Atentado em Paris contra o Charlie Hebdo: o horror

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08:47

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por PRCF

 

Saídos das trevas medievais, terroristas abateram friamente homens desarmados. Estupor e indignação. Doze mortos, feridos graves... Partilhamos a dor e o horror ressentidos pelos próximos das vítimas e pelos cidadãos de todas as convicções amantes da laicidade e da liberdade de expressão, por todos aqueles que recusam que fanáticos restaurem sobre o nosso solo o pretenso "delito de blasfémia" abolido pelas leis laicas e façam reinar o terror clerical. Um pensamento especialmente particular para o nosso querido Wolinski que foi, durante décadas, um dos raros desenhistas a combater o anticomunismo, o anti-sovietismo e a defender com coragem Cuba socialista . O PRCF condena este horror absoluto e seus autores que não merecem nenhuma espécie de desculpa.


PARA ALÉM DO HORROR, DEVEMOS ENFRENTAR TAIS ACTOS COM SANGUE FRIO E ANALISAR O QUE ESTE CRIME REVELA


Ninguém conhece claramente os instigadores deste atentado neste momento. Ora, Marine Le Pen acaba de denunciar um atentado dos "fundamentalistas islâmicos". Esta hipótese é evidentemente plausível mas não é senão uma hipótese e há uma vontade provocação na proposta da FN que espera certamente aproveitar os acontecimentos para dinamizar seu empreendimento xenófobo. Não esqueçamos as 77 pessoas assassinadas pelo nazi Anders Breivik na Noruega ou os quarenta sindicalistas queimados vivos emOdessa pelos nazis apoiados por Kiev. Os integristas religiosos não têm o monopólio do terror, longe disso!


QUANTO AO FUNDAMENTALISMO ISLÂMICO, QUEM O ARMA? QUEM O INSPIRA? QUEM O FINANCIA? QUEM O FAZ PROSPERAR?


O governo dos Estados Unidos e seus vassalos, a Arábia Saudita, o Qatar, certos governos de países muçulmanos na bota da NATO. São estes que têmn recrutado e utilizado os integristas contra os comunistas árabes, contra o movimento operário e democrático destes países: os Estados Unidos sustentaram Ben Laden e seus torcionários contra o governo popular afegão e contra o Exército Vermelho que o governo de Cabul havia chamado para ajuda em virtude de um tratado de assistência conforme ao direito internacional. Recorde-se de Sadate que utilizou os Irmãos Muçulmanos contra os progressistas egípcios. Ainda hoje quem arma e financia Daesh senão os regimes amigos dos imperialistas do Qatar ou do Koweit cujo inimigo principal é a Síria independente e soberana?


Que se recorde também de quem fez assassinar o chefe de Estado da Líbia pouco se importando por entregar este país próximo das nossas fronteiras aos integristas fanáticos: trata-se dos srs. Sarkozy, Cameron e Obama que respondiam então às pregações do grande cruzado ocidental BHL (Bernard-Henry Lévy). Na realidade, o fundamentalismo islâmico é uma das criaturas do imperialismo, criatura que por momentos, segundo um esquema clássico, volta-se contra o seu criador: Sadate abatido pelos Irmãos Muçulmanos, 11 de Setembro em Manhattan, os Talibans voltam-se contra os ocidentais depois de terem linchado aos milhares os estudantes, os comunistas e os professores laicos que alfabetizavam o país...
A QUEM APROVEITA O CRIME?


Esta deve ser a pergunta. Quais são as forças políticas que prosperam sobre o racismo anti-árabe? Quais forças políticas querem substituir a realidade da luta das classes pela fantasmagórico luta das raças, das etnias, das religiões? São as forças da fascização galopante , onde elementos da direita clássica juntam-se cada vez mais aos semeadores de ódio da FN com o apoio de pseudo-intelectuais como Zemmour. Mais do que nunca, esta estigmatização permanente das populações muçulmanas ou classificadas como tais alimentam, sem os legitimar, os piores ressentimentos. E por sua vez, estes permitem aparentemente "justificar" o ódio do trabalhador muçulmano numa espiral que é preciso romper antes que resulte na fascização do nosso país e de toda a UE, a qual não pede senão isso (conferir Ucrânia, países bálticos, Hungria, direita dura flamenga, etc).


E qual força social vendo pela frente o risco de uma revolução social tenta fazê-la desviar, apodrecer, matá-la transformando-a em luta interna nas classes populares de origem ou/e de religiões diferentes que poria em abrigo seus interesses de classe? O grande capital!


EM QUAL CLIMA IDEOLÓGICO ESTE CRIME ESPANTOSO TEVE LUGAR?


É o da fascização da sociedade, da campanha mediático-ideológica em torno dos Zemmour, Soral, Dieudonné, em torno do bobo islamófobo Houellebecq, de um racismo anti-trabalhador árabe cada vez mais aberto, pela recusa de um presidente de municipalidade a enterrar um bebé cigano (rom), pelas declarações de um primeiro-ministro julgando os ciganos "não integráveis", em suma, num clima apodrecido que recorda as horas mais sombrias do nosso país.


O GOVERNO HOLLANDE NÃO ESTÁ INOCENTE NA CRIAÇÃO DESTE CLIMA MORTÍFERO!


Por espírito neocolonial e por submissão à UE-NATO, ele impeliu ainda mais longe que Sarkozy as ingerências no conflito sírio, as práticas neocoloniais intervencionistas da Françáfrica (Costa do Marfimn, R. Centroafricana, Mali), as escaladas contra o Irão, o apoio apenas disfarçado ao massacrador Netanyahou, sempre continuando a compactuar diariamente com os piores regimes feudais do Golfo. Como sempre dissemos, o combate contra o terrorismo fanático na própria França é inseparável da luta contra "nosso" imperialismo, que criar dia-a-dia o terreno propicio para as violências mais selvagens.


EIS PORQUE O PRCF REJEITA CATEGORICAMENTE A "UNIÃO SAGRADA" POR TRÁS DE HOLLANDE E CAZENEUVE


Em graves dificuldades no terreno social, estes vão muito certamente explorar a situação para acentuar os ataques contra os direitos sociais adquiridos e contra as liberdades (cf nossa denúncia da recente lei Cazeneuve de que se fez prova de que reduz ainda mais nossas liberdades sem diminuir a força de ataque dos assassinos). O Polo dos Renascimento Comunista em França apela, pelo contrário, a uma grande "Frente antifascista, patriótica e popular voltada para o progresso social, a laicidade republicana verdadeira, as liberdades democráticas, a paz, a soberania nacional, contra o grande capital e sua UE atlântica pois a corrida ao lucro máximo semeia o caos no mundo inteiro.


Os assassinos, os degoladores, os fanáticos, os manipulados e os manipuladores encontrão diante deles os comunistas que farão tudo para reforçar sua unidade de acção e para permitir a constituição de uma vasta Frente Antifascista, Popular e Patriótica tendo em vista um novo Conselho Nacional da Resistência. Conclamamos nosso povo a um imenso sobressalto progressista e republicano para barrar o caminho à peste que ganha terreno, pois quer se camufle em verde, em negro, em azul mariano, em azul-marinho ou em castanho, o fascismo serve sempre os mesmos interesses: os do capitalismo.
A melhor resposta aos assassinos é nossa unidade de combate, nossa determinação, nosso sangue frio e a perspectiva de uma sociedade desembaraçada da exploração da miséria, do imperialismo e da guerra, a perspectiva do socialismo.


Sempre condenando sem a menor restrição os assassinos, não nos deixamos encerrar no "choque das civilizações" com que sonham os cruzados de todas as plumagens: avancemos sem enfraquecer a luta das classes e construamos por toda parte a resposta social à euro-austeridade para que no 10º aniversário do 29 de Maio de 2005 (não à euroconstituição), ascenda a exigência de uma república social, soberana e fraternal desembaraçada do capitalismo, do imperialismo e do fascismo .

07/Janeiro/2015/16h15


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  • O original encontra-se em www.initiative-communiste.fr/...
  • Este comunicado encontra-se em http://resistir.info/ .
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    07/Jan/15

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    Nebraska e a permanência daqueles que amamos

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    09:58

    Quem cuidará de nós nos derradeiros anos de nossas vidas? Esta é só uma entre tantas perguntas implícitas em Nebraska, último filme de Alexander Payne de (Os Descendentes, 2011 e Sideways - Entre umas e outras, 2004) lançado em 2013, mas que estreou no Brasil apenas em 2014.

     

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    E esse questionamento assustador é vivido com maestria por Bruce Dern na pele de  Woody Grant, um idoso que ao receber um panfleto publicitário pelo correio, passa a acreditar cegamente que ficou milionário. Grant quer viajar para o estado de Nebraska, andando se for o caso, para receber o prêmio. O roteiro escrito por Bob Nelson vai aos poucos escancarando as feridas e as relações do patriarca da família com seus próximos. Isso envolto em um preto e banco estático, quase desbotado, como o percurso do tempo, em personagens perdidos em meio ao fim das grandes ilusões do mundo. Tudo na fotografia magistral do ateniense Phedon Papamichael. Em sua terceira parceria com Alexander Payne.

     

    Como são frágeis as relações humanas. É o que parece sugerir a película em sua jornada adentrando o passado de Woody. Alcoólatra e absurdamente teimoso, não muito distante da realidade de muitos senhores de idade que conhecemos. Sua história com cada um dos dois filhos, esposa, amigos, conhecidos, o próprio país, tudo parece desaguar num limbo daquilo o que foi um dia e que jamais retornará. Grant, ao saber que está possivelmente rico, depara-se, quase, inconscientemente, com velhas dívidas e cobranças. Vem à torna, questões do passado e o peso de quem ele foi. Emergem em disputas ocultas e verdades sendo confessadas. Em meio à crise econômica, famílias se desfazendo, antigos sonhos americanos sendo destroçados pela realidade dos fatos, tudo é condensado em uma grande panela de pressão de palavras que implodem inevitavelmente.

     

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    O que você vai deixar para seus filhos? Ou, o que você vai deixar para as outras pessoas? Outro ponto relevante nesse trabalho de Alexander Payne. Ao ser questionado pelo filho David Grant (Will Forte) sobre, o porquê, querer tanto ficar milionário neste - ponto da vida - Se ele já tinha tudo que precisava, o impetuoso Sr. Grant releva que quer deixar alguma coisa para os seus descendentes. Até então, para nós, era apenas uma estripulia da meia idade, mas agora sabemos que existia uma causa permanente, singela e desesperadora em toda essa obsessão pelo eventual bilhete premiado. Automaticamente nos perguntamos: O que vamos deixar? Nosso caráter? Nossa moral? Nossa casa? Nosso amor pela pátria? (Woody Grant era um veterano da Guerra), um bem material, imaterial? Depende de cada um responder. Uma resposta que não será dada por nós, certamente.

     

    A solidão e iminência da morte. A fantástica atuação de Bruce Dern se mostra quase como um espelho, do que, por ventura, podemos nos tornar. A realidade de que o tempo permanece voraz em nossa pele, em nossa sanidade, em nossas palavras e gestos. A solidão do incomunicável. Do não poder locomover-se, não como antes, das necessidades de ter alguém por perto, das mudanças de humor, o passado como um retrato distante e impenetrável. O ciclo da vida seguindo em seu leito natural para o esquecimento, ou não. Nunca saberemos.

     

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    Aqueles que nos amam, permanecem conosco. No final das contas, já nos fins dos dias, só aqueles que de fato viveram com verdade ao nosso lado é que são provas da existência do amor. Como o jovem David Grant, que mesmo sabendo que tudo terminaria em uma frustrante constatação, acompanhou o pai nesta insana aventura e o fez para se reaproximar. Unir a família novamente, todos juntos, com seus defeitos e qualidades. Essas sim são as memórias que devem ser carregadas eternamente. A vida, um único percurso, para errarmos ou não, mas nunca deixarmos de viver.

     

    Nebraska é daqueles filmes que nos tomam. Pela experiência com a arte. Pelo olhar ácido, corrosivo sobre a realidade da vida, mas também um trabalho que versa sobre as relações que realmente valem a pena. O seguir em frente como um ato natural e o amar, como aquilo que ficará impregnado em nosso rastro oculto.

     

    Um grande filme, uma bela obra prima de Alexander Payne.

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    a luz instantânea de Andrey tarkovsky

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    19:41

    Pequeno tributo no vigésimo oitavo aniversário de morte do mestre Andrey Tarkovsky (1932-1986)

     

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    Por | Andrey Tasso

     

    Foram apenas sete filmes, entretanto, parece que foram centenas. Tantas belas imagens, outras tantas reflexões filosóficas atemporais, uma infinidade de poesia esculpidas no tempo-espaço das lentes de um gênio poeta  e vice versa. Cada detalhe caro, modelado em câmeras quase imperceptíveis e estáticas, como uma moldura sobre as metáforas da realidade das coisas, verdadeiras fotografias delicadas em rostos tomados pelo estado bruto da arte e esta sendo executada ali, no ato-fílmico, na criação escrita no exato momento que é vivida, o cinema finalmente em seu posto, tornando-se uma arte irretocável, junção de todas para nascer, com Tarkovsky, uma singularidade.

     

    Publicado Em 2006, Instant Light: Tarkovsky Polaroides, pela editora inglesa Thames & Hudson,  reúne oitenta fotografias tiradas com a máquina polaroide. Neles podemos mais uma vez sentir a poética de Andrey, vista em sua filmografia, mas agora na atenção tênue ao instantâneo, a luz calma, densa em sua divagação, impregnada de sensibilidade e solidão do espaço, das coisas, da simbologia do homem e a contemplação do mundo exterior para o interior de suas divagações inconfessáveis. Imagens congeladas, Vistas de perto em profunda investigação. Muitos dos elementos do trabalho do cineasta russo estão presentes nesse despretensioso trabalho.

     

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    Tonino Guerra (com quem Tarkovsky trabalhou no documentário Tempo di Viaggio filmado em 1983) e que também faz o prefácio do livro,  certa vez, relevou que foi Michelangelo Antonioni que deu de presente a máquina polaroide à Andrey. O trabalho começou antes do exílio do russo na Itália e antes também no lançamento da obra prima Stalker (1979) e se estendeu até depois das filmagens de um dos grandes trabalhos de Tarkovsky, Nostalgia, lançado em 1983 e filmado na Itália.

     

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    Há de se ressaltar: Tarkovsky nasceu próximo ao rio mais longo da Europa, o rio Volga, na pequena Zavrazhye. Essas informações são importantes também para compreender os elementos de sua arte. Filho do poeta Arseny Tarkovsky e da editora e atriz Maria Ivanovna, esta, grande incentivadora da intelectualidade e do gosto pelas artes do cineasta. Algumas biografias apontam certo momento de rebeldia de Andrey alimentado sobretudo pelo pai. A sensibilidade aguçada também teve influência da irmã, Mariana.

     

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    Andrey não voltaria mais para sua terra natal. As fotografias tiradas nesse período remetem ao mundo muito próximo dos seus filmes e também, é como se o poeta estivesse pressentindo que não veria mais aqueles lugares e sobretudo, seu filho Andrei Tarkovsky (mesmo nome no pai) que ficou impedido de sair da Rússia dos 11 aos 16 anos, reencontrando o pai apenas em Paris, em seu leito de morte, em 1986.

     

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    Para quem acompanha e ama cada detalhe da filmografia do russo, encontra nas polaroides, um universo intimamente familiar. A poética da simbologia do olhar. Da perspectiva filosófica em compreender os signos que movem o mundo, por vezes, ocultos mas obsessivamente percebidos pelas oníricas sutilezas de um estado de sensações jamais falseadas e que acaba sendo objeto de visualizações espirituais do artista.

     

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    Basta olharmos que os versos se desdobram sobre nossas percepções. Nessas fotografias estão recortes da Infância de Ivan (primeiro filme e obra de arte do cineasta), rabiscos de Rublev, o cão e os nevoeiros de Stalker e Nostalgia, a simplicidade imóvel de Sacrifício, a identidade existencial construída ao longos dos anos e retratada em O espelho.

     

    Parecia e está se revela uma verdadeira certeza, que Andrey Tarkovsky não era apenas um dos maiores cineastas da história, era antes disso, um artista buscando o sentido para as coisas e nessas fotografias, seus filmes, seu livro, suas reflexões e entrevistas remetem a isso: Um ser humano profundamente sensível e determinado em sentir o quão pode ser transformadora a experiência da arte em suas múltiplas facetas.

     

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    Para acessar estas e outras imagens | http://www.diphotos.net/JJ/Tarkovskij/Web/li.htm

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    a passagem do tempo em ‘boyhood’

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    10:00

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    Por | João Roc

     

    Doze anos de nossas vidas. Foi este o tempo que Richard Linklater de (Antes do Amanhecer, 1995) passou para nos entregar seu novo trabalho chamado Boyhood. E provavelmente a fluidez que sentimos nesta película é muito fruto desta paciente modelagem, ou um tempo sendo esculpido em tela e em cada personagem, como sugere o livro ‘Esculpir o Tempo’ do Andrey Tarkovsky.

     

    A pergunta que talvez possamos fazer depois da experiência de assistir Boyhood é: Por que tudo isso? Por que a vida? Por que fazemos o que fazemos e por que as coisas funcionam deste jeito, que jeito? Não sei, o seu, o meu jeito. A princípio pode até parecer um questionamento puramente juvenil, talvez até seja, mas enquanto vamos mergulhando nas experiências, mudanças, escolhas destes personagens; é como se estivéssemos também a ver, como um videotape, recortes de nossas vidas e pudéssemos por algum momento perceber, de fora, mudando de lugar com um imaginário telespectador, nossas posturas, razões e motivações para continuar vivendo e nesse processo, parar, algo tão caro nesses nossos tempos modernos, e entender o que está acontecendo e por qual transformação estamos passando neste exato instante. Todos nós; adultos, crianças, jovens…

     

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    O tempo, um rio congelado onde abriga cada acontecimento que vai, de alguma forma e até certo ponto, influenciar o próximo passo, como uma grande teia, um grande painel de sensações, um poema sendo escrito, mas que não temos noção de estar a escrever a não ser que alguém diga: Estais a escrever sua história? E você se dá conta que sim e foi isso que fez Richard Linklater em seu novo trabalho e talvez por isso esteja sendo tão aclamado pela crítica.

     

    Não à toa, Christopher Nolan fez um paralelo com sua obra prima, Interestelar, e Boyhood. Lá o tempo é implacável e aquilo que por escolhas não pudemos viver, irreversivelmente perdem-se num limbo de dor, tão demasiadamente humana. Na construção de Linklater, é como se estivéssemos no olho do furacão, o mundo ao redor acontecendo. Pais divorciando, novos amigos, velhos amigos partindo, pessoas diferentes em lugares diferentes dos nossos, ao mesmo tempo em que vivemos algo aqui, ali perto, talvez no vizinho ou no parente que não falas há algum tempo, coisas estão acontecendo, a fluidez, o envelhecimento, novos amores, novo emprego, nova cidade, nova casa, novo ano chegando e com eles, para alguns, novas promessas, como num grande alvoroço, a vida como um hipopótamo, como no delírio de Machado de Assis em Brás Cubas, levando-nos sem pedir permissão aos confins.

     

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    Como nota, o trabalho de Ellar Coltrane é fantástico e foi muito facilitado pela grande atuação de Patrícia Arquette e magnífica construção de Ethan Hawke como o pai que mora longe e visita os filhos nos finais de semana. Na verdade, Richard Linklater entregou para cada um, um documentário de suas próprias vidas como ator. Cada ator e atriz fizeram nestes doze anos, vários filmes, inclusive o diretor.

     

    Boyhood acabou sendo o retrato de suas vidas, outros rumos, outros caminhos não só como artistas, mas como pessoas e é nesse sentido que esta obra é arte no sentido de ser tão espelho, tão universalmente fiel ao fluxo natural da vida e fazer uma leitura nossa capaz de nos envolver em sua profundidade. Pulamos de páginas em páginas, certas coisas não podem ser mudadas mas podem ser reescritas em outra época, em novas formas de olhar, sentir, enquanto há a vida há experiências, elas existirão, quer você tenha noção ou não, podemos controlar certas escolhas mas algumas são como vem, independentes de nós e o que vai acontecer é um sublime mundo desconhecido. Vivamos então!!! Continue

    Cícero e as pequenas fugas diárias

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    11:51

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    Por | João Roc

     

    Se pudéssemos traçar uma perspectiva ótica e existencial entre seu primeiro álbum de estúdio Canções de Apartamento (2011) e Sábado (2013) segundo disco,  certamente a sensação é que se no primeiro as canções que predominavam eram de um intimismo de um sujeito oculto, na solidão diária do olhar distante, aquela perspectiva confessional olhando os carros-formigas da manhã, mas de longe, como um ponto fosco em uma janela no centro da cidade. O segundo trama uma fuga, uma passeio entre devaneios cinzentos pelas vielas, a solidão persiste, mas agora é aquela solidão na companhia de uma multidão, aquela inadequação que vem e vai de forma clandestina, consome o espaço e eclipsia qualquer gestual sentido de nossos passos.

     

    ‘D e   l a d o   p r a   a l e g r i a   t o d a
    p r o c u r o   c a l a d o   a   c a i x a   d e   f ó s f o r o s
    a   c o n f u s ã o   a   c a m i n h a r
    e   a   s o l i d ã o   a   b a t u c a r’

     

    O motivo? Não sabemos, apenas queremos andar procurando-o. Talvez encontrar a nós mesmos, meio, esquecidos num bar, num praça, no ponto de ônibus ou dentro dele, num canto qualquer esperando o tempo passar. O universo solitário é preenchido enquanto o mundo desencanta entre seus personagens, reais na dimensão do contexto e importantes em suas realidades intransponíveis. O que aconteceria se trocássemos de lugar com eles? Qual a significância de suas vidas e das nossas? Ouça ‘Fuga nº3 da rua Nestor’ e entenda.

     

    ‘t o d o   o   â n i m o   a t r á s
    d e   u m   m o t i v o
    u m   m o t i v o’

    ‘Sábado’ é daqueles trabalhos que foram feito para ouvir sozinho ou lado de uma doce companhia, pede uma cumplicidade mágica. O disco trama uma fugitiva reverberação de sentimentos que parecem serem mais bem compreendidas no silêncio calmo de uma madrugada. Não necessariamente é preciso existir e mergulhar em alguma pontual tristeza. O Poeta é um andarilho urbano que persegue, as vezes desmotivadamente, as vezes obsessivamente, um destino tão desconhecido quanto o último verso de um poema. O violão encontra ecos em dedilhações sublimes que se erguem como frágeis paredes ocultas ao olhar. Gotículas de piano sobre uma calçada como na beleza de “Frevo por acaso” ou reversas baterias que contrastam com a voz cheia de versos-neblinas em “Fuga Nº 4”, as verdades saltando das garagens e portas das casas trancadas, um canto de acordamento para embalar aqueles dormes e sussurrar nos ouvidos da aurora em Porta retratos que se metamorfoseiam no mesmo instante que são capturados pela poesia do momento.

     

    ‘Q u a n d o   v o c ê   v o l t a r   p r a   c a s a ,   p e q u e n a
    n ã o   h á   t r i s t e z a   q u e   v a l h a   a   p e n a’

     

    Em Canções de Apartamento , Cícero dialogava em seu violão com acordes tão próximos de Marcelo Camelo (que em sábado toca bateria na primeira faixa e baixo e guitarra na canção “Ela e a Lata”) e trazia referências tão sutis como a banda inglesa Radiohead. Em Sábado, o compositor chama para passear Adriana Calcanhoto e/ou Moska e atravessa as ruas escuras do Rio de Janeiro ou de alguma cidade qualquer do ocidente em busca da dose fundamental de sonhos e imensidão. Chutando as latas deixadas por jovens inebriados, fazendo as ligações para o outro lado do mundo, pintando com acordes fantasmas a metrópole, ele, um sujeito homem envergando, andando ou voando sobre os arranhas céus com as asas deltas imaginárias que pousam delicadamente nos sentimentos tão inconfessáveis de nós.

     

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    O trabalho de Cícero remete aquela sensação que vez ou outra nos toma, largar tudo por algum instante e vagar sem rumo apenas no rumo certo de nossas incertezas e depois voltar para os braços de uma aparente normalidade, tão aparente quanto nós.

     

    ‘E se um dia precisar
    de alguém pra desabar
    Eu tô por aí’

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    From the Basement | os porões sonoros de nigel godrich

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    08:46

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    Por | João Roc

    O inglês Nigel Godrich é um engenheiro de som que estudou na SAE - Escola de Engenharia de Áudio - de Londres. Com a oportunidade de trabalhar ao lado do lendário John Leckie, no histórico, Abbey Road Studios, ajudou a produzir o segundo álbum do Radiohead, em 1995, e todos os discos dos ingleses até os dias de hoje. Além de colocar sua marca em álbuns pontuais de grupos do calibre de um R.E.M, dos franceses do Air, Metric e artistas icônicos como Paul McCartney por exemplo.

     

    Godrich também é musico, em 2010, lançou um álbum com a banda Ultraísta, onde compôs, arranjou e produziu o belo trabalho. Mas, além de um grande legado na discografia de figuras importantes de sua geração, Nigel reformulou o conceito de apresentação aos moldes da internet, modernizando a ideia de performances acústicas no seu pontual The From The Basement.

     

    Em 2006, convidou Dilly Gent, James Chads, John Woollcombe para produzir uma série que captasse as bandas em seu real –visceralidade -Sem plateias, sem intervenções de Mcs ou apresentadores engravatados com piadas de bolso para codificar os sentimentos do ouvinte/telespectador/usuário. O fluxo do programa seria determinado pelo próprio artista, sua arte ali, sendo executada sem cortes, sem oportunidade de maquiar qualquer tipo de realidade.  O local escolhido foi o Maida Studios, um aglomerado de estúdios da BBC que estava prestes há completar cem anos. Algumas apresentações também foram no Berkeley Street Studio, em Los Angeles.

     

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    From The Basement é um documento visual fantástico e talvez tenha sido esta a intenção de Nigel. Trazer às bandas para um território seu, quase como um ensaio catártico, fechado, claustrofóbico na criação, no afunilamento de sua obra exposta para câmeras em HD e depois canibalizada para um público sedento. Detalhes de mãos, passos, acordes verossímeis, baquetas e palhetas sob a ótica do detalhe, da íntima execução e recriação da obra. Rosto, gestos, sensações e guitarras acústicas sendo tocada em sua intrínseca conversa silenciosa, no suor criativo do autor. De The White Stripes à Kieran Hebden (Four Tet), as escatológicas performances de Thom Yorke e seu Radiohead às confissões sublimes de Pj Harvey ou Back. Das guitarradas nervosas de um Queens Of The Stone Age aos messiânicos rifs do Sonic Youth, desaguando em Jam Session dos Red Hot Chilli Peppers e poéticas reverberações de Damien Rice ou Fleet Foxes.  .

     

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    Mas do que a efemeridade que alcança o universo das produções de hoje, o trabalho visual e o resultado definitivamente ímpar de Godrich garante uma atemporalida sonora - para além do disco- para além dos concertos ao vivo ou participações em programas.  Temos a oportunidade, de mesmo detrás das lentes do monitor ou da TV, nos conectarmos com um lado mais palpável, sem amarras, quase como se, por uma obra do destino, pudéssemos participar das sessões de gravação destes artistas. Como ouvintes e como cúmplices e confidenciássemos sua genialidade, através desta profunda experiência sensorial, para as próximas gerações.

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    O golpe semântico da indústria da música

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    21:47

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    Por | João Roc

     

    Vivemos tempos difíceis na arte. Esta  buscando se redesenhar no olhar contemporâneo de novos artistas. Momento de entressafra entre Escritores, músicos, cineastas, artistas digitais e/ou do gueto, cada um tentando apalpar seu espaço e alguns almejando a reinvenção, enquanto outros, permanecem simplesmente atolados  no jogo comercial. E sua arte (neste caso, sua música)  recém criada, portanto, potencialmente uma novidade, já nasce velha.

     

    Falando especificamente na indústria da música. Com o advento da internet, produtores, bandas e todo o tipo de profissionais que trabalham no meio se viram em preocupantes quedas de vendas depois da farra que foi a década de 90. A última década do milênio aqui no Brasil sobretudo, houve, desde seu início, uma verdadeira explosão pop que levantou as vendagens à altos patamares e alavancaram jovens ambiciosos músicos (ambiciosos no sentido estritamente financeiro vamos deixar claro) ao status de grandes artistas tupiniquins. O Pop sempre existiu é óbvio, algumas bandas na década de 80 eram absurdamente comerciais, caricaturadas e sinistramente canalhas. Isso não mudou na década posterior, o que mudou foi o tamanho da coisa.

     

    Não só no Brasil mas também no mundo todo, a internet causou grande impacto na forma de distribuição e na relação do artista e seu público. Nascia aí um termo que sintetizava a angústia das gravadoras e a ira de profissionais, a cyberpirataria. Todavia, no Brasil temos um caso bastante curioso. A reinvenção da máquina pop não em sua estrutura sonora, esta há tempos sucateada e banalizada por suas letras sofríveis e sua postura pseudosentimental. Mas uma reinvenção que se dá no campo da semântica.

     

    Sim, você pode chamar de Tags, Marcadoras, novo estilos, sub-gêneros, seja lá o for, mas a grande verdade é que a indústria fonográfica conseguiu se manter viva no Brasil nesses últimos anos graças a uma forma de renovar as prateleiras e o gosto do ouvinte lhe entregando, em sua concepção, digamos, sínica, novos gêneros e dentro dele, variantes que se atropelam na sua falta de lógica e conteúdo. Este é o último elemento que vamos encontrar em uma busca profunda.

     

    O golpe é sempre o mesmo, para cada discutível estilo, outro semi-estilo acompanhando. Então temos o sertanejo (que na verdade não passa de músicas românticas chupadas de estilos bregas da década de 80) e depois temos, vejam só, o “Sertanejo Universitário”, a princípio um sertanejo mais jovem, mais animado, mas que garante um enxurrada de novos rapazes e duplas que irão fazer a felicidade dos donos de gravadoras. Depois temos o Funk. Com grande incentivo midiático, um pano de fundo social para validar a figura dos novos artistas. Logo depois o “Funk Ostentação” um estilo de letra que lembra muito alguns artistas negros americanos que versam sobre carros de luxo, mulatas gostosas e cordões de ouro. O que lá parece uma reafirmação social, aqui não passa de modinha barata e antagonicamente pobre em sua estrutura sonora. Claro, um sem números de grupos se agregaram ao “novo estilo”

     

    No Pará um pequeno movimento underground, uma espécie de “faça você mesmo” do norte do Brasil. Artistas do chamado “TechnoBrega” encontraram na distribuição manual uma forma de retrabalhar sua divulgação para além das rádios ou gravadoras. O resultado foi um intercâmbio entre frentes que poderiam ventilar este trabalha e o faziam e o baixo custo da obra/disco, refletindo em bom lucro para os seus autores. Mas nem mesmo assim se fugiu muito do vazio de inovações que a música pop brasileira tenta disfarçar através da criação dessas ilusões ortográficas. O Techno lá, tem mais a ver como isso vai soar no Marketing, no contato com um público que acredita em uma que algo “moderno” surgiu de um estilo que sempre foi discriminado no país. O tiro foi certeiro, com direito até a uma apaixonada resenha de Nelson Motta no Jornal.

     

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    A criação de novas nomenclaturas para enquadrar determinadas variantes não é novidade e muito menos é uma invenção brasileira. Na música eletrônicas, uma pequena mudança de andamento do som já coloca este num estilo diferente se o andamento fosse só alguns BPMs mais acelerados. O rock mesmo possui uma gama de gêneros que moldam em muitos casos a orientação musical de muitos fãs.

     

    Mas em se tratando da indústria da música aqui no Brasil, isso foi como achar água no deserto. A invenção de falso estilos, novas variantes que desandam para um mesmo fim explicitamente plagiador, a fabricação de novos artistas a cada temporada, mantendo aquecida as vendas e mostrando a efemeridade de como estas novas celebridades vão e se vão. Tudo é uma forma de fazer a roda da fortuna continuar girando. Entretenimento puro e amoral. A música tratada como mercadoria que vai ser consumida com álcool e outras drogas.  Uma farra de mulheres e homens, quase, desesperados por aquela canção, aquele hit que irá coloca-lós nos holofotes. A sociedade do espetáculo transformando a arte em uma escada para ser pisada e fatiada em Talk Shows. Para a indústria, é tudo novo de novo. A música neste universo puramente capitalista, é só um meio.

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    simon reynolds e a arte da crítica

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    12:22

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    Por | Joao Roc

     

    Com pouco mais de 20 anos, Simon Reynolds já era um dos grandes nomes da revista britãnica Melody Maker. Esta havia, na década de 60, se tornado uma das grandes referências da música underground do Reino Unido, considerada a “voz” do progressivo. Entretanto, perdeu espaço com o advento do Punk. Então, anos depois, para rivalizar com a forte NME, um grupo de jovens impetusos escritores começaram a redesenhar o períodico e este em pouco tempo se revelaria um dos mais febris e pontuais da crítica musical inglesa, já nos finais dos  anos 70. Recuperando seu posto e sendo a porta-voz de novos grupos, movimentos e a cena pós-punk até o início dos anos 90.

     

    ‘Beijar o Céu’ foi lançado pela Editora Conrad com tradução de Camilo Rocha e traz alguns dos mais fantástico trabalhos da crítica musical dos anos oitenta e noventa sob a escrita análica, séria e apaixonada de Simon Reynolds. Os artigos versam sobre a rivalidade entre Hip-Hop e Indie Rock por exemplo. O crítico adentra o universo dos Rappers, com profunda análise sobre trabalhos como ‘Rhythm King’ de Schoolly ou ‘Music Madness’ de Mantrnix, passando pelos Beastie Boys. Para Renolds existe uma ruptura de aborbagens entre o pop que ele chama de ‘branco’ e o que ele chama de ‘negro’. O primeiro busca raízes na realidade: “O rock branco se volta cada vez mais para dentro, garipando o estreito veio de seu próprio passado” enquanto que o segundo se agarra à “protolocos sexuais” e “caricaturas utópicas”

     

    Outra pontual artigo é o fantástico  “Peal Jam versus Nirvana”. Reynolds traça um imparcial paralelo entre os dois frontmans. Enquanto Vedder parece exibir um tom messiânico em suas apresentações com o Peal Jam, uma espécie de líder de uma geração de jovem perdidos,  o Nirvana parecia querer sabotar sua próprio carreira depois do aclamado Nevermind. Mas ao contrário do que possa parecer, apesar das intensas contradições e do aparente (e real) antagonismo entre ambos, o escritor não julga, não ergue planos morais ou filosóficos, se atenta a fatos, palavras, letras das músicas e o contexto daqueles anos, para no final escrever taxativamente: “Junte Vedder e Cobain e você terá algo próximo de um ser humano por inteiro”

     

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    Outra grande trabalho dessa coletânia de artigos que é “Beijar o Céu” se faz sobre a banda inglesa Pink Floyd e sua primeira figura icônica, Syd Barrett. Simon se concentra em um dos temas centrais do grupo, “o fim da infância”, as relações do antigo vocalista em seu contexto familiar e como isso moldou a visão dos primeiros álbuns,  sobretudo “Piper at the gates of dawn (1967) e A Saucerful of secrets (1968) dos Floyds.  Em outro ponto de grande relevância nesta passagem é quando Reynolds analisa a importância do Pink Floyd para bandas que nasceram justante de sua temáticas pastorais, como o “shoegazes” e indo mais a fundo, o legado da banda britânica para a geração rave dos ano 90.

     

    Ainda dos anos 90 mas especificamente nos anos 00, Simon Reynolds faz uma análise sobre como uma banda com alta vendagem e comoção no mainstream, como o Radiohead, conseguiu ser capa de uma das mais respeitáveis e considerada uma das revistas alternativas mais importantes do mundo, a The Wire.  Para isso, o crítico se aprofunda em uma hilária, surpreendente e relevadora entrevista com os membros da banda de Oxford. E se choca com a simplicidade, quase constragedora de Thom Yorke, para quem se acreditava ser uma figura de caráter problemático, como sugere os discos do Radiohead pós-Ok Computer (1997) revelou-se simples, modesto em sua real dimensão para o rock. Fuga ou escudo ou simplesmente um artista na real dimensão do termo.

     

     

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    Morrissey (quem Reynolds é fã), de Joy Division ao rap feminino à geração pós-rave, o delicioso trabalho de construção de uma critica que foge do óbivio, do lugar comum, que tenta aproximar o leitor do mais próximo possível da experiência de ouvir um álbum em palavras. Estes são alguns dos grandes triunfos destes artigos compilados em “Beijar o Céu”

     

    Importante dizer que Simon Reynold também colaborou para algumas das mais importantes publicações do mundo como The New York Times, The Guardian, New Musical Express e a The Wire.  Alguns artigos deste trabalho foram  tirados de alguns dos seus melhores livros como The Sex Revolts: Gender, Rebellion And Rock’n’Roll (1996) e também do Rip It Up and Start Again: pós Punk 1978-1984 (2005). Além de matérias das publicações no qual ajudou a construir um legado.

     

    “Beijar o Céu” é para todos, como fator histórico e riqueza cultural e também para quem gosta de ler sobre música, pormenores, construções apaixonadas e tramas filosóficos em suas entrelinhas, algo só possível com alguns dos grandes artistas compilados nesse trabalho.

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    Nota sobre Marcel Caram | Surrealismo, confins e arte digital

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    11:04

    A obra do brasileiro Marcel Caram converge para signos que saltam da impessoalidade dos meios para um fim onde um mundo tênue passa a existir, entre o imaginário e as fronteiras da sublimação, tão cara e única a nós, validando, aquilo que chamamos de, arte.

     

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    Por | João Roc

     

    A Arte assim como o ser humano é mutável. Suas linguagens se agregam a novas experiências, contemporâneas tecnologias e esta tornam-se, para o artista, ferramentas que possibilitam agregar a sua obra à outros elementos e lhe permite continuar criando o até então, inimaginável.
     
    Nascida do avanço tecnológico da metade do século XX, com a evolução dos hardwares e softwares, a Arte Digital trouxe ao mundo das artes novas abordagens que se disseminaram em intensos experimentos. No Brasil, um dos grandes pioneiros dessa vanguarda foi o artista plástico Waldemar Cordeiro, que desenvolveu estudos, sobre arte realizada no computador, ao lado do físico  Giorgio Moscati. Cordeiro também dirigiu, em Campinas, o Centro de Processamento de Imagens do Instituto de Artes, além de produzir uma histórica exposição chamada ‘Arteônica’ realizada na cidade de São Paulo em em 1971.

     
    Seguindo esta tradição experimental e tomado pelo universo surrealista, Marcel Caram é, sobretudo, um desconector do mundo exterior e sua veloz aglomeração, fazendo da sua arte, a arte de se reconectar à contemplação mágica, muito além do sonho, muito além da mera irrealidade ou dos artifícios programados da modelagem sintética. Sua obra conversa com cada objeto, caro ao nosso dia-a-dia, e tão próximo a nós. Acessar os sentimentos que se erguem no contato com sua película oculta é um dos grandes triunfos deste artista. Caram subverte a lógica gélida da criação na máquina. Seu pictórico digitalismo, no lirismo da poesia, é capaz de, como um filme, nos submergir em tramas filosóficas e questionamentos para com as nossa relação com o espaço ao redor.

     

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    Para isso, o mineiro parece traçar um diálogo nos confins do desconhecido com duas referências que surgem imediatamente no encontro com sua obra: Salvador Dáli e Rene Magriitte. Do primeiro, a tendência ao absurdo, ao grandioso mundo imaginário que é desbravado e que nos convida às imagens que causam, até hoje, uma profunda e deliciosa estranheza.

     

    Mas é no universo do pintor belga que Marcel vaga em busca do antídoto inconsciente: O ordenamento dos objetos. O uso do espaço longínquo, a vastidão meticulosa, a jogo que nasce do questionamento entre artefatos reais e nossa relação com os mesmos, às vezes até, imperceptível, mesmo que íntima. A luz percorrendo até aonde o olhar se perde, a solidão de personagens que parecem absurdamente iguais a nós em sua dimensão moldurada, a ausência de uma poluição visual, em outras palavras, certo enxugamento de ideias que o aproxima de Magritte.

     
    Percorrer os trabalhos de Marcel é fazer um estudo intrínseco. Permutar nossa visão de arte olhando acima os ombros das linguagens prefixadas (ou convencionais) e contornar o abismo que separa uma arte criada pela tradição e outra que nasceu do seu tempo, não nasceu para ser uma nova arte certamente, os elementos estão todos lá, à amostra no resultado definitivo.

     

    Apenas a pintura (neste caso) foi reafirmada. É a mesma, naquilo que deságua no fascínio. Marcel Caram se transmuta dentro do universo surrealista. Suas imagens inspiradoras, se revelam oníricas conversas que temos conosco, mas que ficam intraduzíveis no barulho póstumo das obrigações diárias, no calor insepulto que permanece e impede o raciocínio lógico de nossas imaginações magnânimas. O artista parece que ouviu nossas confissões depois de ler Rimbaud ou Lautreamont e com um mouse, as desenhou, usando os monitores como enquadramento de uma paisagem que joga com nossa percepção de realidade.

     

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    Recentemente sua obra foi selecionada no SoJie 6, uma espécie de concurso cultural que reúne artistas de várias partes do mundo. A exposição acontece virtualmente, com renomados curadores e engloba arte digital, pintura convencional, fotografia. O festival  é uma iniciativa da empresa australiana REDBUBBLE. Esta funciona como um mercado virtual, um espécie de “Spotify” no sentido de alcançar novos artistas, permitindo-os expor e vender seus trabalhos e regular seus próprios preços.

     

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    Os trabalhos de Marcel Caram podem ser visualizados na sua página no Flickr e também acessados e/ou comprados Aqui

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    Reality shows não são meras coincidências

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    16:19

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    Por |João Roc

     

    Ok, tal entretenimento na TV já são fórmulas batidas, desgastadas por clichês da propaganda e rendem em ralação a qualquer expectativa de conteúdo rico em cultura de qualidade uma grande frustração certamente. Mas se jogarmos isso, no dia-a-dia das relações humanas, na sala fechada de algum escritório ou repartição, teremos nestes poluídos programas, uma pequena amostra de como uma convivência diária com pessoas completamente diferentes pode construir, para o bem ou para o mal, determinantes em nossa postura, moral, desejos e revelar um lado de nós até então imperceptível.

    No trabalho, assim como nos Reality shows há as grandes estratégias. Se lá no confinamento das emissoras, o desejo é por uma fortuna que poderá, na cabeça do competidor, mudar para sempre sua condição financeira, no trabalho a ânsia é de se manter ou de subir nos altos patamares conceituais no cargo, o que fatalmente refletirá em suas finanças no fim de mês. A estratégia é bem definida: Vencer. Para alguns, isso significa atropelar qualquer oponente e até jogar na lama sua ética e/ou caráter. Sim, muitos arremessam sua conduta num fosso e muitos mais, não se importam nem por um momento com isto, querem no final, a certeza é que são vencedores em suas profissões ou emprego e não se são padrões cristãos.

    Para outros a tática é de corromper o oponente para um campo que ele conhece muito bem. Formam-se então grupos, verdadeiras panelas para um bem em comum. Todos ganharão é a certeza. Cargos melhores, aumento nos salários, quem sabe até privilégios ocultos para os demais participantes deste banquete, não importa, todos lutam para serem campeões na visão do chefe ou de algum superior hierárquico.

    Se nos realyst, cada membro terá que convencer o telespectador que é o melhor e merece seu carinho e sua dedicação nos sites especializados para a votação, no trabalho o convencimento será para a cúpula, para o patrão, para aquele que pode trazer enfim aquela promoção tão sonhada por horas a fio da madrugada.

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    Mas é nas entrelinhas da convivência entre os seres humanos e seus múltiplos interesses pessoais que esses programas passam a ser um verdadeiro espelho da realidade diária de muitas pessoas. A conversa em baixo tom, o chiado de verbos decodificados, o diálogo invisível para aquele que virou de costas, o leva e traz embalado para confundir, o puxar o tapete para um desabamento trágico ao mesmo tempo em que um triunfo mágico profundamente amoral se ergue. Nas relações humanas, nestes ambientes pragmáticos, mulheres e homens parecem fazer parte do mesmo universo íntimo. Seus medos e alegrias estão enraizados em seus lares, redutos para um dia cansativo e atormentador. Mas antes que está paz chegue no final do dia…

    Tribos conspiradores contra você ou você conspirando contra determinados e seletos segmentos. Risos femininos enquanto o olhar promove um ácido Raio-X aparentemente inofensivo. Elogios rompendo os limites da tua própria verdade, palavras na linha indireta que se mostram, pequenos licores cheios de espinhos e ódio permanente, porém; moderado. O homem briga, argumenta, mostra-se um inimigo contínuo e crepuscular. A mulher disfarça. Mostra os dentes e os lábios avermelhados, mas não pelo batom e sim porque na verdade gostaria de abocanhar a oponente e sugar sua empáfia. Deixa pequenos rastros de sangue nos olhos daquela que por ventura foi feliz na escolha do vestido feito de pequenos punhais de defesa. O Homem derruba com um traço, um golpe de punho e escreve à caneta suas justificativas. A mulher não deixa recado, seus recados foram dados em pequenos trechos, pequenos dizeres nas gavetas ou sobre os monitores enfeitados de rosa com fotos de um casal feliz em algum dia verdadeiro.

    Todavia, a crucial diferença entre àqueles programas de TV e as manhãs intermináveis de alguns transeuntes que é lá tudo estão à amostra. Explicito, explorado, editado, gravado e depois, como tudo nestas legendas: descartado, efêmero em sua insignificância. Mas no trabalho, as coisas estão ocultas, o jogo está sendo jogado mas ninguém confessa. Cada olhar não pode ser avistando por terceiros, cada gesto calculado jamais encontrará a luz se seu autor não quiser.

    Neste labirinto de fácil saída mas de difícil permanência, um mergulho no ambiente calmo e sereno de alguém que passa muitas horas da sua vida trancado em uma sala com pessoas, sou simplesmente na convivência múltipla com seres pensantes em prol de objetivos a princípio tão iguais mas que se traduzem em verdades perturbadoras sobre a psique humana em toda a sua plenitude.

    Claro, isso não é uma regra e nem um modelo, o cotidiano de alguns pode ser o oposto de tudo isto no trabalho, se for para você, parabéns.

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    Homens e Mulheres Touch Screen

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    14:17

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    Por | Andrey Tasso

    Se pararmos um pouco para olhar para o lado, muito provavelmente, vamos encontrar. Estão de cabeça baixa, olhos fixos sobre a tela sensível, até mais que eles mesmos. Ou debruçados sobre os teclados, não de algum mágico piano, para longas e enigmáticas conversas onipresentes. Não são todos logicamente, nem todo mundo tem condições de desembolsar uma pequena fortuna para acompanhar a dinâmica tecnologia. Alguns resistem, outros roubam até, para ter. Outros berram “minha vida estava lá!”

    Enquanto eles se misturam pela realidade virtual irreparável a paisagem os convida a contemplação. Perto dali é possível enxergar as crianças fugindo das mãos acolhedores de suas mães e partido em corridas mais extensas que a distância entre as galáxias, mas que duram apenas algumas calçadas. Ao lado, o senhor de idade caminha olhando para todos as direções após sair do banco, precisa comprar os remédios que o manterá vivo por mais alguns séculos. Cães esperam a passagem dos caros confiando em nossas percepções de segurança e esses carros parecem mais psicopatas enlatados dirigidos por ciborgues apocalípticos. Pássaros riem, mulheres mexem nos cabelos milhões de vezes por segundo. Homens da construção civil uivam mais que lobos cortejando sua futura caça e esta acuada e desejada passa em frações de segundos. Um casal briga no aglomerado da feira coberta e um avisa o outro para não esbarrar na mulher grávida que espera o filho para outro milênio. O Mundo não para, é óbvio, talvez quem tenha parado somos nós.

    Publicitários e afins exaltam seu poder psíquico. Sua elementar influência comportamental, psicologia barata, cara aos bolsos do proletariado. A cada nova invenção, entre elas, redes sociais (algumas até prometem agora, financia o usuário!), mensagens decodificadas nas telas ocultas, diálogos impossíveis à quilômetros da realidade. Guy Debord deve estar dando verdadeiras gargalhas em nossas faces gélidas, derretidas pelo wi-fi, um verdadeiro super-herói futurista, oculto mas necessário. Eric Arthur Blair deve estar tomando seu café enquanto escreve os dramáticos anos de nossa história moderna e patética. Onde estão os jovens pensadores, ele me perguntaria. Responderia que eles estão pendurados em seus aparelhos como um inseto seduzido pela lâmpada mágica do novo milênio, inclusive eu, respondo confessadamente.

    Agora mesmo, estamos submersos nas barbas de alguma Microsoft da vida, fazendo algum download de algum livro que jamais procuramos em alguma rara livraria esquecida nos becos da grande cidade. Descarregando músicas pelas entrelinhas anônimas, lutando contra vírus metálicos e limpando as lixeiras do destino. Velozes, nosso olhar percorre as barras rumo ao infinito, nossos sorrisos preparam a próxima postagem para se mostrar. Eles estão aqui, são crianças, mudas crianças que desconhecem as alegorias escondidas em algum quintal. Também são adolescentes, seus lábios são logo preparados para a próxima foto, o próximo tour pelos comentários, a próxima ida à academia e depois tudo isso novamente para logo depois tudo ser descartado e depois reprocessado à gosto da televisão e da próxima viral, moda. Música, estilo, estrangeirismos estilosos nas placas sedentas: Fitness, drive tour, Cupcake…Ostentação tupiniquim para abarrotar a caixa de curtidas e a fama para entre os amigos, admiradores, inimigas, até íntimas e uma olhada depois, antes de ir dormir, naquele site e saber se alguém comentou àquele desabafo que você deu, após um longo dia de trabalho ou dar aquele parabéns para o amigo, após receber um alerta programado no site.

    O mundo virou uma pequena ilha. Estamos tão perto de pisar em marte mas tão longe de saber cuidar do nosso próprio jardim, o que faremos lá? Enjaulados pelo dinheiro, pelo mercado de trabalho cada vez mais exigente, reféns da cultura do descartável, amantes fies da lógica do mercado, como zumbis cibernéticos como disse o pensador Hakim Bey, marionetes da próxima onda, imitadores de gestos para sermos aceitos, fazermos parte da aldeia global, da mecânica da globalização, da felicidade pelo consumo, pelo ter e não pelo querer. Para no final das contas, tocarmos a vida como em uma tela sintética, fina, jamais de fato, jamais realmente nas profundezas, jamais se conhecer, jamais apenas contemplar, pensar, simplesmente reinventar, recriar um novo, não um novo paradigma para ser espetaculazado, apenas a mais sincera inquietação do pensamento, do diálogo, do levantar a cabeça, olhar as nuvens, os arco-íris, as estrelas, o amor que pode estar ao lado, os animais, as crianças. Passar pela vida não como um usuário que digitou seu password e descortinou um perfil, passar pela vida para além de si mesmo, seja esta experiência o que for. Desconhecidamente sua, minha, nossa.

    O tocar, uma das nossas experiência mais profundas.

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    O Artista não veio para impedir uma guerra

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    10:28

    Por | João L

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    Muito já se falou sobre um dos maiores artistas mexicanos, o ator Roberto Gómez Bolaños, criador de personagens que embalaram a infância de muitas gerações, onde a simplicidade dos gestos, que lembra muito o de artistas como  Charles Chaplin, encantou muitos ao ponto de causar grande comoção em vários países. Mas, a verdadeira relevância do artista está para além das piadas, está no olhar que ele deu para um dos países mais problemático da américa, o México.

    Sofrendo com gravíssimas crises sociais, que inclui uma alarmante desigualdade e uma crescente violência, que consegue em alguns casos, superar a do Brasil, um país absurdamente violento. Em 1994 o país entrou para o NAFTA (Área de Livre Comércio da América do Norte) o que a princípio poderia parecer bom para o povo se mostrou pouco tempo depois um tiro no pé. Como o maior país de língua espanhola iria concorrer com Estados Unidos e Canadá, outros dois poderosos membros do grupo? a Revolta de Chiapas foi um dos pontos importantes nesses conflitos de interesses que isto se tornou. Mas nos últimos anos, tudo tem se agravado. Grandes cartéis de drogas tornaram as fronteiras mexicanas locais nebulosos. Com armas compradas ou não, nos grandes vizinhos. Outro fator grande é o desemprego e o baixo crescimento econômico.

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    Quando apresentou na década de 70 seu personagem, talvez Bolaños não acreditasse que chegaria tão longe, por tantos anos à tantos países. Retratando a simplicidade de uma vila, as frágeis relações humanas, os problemas financeiros e a pequena realidade desigual do povo, ela acabou conquistando muitos fãs. Talvez por encontrar no personagem, uma espelho de uma terrível realidade vivida pelo cidadão. Mas, Chespirito não tinha a intenção de ser nenhum revolucionário, Roberto Gómez nunca foi um grande ativista das causas mexicanas, sempre permaneceu em sua real dimensão, um artista. Como os artistas mexicanos, como o  grande escritor Octavio Paz ou Frida Kahlo por exemplo.

    E é neste contexto que o papel do artista se releva necessário e onde fica sua verdadeira significância. Claro, nada impede que um artista saia às ruas e proteste contra o governo e as mazelas sociais mas ele não deixará de ser menos artista se o não fizer. Para Nietzsche a arte existe para que a realidade não nos destrua, seu papel não é de exatamente mudar o mundo, impedir as tragédias entre os homens – sabe-se que Hitler tinha a obra completa de Shakespeare em sua biblioteca pessoal – Como disse o poeta Roberto Piva: Baudelaire, o Artaud, o Gottfried Benn e o Georg Trakl não impediram Auschwitz. Mas poderiam?

    A comoção e a tristeza em torno da morte de Roberto Gómez é válida e sincera em muitos casos. Claro, prato cheio para que a mídia sensacionalista ou a “sociedade do espetáculo” surfar e muitos vão nessa onda, fala-se até na divisão da herança e dos direitos sobre os personagens criados por ele. Aqui no Brasil nos habituamos a encontrar o “Chaves” todas as tardes na emissora do Sílvio Santos, lá é um dos programas de maior audiência de uma TV que tem seu público fiel apesar de ter uma programação por vezes, sofrível. Uma parte da nossa geração cresceu rindo das piadas e tiradas atemporais do garoto que mora num barril, que é absurdamente sua casa, muitos aqui no Brasil só têm um papelão para se cobrir do frio, é a arte imitando a vida.

    Roberto Gómez Bolaños se foi, a arte criada com Chespirito ainda deve embalar e fazer rir muitas gerações. Seu papel foi de encantar, fazer sonhar, contar uma dramática realidade de um problemático país com bom humor e sensibilidade, mas não o impediu este lugar de ser tão desigual, tão cheio de contrastes. Ter assistido suas belas criações como ator não evitou que toda uma geração se perdesse. Definitivamente, o artista não veio para impedir uma guerra mas a arte de traduzir a realidade, seja ela qual for, é um dos seus mais nobres papeis.

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    A ‘Poesia em Pânico’ de Murilo Mendes

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    11:16

    Por | João L

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    A poesia brasileira ganhou, mais ainda, altos patamares no século XX, com um dos seus maiores representantes: Murilo Mendes. Nascido em Juiz de Fora, foi ao lado de Manuel Bandeira e/ou Carlos Drummond, um dos oásis da poesia moderna tupiniquim.   De escrita por vezes abstrata, por vezes de um surrealismo, quase, religioso, base de sua iniciação ao catolicismo, sob a batuta do artista plástico Ismael Nery, que morreria  anos antes do lançamento do livro, causando enorme impacto na fé e na poesia de Mendes e seu olhar-sensações sobre os eventos do mundo exterior.

    Lançado em 1938, Poesia em Pânico, é uma experiência poético-celestial, onde o poeta, com forte influência cubista, desestrutura os versos para poder então, recria-lós em conformidade com a criação divina. Nas suas primeiras manifestações, sentimos a dimensão do encontro mágico “O espírito da poesia me arrebata” e sim, somos levados aos solavancos dos descaminhos do homem e seus obscuros paradigmas.

    O visionariíssimo elegante do poeta mineiro se choca com o mundo e seus objetos em “O Exilado” e o pessimismo tão dramaticamente contemporâneo em “A Destruição”. Nas nuvens de anjos se precipitando no caos alvoroçantes das ruas do apocalipse, Murilo se revela desesperanço, sem ânimo para o amor nem para o ódio, uma neutralidade metafísica que o lança em monólogos exteriores onipresentes, como no verso “Eu sou meu companheiro no deserto” do poema ‘O Homem Invisível’ e assim vamos sendo apresentados a mais um referencial da poesia do mestre, a presença feminina.

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    O pecado, o sedutor percurso do olhar da mulher que controla as ações do poeta além dos espaços em branco da inconsciência. “Mulher, o mais terrível e vivo espectro” O Mundo muriliando nas cordas bambas com Deus e com os demônios da mocidade. Um entrelaçamento descavernoso no âmago do destino. O colapso entre os contrários se ergue no fluxo entre Homem, a musa- igreja, Deus, ou seriam deuses repletos de imagens de si mesmo? Murilo avança nesse encontro contraditório, a mulher, como um ícone de um desejo que ele quase procura se afastar, mas tropeça em versos evidentemente reveladores, como no poema “O Primeiro Poeta” ou no poema “A Esfinge” onde temos talvez a grande síntese do pânico existencial de Murilo Mendes: Ó Deus / Eu nasci para ser decifrado por ti /Com um pé no limbo, o coração na estrela Vênus e a cabeça na Igreja.

    O Poeta se acha num verdadeiro labirinto íntimo e controverso, ao tentar juntar os extremos divinos e de sua própria extremidade, Como um “Amante Invisível” do mundo exterior, como uma fotografia que procura enquadrar todos as nuances da atemporalidade, ele acaba se convertendo aos acontecimentos em toda a sua significância. Em Poesia em Pânico, Murilo Mendes busca reconciliar os acontecimentos da vã existência com os enigmas inconfessáveis do homem, suas ânsias quase, inadiáveis, seus pensamentos, quase, independes, suas musas e suas indomáveis e secretas mutações, que são, porque não, verdades da criação divina. Portanto, a verdadeira natureza das coisas, sempre teve, em todos os instantes, o aval divino.

    O Livro, lançado pela Cooperativa Cultural Guanabara na década de trinta, é um verdadeiro clássico da poesia nacional. Sua obra completa acaba de ser relançada pela Cosac Naify sob a coordenação de Júlio Castañon Guimarães, Murilo Marcondes de Moura e do editor Milton Ohata. Ainda sem Poesia em Pânico, mas com outros grandes livros de um poeta ainda a ser redescoberto.

    | Começo |

    O espaço e o tempo
    Hão de se desfazer no vestido da Grande noiva branca.
    Serei finalmente decifrado, o estrangeiro da vida
    descansará pela primeira vez no universo familiar.

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    EU ACREDITO NA RAPAZIADA

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    12:22

    Por | Andrey Tasso

    Mapa da violência

    Nosso país têm um dos maiores índices de homicídios do mundo e esses dados entre a juventude é alarmante. Os números cresceram vertiginosamente segundos dados da Unesco de 1980 à 2012 e supera em muito o de países em guerra. A percepção que o cidadão comum tem é de que a nossa juventude, como sugerem os dados, os jovens entre 15 e 29 anos, estão completamente perdidos. Outro dado preocupante é da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios onde quase 20% da população na mesma faixa etária não estuda nem trabalha, os chamados “Nem-Nem”. Recentes dados apontam que muitos jovens têm adiado sua entrada no mercado de trabalha a fim de estudar primeiro, se qualificar, prestar concurso público etc. E é neste ponto que as coisas podem ser vista com positividade.

    Uma parte de nossos jovens estão morrendo e a outra ainda resiste. Com a quase obrigatoriedade de uma boa qualificação exigida por parte do grande capital coorporativo, criou-se ainda mais dificuldade na busca pela estabilidade e qualidade de vida da população e sua relação com o trabalho. Apesar da grande oferta de emprego no comércio e na construção civil por exemplo, isso não é necessariamente garantias de vida confortável ou de espaço para realização de alguns sonhos que estão fora do orçamento. Pensar na sobrevivência primeiro é o crucial para esses jovens e é objetivo a se pensar, para quem busca uma vida digna em uma sociedade que exclui aquele que por ventura, ouse, trilhar outros caminhos à margem do dinheiro.

    Basta entrar em alguma sala de cursinho pré-vestibular ou algum preparatório para concurso público ou olhar com mais atenção para todos jovens prestando o ENEM, para acreditar que forças ainda estão sendo empregadas na construção de um país melhor. O jovem precisa de oportunidade e educação, isso é fato, mas ele quer mais. Quer emprego de qualidade e não ser sufocado pelo lucro, pelos horários abusivos para sua existencialidade, pelo caos de simplesmente se manter vivo fazendo a roda da fortuna funcionar para os senhores encheram ainda mais suas gordas contas bancárias. Será que políticas públicas mais abrangentes não poderiam ser construídas para que o rapaz ou a moça pudesse criar suas bases para além do elementar jogo de deixar tudo para o futuro? Tudo o que? perguntaria o jovem leitor. Sua vida. Sua juventude. Seu tempo para si mesmo. Querer demais?

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    Isso também passa pela mentalidade consumista que desde pequenos aprendemos. Por àquela propaganda, dita inocente, que fazia nossa cabeça e obrigava nossos pais a serem os fundamentais saciadores desta fome por tudo que o dinheiro puder comprar. Crianças têm entrado cada vez mais cedo por este labirinto, para alguns inevitável. A construção de uma personalidade inspirada pelo luxo, pela compra, pelo corpo perfeito, pelo carro importado, pela casa naquele bairro chamado de “nobre” tudo isso é ventilado com bastante entusiasmo pela grande mídia, pelo cinema, pelos grandes bufões da política e do empresariado. Enquanto somos ensinados e porque não, obrigados a abrir mão de alguns bons anos de nossas vidas para construir um patrimônio material que obviamente iremos usufruir por alguns anos e deixar para nossos filhos. Há como fugir destas amarras?, só se um grande desprendimento for empregado em prol de uma vida absurdamente longe do capital. Nossa juventude ainda não tem tamanho senso crítico e nem faz parte da nossa cultura, brasileira, latina, a buscar pela utopia, seja ela qual for, então a esperança reside em alguns milhões de jovens com força de vontade para mudar suas próprias vidas, longe dos tentáculos do tráfico, da vida vazia ostentadora e do passional desinteresse pela educação.

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    Claro, os dados são extremamente pessimistas, são reais, e um grande banquete para os carniceiros da TV e sua pseudosensibilidade para com o povo. O olhar não deve ser reducionista, deve ser amplo, os índices de criminalidade há tempos ultrapassam o normal, há tempo somos enganados e nos deixamos enganar pela classe política, nós que temos o poder originário apenas no papel mas não de fato, apesar de que, de fato temos este poder, mas tem pouca habilidade em entender como ele funciona.

    Entretanto, neste exato momento enquanto há dezenas de jovens usando crack, roubando, esquecidos debaixo dos viadutos, assassinados por serem negros na periferia, há também dezenas estudando, trabalhando e/ou até buscando às ruas para protestar, se qualificando, mesmo com toda uma eventual problemática econômica e porque não, familiar, praticando esportes, ousando sonhar com as artes ou com suas profissões e porque não, contrariando a máxima de serem, preconceituosamente, vistos como frutos do seu meio. O panorama é de uma epidemia de violência e caos mas há pequenas luzes não nos fins dos túneis, mas sim das salas de aulas, no comércio, nas empresas e em todos os lugares.

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