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Nebraska e a permanência daqueles que amamos

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09:58

Quem cuidará de nós nos derradeiros anos de nossas vidas? Esta é só uma entre tantas perguntas implícitas em Nebraska, último filme de Alexander Payne de (Os Descendentes, 2011 e Sideways - Entre umas e outras, 2004) lançado em 2013, mas que estreou no Brasil apenas em 2014.

 

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E esse questionamento assustador é vivido com maestria por Bruce Dern na pele de  Woody Grant, um idoso que ao receber um panfleto publicitário pelo correio, passa a acreditar cegamente que ficou milionário. Grant quer viajar para o estado de Nebraska, andando se for o caso, para receber o prêmio. O roteiro escrito por Bob Nelson vai aos poucos escancarando as feridas e as relações do patriarca da família com seus próximos. Isso envolto em um preto e banco estático, quase desbotado, como o percurso do tempo, em personagens perdidos em meio ao fim das grandes ilusões do mundo. Tudo na fotografia magistral do ateniense Phedon Papamichael. Em sua terceira parceria com Alexander Payne.

 

Como são frágeis as relações humanas. É o que parece sugerir a película em sua jornada adentrando o passado de Woody. Alcoólatra e absurdamente teimoso, não muito distante da realidade de muitos senhores de idade que conhecemos. Sua história com cada um dos dois filhos, esposa, amigos, conhecidos, o próprio país, tudo parece desaguar num limbo daquilo o que foi um dia e que jamais retornará. Grant, ao saber que está possivelmente rico, depara-se, quase, inconscientemente, com velhas dívidas e cobranças. Vem à torna, questões do passado e o peso de quem ele foi. Emergem em disputas ocultas e verdades sendo confessadas. Em meio à crise econômica, famílias se desfazendo, antigos sonhos americanos sendo destroçados pela realidade dos fatos, tudo é condensado em uma grande panela de pressão de palavras que implodem inevitavelmente.

 

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O que você vai deixar para seus filhos? Ou, o que você vai deixar para as outras pessoas? Outro ponto relevante nesse trabalho de Alexander Payne. Ao ser questionado pelo filho David Grant (Will Forte) sobre, o porquê, querer tanto ficar milionário neste - ponto da vida - Se ele já tinha tudo que precisava, o impetuoso Sr. Grant releva que quer deixar alguma coisa para os seus descendentes. Até então, para nós, era apenas uma estripulia da meia idade, mas agora sabemos que existia uma causa permanente, singela e desesperadora em toda essa obsessão pelo eventual bilhete premiado. Automaticamente nos perguntamos: O que vamos deixar? Nosso caráter? Nossa moral? Nossa casa? Nosso amor pela pátria? (Woody Grant era um veterano da Guerra), um bem material, imaterial? Depende de cada um responder. Uma resposta que não será dada por nós, certamente.

 

A solidão e iminência da morte. A fantástica atuação de Bruce Dern se mostra quase como um espelho, do que, por ventura, podemos nos tornar. A realidade de que o tempo permanece voraz em nossa pele, em nossa sanidade, em nossas palavras e gestos. A solidão do incomunicável. Do não poder locomover-se, não como antes, das necessidades de ter alguém por perto, das mudanças de humor, o passado como um retrato distante e impenetrável. O ciclo da vida seguindo em seu leito natural para o esquecimento, ou não. Nunca saberemos.

 

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Aqueles que nos amam, permanecem conosco. No final das contas, já nos fins dos dias, só aqueles que de fato viveram com verdade ao nosso lado é que são provas da existência do amor. Como o jovem David Grant, que mesmo sabendo que tudo terminaria em uma frustrante constatação, acompanhou o pai nesta insana aventura e o fez para se reaproximar. Unir a família novamente, todos juntos, com seus defeitos e qualidades. Essas sim são as memórias que devem ser carregadas eternamente. A vida, um único percurso, para errarmos ou não, mas nunca deixarmos de viver.

 

Nebraska é daqueles filmes que nos tomam. Pela experiência com a arte. Pelo olhar ácido, corrosivo sobre a realidade da vida, mas também um trabalho que versa sobre as relações que realmente valem a pena. O seguir em frente como um ato natural e o amar, como aquilo que ficará impregnado em nosso rastro oculto.

 

Um grande filme, uma bela obra prima de Alexander Payne.

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Reality shows não são meras coincidências

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16:19

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Por |João Roc

 

Ok, tal entretenimento na TV já são fórmulas batidas, desgastadas por clichês da propaganda e rendem em ralação a qualquer expectativa de conteúdo rico em cultura de qualidade uma grande frustração certamente. Mas se jogarmos isso, no dia-a-dia das relações humanas, na sala fechada de algum escritório ou repartição, teremos nestes poluídos programas, uma pequena amostra de como uma convivência diária com pessoas completamente diferentes pode construir, para o bem ou para o mal, determinantes em nossa postura, moral, desejos e revelar um lado de nós até então imperceptível.

No trabalho, assim como nos Reality shows há as grandes estratégias. Se lá no confinamento das emissoras, o desejo é por uma fortuna que poderá, na cabeça do competidor, mudar para sempre sua condição financeira, no trabalho a ânsia é de se manter ou de subir nos altos patamares conceituais no cargo, o que fatalmente refletirá em suas finanças no fim de mês. A estratégia é bem definida: Vencer. Para alguns, isso significa atropelar qualquer oponente e até jogar na lama sua ética e/ou caráter. Sim, muitos arremessam sua conduta num fosso e muitos mais, não se importam nem por um momento com isto, querem no final, a certeza é que são vencedores em suas profissões ou emprego e não se são padrões cristãos.

Para outros a tática é de corromper o oponente para um campo que ele conhece muito bem. Formam-se então grupos, verdadeiras panelas para um bem em comum. Todos ganharão é a certeza. Cargos melhores, aumento nos salários, quem sabe até privilégios ocultos para os demais participantes deste banquete, não importa, todos lutam para serem campeões na visão do chefe ou de algum superior hierárquico.

Se nos realyst, cada membro terá que convencer o telespectador que é o melhor e merece seu carinho e sua dedicação nos sites especializados para a votação, no trabalho o convencimento será para a cúpula, para o patrão, para aquele que pode trazer enfim aquela promoção tão sonhada por horas a fio da madrugada.

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Mas é nas entrelinhas da convivência entre os seres humanos e seus múltiplos interesses pessoais que esses programas passam a ser um verdadeiro espelho da realidade diária de muitas pessoas. A conversa em baixo tom, o chiado de verbos decodificados, o diálogo invisível para aquele que virou de costas, o leva e traz embalado para confundir, o puxar o tapete para um desabamento trágico ao mesmo tempo em que um triunfo mágico profundamente amoral se ergue. Nas relações humanas, nestes ambientes pragmáticos, mulheres e homens parecem fazer parte do mesmo universo íntimo. Seus medos e alegrias estão enraizados em seus lares, redutos para um dia cansativo e atormentador. Mas antes que está paz chegue no final do dia…

Tribos conspiradores contra você ou você conspirando contra determinados e seletos segmentos. Risos femininos enquanto o olhar promove um ácido Raio-X aparentemente inofensivo. Elogios rompendo os limites da tua própria verdade, palavras na linha indireta que se mostram, pequenos licores cheios de espinhos e ódio permanente, porém; moderado. O homem briga, argumenta, mostra-se um inimigo contínuo e crepuscular. A mulher disfarça. Mostra os dentes e os lábios avermelhados, mas não pelo batom e sim porque na verdade gostaria de abocanhar a oponente e sugar sua empáfia. Deixa pequenos rastros de sangue nos olhos daquela que por ventura foi feliz na escolha do vestido feito de pequenos punhais de defesa. O Homem derruba com um traço, um golpe de punho e escreve à caneta suas justificativas. A mulher não deixa recado, seus recados foram dados em pequenos trechos, pequenos dizeres nas gavetas ou sobre os monitores enfeitados de rosa com fotos de um casal feliz em algum dia verdadeiro.

Todavia, a crucial diferença entre àqueles programas de TV e as manhãs intermináveis de alguns transeuntes que é lá tudo estão à amostra. Explicito, explorado, editado, gravado e depois, como tudo nestas legendas: descartado, efêmero em sua insignificância. Mas no trabalho, as coisas estão ocultas, o jogo está sendo jogado mas ninguém confessa. Cada olhar não pode ser avistando por terceiros, cada gesto calculado jamais encontrará a luz se seu autor não quiser.

Neste labirinto de fácil saída mas de difícil permanência, um mergulho no ambiente calmo e sereno de alguém que passa muitas horas da sua vida trancado em uma sala com pessoas, sou simplesmente na convivência múltipla com seres pensantes em prol de objetivos a princípio tão iguais mas que se traduzem em verdades perturbadoras sobre a psique humana em toda a sua plenitude.

Claro, isso não é uma regra e nem um modelo, o cotidiano de alguns pode ser o oposto de tudo isto no trabalho, se for para você, parabéns.

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O que você vai ser. Quando você crescer?

23:00
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A ingratidão é uma das maiores armas do ser humano. Com ela, o ser corta, não a pele, muito menos quebra os ossos, mas sim, perfura a alma, mas ela insiste em permanecer viva, na lentidão melancólica de amar o ser ingrato.
Dezenas de alegorias poderiam ser empregadas na construção deste sentimento, tão destruidor. Alguns até poderiam sim, defender a tese de que nada foi feito pensando em trocas de favores ou seja lá o que for, que tudo foi realizado por amor e foi certamente, mas no mais íntimo desejo do labirinto humano, você sim, espera um reconhecimento. 

Entre pais e filhos e isso torna-se mais latente, pais geralmente mergulham suas vidas em uma dedicação quase religiosa ao filho. Abrem mão de um tempo que jamais voltará, até da companhia um do outro em prol daquele ser que foi gerado e trazido ao mundo com orgulho e prazer. Não é raro vermos lindas histórias de luta e superação de mães vencedores, que jamais desistem da guerra pela sobrevivência, não dela mesma, mas do próprio filho. Quem nunca ouvir a expressão que perder um filho é a pior dor do mundo… Entretanto, curiosamente, filhos não tem o mesmo sentimento (não todos assim como não todos os pais, é verdade) mas nas leis ocultas da natureza, isto é uma grande verdade e um até rotineiro acontecimento. Filhos, às vezes, simplesmente vivem suas vidas desprezando pais, magoando-os por razões infantis, lutando contra argumentos e posturas sem a habilidade e sabedoria de se fazer compreender, apenas usado a violência da palavra e as costas viradas.
Quisera por algum momento, o ser ingrato pudesse sentir a mais pontiaguda lâmina do desprezo e da fúria desprezadora de si mesmo, quisera entender, que nas relações humanas, há muito mais do que a alquimia surreal de trazer o ser ao universo, e educar, vestir, lhe dar de comer etc.,  foi empregado neste processo, um hermético e desconhecido sentimento que valeu por toda a sua vida. Como se a partir dali, você passasse a viver para um outro ser humano, na mais pura condição de ser, do ser.  

A certeza é que apenas àqueles que sabem o quão precioso é ter seus pais do lado, sabendo que jamais eles estarão ali para sempre, podem ser realmente esboçar algum tipo de paz e/ou felicidade com suas novas famílias ou simplesmente em seus destinos escolhidos por si mesmos na vasta solidão do amadurecimento.

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Cronie
Imagem | Kyle Thompson
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O (des) necessário Cotidiano

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13:28

May 5, 1955. New York, NY

 

Por que parecemos tão loucos correndo sempre atrás ou à frente do tempo?

O mundo em miúdos é feito de tão pormenores, tão despercebidos em sua essência, que somos, me parece, incapazes de ver e muito menos de viver. A antiga e supra falada expressão que rege algumas rodas de conversas e livros de auto-ajuda, que temos que viver todos os dias intensamente, como se fosse o último dia. Há algo errado nesta expressão ou há algo errado em nosso dia-a-dia?. Contudo, o tempo, independente e inquebrável, em nada importa-se com as incógnitas das atitudes humanas. Não espera que tomemos as melhores decisões, não espera o dia que teremos como observar um simples arco-íris ou escutar o canto dos pássaros, em suma, não espera que tenhamos espaço em nossas agendas para qualquer poesia. O curioso neste processo, em que travamos uma verdadeira batalha entre o todo, as inúmeras possibilidades cotidianas, as várias fases do viver, desdas primeiras horas que nos damos conta que somos humanos e na imersão do que isto significa, temos uma certeza lá (ou aqui) no fim desta estrada. A morte. Só está certeza já deveria bastar para simplesmente reinventarmos nossas vidas cotidianamente, mas não, criamos nossos vínculos, vivemos em redomas, construímos casas, vivemos em comunidades, tribais amizades, triviais ( ou não!!!) projetos de vida, sob a batuta do conforto ou do prazer momentâneo. Como um filme feito de alguns momentos clássicos mas em sua maioria, uma monótona busca pelo desconhecido que certamente conhecemos e queremos em nossa intimidade e inteligência. A Felicidade absoluta. É trágico saber, que de todo o percurso de nossas vidas, que para cada um terá um tempo determinado, alguns a vivem alguns segundos, outros horas, outros dias, meses, anos, depende da capacidade de cada um de entender o tempo, não àquele tempo que vai chegar um dia, mas o hoje, o agora, neste momento exato…O que passou é fictício, os próximos segundos serão também até você estar nele, você espera estar, eu espero estar, mas teimamos em esquecer que jamais saberemos se sim ou se não. Devemos esperar ou correr desesperados por monstruosas poesias e altas performances do viver? ou quem sabe, apenas, viver, muito além do que poderia ou pode ser. É possível?

 

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Autor: Cronie | “Crônicas e outras formas de viver em utopia”

Fotografia: Vivian Maier

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