesias e altas performances do viver? ou quem sabe, apenas, viver, muito além do que poderia ou pode ser. É possível?
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Autor: Cronie | “Crônicas e outras formas de viver em utopia”
Fotografia: Vivian Maier
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por James Petras
Durante décadas críticos sociais lamentaram a influência do desporto e de espetáculos de entretenimento que "distraíam" trabalhadores da luta pelos seus interesses de classe. Segundo aqueles analistas, a "consciência de classe" era substituída pela consciência de "massa". Argumentavam eles que indivíduos atomizados, manipulados pelos mas media, eram convertidos em consumidores passivos que se identificavam com heróis milionários do desporto, com protagonistas de novelas e celebridades do cinema.
O culminar desta "mistificação" – a ilusão em massa – era os campeonatos mundiais observados por milhares de milhões por todo o mundo, patrocinados e financiados por corporações bilionárias: as World Series (baseball), a Copa do Mundo (futebol) e a Super Bowl (futebol americano).
Hoje, o Brasil está a viver a refutação desta linha de análise cultural-política. Os brasileiros têm sido descritos como "loucos por futebol". Suas equipes venceram o maior número de Copas Mundiais. Seus jogadores são cobiçados pelos proprietários das equipes mais importantes da Europa. Dizem que seus torcedores "vivem e morrem pelo futebol" ... Ou assim nos diziam.
Mas foi no Brasil que os maiores protestos na história da Copa do Mundo tiveram lugar. Já um ano antes dos jogos, programados para Junho de 2014, houve manifestações em massa de até um milhão de brasileiros. Apenas nas últimas semanas, proliferaram greves de professores, polícia, trabalhadores da construção e empregados municipais. O mito dos espetáculos de mas media a hipnotizar as massas foi refutado – pelo menos no Brasil dos dias de hoje.
Para entender porque o espetáculo de massa foi um fracasso de propaganda é essencial entender o contexto político e económico no qual foi lançado, bem como os custos e benefícios e o planeamento táctico de movimentos populares.
O contexto político e económico: A Copa do Mundo e as Olimpíadas
Em 2002, o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Lula da Silva, venceu as eleições presidenciais. Seus dois mandatos (2003 – 2010) foram caracterizados por um caloroso abraço do capitalismo de livre mercado juntamente com programas populistas de [alívio da] pobreza. Ajudado por influxos em grande escala de capital especulativo, atraído por altas taxas de juro, e pelos altos preços das commodities para as suas exportações agro-minerais, Lula lançou um programa maciço quanto à pobreza proporcionando cerca de US$60 por mês a 40 milhões de brasileiros pobres, os quais constituíram parte da base de massa eleitoral de Lula. O Partido dos Trabalhadores reduziu o desemprego, aumentou salários e apoiou empréstimos com juros baixos ao consumidor, estimulando um "boom do consumidor" que levou a economia em frente.
Para Lula e seus conselheiros, o Brasil estava a tornar-se uma potência global, atraindo investidores de classe mundial e incorporando os pobres no mercado interno.
Lula foi louvado pela Wall Street como um "esquerdista pragmático" e como um estadista brilhante pela esquerda!
De acordo com esta visão grandiosa (e em resposta a um amontoado de bajuladores presidenciais, de Norte e a Sul), Lula acreditou que a ascensão do Brasil à proeminência mundial exigia que "hospedasse" a Copa do Mundo e as Olimpíadas e embarcou numa campanha agressiva... O Brasil foi escolhido.
Lula enfeitava-se e pontificava: o Brasil, como hospedeiro, alcançaria o reconhecimento simbólico e os prémios materiais que uma potência global merecia.
A ascensão e a queda das grandes ilusões
A ascensão do Brasil foi baseada em fluxos de capital estrangeiro condicionados pelo diferencial (favorável) de taxas de juro. E quando as taxas mudam, o capital flui para fora. A dependência do Brasil da alta procura pelas suas exportações agro-minerais baseou-se no prolongado crescimento económico com dois dígitos na Ásia. Quando a economia da China arrefeceu, a procura e os preços caíram e, assim, os ganhos do Brasil com exportações.
O "pragmatismo" do Partido dos Trabalhadores significou aceitar as estruturas políticas, administrativas e regulamentares herdadas dos regimes neoliberais anteriores. Estas instituições eram permeadas por responsáveis corruptos ligados a empreiteiros de construção notórios por derrapagens de custos e longos atrasos em contratos com o estado.
Além disso, a "pragmática" máquinas eleitoral do Partido dos Trabalhadores foi construída sobre comissões debaixo da mesa e subornos. Somas vastas foram desviadas dos serviços públicos para bolsos privados.
Inchado pela sua própria retórica, Lula acreditou que a emergência económica do Brasil na cena mundial era um "negócio feito". Ele proclamou que os seus faraónicos complexos desportivos – os milhares de milhões de dinheiro público gastos em dúzias de estádios e infraestrutura custosa – "pagar-se-iam por si mesmos".
O fatal "efeito demonstração": A realidade social derrota a grandeza globa
l A nova presidente do Brasil, Dilma Rousseff, protegida de Lula, concedeu milhares de milhões de reais para financiar os maciços projetos de construção o seu antecessor: estádios, hotéis, auto-estradas e aeroportos para acomodar uma prevista inundação de torcedores estrangeiros de futebol.
O contraste entre a disponibilidade imediata de quantias maciças de fundos públicos para a Copa do Mundo e a perene falta de dinheiro para deteriorados serviços públicos essenciais (transporte, escolas, hospitais e clínicas) foi um enorme choque para os brasileiros e uma provocação para a ação em massa nas ruas.
Durante décadas, a maioria dos brasileiros, que dependiam de serviços públicos para transporte, educação e cuidados médicos (as classes superiores e média podem permitir-se serviços privados), foi dito que "não havia fundos", que os "orçamentos tinham de ser equilibrados", que um "excedente orçamental era necessário para cumprir acordos com o FMI e atender o serviço da dívida".
Durante anos fundos públicos foram desviados por nomeados políticos corruptos para pagar campanhas eleitorais, levando a um transporte asqueroso, superlotado, frequentemente avariado, e a atrasos nas viagens diárias em autocarros abafados e a longas filas nas paragens. Durante décadas, escolas estiveram em ruínas, professores corriam de escola em escola para compensar os seus miseráveis salários mínimos levando a uma educação de baixa qualidade e desprezada. Hospitais públicos eram sujos, perigosos e superlotados, médicos mal pagos frequentemente aceitavam pacientes privados nas horas vagas, medicamentos essenciais eram escassos nos hospitais públicos e super-caros nas farmácias.
O público foi ultrajado pelo contraste obsceno entre a realidade de clínicas dilapidadas com janelas partidas, escolas superlotadas com goteiras e transporte de massa não confiável para o brasileiro médio e os enormes novos estádios, hotéis luxuosos e aeroportos para os torcedores e visitantes estrangeiros ricos.
O público foi ultrajado pelas óbvias mentiras oficiais: a afirmação de que "não havia fundos" para professores quando milhares de milhões de reais ficaram instantaneamente disponíveis para construir hotéis de luxo e atraentes camarotes nos estádios para torcedores ricos do futebol.
O detonador final para o protesto em massa nas ruas foi o aumento nas tarifas de autocarros e comboios para "cobrir perdas" – depois de aeroportos e auto-estradas públicas terem sido vendidas a baixo preço a investidores privados que elevaram as portagens e comissões.
Os manifestantes que marchavam contra o agravamento das tarifas de autocarros e comboios foram apoiados amplamente pelas dezenas de milhares de brasileiros que denunciavam as prioridades do governo: Milhares de milhões para a Copa do Mundo e migalhas para a saúde pública, educação, habitação e transporte!
Desatento às exigências populares, o governo avançou na tentativa de acabar seus "projetos de prestígio".
No entanto, a construção de estádio ficou atrás do programado por causa da corrupção, incompetência e má administração. Empreiteiros de construção, que foram pressionados, reduziram padrões de segurança e pressionaram trabalhadores mais duramente, levando a um aumento de mortes e lesões nos estaleiros de obras. Trabalhadores da construção entraram em greve protestando pela aceleração e deterioração da segurança do trabalho.
Os esquemas grandiosos do regime Rousseff provocaram uma nova cadeia de protestos. O Movimento das Pessoas sem Teto ocupou lotes urbanos próximos a um novo estádio exigindo "habitação social" para o povo ao invés de novos hotéis cinco estrelas para estrangeiros ricos adeptos do desporto.
A escalada dos custos com os complexos desportivos e o aumento das despesas governamentais atearam uma onda de greves sindicais para exigir salários mais altos superiores aos objetos do regime. Professores e trabalhadores da saúde foram apoiados pelos trabalhadores fabris e empregados assalariados em greve em sectores estratégicos, tais como o transporte e os serviços de segurança, capazes de desestabilizar gravemente a Copa do Mundo.
A adopção pelo PT dos espetáculos desportivos grandiosos, ao invés de enfatizar o"arranque do Brasil como potência global", pôs em destaque o amplo contraste entre os dez por cento ricos e seguros nos seus condomínios de luxo no Brasil, em Miami e em Manhattan, com acesso a clínicas privadas de alta qualidade e escolas privadas exclusivas para seus rebentos, com a massa de brasileiros médios, fincados durante horas em auto-carros cheios de suor e superlotados, em encardidas salas de espera para conseguir meras aspiras de médicos não existente e em dilapidar os futuros dos seus filhos em salas de aula dilapidadas sem professores adequados e a tempo inteiro.
A elite política, especialmente o círculo em torno da presidência Lula-Rousseff, caiu vítima das suas próprias ilusões de apoio popular. Eles acreditaram que pagamentos de subsistência (cabazes alimentares) para os muito pobres lhes permitiria gastar milhares de milhões de dinheiro público em espetáculos de desporto para entreter e impressionar a elite global. Eles acreditaram que a massa de trabalhadores estaria tão fascinada pelo prestígio de abrigar a Copa do Mundo no Brasil que ela passaria por alto a grande disparidade entre despesas do governo para grandes espetáculos da elite e a ausência de apoio para atender as necessidades quotidianas dos trabalhadores brasileiros.
Mesmo sindicatos, aparentemente ligados a Lula, que alardeavam o seu passado de liderança dos metalúrgicos, romperam as fileiras quando perceberam que "o dinheiro era para fora" – e que o regime, pressionado pelos prazos finais de construção, podia ser pressionado a elevar salários a fim de ter o trabalho feito.
Os brasileiros, sem dúvida, são voltados para o desporto. Eles seguem entusiasticamente sua equipe nacional. Mas eles também são conscientes das suas necessidades. Não se contentam e aceitar passivamente as grandes disparidades sociais reveladas pela atual corrida louca para encenar a Copa do Mundo e as Olimpíadas no Brasil. A vasta despesa do governo com os jogos tornou claro que o Brasil é um país rico com uma multidão de desigualdades sociais. Eles perceberam que há vastas somas disponíveis para melhorar serviços básicos da vida diária. Perceberam que, apesar da sua retórica, o "Partido dos Trabalhadores" estava a jogar um jogo esbanjador de prestígio para impressionar uma audiência capitalista internacional. Perceberam que têm poder estratégico para pressionar o governo e tratar de algumas das desigualdades em habitação e em salários através da ação de massa. E eles agarraram-na. Perceberam que merecem desfrutar a Copa do Mundo em habitações públicas adequadas e a preços acessíveis e viajar para o trabalho (ou para um jogo ocasional) em auto-carros e comboios decentes. A consciência de classe, no caso do Brasil, triunfou sobre o espetáculo de massa. O "Pão e circo" cedeu aos protestos em massa.
03/Junho/2014
ContinueO vento que entra
deslocando a janela de sua passividade
afaga meu rosto como se fonte fosse,
de tristeza, mas também de flutuação gêmea.
Penetrando na pele aguda das paredes,
que em comunhão consigo mesma,
se abraça lamentando ser o espelho
que reflete as almas atrofiadas da manhã.
Uma inquietação pássara rasga o céu das lamentações,
paira sobre os pingos aleatórios da torneira do destino,
nos pelos deixados pelos felinos nos mantos da noite,
no telhado celestial que jorra a chuva do verbo elementar primeiro da não-palavra.
Num coral de poças refletindo a lua abocanhada,
na esquina onde homens roubam pedaços de objetos invisíveis
para sua contínua insatisfação jamais adormecida.
Na rua dimensional onde abordo meu interior com simplismo e pressa,
entre um anjo que brinca de nuvens sentado na calçada,
e moças de cabelos deformados que se arremessam além do visível;
vou-me, como um piano emudecido deixando um rastro no chão da cidade.
Preciso tocar na sombra de Deus pelo menos uma vez no dia.
Será ele esse vento que vem e colide com a janela?
Adormeço.
Minha voz é um ato de desequilíbrio.
A natureza das coisas me exclui dos seus planos.
Mas se estendo a mão para a poesia
o tempo vira uma correnteza calma
Onde poderei quem sabe chegar ao meu destino.
Cronie


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