A luta dos trabalhadores triunfa sobre o espetáculo

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09:44

 

por James Petras

Durante décadas críticos sociais lamentaram a influência do desporto e de espetáculos de entretenimento que "distraíam" trabalhadores da luta pelos seus interesses de classe. Segundo aqueles analistas, a "consciência de classe" era substituída pela consciência de "massa". Argumentavam eles que indivíduos atomizados, manipulados pelos mas media, eram convertidos em consumidores passivos que se identificavam com heróis milionários do desporto, com protagonistas de novelas e celebridades do cinema.
O culminar desta "mistificação" – a ilusão em massa – era os campeonatos mundiais observados por milhares de milhões por todo o mundo, patrocinados e financiados por corporações bilionárias: as World Series (baseball), a Copa do Mundo (futebol) e a Super Bowl (futebol americano).
Hoje, o Brasil está a viver a refutação desta linha de análise cultural-política. Os brasileiros têm sido descritos como "loucos por futebol". Suas equipes venceram o maior número de Copas Mundiais. Seus jogadores são cobiçados pelos proprietários das equipes mais importantes da Europa. Dizem que seus torcedores "vivem e morrem pelo futebol" ... Ou assim nos diziam.
Mas foi no Brasil que os maiores protestos na história da Copa do Mundo tiveram lugar. Já um ano antes dos jogos, programados para Junho de 2014, houve manifestações em massa de até um milhão de brasileiros. Apenas nas últimas semanas, proliferaram greves de professores, polícia, trabalhadores da construção e empregados municipais. O mito dos espetáculos de mas media a hipnotizar as massas foi refutado – pelo menos no Brasil dos dias de hoje.
Para entender porque o espetáculo de massa foi um fracasso de propaganda é essencial entender o contexto político e económico no qual foi lançado, bem como os custos e benefícios e o planeamento táctico de movimentos populares.


O contexto político e económico: A Copa do Mundo e as Olimpíadas

Em 2002, o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Lula da Silva, venceu as eleições presidenciais. Seus dois mandatos (2003 – 2010) foram caracterizados por um caloroso abraço do capitalismo de livre mercado juntamente com programas populistas de [alívio da] pobreza. Ajudado por influxos em grande escala de capital especulativo, atraído por altas taxas de juro, e pelos altos preços das commodities para as suas exportações agro-minerais, Lula lançou um programa maciço quanto à pobreza proporcionando cerca de US$60 por mês a 40 milhões de brasileiros pobres, os quais constituíram parte da base de massa eleitoral de Lula. O Partido dos Trabalhadores reduziu o desemprego, aumentou salários e apoiou empréstimos com juros baixos ao consumidor, estimulando um "boom do consumidor" que levou a economia em frente.


Para Lula e seus conselheiros, o Brasil estava a tornar-se uma potência global, atraindo investidores de classe mundial e incorporando os pobres no mercado interno.


Lula foi louvado pela Wall Street como um "esquerdista pragmático" e como um estadista brilhante pela esquerda!


De acordo com esta visão grandiosa (e em resposta a um amontoado de bajuladores presidenciais, de Norte e a Sul), Lula acreditou que a ascensão do Brasil à proeminência mundial exigia que "hospedasse" a Copa do Mundo e as Olimpíadas e embarcou numa campanha agressiva... O Brasil foi escolhido.
Lula enfeitava-se e pontificava: o Brasil, como hospedeiro, alcançaria o reconhecimento simbólico e os prémios materiais que uma potência global merecia.

A ascensão e a queda das grandes ilusões


A ascensão do Brasil foi baseada em fluxos de capital estrangeiro condicionados pelo diferencial (favorável) de taxas de juro. E quando as taxas mudam, o capital flui para fora. A dependência do Brasil da alta procura pelas suas exportações agro-minerais baseou-se no prolongado crescimento económico com dois dígitos na Ásia. Quando a economia da China arrefeceu, a procura e os preços caíram e, assim, os ganhos do Brasil com exportações.
O "pragmatismo" do Partido dos Trabalhadores significou aceitar as estruturas políticas, administrativas e regulamentares herdadas dos regimes neoliberais anteriores. Estas instituições eram permeadas por responsáveis corruptos ligados a empreiteiros de construção notórios por derrapagens de custos e longos atrasos em contratos com o estado.


Além disso, a "pragmática" máquinas eleitoral do Partido dos Trabalhadores foi construída sobre comissões debaixo da mesa e subornos. Somas vastas foram desviadas dos serviços públicos para bolsos privados.
Inchado pela sua própria retórica, Lula acreditou que a emergência económica do Brasil na cena mundial era um "negócio feito". Ele proclamou que os seus faraónicos complexos desportivos – os milhares de milhões de dinheiro público gastos em dúzias de estádios e infraestrutura custosa – "pagar-se-iam por si mesmos".

O fatal "efeito demonstração": A realidade social derrota a grandeza globa

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A nova presidente do Brasil, Dilma Rousseff, protegida de Lula, concedeu milhares de milhões de reais para financiar os maciços projetos de construção o seu antecessor: estádios, hotéis, auto-estradas e aeroportos para acomodar uma prevista inundação de torcedores estrangeiros de futebol.


O contraste entre a disponibilidade imediata de quantias maciças de fundos públicos para a Copa do Mundo e a perene falta de dinheiro para deteriorados serviços públicos essenciais (transporte, escolas, hospitais e clínicas) foi um enorme choque para os brasileiros e uma provocação para a ação em massa nas ruas.
Durante décadas, a maioria dos brasileiros, que dependiam de serviços públicos para transporte, educação e cuidados médicos (as classes superiores e média podem permitir-se serviços privados), foi dito que "não havia fundos", que os "orçamentos tinham de ser equilibrados", que um "excedente orçamental era necessário para cumprir acordos com o FMI e atender o serviço da dívida".


Durante anos fundos públicos foram desviados por nomeados políticos corruptos para pagar campanhas eleitorais, levando a um transporte asqueroso, superlotado, frequentemente avariado, e a atrasos nas viagens diárias em autocarros abafados e a longas filas nas paragens. Durante décadas, escolas estiveram em ruínas, professores corriam de escola em escola para compensar os seus miseráveis salários mínimos levando a uma educação de baixa qualidade e desprezada. Hospitais públicos eram sujos, perigosos e superlotados, médicos mal pagos frequentemente aceitavam pacientes privados nas horas vagas, medicamentos essenciais eram escassos nos hospitais públicos e super-caros nas farmácias.


O público foi ultrajado pelo contraste obsceno entre a realidade de clínicas dilapidadas com janelas partidas, escolas superlotadas com goteiras e transporte de massa não confiável para o brasileiro médio e os enormes novos estádios, hotéis luxuosos e aeroportos para os torcedores e visitantes estrangeiros ricos.


O público foi ultrajado pelas óbvias mentiras oficiais: a afirmação de que "não havia fundos" para professores quando milhares de milhões de reais ficaram instantaneamente disponíveis para construir hotéis de luxo e atraentes camarotes nos estádios para torcedores ricos do futebol.


O detonador final para o protesto em massa nas ruas foi o aumento nas tarifas de autocarros e comboios para "cobrir perdas" – depois de aeroportos e auto-estradas públicas terem sido vendidas a baixo preço a investidores privados que elevaram as portagens e comissões.


Os manifestantes que marchavam contra o agravamento das tarifas de autocarros e comboios foram apoiados amplamente pelas dezenas de milhares de brasileiros que denunciavam as prioridades do governo: Milhares de milhões para a Copa do Mundo e migalhas para a saúde pública, educação, habitação e transporte!
Desatento às exigências populares, o governo avançou na tentativa de acabar seus "projetos de prestígio".

No entanto, a construção de estádio ficou atrás do programado por causa da corrupção, incompetência e má administração. Empreiteiros de construção, que foram pressionados, reduziram padrões de segurança e pressionaram trabalhadores mais duramente, levando a um aumento de mortes e lesões nos estaleiros de obras. Trabalhadores da construção entraram em greve protestando pela aceleração e deterioração da segurança do trabalho.


Os esquemas grandiosos do regime Rousseff provocaram uma nova cadeia de protestos. O Movimento das Pessoas sem Teto ocupou lotes urbanos próximos a um novo estádio exigindo "habitação social" para o povo ao invés de novos hotéis cinco estrelas para estrangeiros ricos adeptos do desporto.


A escalada dos custos com os complexos desportivos e o aumento das despesas governamentais atearam uma onda de greves sindicais para exigir salários mais altos superiores aos objetos do regime. Professores e trabalhadores da saúde foram apoiados pelos trabalhadores fabris e empregados assalariados em greve em sectores estratégicos, tais como o transporte e os serviços de segurança, capazes de desestabilizar gravemente a Copa do Mundo.


A adopção pelo PT dos espetáculos desportivos grandiosos, ao invés de enfatizar o"arranque do Brasil como potência global", pôs em destaque o amplo contraste entre os dez por cento ricos e seguros nos seus condomínios de luxo no Brasil, em Miami e em Manhattan, com acesso a clínicas privadas de alta qualidade e escolas privadas exclusivas para seus rebentos, com a massa de brasileiros médios, fincados durante horas em auto-carros cheios de suor e superlotados, em encardidas salas de espera para conseguir meras aspiras de médicos não existente e em dilapidar os futuros dos seus filhos em salas de aula dilapidadas sem professores adequados e a tempo inteiro.
A elite política, especialmente o círculo em torno da presidência Lula-Rousseff, caiu vítima das suas próprias ilusões de apoio popular. Eles acreditaram que pagamentos de subsistência (cabazes alimentares) para os muito pobres lhes permitiria gastar milhares de milhões de dinheiro público em espetáculos de desporto para entreter e impressionar a elite global. Eles acreditaram que a massa de trabalhadores estaria tão fascinada pelo prestígio de abrigar a Copa do Mundo no Brasil que ela passaria por alto a grande disparidade entre despesas do governo para grandes espetáculos da elite e a ausência de apoio para atender as necessidades quotidianas dos trabalhadores brasileiros.


Mesmo sindicatos, aparentemente ligados a Lula, que alardeavam o seu passado de liderança dos metalúrgicos, romperam as fileiras quando perceberam que "o dinheiro era para fora" – e que o regime, pressionado pelos prazos finais de construção, podia ser pressionado a elevar salários a fim de ter o trabalho feito.


Os brasileiros, sem dúvida, são voltados para o desporto. Eles seguem entusiasticamente sua equipe nacional. Mas eles também são conscientes das suas necessidades. Não se contentam e aceitar passivamente as grandes disparidades sociais reveladas pela atual corrida louca para encenar a Copa do Mundo e as Olimpíadas no Brasil. A vasta despesa do governo com os jogos tornou claro que o Brasil é um país rico com uma multidão de desigualdades sociais. Eles perceberam que há vastas somas disponíveis para melhorar serviços básicos da vida diária. Perceberam que, apesar da sua retórica, o "Partido dos Trabalhadores" estava a jogar um jogo esbanjador de prestígio para impressionar uma audiência capitalista internacional. Perceberam que têm poder estratégico para pressionar o governo e tratar de algumas das desigualdades em habitação e em salários através da ação de massa. E eles agarraram-na. Perceberam que merecem desfrutar a Copa do Mundo em habitações públicas adequadas e a preços acessíveis e viajar para o trabalho (ou para um jogo ocasional) em auto-carros e comboios decentes. A consciência de classe, no caso do Brasil, triunfou sobre o espetáculo de massa. O "Pão e circo" cedeu aos protestos em massa.

03/Junho/2014

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A PERMANENCIA DA INALCANÇABILIDADE

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02:30





O vento que entra

deslocando a janela de sua passividade

afaga meu rosto como se fonte fosse,

de tristeza, mas também de flutuação gêmea.

Penetrando na pele aguda das paredes,

que em comunhão consigo mesma,

se abraça lamentando ser o espelho

que reflete as almas atrofiadas da manhã.



Uma inquietação pássara rasga o céu das lamentações,

paira sobre os pingos aleatórios da torneira do destino,

nos pelos deixados pelos felinos nos mantos da noite,

no telhado celestial que jorra a chuva do verbo elementar primeiro da não-palavra.

Num coral de poças refletindo a lua abocanhada,

na esquina onde homens roubam pedaços de objetos invisíveis

para sua contínua insatisfação jamais adormecida.


Na rua dimensional onde abordo meu interior com simplismo e pressa,

entre um anjo que brinca de nuvens sentado na calçada,

e moças de cabelos deformados que se arremessam além do visível;

vou-me, como um piano emudecido deixando um rastro no chão da cidade.


Preciso tocar na sombra de Deus pelo menos uma vez no dia.

Será ele esse vento que vem e colide com a janela?


Adormeço.


Minha voz é um ato de desequilíbrio.

A natureza das coisas me exclui dos seus planos.


Mas se estendo a mão para a poesia

o tempo vira uma correnteza calma

Onde poderei quem sabe chegar ao meu destino.













Cronie
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50 verdades sobre Nelson Mandela

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21:14


por Salim Lamrani [*]


As grandes potências ocidentais opuseram-se até ao último instante à sua luta e apoiaram sempre o governo racista de Pretória 
Mas o herói da luta contra o apartheid marcou para sempre a história da África. 
No crepúsculo da sua existência, Nelson Mandela passou a ser louvado por aqueles que sempre o combateram ou o ignoraram – como por exemplo Cavaco Silva. 
Eles agora choram lágrimas de crocodilo.
1. Nascido no dia 18 de julho de 1918, Nelson Rolihlahla Mandela, apelidado de Madiba, é o símbolo por excelência da resistência à opressão e ao racismo na luta pela justiça e pela emancipação humana. 

2. Procedente de uma família de treze filhos, Mandela foi o primeiro a estudar em uma escola metodista e a cursar direito na Universidade de Fort Hare, a única que aceitava, então, pessoas de cor no governo segregacionista do apartheid. 

3. Em 1944, aderiu ao Congresso Nacional Africano (ANC) e, particularmente, à sua Liga da Juventude, de inclinação radical. 

4. O apartheid, elaborado em 1948 depois da vitória do Partido Nacional Purificado, instaurava a doutrina da superioridade da raça branca e dividia a população sul-africana em quatro grupos distintos: os brancos (20%), os indianos (3%), os mestiços (10%) e os negros (67%). Esse sistema segregacionista discriminava 4/5 da população do país. 

5. Foram criados "bantustões", reservas territoriais destinadas às pessoas de cor, para amontoar as pessoas não brancas. Assim, 80% da população tinha de viver em 13% do território nacional, muitas vezes sem recursos naturais ou industriais, na total indigência. 

6. Em 1951, Mandela transformou-se no primeiro advogado negro de Johanesburgo e assumiu a direção do ANC na província de Transvaal um ano depois. Também foi nomeado vice-presidente nacional. 

7. À frente do ANC, lançou a campanha de desafio (defiance campaign), contra o governo racista do apartheid, e utilizou a desobediência civil contra as leis segregacionistas. Durante a manifestação do dia 6 de abril de 1952, data do terceiro centenário da colonização da África do Sul pelos brancos, Mandela foi condenado a um ano de prisão. Da sua prisão domiciliar em Johanesburgo, criou células clandestinas do ANC. 

8. Em nome da luta contra o apartheid, Mandela preconizou a aliança entre o ANC e o Partido Comunista Sul-Africano. Segundo ele, "o ANC não é um partido comunista, mas um amplo movimento de libertação que, entre seus membros inclui comunistas e outros que não o são. Qualquer pessoa que seja membro leal do ANC, e que respeite a disciplina e os princípios da organização, tem o direito de pertencer às suas fileiras. Nossa relação com o Partido Comunista Sul-Africano como organização é baseada no respeito mútuo. Unimo-nos ao Partido Comunista Sul-Africano em torno daqueles objetivos que nos são comuns, mas respeitamos a independência de cada um e a sua identidade. Não houve tentativa alguma por parte do Partido Comunista Sul-Africano de subverter o ANC. Pelo contrário, essa aliança nos deu força política". 

9. Em dezembro de 1956, Mandela foi preso e acusado de traição com mais de uma centena de militantes antiapartheid. Depois de um processo de quatro anos, os tribunais o absolveram. 

10. Em março de 1960, depois do massacre de Sharperville, perpetrado pela polícia contra manifestantes antisegregação, que custou a vida de 69 pessoas, o governo do apartheid proibiu o ANC. 

11. Mandela fundou então o Umkhonto we Sizwe (MK) e preconizou a luta armada contra o governo racista sul-africano. Antes de optar pela doutrina da violência legítima e necessária, Mandela inspirava-se na filosofia da não violência de Gandhi: "Embora tenhamos pegado em armas, não era nossa opção preferida. Foi o governo do apartheid que nos obrigou a pegar em armas. Nossa opção preferida sempre foi a de encontrar uma solução pacífica para o conflito do apartheid." 

12. O MK multiplicou, então, os atos de sabotagem contra os símbolos e as instituições do apartheid, preservando ao mesmo tempo as vidas humanas, lançou com êxito uma greve geral e preparou o terreno para a luta armada com o treinamento militar de seus membros. 

13. Durante sua estada na Argélia, em 1962, depois da intervenção do presidente Ahmed Ben Bella, Mandela aproveitou para aperfeiçoar seus conhecimentos sobre guerra de guerrilhas. A Argélia colocou à disposição do ANC campos de treinamento e deu apoio financeiro aos residentes antiapartheid. Mandela recebeu ali uma formação militar. Inspirou-se profundamente na guerra da Frente de Libertação Nacional do povo argelino contra o colonialismo francês. Quando libertado, Mandela dedicou sua primeira viagem ao exterior à Argélia, em maio de 1990, e rendeu tributo ao povo argelino: "Foi a Argélia que fez de mim um homem. Sou argelino, sou árabe, sou muçulmano! Quando fui ao meu país para enfrentar o apartheid, senti-me mais forte". Recordou ter sido "o primeiro sul-africano treinado militarmente na Argélia." 

14. Mandela estudou minuciosamente os escritos de Mao e de Che Guevara. Transformou-se em um grande admirador do guerrilheiro cubano-argentino. Depois de ser libertado, declarou: As "façanhas revolucionárias [de Che Guevara] — inclusive no nosso continente — foram de tal magnitude que nenhum encarregado de censura na prisão pôde escondê-las. A vida do Che é uma inspiração para todo ser humano que ame a liberdade. Sempre honraremos sua memória". 

15. Cuba foi um dos primeirps paí:ses a dar ajuda ao ANC. A esse respeito, Nelson Mandela destacou: "Que país solicitou a ajuda de Cuba e lhe foi negada? Quantos países ameaçados pelo imperialismo ou que lutam pela sua libertação nacional puderam contar com o apoio de Cuba? Devo dizer que quando quisemos pegar em armas nos aproximamos de diversos governos ocidentais em busca de ajuda e somente obtivemos audiências com ministros de baixíssimo escalão. Quando visitamos Cuba fomos recebidos pelos mais altos funcionários, os quais, de imediato, nos ofereceram tudo o que queríamos e necessitávamos. Essa foi nossa primeira experiência com o internacionalismo de Cuba." 

16. No dia 5 de agosto de 1962, depois de 17 meses de vida clandestina, Mandela foi levado à prisão em Johanesburgo, graças à colaboração dos serviços secretos dos Estados Unidos com o governo de Pretoria. A CIA deu às forças repressivas do apartheid a informação necessária para a captura do líder da resistência sul-africana. 

17. Acusado de ser o organizador da greve geral de 1961 e de sair ilegalmente do território nacional, foi condenado a cinco anos de prisão. 

18. Em julho de 1963, o governo prendeu 11 dirigentes do ANC em Rivonia, perto de Johanesburgo, sede da direção do MK. Todos foram acusados de traição, sabotagem, conspiração com o Partido Comunista e complô destinado a derrubar o governo. Já na prisão, Mandela foi acusado das mesmas coisas. 

19. No dia 9 de outubro de 1963, começou o famoso julgamento de Rivonia na Corte Suprema de Pretoria. No dia 20 de abril de 1964, frente ao juiz africâner Quartus de Wet, Mandela desenvolveu sua alegação brilhante e destacou que, frente ao fracasso da desobediência civil como método de combate para conseguir a liberdade, a igualdade ou a justiça, frente aos massacres de Sharperville e à proibição de sua organização, o ANC não teve outro remédio senão recorrer à luta armada para resistir à opressão. 

20. No dia 12 de junho de 1964, Mandela e seus companheiros foram declarados culpados de motim e condenados à prisão perpétua. 

21. O Conselho de Segurança das Nações Unidas denunciou o julgamento de Rivonia. Em agosto de 1963, condenou o governo do apartheid e pediu às nações do mundo que suspendessem o fornecimento de armas à África do Sul. 

22. As grandes nações ocidentais, como Estados Unidos, Grã-Bretanha e França, longe de respeitarem a resolução do Conselho de Segurança, apoiaram o governo racista sul-africano e multiplicaram o fornecimento de armas. 

23. De Charles de Gaulle, presidente da França de 1959 a 1969, até o governo de Valéry Giscard d'Estaing, presidente da França de 1974 a 1981, a França foi um fiel aliado do poder racista de Pretoria e negou-se sistematicamente a dar apoio ao ANC em sua luta pela igualdade e pela justiça. 

24. Paris nunca deixou de fornecer material militar a Pretoria, provendo até mesmo a primeira central nuclear da África do Sul, em 1976. Sob os governos de De Gaulle e de Georges Pompidou, presidente entre 1969 e 1974, a África do Sul foi o terceiro maior cliente da França em matéria de armamento. 

25. Em 1975, o Centro Francês de Comércio Exterior (CFCE) disse que "a França é considerada o único verdadeiro apoio da África do Sul entre os grandes países ocidentais. Não apenas fornece ao país o essencial em matéria de armamentos necessários para sua defesa, mas também se tem mostrado benevolente, ou, mais ainda, um aliado nos debates e nas votações dos organismo internacionais." 

26. Preso em Robben Island, com o número 466/64, Mandela viveu 18 anos de sua existência em condições extremamente duras. Não podia receber mais de duas cartas e duas visitas por ano e esteve separado de sua esposa Winnie — que não tinha permissão para visitá-lo — durante 15 anos. Foi condenado a realizar trabalhos forçados, o que afetou seriamente a sua saúde, sem conseguir jamais quebrar sua força moral. Dava cursos de política, literatura e poesia aos seus camaradas de destino e clamava pela resistência. Mandela gostava de recitar o poema Invictus de William Ernest Henley: 
It matters not how strait the gate 
How charged with punishments the scroll. 
I am the master of my fate: 
I am the captain of my soul. Não importa quão estreito é o portão 
E quantas são as punições listadas 
Sou o mestre do meu destino 
Sou o capitão da minha alma.
27. No dia 6 de dezembro de 1971, a Assembleia Geral das Nações Unidas qualificou o apartheid como crime contra a humanidade e exigiu a libertação de Nelson Mandela. 

28. Em 1976, o governo sul-africano propôs a Mandela sua libertação em troca da sua renúncia à luta. Madiba negou firmemente a proposta do governo segregacionista. 

29. Em novembro de 1976, depois das revoltas de Soweto e da sangrenta repressão que o governo do apartheid desencadeou, o Conselho de Segurança das Nações Unidos impôs um embargo sobre as armas destinadas à África do Sul. 

30. Em 1982, Mandela foi transferido para a prisão de Pollsmoor, perto de Cape Town. 

31. Em 1985, Pieter Willen Botha, presidente de fato da nação, propôs libertar Mandela se ele se comprometesse, em troca, a renunciar à luta armada. O líder da luta antiapartheid recusou a proposta e exigiu a democracia para todos: "um homem, um voto." 

32. Frente ao recrudescimento das operações de guerrilha do MK, o governo segregacionista criou esquadrões da morte com a finalidade de eliminar os militantes do ANC na África do Sul e no exterior. O caso mais famoso é o de Dulci September, assassinada em Paris no dia 29 de março de 1988. 

33. A mobilização internacional a favor de Nelson Mandela culminou em um show em Wembley, em junho de 1988, em homenagem aos 70 anos do resistente sul-africano, que foi assistido por 500 milhões de pessoas pela televisão. 

34. O elemento decisivo que pôs fim ao apartheid foi a estrepitosa derrota militar que tropas cubanas infligiram ao exército sul-africano em Cuito Cuanavale , no sudeste de Angola, em janeiro de 1988. Fidel Castro enviou seus melhores soldados a Angola depois da invasão do país pelo governo de Pretoria, apoiada pelos Estados Unidos. A vitória de Cuito Cuanavale também permitiu à Namíbia, até então ocupada pela África do Sul, conseguir sua independência. 

35. Em um artigo intitulado "Cuito Cuanavale: a batalha que acabou com o apartheid", o historiador Piero Gleijeses, professor da Universidade John Hopkins, de Washington, especialista na política africana de Cuba, aponta que "a proeza dos cubanos nos campos de batalha e seu virtuosismo na mesa de negociações foram decisivos para obrigar a África do Sul a aceitar a independência da Namíbia. Sua exitosa defesa de Cuito foi o prelúdio de uma campanha que obrigou o exército sul-africano a sair de Angola. Essa vitória repercutiu para além de Namíbia." 

36. Nelson Mandela, durante sua visita histórica a Cuba, em julho de 1991, lembrou-se daquele episódio: "A presença de vocês e o reforço enviado para a batalha de Cuito Cuanavale têm uma importância verdadeiramente histórica. A derrota esmagadora do exército racista em Cuito Cuanavale constituiu uma vitória para toda a África! Essa contundente derrota do exército racista em Cuito Canavale deu a Angola a possibilidade de desfrutar da paz e de consolidar sua própria soberania. A derrota do exército racista permitiu que o povo combatente da Namíbia alcançasse finalmente a sua independência! A decisiva derrota das forças agressoras do apartheid destruiu o mito da invencibilidade do opressor branco! A derrota do apartheid serviu de inspiração para o povo combatente da África do Sul! Sem a derrota infligida em Cuito Cuanavale nossas organizações não teriam sido legalizadas! A derrota do exército racista em Cuito Cuanavale possibilitou que hoje eu possa estar aqui com vocês! Cuito Cuanavale é um marco na história da luta pela libertação da África austral! Cuito Cuanavale marca a virada da luta para libertar o continente e nosso país do flagelo do apartheid! A decisiva derrota infligida em Cuito Cuanavale alterou a correlação de forças da região e reduziu consideravelmente a capacidade do governo de Pretoria para desestabilizar seus vizinhos. Este feito, em conjunto com a luta do nosso povo dentro do país, foi crucial para fazer Pretoria entender que tinha de se sentar à mesa de negociações." 

37. No dia 2 de fevereiro de 1990, o governo segregacionista, moribundo depois da derrota de Cuito Cuanavale, viu-se obrigado a legalizar o ANC e aceitar as negociações. 

38. No dia 11 de fevereiro de 1990, Nelson Mandela foi finalmente libertado, depois de 27 anos de prisão. 

39. Em junho de 1990 foram abolidas as últimas leis segregacionistas depois da pressão feita por Nelson Mandela, pelo ANC e pelo povo. 

40. Eleito presidente do ANC em junho de 1991, Mandela recordou os objetivos: "No ANC sempre estaremos ao lado dos pobres e dos que não têm direitos. Não apenas estaremos junto deles. Vamos garantir antes cedo que tarde que os pobres e sem direitos rejam a terra onde nasceram e que — como expressa a Carta da Liberdade — seja o povo que governe". 

41. Fortemente criticado por sua aliança com o Partido Comunista Sul-Africano por causa das potências ocidentais que continuavam a apoiar o governo do apartheid durante o processo de paz, Mandela replicou de modo contundente. "Não temos a menor intenção de fazer caso aos que nos sugerem e aconselham que rompamos essa aliança [com o Partido Comunista]. Quem são os que oferecem esses conselhos não solicitados? Provêm, em sua maioria, dos que nunca nos deram ajuda alguma. Nenhum desses conselheiros fez jamais os sacrifícios que fizeram os comunistas pela nossa luta. Essa aliança nos fortaleceu e a tornaremos ainda mais estreita." 

42. Em 1991, Mandela condenou o persistente apoio dos Estados Unidos ao governo do apartheid: "Estamos profundamente preocupados com a atitude que a administração Bush adotou sobre esse assunto. Este foi um dos poucos governos que esteve em contato habitual conosco para examinar a questão das sanções e lhe fizemos ver claramente que eliminar as sanções seria prematuro. No entanto, essa administração, sem nos consultar, simplesmente nos informou que as sanções estadunidenses seriam anuladas. Consideramos isso totalmente inaceitável." 

43. Em 1993, Mandela recebeu o Prêmio Nobel da Paz por sua obra a favor da reconciliação nacional. 

44. Durante a primeira votação democrática da história da África do Sul, no dia 27 de abril de 1994, Nelson Mandela, de 77 anos, foi eleito presidente da República com mais de 60% dos votos. Governou até 1999. 

45. No dia 1 de dezembro de 2009, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, em votação unânime de seus 192 membros, uma resolução que decreta o dia 18 de julho como Dia Internacional Nelson Mandela, em homenagem à luta do herói sul-africano contra todas as injustiças. 

46. Se hoje Mandela é cumprimentado por todos, por décadas as potências ocidentais o consideraram um homem perigoso e o combateram apoiando o governo do apartheid. 

47. Estados Unidos, França e Grã-Bretanha foram os principais aliados do governo do apartheid, o qual apoiaram até o último momento. 

48. Se os Estados Unidos veneram hoje em dia Nelson Mandela, de Clinton a Bush passando por Obama, é conveniente lembrar que ele foi mantido na lista de membros de organizações terroristas até o dia 1 de janeiro de 2008. 

49. Nelson Mandela lembrou varias vezes dos laços inquebrantáveis que ligavam a África do Sul a Cuba. "Desde seus primeiros dias, a Revolução Cubana tem sido uma fonte de inspiração para todos os povos amantes da liberdade. O povo cubano ocupa um lugar especial no coração dos povos da África. Os internacionalistas cubanos deram uma contribuição para a independência, para a liberdade e a justiça na África que não tem paralelo pelos princípios e pelo desinteresse que a caracterizam. É muito o que podemos aprender da sua experiência. De modo particular, nos comove a afirmação do vínculo histórico com o continente africano e seus povos. Seu invariável compromisso com a erradicação sistemática do racismo não tem paralelo. Somos conscientes da grande dívida que existe hoje com o povo de Cuba. Que outro país pode mostrar uma história mais desinteressada que a que teve Cuba em suas relações com a África? 

50. Thenjiwe Mtintso, embaixadora da África do Sul em Cuba, lembrou-se da verdade histórica a propósito do compromisso de Cuba na África. "Hoje a África do Sul tem muitos amigos novos. Ontem, estes amigos se referiam aos nossos líderes e aos nossos combatentes como terroristas e nos acusavam enquanto apoiavam a África do Sul do apartheid. Esses mesmos amigos hoje querem que nós denunciemos e isolemos Cuba. Nossa resposta é muito simples, é o sangue dos mártires cubanos e não destes amigos que corre profundamente na terra africana e nutre a árvore da liberdade em nossa pátria."


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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Em defesa da paz

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22:57

 por Comité de cidadãos para a paz e contra a ingerência

da guerra rufam mais uma vez no Médio Oriente, desta vez com a possibilidade de um ataque iminente à Síria, após a alegada utilização de pelo seu governo. É precisamente em tempos de crise como este que a defesa da paz pode ser feita da maneira mais clara e mais óbvia.

Em primeiro lugar, não temos qualquer prova sólida de que o governo sírio tenha utilizado armas químicas. Mesmo se tal prova fosse apresentada por governos ocidentais teríamos de permanecer cépticos, recordando os muitos incidentes dúbios ou falsificados utilizados para justificar corridas à guerra: o incidente do Golfo de Tonquim, o massacre de bebés na incubadora do Kuwait, o massacre Racak no Kosovo, as armas de destruição maciça no Iraque e a ameaça de um massacre em Bengazi. Vale a pena notar que a evidência que aponta a utilização de armas química pelo governo sírio foi proporcionada aos Estados Unidos pela inteligência israelense, a qual não é exactamente um actor neutro.

Mesmo que desta vez as provas fossem autênticas, isso não legitimaria acção unilateral por parte de ninguém. A acção militar ainda precisa de uma autorização do . Aqueles que se queixam da sua "inacção" deveriam ter em mente que a oposição russa e chinesa à intervenção na Síria é motivada em parte pelo abuso das potências ocidentais da resolução do Conselho de Segurança a fim de executar "mudança de regime" naquele país. Aquilo que no Ocidente é chamado de uma "comunidade internacional" desejosa de atacar a Síria está reduzido essencialmente a dois países importantes (Estados Unidos, e França), dentre as quase duas centenas de . Não é possível qualquer respeito pelo direito internacional sem o respeito pela opinião decente do resto da humanidade.

Mesmo se uma acção militar fosse permitida e executada, o que podia ela conseguir? Ninguém pode controlar armas química seriamente sem por "botas sobre o terreno", o que não é considerado uma opção realista após os desastres do Iraque e do Afeganistão. O Ocidente não tem aliado verdadeiro e confiável na Síria. Os jihadistas a combaterem o governo não tem mais amor ao Ocidente do que aqueles que assassinaram o embaixador dos EUA na Líbia. Uma coisa é e armas de um país, mas outra muito diferente é ser um aliado genuíno.

Tem havido ofertas de negociação provenientes dos governos sírio, iraniano e russo, as quais têm sido tratadas com arrogância pelo Ocidente. Aqueles que dizem "não podemos conversar ou negociar com Assad" esquecem que isto foi dito acerca da Frente de Libertação Nacional na Argélia, de Ho , Mao, a União Soviética, a OLP, o IRA, a ETA, Mandela e o ANC e muitas guerrilhas na América Latina. A questão não é se alguém fala com o outro lado, mas após quantas mortes desnecessárias se aceita fazê-lo.

O temor que os EUA e seus poucos aliados remanescentes actuassem como polícia global está realmente ultrapassado. O mundo está a tornar-se mais multipolar e os povos do mundo querem mais soberania, não menos. A maior transformação social do século XX foi a descolonização e o Ocidente deveria adaptar-se ao facto de que não tem nem o direito, nem a competência, nem os meios para dominar o mundo.

Em parte alguma a estratégia de guerras sem fim fracassou mais miseravelmente do que no Médio Oriente. No longo prazo, o derrube de Mossadeg no Irão, a aventura do Canal de Suez, as muitas guerras israelenses, as duas guerras do Golfo, as ameaças constantes e sanções assassinas primeiro contra o Iraque e agora contra o Irão, a intervenção líbia, não conseguiram nada mais do que novos banhos de sangue, ódio e caos. A Síria só pode ser mais um fracasso para o Ocidente sem uma mudança radical na política.

A verdadeira coragem não consiste em lançar mísseis de cruzeiro meramente para exibir um poder militar que se está a tornar mais ineficaz. A verdadeira coragem jaz e romper radicalmente com essa lógica mortal. Em obrigar, ao invés, Israel a negociar de boa fé com os palestinos, convocar a conferência Genebra II sobre a Síria e discutir com os iranianos o seu programa nuclear, levando em conta honestamente os legítimos interesses económicos e de segurança do Irão.

A recente votação contra a guerra no Parlamento Britânico, bem como reacções nos media sociais, reflectem uma alteração maciça de opinião pública. Nós no Ocidente estamos cansados de guerras e estamos prontos para juntarmo-nos à comunidade internacional real exigindo um mundo baseado na Carta das Nações Unidas, desmilitarização, respeito pela soberania nacional e igualdade de todas as nações.

O povo do Ocidente também pede para exercer seu direito à auto-determinação: se tiverem de ser travadas guerras, elas devem tem como base debates abertos e a preocupação pela nossa segurança nacional e não sobre alguma mal definida noção de um "direito a intervir", o qual pode ser facilmente manipulado e abusado.

Cabe a nós obrigar nossos políticos a respeito esse direito.

PELA PAZ E CONTRA A INTERVENÇÃO
Os signatários são antigos altos funcionários das Nações Unidas:

  • Hans Christof Graf von Sponeck, Secretário-Geral Assistente da ONU, Coordenador Humanitário para o Iraque (1998 -2000).
  • Denis J. Halliday, Secretário-Geral Assistente da ONU, (1994-98)
  • Dr. Saïd Zulficar, funcionário da UNESCO (1967-1996), Director, Divisão do Património Cultural (1992 -1996).
  • Dr. Samir Radwan, Funcionário da OIT (1979 – 2003). Conselheiro do Director Geral da OIT sobre politicas de desenvolvimento (2001 - 2004). Antigo ministro das Finanças do Egipto.
  • Dr. Samir Basta, director do gabinete regional para a Europa da UNICEF (1990-1995). Director do Gabinete de Avaliação da UNICEF (2985-1990)
  • Miguel d´Escoto Brockmann, presidente da Assembleia-Geral das Nações Unidas (2008-2009) e ministro das Relações Exteriores da Nicarágua (1979-1990).

  • José L. Gómez del Prado, antigo funcionário do Alto Comissariado para os Direitos do Homem das Nações Unidas. Membro do Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre a Utilização de Mercenários (2005-2011).
    02/Setembro/2013
    O original encontra-se em www.lemonde.fr/...

    Este documento encontra-se em http://resistir.info/
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    Protesto transforma cavaletes em arte

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    22:12

    Leandro Nogueira
    leandro.nogueira@jcruzeiro.com.br

     

    "Um povo consciente é o pior inimigo de um governo mal intencionado", era a mensagem em um dos mais de 80 cavaletes de candidatos que foram transformados em arte e estão em exposição neste final de semana em Sorocaba. Alguns com mensagens e reflexões, com grafites ou outros estilos de pinturas feitas por manifestantes que protestam contra o abuso na distribuição no material de propaganda política.

    O protesto de nome Cavalete Parade começou na cidade de São Paulo e foi disseminado por outros 25 municípios brasileiros por meio por comunidades de redes sociais na internet.

    Em Sorocaba a exposição desses cavaletes foi feita neste sábado (29) no canteiro central da avenida Afonso Vergueiro, em frente à Praça da Bandeira e a intenção é mais uma vez expô-los hoje na área de lazer do bairro Brigadeiro Tobias, onde haverá um evento de skate, a partir das 10 horas.


    Muitos motoristas que passavam neste sábado pela avenida Afonso Vergueiro faziam sinal de joia, aplaudiam ou apenas apontavam para as obras. A carreata com cerca de meia dúzia de veículos de um candidato que passou pelo local apenas olhou sem esboçar alguma opinião. Outros que passavam a pé iam até o canteiro central para fazer fotos ou observar melhor.

    "Estávamos com medo da reação da polícia, mas algumas viaturas já passaram e não reclamaram", disse às 15h30 deste sábado, um dos organizadores do Cavalete Parade em Sorocaba, o artista plástico Diogo Cristo "Coró", 23 anos. Entre o material de divulgação, chamava bastante a atenção o formato de uma pessoa com a imagem de um atual vereador, que nas mãos dos manifestantes transformou-se em homem bomba.


    Diogo Cristo, o estudante de design, Pedro Coboatan, 21 anos e o agente cultural e estudante de publicidade e marketing, Célio Issao, 25 anos, disseram que iniciaram a organização da manifestação em Sorocaba. Segundo eles foram recolhidos os cavaletes de candidatos que estavam em cima da grama, no meio da passagem de pedestres ou expostos após às 22 horas, ou seja, aqueles que desrespeitavam a legislação eleitoral.

    Disseram que os cavaletes começaram a ser recolhidos há menos de duas semanas e 90% do que estava exposto havia sido pintado antes de ser levado para lá. A pintura do restante era feita em público. Os organizadores afirmavam que cerca de 120 manifestantes participavam do evento, já que alguns apenas deixaram o cavalete no local e foram embora.


    Para Diogo Cristo, a exposição das pinturas é de melhor proveito do que as publicidades políticas. "Encontramos o de um candidato que parecia bêbado na foto, pois fazia sinal de joia para o lado ao invés da câmara que o fotografou, estava todo torto", citou o manifestante. Os organizadores disseram acreditar que como recolheram os cavaletes distribuídos irregularmente pelos candidatos, nada faziam de errado, pois ao expô-los em local público estavam usando do direito de manifestarem-se. Um deles apontou a carreata que passou buzinando e fez a comparação que, usar a buzina sem motivo é uma infração ao código de trânsito e se isso estava sendo feito livremente, não via sentido que alguém os reprimissem.

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    Presidente do Equador enfrenta a brutal Gestapo britânica

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    12:25

    Manifesta��o em favor de Assange, frente � Embaixada do Equador em Londres.

     

    O outrora orgulhoso governo britânico, agora reduzido a uma puta servil de Washington, envergou as suas botas de Gestapo e declarou que se a Embaixada equatoriana em Londres não entregasse Julian Assange, da WikiLeaks, tropas de assalto britânicas invadiriam a embaixada pela força militar e arrastariam Assange para fora.

    O Equador manteve-se erecto. "Queremos ser muito claros, não somos uma colónia britânica", declarou o seu ministro das Relações Exteriores. Longe de se deixar intimidar, o presidente do Equador, Rafael Correa, replicou à ameaça pela concessão de asilo político a Assange.

    O governo britânico, outrora respeitador da lei, não teve vergonha de anunciar que violaria a Convenção de Viena e assaltaria a Embaixada Equatoriana, tal como os estudantes islâmicos, na Revolução de Khomeini no Irão em 1979, tomaram a Embaixada dos EUA e mantiveram cativa a equipe diplomática. Pressionados pelos seus senhores de Washington, os britânicos recorreram a tácticas de um estado pária. Talvez devêssemos preocupar-nos acerca das armas nucleares britânicas.


    Deixe-me ser claro: Assange não é um fugitivo da justiça. Ele não foi acusado de qualquer crime em qualquer país. Ele não violou nenhuma mulher. Não tem processos pendentes em qualquer tribunal e nenhumas acusações foram produzidas contra ele, não há validade no pedido sueco de extradição. Não é normal que pessoas sejam extraditadas para interrogatório, especialmente quando, como no caso de Assange, ele exprimiu sua total cooperação para ser interrogado uma segunda vez por responsáveis suecos em Londres.


    O que é tudo isto? Primeiro, segundo noticiários, Assange foi cativado por duas mulheres suecas caçadoras de celebridades que o levaram para as camas das suas casas. Depois, por razões desconhecidas, uma delas queixou-se de que ele não havia usado um preservativo, e a outra queixou-se de que ela havia oferecido um mas que ele havia tomado dois. Um promotor público sueco examinou o caso, descobriu que não havia nada e descartou-o.


    Assange foi para a Inglaterra. Então outro promotor sueco, uma mulher, alegando uma autoridade que desconheço, reabriu o caso e emitiu uma ordem de extradição para Assange. Isto é um procedimento inabitual que tramitou através de todo o sistema judicial britânico até o Tribunal Supremo e a seguir retornou ao Tribunal Supremo em recurso. No fim a "justiça" britânica fez o que o senhor de Washington ordenou e aceitou o estranho pedido de extradição.


    Assange, percebendo que o governo sueco se preparava para entregá-lo a Washington para ser mantido em detenção indefinida, torturado e enquadrado como espião, pediu a protecção da Embaixada do Equador em Londres. Por mais corruptos que sejam as autoridades britânicas, o governo do Reino Unido não desejava entregar Assange directamente a Washington. Ao transferi-lo para a Suécia, os britânicos poderiam achar que as suas mãos estavam limpas.


    A Suécia, antigamente um país honrado como o Canadá foi outrora quando resistentes americanos à guerra ali podiam procurar asilo, foi subornada e submetida ao polegar de Washington. Recentemente, diplomatas suecos foram expulsos da Bielorússia onde tudo indica terem estado envolvidos em ajudar Washington a orquestrar uma "revolução colorida" pois governo dos EUA continua a tentar estender as suas bases e estados fantoches mais profundamente junto à Rússia tradicional.

    O mundo inteiro, incluindo os servis estados fantoches de Washington, entendeu que quando Assange estivesse nas mãos dos suecos Washington apresentaria uma ordem de extradição, a qual a Suécia, ao contrário dos britânicos, cumpriria. O Equador entende isto. O ministro das Relações Exteriores, Ricardo Patiño, anunciou que o Equador concedeu asilo a Assange porque "há indicações para presumir que pode tratar-se de perseguição política". Nos EUA, reconheceu Patiño, Assange não obteria um julgamento justo e enfrentaria a pena de morte num processo fabricado.


    O Estado Fantoche estado-unidense da Grã (sic) Bretanha anunciou que não permitiria que Assange deixasse o país. Já chega quanto à defesa da lei e dos direitos humanos por parte do governo britânico. Se os britânicos não invadirem a Embaixada Equatoriana e arrastarem Assange para fora, morto ou em grilhões, a posição britânica é que Assange viverá o resto da sua vida dentro da Embaixada do Equador em Londres. Segundo o New York Times, o asilo de Assange deixa-o "com protecção à prisão só no território equatoriano (o que inclui a embaixada). Para deixar a embaixada rumo ao Equador, ele precisaria da cooperação que a Grã-Bretanha disse não proporcionar".

    Quando se trata do dinheiro de Washington ou de se comportar honradamente de acordo com o direito internacional, o governo britânico inclina-se para o lado do dinheiro.  O mundo anglo-americano, que pretende ser a face moral da humanidade, agora revelou para todos verem que sob esta máscara está a cara da Gestapo.

    16/Agosto/2012


     

  • Declara��o do Governo da Rep�blica do Equador sobre a solicita��o de asilo de Julian Assange
  • O original encontra-se em www.paulcraigroberts.org/2012/08/16/...
  • Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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    A ascendência de uma elite financeira criminosa

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    12:17

    – As duas faces de um estado policial:   Abrigar evasores fiscais, trapaceiros das finanças e lavadores de dinheiro enquanto policia os cidadãos

    por James Petras

    "O coração apodrecido das finanças".
    The Economist


    "Há um grau de cinismo e cobiça que é realmente bastante chocante"
    Lord Turner, Bank of England, Financial Service Authority

    Nunca na história dos Estados Unidos testemunhámos crimes cometidos na escala e do âmbito dos dias actuais, tanto pela elite privada como estatal.
    Um economista de credenciais impecáveis, James Henry, antigo economista chefe na prestigiosa firma de consultoria McKinsey & Company, investigou e documentou evasão fiscal. Ele descobriu que os super-ricos e suas famílias têm até US$32 milhões de milhões (trillion) de activos escondidos em paraísos fiscais offshore, o que representa mais de US$280 mil milhões de receita perdida no imposto sobre o rendimento! Este estudo excluía activos não financeiros tais como imobiliário, metais preciosos, jóias, iates, cavalos de corrida, veículos de luxo e assim por diante. Dos US$32 milhões de milhões de activos escondidos, US$23 milhões de milhões pertencem a super-ricos da América do Norte e da Europa.


    Um relatório recente do Comité Especial das Nações Unidas sobre Lavagem de Dinheiro descobriu que bancos dos EUA e da Europa têm lavado mais de US$300 mil milhões por ano, incluindo US$30 mil milhões apenas dos cartéis de droga mexicanos.


    Novos relatórios sobre trapaças financeiras de muitos milhares de milhões envolvendo os grandes bancos dos EUA e Europa são publicados a cada semana. Os principais bancos da Inglaterra, incluindo o Barclay's e um bando de outros, foram identificados como tendo manipulado o LIBOR, ou inter-bank lending rate, durante anos a fim de maximizar lucros. O Bank of New York, JP Morgan, HSBC, Wachovia e Citibank estão entre a multidão de bancos acusados de lavar dinheiro da droga e de outros fundos ilícitos segundo investigações do Comité Bancário do Senado dos EUA. Corporações multinacionais receberam fundos federais de salvamento e isenções fiscais e então, em violação dos acordos publicitados com o governo, relocalizam fábricas e empregos na Ásia e no México.
    Grandes casas de investimento, como a Goldman Sachs, enganaram investidores durante anos investindo em acções "lixo" enquanto os correctores puxavam e afundavam ( pumped and dumped ) acções sem valor. Jon Corzine, presidente do MF Global (bem como antigo presidente da Goldman Sachs, antigo senador dos EUA e governador de Nova Jersey) afirmou que "não podia explicar" os US$1,6 mil milhões de perdas de clientes investidores de fundos no colapso de 2011 do MF Global.


    Apesar do enorme crescimento do aparelho policial do estado, da proliferação de agências de investigação, das audiências no Congresso e dos mais de 400 mil empregados do Ministério da Segurança Interna (Department of Homeland Security), nem um único banqueiro foi para a cadeia. Nos casos mais chocantes, um banco como o Barclay pagará uma pequena multa por ter facilitado a evasão fiscal e efectuado trapaças especulativas. Ao mesmo tempo, de acordo com o princípio "canalha" [implícito] na trapaça LIBOR, o Director de Operações (Chief Operating Officer, COO) do Barclay's Bank, Jerry Del Missier, receberá uma indemnização de 13 milhões de dólares pelo seu afastamento.
    Em contraste com a complacente aplicação da lei praticada pelo florescente estado policial em relação a trapaças da banca, das corporações e das elites bilionárias, tem-se intensificado a repressão política de cidadãos e imigrantes que não cometeram qualquer crime contra a segurança e ordem pública.


    Milhões de imigrantes têm sido agarrados nas suas casas e lugares de trabalho, presos, batidos e deportados. Centenas de bairros hispânicos e afro-americanos têm sido alvo de raids policiais, tiroteios e mortes. Em tais bairros, a polícia local e federal opera com impunidade – como foi ilustrado por vídeos chocantes dos tiros e brutalidade da polícia contra civis desarmados em Anaheim, Califórnia. Muçulmanos, asiáticos do Sul, árabes, iranianos e outros são racialmente perfilados, arbitrariamente presos e processados por participarem em obras de caridade, de fundações humanitárias ou simplesmente por participarem de instituições religiosas. Mais de 40 milhões de americanos empenhados em actividade política legal são actualmente vigiados, espionados e frequentemente molestados.
    As duas faces do governo dos EUA:   Impunidade e repressão
    Documentação esmagadora confirma a deterioração total da polícia e do sistema judicial dos EUA no que respeita à aplicação da lei quanto a crimes entre a elite financeira, bancária e corporativa.


    Evasores fiscais de triliões de dólares, trapaças financeiras bilionárias e lavadores de dinheiro multi-bilionários quase nunca são enviados para a cadeia. Se bem que alguns paguem uma multa, nenhum deles têm os seus ganhos ilícitos apreendidos, apesar de muitos serem criminosos reincidentes.

    A reincidência entre criminosos financeiros é comum porque as penalidades são leves, os lucros são altos e as investigações pouco frequentes, superficiais e sem consequências. O United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC) informou que, só em 2009, foram lavados US$1,6 milhão de milhões, principalmente em bancos ocidentais, um quinto vindo directamente do comércio de droga. O grosso do rendimento do comércio de cocaína foi gerado na América do Norte (US$35 mil milhões), dois terços dos quais foram lavados em bancos locais. O fracasso em processar banqueiros empenhados numa ligação crítica do comércio da droga não se deve à "falta de informação", nem tão pouco à "frouxidão" por parte dos reguladores e aplicadores da lei. A razão é que os bancos são demasiado grandes para processar e os banqueiros demasiado ricos para prender.

    A aplicação efectiva da lei levaria a serem submetidos a processo todos os principais bancos e banqueiros, o que reduziria lucros drasticamente. Encarcerar banqueiros de topo fecharia a "porta giratória", o portão dourado através do qual reguladores do governo asseguram a sua própria riqueza e fortuna pela entrada em casas de investimento privadas depois de deixarem o serviço "público". Os activos dos dez maiores bancos nos EUA constituem uma porção apreciável da economia estado-unidense. Os gabinetes dos directores dos maiores bancos entrecruzam-se com todos os principais sectores corporativos. Os responsáveis de topo e médios e seus confrades no sector corporativo, bem como seus principais accionistas e possuidores de títulos, estão entre os maiores evasores fiscais do país.


    Se bem que a Security and Exchange Commission, o Departamento do Tesouro e o Comité Bancário do Senado finjam publicamente que investigam altos crimes financeiros, a sua função real é proteger estas instituições de quaisquer esforços para transformar a sua estrutura, as suas operações e o seu papel na economia estado-unidense. As multas recentemente impostas são altas pelos padrões anteriores mas ainda assim seus montantes, na maior parte, correspondem aos lucros de um par de semanas.


    A falta de "vontade judicial", o colapso de todo o sistema regulamentar e a ostentação do poder financeiro manifestam-se nos "pára-quedas dourados" habitualmente concedidos a presidentes de conselho de administração criminosos após sua revelação e "renúncia". Isto se deve ao enorme poder político que a elite financeira exerce sobre o estado, o judiciário e a economia.


    Poder político e morte da "lei e ordem"


    Em relação a crimes financeiros, a doutrina que guia a política do estado é "demasiado rico para encarcerar, demasiado grande para falir", o que se traduz nos salvamentos pelo tesouro, com muitos triliões de dólares, de instituições financeiras cleptocráticas em bancarrota e num alto nível de tolerância do estado para com evasores fiscais, trapaceiros e lavadores de dinheiro. Devido ao colapso total da aplicação da lei em relação a crimes financeiros, há altos níveis de delinquentes contumazes. É o que um responsável financeiro britânico descreve como "cobiça cínica (e cíclica)".
    A palavra de ordem sob a qual a elite financeira tomou o controle total do estado, do orçamento e da economia foi "mudança". Isto refere-se a desregulamentação do sistema financeira, à expansão maciça dos alçapões fiscais, a fuga livre de lucros para paraísos fiscais além-mar e a dramática comutação da "aplicação da lei" da prossecução dos bancos que lavam os ganhos ilícitos da droga e de cartéis criminosos para a perseguição dos chamados "estados terroristas".

    O "estado da lei" tornou-se um estado sem lei. "Mudanças" financeiras permitiram e mesmo promoveram trapaças reiteradas, as quais defraudaram milhões e empobreceram centenas de milhões. Há 20 milhões de hipotecados que perderam seus lares ou não são capazes de manter pagamentos; dezenas de milhões de contribuintes da classe média e da classe trabalhadora que foram forçados a pagar impostos mais altos e a perder serviços sociais vitais devido à evasão fiscal da classe superior e corporativa. A lavagem de milhares de milhões de dólares de cartéis da droga e de riqueza criminosa pelos maiores bancos levou à deterioração de bairros inteiros e à ascensão do crime, o que desestabilizou a vida familiar da classe média e trabalhadora.

     
    Conclusão


    A ascendência de uma elite financeira criminosa e a cumplicidade do estado complacente levaram ao colapso da lei e da ordem, à degradação e ao descrédito de toda a rede regulamentar e do sistema judicial. Isto levou a um sistema nacional de "injustiça desigual" onde cidadãos críticos são perseguidos por exercerem seus direitos constitucionais ao passo que elites criminosas operam com impunidade. As mais duras sanções do estado policial são aplicadas contra centenas de milhares de imigrantes, muçulmanos e activistas de direitos humanos, ao passo que trapaceiros financeiros são cortejados por colectores de fundos de campanhas presidenciais.


    Não é de surpreender que hoje muitos trabalhadores e cidadãos da classe média considerem-se "conservadores" e serem "contra a mudança". Na verdade, a maioria quer "conservar" a Segurança Social, a educação pública, pensões, estabilidade de emprego e planos médicos federais tais como o MEDICARE e o MEDICAID em oposição aos advogados da "mudança" da elite "radical" que quer privatizar a Segurança Social e a educação, acabar com o MEDICARE e amputar o MEDICAID.

    Trabalhadores e classe média pedem estabilidade no emprego e nos bairros habitacionais, assim como preços estáveis contra a disparada de inflação nos cuidados médicos e na educação. Cidadãos assalariados apoiam a lei e a ordem, especialmente quando isto significa o processamento de evasores fiscais bilionários, banqueiros lavadores de dinheiro criminoso e trapaceiros, os quais, na maior parte, pagam uma pequena multa, emitem uma "desculpa" e a seguir prosseguem a repetição das suas trapaças.
    As "mudanças" radicais promovidas pela elite devastaram a vida de milhões de americanos em todas as regiões, ocupações e grupos etários. Elas desestabilizaram a família ao minarem a segurança de emprego enquanto minavam bairros habitacionais com a lavagem dos lucros da droga. Acima de tudo elas perverteram totalmente todo o sistema de justiça no qual "os criminosos são tornados respeitáveis e os respeitáveis tratados como criminosos".


    A primeira defesa da maioria é resistir à "mudança da elite" e conservar os remanescentes do estado previdência (welfare state). O objectivo da resistência "conservadora" será transformar todo o corrupto sistema legal de "criminalidade funcional" num sistema de "igualdade perante a lei". Isto exigirá uma alteração fundamental no poder político, ao nível local e regional, dos gabinetes dos banqueiros para os conselhos dos bairros populares e lugares de trabalho, dos juízes e reguladores acomodatícios nomeados pela elite para representantes reais eleitos pela maioria que geme sob o nosso actual sistema de injustiça.

    05/Agosto/2012

    O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=32220

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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    Thomas Sankara (21/12/1949 – 15/10/1987) : um percurso revolucionário inacabado?

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    11:55

    http://25.media.tumblr.com/tumblr_m0r1bxIxCB1rpd5d0o1_500.jpg

     

    Abundam informações sobre a biografia deste líder africano na Internet. Todavia isto não torna ilegítimo que este espaço, Pró-África, cumprindo, em toda a liberdade, o seu papel pedagógico e emancipador, proponha em jeito de efeméride uma breve retrospectiva analítica do pensamento e das acções políticas de Sankara. Para isso, é necessário ter em devida  consideração diferentes abordagens : a política interna e as suas medidas de carácter nacionalista, a abordagem externo-diplomática influênciada pela corrente neomarxista das relações internacionais e, por fim, o carácter inacabado da Revolução Democrática Popular, apesar deste líder ter afirmado semanas antes da sua    morte:“(…) pode-se matar líderes revolucionários mas as ideias permanecem”.


    “A Pátria ou a morte, venceremos!” Eis uma expressão predilecta proferida em praticamente todos os discursos oficiais por Sankara, fazendo alusão à importância da “luta” e do “povo” no processo revolucionário anti-imperialista em Burkina Faso. Esta frase sintetiza, de certa forma, o pensamento e as acções deste líder carismático, nacionalista e panafricanista. Vinte e três anos após o seu desaparecimento é légitimo questionar : terá a revolução posta em prática por Sankara triunfado? Terá Sankara equacionado a implementação de uma revolução sem revolucionários? Responder em breves linhas e de forma peremptória a estas interrogações  é  um exercício delicado. Com efeito, trata-se de uma tarefa árdua porque exige o devido enquadramento e noções claras sobre o pensamento e as influências ideológicas de Sankara no contexto pós-colonial africano e de guerra fria. Ora, o mesmo dizia não aceitar etiquetas para caracterizar as acções da Revolução Democrática Popular (rdp), pese embora elegera os profetas Mohamed e Cristo como ídolos e considerar Lenine como um dos maiores líderes que o mundo viu nascer ; a nível regional o seu principal mentor político foi J. Rawlings do Gana.

    Abundam informações sobre a biografia deste líder africano na Internet. Todavia isto não torna ilegítimo que este espaço, Pró-África, cumprindo, em toda a liberdade, o seu papel pedagógico e emancipador, proponha em jeito de efeméride uma breve retrospectiva analítica do pensamento e das acções políticas de Sankara. Para isso, é necessário ter em devida  consideração diferentes abordagens : a política interna e as suas medidas de carácter nacionalista, a abordagem externo-diplomática influênciada pela corrente neomarxista das relações internacionais e, por fim, o carácter inacabado da Revolução Democrática Popular, apesar deste líder ter afirmado semanas antes da sua morte:“(…) pode-se matar líderes revolucionários mas as ideias permanecem”[1].

    Figura política

    Thomas Sankara foi militar de carreira. Nos seus discursos revendicou incessantemente tratar-se de um patriota preocupado com a dignidade e o desenvolvimento do seu torrão natal. Em 1981, foi Secretário de Estado da Informação – ainda que apenas alguns meses, devido à sua demissão – antes de ser Primeiro Ministro sob a presidência de J.B. Ouédraogo. Neste mesmo ano, 1983, ascendeu à Presidência da República. Meses antes, fora preso durante alguns dias por alegadamente ter defendido posições radicais segundo a ala reaccionária do partido CSP (Conseil du Salut des Peuples) dividido em duas principais facções: a reaccionária liderada por quadros mais antigos do partido e a revolucionária por Sankara. Esta facção interna precipitou um golpe de Estado em 1983. O golpe de Estado de 1983, sob a liderança de Blaise Compaoré, favorecia então a tomada de poder da ala revolucionária do CSP e transformava consequentemente Thomas Sankara no quinto chefe de Estado do então Alto Volta.

    Sankara incarna assim um projecto político inspirando-se do nacionalismo e recorrendo ao populismo num regime político-militar. O líder espelha junto de jovens e da população uma imagem de energia, orgulho, rejeição de injustiças e esperança. As linhas mestras da sua política e acções foram expostas no DOP[2] (Discurso de Orientação Política) no qual privilegiou a Revolução Democrática Popular[3]. Inspirando-se no marxismo, tinha por principal objectivo a transformação da sociedade, favorecendo o desenvolvimento autocentrado e dando,nomeadamente, mais poderes às classes populares em detrimento da burguesia e de um segmento da elite política. A partir de 1984, ordena a mudança de bandeira, de vários símbolos nacionais e do nome do país: Alto Volta transforma-se em Burkina Faso ou “terra de homens integros” (segundo as línguas nacionais Mossis e Djulai). Em cinco anos, o país conhece ganhos sociais e económicos records, contribuindo para melhorar o nível de vida da população. Todavia, a burguesia compradora, a pequena burguesia urbana, vários administradores de regimes anteriores, assim como os cidadãos avessos à revolução em marcha, foram marginalizados pelo Governo.

    As medidas da política interna revolucionária

    As principais políticas nacionais foram marcadas por medidas em prol do desenvolvimento socioeconómico e ambiental que podem ser expostas em quatro principais vertentes: (i) a luta contra a corrupção e uma melhor gestão de recursos públicos, (ii) o desenvolvimento económico e social autocentrado, (iii) a promoção da saúde e educação e da cultura ao serviço da revolução, (iv) a luta contra a desertificação:

    (i) É promovido um maior contrôlo sobre a gestão da coisa pública, reduz-se os salários do Chefe de Estado, de ministros e altos funcionários do Estado. Criam-se Tribunais Populares da Revolução (TPR) para julgar em público casos de corrupção, nomedamente vários ex-governantes;

    (ii) A autonomia e independência económica do país passam por um sistema de produção auto-centrado, priviligiando a apologia “Faso dan Fani” (consumir o que é nacional). As ajudas internacionais são evitadas assim como a participação de empresas capitalistas estrangeiras no processo de desenvolvimento. Em quatro anos, o país consegue ser autosuficiente em matéria de produção alimentar. Uma importante campanha de luta contra a desertificação é priviligiada em todo o território nacional; a reforma agrária diminui o privilégio feudal, redistribuindo terras cultiváveis aos camponeses ;

    (iii) São construidas mais escolas, infrastructuras desportivas, hospitais e é posta em prática uma campanha de criação de “um centro de saúde para cada localidade”. A promoção da emancipação das mulheres quer-se parte integrante das medidas do regime. O governo demonstra vontade política em proíbir a prática da excisão genital feminina e a poligamia. Estas duas últimas medidas colidem com alguma resistência de mulheres do mundo rural. São nomeadas mulheres para cargos importantes, como o  de Ministra do orçamento ou ainda da saúde. O nível de alfabetização da população aumenta de 12%  para 22%, sendo as mulheres as principais beneficiárias. O défice público de 695 milhões de CFAs em 1983 é transformado em excedentes na ordem de 2 milhares de CFAs em 1985. Contudo, paralelamente, multiplica-se o número de prisoneiros políticos no país; cerca de 2600 professores qualificados são despedidos e substituidos por militantes revolucionários sem formação pedagógica no sector da educação ;

    (iv) Para proteger o meio ambiente, uma importante campanha de luta contra a desertificação é levada a cabo através da operação “a cada localidade um bosque.

    Sendo dois sectores interligados, as acções internas influenciaram a ossatura das relações externas regionais e internacionais do Burkina Faso.

    Conduta política e diplomática externa

    Sankara adopta uma conduta externa anti-imperialista e contesta o néocolonialismo, por considerar esta prática difusa nas ajudas exteriores. A influência ideológica néomarxista guia a sua análise das relações de força e dominação na cena internacional. Assim, adopta uma postura política próxima de regimes considerados progressistas, como o da Líbia de M. Khadafi, Gana de J.Rawlings, Cuba de F. Castro, ou ainda Uganda de Y.Musseveni. Nas tribunas internacionais (onu e oua), defende o panafricanismo mas também o não reembolso (por parte de países pobres e africanos) da divída contraída junto do fmi e do Banco Mundial. Como contra-proposta, exorta os outros Chefes de Estado e de Governo africanos a promover a criação do “Clube de Adis-Abeba”, tendo como objectivo uma campanha contra o endividamento excessivo.

    De ressalvar que tanto as acções internas como as externas imprimidas pela revolução popular encontraram resistências, barreiras e limites. Resistências e barreiras a nível interno e limites além fronteiras.

    Balanço da revolução e herança pós Sankara

    A partir de 1985, assiste-se a uma certa deriva dos Comités de Defesa da Revolução (cdr). Em nome da “emancipação feminina” e da luta contra a prostituição, todas as mulheres controladas na rua por um agente do cdr, entre as 20h e as 2h da madrugada, sem provas de identificação, eram imediatamente detidas. Antes de serem soltas, tinham que apresentar provas concretas de que não eram prostitutas. Quanto à luta contra a poligamia, as principais victimas – nomeadamente as mulheres do meio rural – manisfestaram-se contra a medida, defendendo a prática como sendo benéfica para aumentar a mão de obra comunitária.

    O Tribunal Popular Revolucionário, instrumento criado para lutar contra a corrupção, conhece derivas. Os acusados não têm o direito de ser representados por advogados de defesa, além de serem obrigados a provar a sua inocência em público, na rádio e televisão estatais. Por causa de uma greve contra certas práticas do regime, cerca de 2600 professores são despedidos e substituídos por agentes da revolução sem formação pedagógica. Para além disso, a manifestação de alguns segmentos da sociedade cívil (sindicatos por exemplo), bem como dos partidos de oposição, continua proibida, à semelhança do que acontecera nos regimes anteriores. Estas derivas contribuem, para o enfraquecimento do regime a partir de 1985.

    Aumentam as contestações populares. Blaise Compaoré, que controlava o essencial do poder militar, começa a manifestar ambição de substituir Sankara na Presidência. Acresce os diferendos políticos com Hophfouët-Boigny  da Costa do Marfim, assim como os desentendimentos com a antiga potência colonizadora que agia através da rede de influências da Françafrique. De salientar que, na época tanto Boigny, como Mitterand e mesmo a cia (The Central Intelligence Agency) não viam com bons olhos uma provável propagação da Revolução Democrática Popular na África  ocidental.

    Neste contexto tenso, a 15 de Outubro de 1983, Thomas Sankara e doze dos seus colaboradores são fuzilados por militares no palácio da Presidência. Terminara assim o processo revolucionário. Caem também por terra os ideais daquele que defendera “Viver africano para viver livre e digno”[4].

    Vinte e três anos depois, Sankara não é no seu torrão natal mais do que um mártir da revolução. Os ideais defendidos deixaram marcas indeléveis e suscitam nostalgia junto de alguns segmentos da população local e não só. Contudo, o poder instituído por Blaise Compaoré, seu sucessor pela via das armas, procurou, não sem sucesso, ofuscar todas as marcas do Sankarismo. O novo regime mudou de paradigma de cooperação, restabelecendo o capitalismo de Estado, abolindo várias práticas revolucionárias como por exemplo o desporto, obrigação individual de todos enquanto terapia de massa. Decorridos vinte e três anos sobre o último golpe de Estado, Compaoré ainda é Presidente deste país oeste-africano.

    Em jeito de conclusão, convém destacar não só os importantes ganhos socioeconómicos que beneficiaram as classes populares durante os cinco anos de regime revolucionário, mas também alguns erros políticos cometidos pelo regime. O assassinato prematuro de Sankara contribuiu para deixar inacabada a Revolução popular inciada em 1983. Por seu lado, a contestação crescente contra certas práticas do regime a partir de 1985 serviram para ilustrar alguns limites da revolução, assim como um certo défice de consciência revolucionária no país. Este défice foi inegável e erradamente relegado para segundo plano por Sankara e pelo regime. Se considerarmos a situação política e económica actual de Burkina Faso (um dos pma – Países Menos Avançados – mais pobres de África, segundo os critérios do pnud) podemos constatar que o povo burkinabé ainda está longe de vencer a batalha do desenvolvimento. Uma das vias para se inverter esta situação é, sem duvida, a de promover um desenvolvimento que tenha em consideração a evolução do contexto político e económico mundial. Será todavia este impulso possível sem um renovar das elites dirigentes, sejam elas políticas, económicas,  militares…?

    João da Veiga

    Referências

    Entrevista a Thomas Sankara http://www.thomassankara.net/spip.php?article921#outil_sommaire_0 ;

    Filme sobre a vida política de Sankara http://video.google.com/videoplay?docid=-1568227149281410076#

    Discours et contrôle politique : les avatars du Sankarisme » http://www.politique-africaine.com/numeros/pdf/033011.pdf

    « Les CNR face au monde rural : le discours à l’épreuve des faits »http://www.politique-africaine.com/numeros/pdf/033039.pdf

    Carina Ray, Who really killed Thomas Sankara ? : http://www.pambazuka.org/en/category/features/45420

    Politique Africaine, “Au Sport les citoyens”: http://www.politique-africaine.com/numeros/pdf/033059.pdf


    [1] http://www.thomassankara.net

    [2] http://www.thomassankara.net/spip.php? ; article51

    [3] T. Sankara e David Gakunzi (1991), Oser inventer l’avenir : la parole de Sankara (1983-1987), Parthfinder Press et l’Harmattan.

    [4] Um dos slogans prononciados em vários discursos de Sankara.

     

     

    ORIGINALMENTE PÚBLICADO EM Pro Africa Continue

    Líbia: O que os media escondem

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    13:48

    por Miguel Urbano Rodrigues

     

     

    Transcorridas duas semanas das primeiras manifestações em Benghazi e Tripoli, a campanha de desinformação sobre a Líbia semeia a confusão no mundo.  Antes de mais uma certeza: as analogias com os acontecimentos da Tunísia e do Egipto são descabidas. Essas rebeliões contribuíram, obviamente, para despoletar os protestos nas ruas do país vizinho de ambos, mas o processo líbio apresenta características peculiares, inseparáveis da estratégia conspirativa do imperialismo e daquilo que se pode definir como a metamorfose do líder.


    Muamar Kadhafi, ao contrário de Ben Ali e de Hosni Mubarak, assumiu uma posição anti-imperialista quando tomou o poder em 1969. Aboliu uma monarquia fantoche e praticou durante décadas uma politica de independência iniciada com a nacionalização do petróleo. As suas excentricidades e o fanatismo religioso não impediram uma estratégia que promoveu o desenvolvimento económico e reduziu desigualdades sociais chocantes. A Líbia aliou-se a países e movimentos que combatiam o imperialismo e o sionismo. Kadhafi fundou universidades e industrias, uma agricultura florescente surgiu das areias do deserto, centenas de milhares de cidadãos tiveram pela primeira vez direito a alojamentos dignos.


    O bombardeamento de Tripoli e Benghazi em l986 pela USAF demonstrou que Reagan, na Casa Branca identificava no líder líbio um inimigo a abater. Ao país foram aplicadas sanções pesadas.


    A partir da II Guerra do Golfo, Kadhafi deu uma guinada de 180 graus. Submeteu-se a exigências do FMI, privatizou dezenas de empresas e abriu o país às grandes petrolíferas internacionais. A corrupção e o nepotismo criaram raízes na Líbia.


    Washington passou a ver em Kadhafi um dirigente dialogante. Foi recebido na Europa com honras especiais; assinou contratos fabulosos com os governos de Sarkozy, Berlusconi e Brown. Mas quando o aumento de preços nas grandes cidades líbias provocou uma vaga de descontentamento, o imperialismo aproveitou a oportunidade. Concluiu que chegara o momento de se livrar de Kadhafi, um líder sempre incómodo.
    As rebeliões da Tunísia e do Egipto, os protestos no Bahrein e no Iémen criaram condições muito favoráveis às primeiras manifestações na Líbia.
    Não foi por acaso que Benghasi surgiu como o pólo da rebelião. É na Cirenaica que operam as principais transnacionais petrolíferas; ali se localizam os terminais dos oleodutos e dos gasodutos.

     
    A brutal repressão desencadeada por Kadhafi após os primeiros protestos populares contribuiu para que estes se ampliassem, sobretudo em Benghazi. Sabe-se hoje que nessas manifestações desempenhou um papel importante a chamada Frente Nacional para a Salvação da Líbia, organização financiada pela CIA. É esclarecedor que naquela cidade tenham surgido rapidamente nas ruas a antiga bandeira da monarquia e retratos do falecido rei Idris, o chefe tribal Senussi coroado pela Inglaterra após a expulsão dos italianos. Apareceu até um "príncipe" Senussi a dar entrevistas.


    A solidariedade dos grandes media dos EUA e da União Europeia com a rebelião do povo da Líbia é, porem, obviamente hipócrita. O Wall Street Journal, porta-voz da grande Finança mundial, não hesitou em sugerir em editorial (23 de Fevereiro) que "os EUA e a Europa deveriam ajudar os líbios a derrubar o regime de Kadhafi".


    Obama, na expectativa, manteve silêncio sobre a Líbia durante seis dias; no sétimo condenou a violência, pediu sanções. Seguiu-se a reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU e o esperado pacote de sanções.


    Alguns dirigentes progressistas latino americanos admitiram como iminente uma intervenção militar da NATO. Tal iniciativa, perigosa e estúpida, produziria efeito negativo no mundo árabe, reforçando o sentimento anti-imperialista latente nas massas. E seria militarmente desnecessária porque o regime líbio aparentemente agoniza.
    Kadhafi, ao promover uma repressão violenta, recorrendo inclusive a mercenários tchadianos (estrangeiros que nem sequer falam árabe), contribuiu para ampliar a campanha dos grandes media internacionais que projecta como heróis os organizadores da rebelião enquanto ele é apresentado como um assassino e um paranóico.


    Os últimos discursos do líder líbio, irresponsáveis e agressivos, foram alias habilmente utilizados pelos media para o desacreditar e estimular a renúncia de ministros e diplomatas, distanciando Kadhafi cada vez mais do povo que durante décadas o respeitou e admirou.


    Nestes dias é imprevisível o amanhã da Líbia, o terceiro produtor de petróleo da África, um país cujas riquezas são já amplamente controladas pelo imperialismo.

    Vila Nova de Gaia, 28/Fevereiro/2011

    O original encontra-se em http://www.odiario.info/?p=1993
    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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    Os bancos ocidentais ganham milhões com a cocaína colombiana

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    20:34
    – Enquanto a produção de cocaína devasta os países da América Central, os consumidores dos EUA e da Europa ajudam as economias desenvolvidas a enriquecerem-se com os lucros dessa produção.

    Os vastos lucros do tráfico e da produção de droga vão para os países ricos e consumidores – como os da Europa ou os Estados Unidos da América – numa proporção muito superior do que ficam nos países devastados por essa produção, como a Colômbia ou o México, revela um estudo recente [1] .

    Os seus autores afirmam que as entidades reguladoras são relutantes em investigar o enorme processo da lavagem de dinheiro da droga, levada a cabo pelos bancos europeus e norte-americanos.


    A mais recente análise da economia da droga – no caso específico da Colômbia – demonstra que apenas 2,6 % do total do valor de mercado da cocaína produzida fica nesse país, ao passo que uns espantosos 97,4% dos lucros são arrecadados pelas máfias criminosas do chamado primeiro mundo, sendo posteriormente submetidos a um processo de "lavagem de dinheiro" nos bancos desses países.


    "A história acerca de quem realmente lucra com a cocaína colombiana é uma metáfora para o fardo desproporcionado colocado de todas as maneiras sobre países "produtores" como a Colômbia em consequência da proibição das drogas" afirma, Alejandro Gaviria, um dos autores do estudo, aquando do lançamento da edição inglesa do mesmo na semana passada.
    "A sociedade colombiana tem sofrido imenso e não tem retirado nenhuma vantagem económica do tráfico de drogas, os verdadeiros lucros revertem a favor das redes criminosas de distribuição nos países consumidores de drogas, que os "reciclam" no sistema bancário local, sistema esse que opera com muito menos restrições do que o sistema bancário colombiano."


    O seu co-autor, Daniel Mejia, acrescentou: "O sistema aplicado pelas autoridades dos países consumidores de drogas tem como objectivo a repressão do pequeno distribuidor, ele é o elo mais fraco da rede, estas nunca procuram atingir os grandes negociantes de drogas ou os sistemas financeiros que os suportam e é aí que está realmente o grosso do dinheiro".
    Este trabalho, de dois economistas da Universidade de Los Andes, em Bogotá, faz parte de uma iniciativa do governo da Colômbia para reformular a política anti-droga global recentrando-a nos processos de lavagem de dinheiro levados a cabo pelos grandes bancos norte-americanos e europeus, assim como na prevenção social e num processo de descriminalização de algumas ou mesmo de todas as drogas.


    Estes economistas tomaram em consideração vários factores económicos, sociais e políticos, das guerras da droga que têm devastado a Colômbia. O conflito estendeu-se, com graves consequências, ao México e receia-se que possa alastrar-se à América Central. Mas a conclusão mais chocante está relacionada com aquilo a que os autores chamam "microeconomia da produção de cocaína" na Colômbia.
    Gaviria e Mejía calculam que, ao mais baixo valor que a cocaína pura produzida na Colômbia pode atingir nas ruas (cerca de 100 dólares/ 80 euros por grama) o lucro foi, no ano de 2008, de 300 mil milhões de dólares, dos quais apenas 7,8 mil milhões ficaram no país.


    "É uma porção minúscula do PNB", disse Mejía, "o que pode ter um efeito desastroso na vida política e social da Colômbia, mas não na economia. A economia da cocaína colombiana está fora da Colômbia".


    Mejía disse ainda a The Observer: "Na minha perspectiva a proibição das drogas é um processo de transferência de custos do problema das drogas, dos países consumidores para os países produtores".


    "Se países como a Colômbia lucrassem economicamente com o tráfico de droga, ainda faria um pouco de sentido" afirmou Gaviria". Em vez disso, a Colômbia e o México pagam o maior preço para que outros tenham lucro".


    "Eu gostava de ilustrar a situação para os cidadãos norte-americanos: imaginem que o consumo de cocaína nos Estados Unidos desaparecia e se deslocava para o Canadá. Será que os americanos gostariam de ver a taxa de homicídio de Seattle disparar para que se evitasse que a cocaína e o dinheiro fossem para o Canadá? Desta maneira talvez percebessem os custos desta situação para países como o México e a Colômbia"
    Os mecanismos de lavagem de dinheiro foram tratados pelo The Observer no ano passado, depois de um raríssimo acordo judicial em Miami entre o governo federal dos Estados Unidos e o Wanchovia Bank, tendo este último admitido que fazia entrar 110 milhões de dólares de dinheiro da droga nos Estados Unidos. No entanto as autoridades não conseguiram monitorizar os 376 mil milhões de dólares que, ao longo de quatro anos, entraram nas contas desse banco através de casas de câmbio no México. O Wachovia Bank foi, já depois deste acordo, adquirido pelo Wells Fargo que cooperava com a investigação.


    No entanto ninguém foi preso, e o banco está hoje fora de qualquer complicação judicial. "O sentimento geral é o de uma grande relutância em ir atrás dos lucros reais da droga" disse Mejía. "Eles não se ocupam daquela parte do sistema onde está a maior soma. Na Europa e nos EUA o dinheiro está disperso – quando chega a estes países o dinheiro entra no sistema, em todas as cidades, em todos os estados. Eles preferem ir atrás da pequena economia, dos pequenos intermediários e das plantações de coca na Colômbia, mesmo sabendo que essa economia é minúscula".


    O Dr. Mejía acrescentou: "Na Colômbia eles colocam aos bancos questões que nunca colocariam aos bancos nos Estados Unidos. Se o fizessem seria contra as leis do sigilo bancário. Nos Estados Unidos existem leis muito fortes que protegem o segredo bancário, na Colômbia tais leis não existem – ainda que a lavagem de dinheiro se faça mais nos Estados Unidos. É um sistema um pouco hipócrita, não?"


    "É uma extensão da forma como operam no seu próprio país. Vão atrás das classes baixas, dos elos mais fracos da cadeia, do pobre tipo – para mais facilmente mostrar resultados. Mais uma vez: é a vontade de transferir o custo da guerra da droga para os mais pobres, deixando o sistema financeiro e os grandes negociantes intocados, que motiva todo este sistema"
    Tendo o Reino Unido suplantado os EUA e a Espanha como o maior consumidor mundial de cocaína per capita , a investigação ao Wachovia mostrou também que muito do dinheiro da droga era lavado através da City de Londres, onde o principal denunciante do caso, Martin Woods, estava sediado, no departamento anti-lavagem de dinheiro do banco. Martin Woods foi posteriormente demitido depois de ter denunciado a situação.


    Gaviria disse ainda: "Nós sabemos que as autoridades nos Estados Unidos e no Reino Unido sabem mais do que aquilo que as suas acções fazem transparecer. As autoridades apercebem-se de inúmeros casos de pessoas que tentam movimentar dinheiro para o tráfico de droga – mas a DEA (Departamento Anti-droga dos EUA) age apenas num número mínimo de casos"
    "É um verdadeiro tabu perseguir os grandes bancos" acrescentou Mejía, "seria suicidário neste clima económico devido às elevadas quantias de dinheiro reciclado"

    02/Junho/2012

    [1] Alejandro Gaviria Uribe e Daniel Mejía Londoño, Políticas antidroga en Colombia: éxitos, fracasos y extravíos , Ediciones Uniandes, Bogotá, 2012, 458 pgs., ISBN/ISSN: 978-958-695-602-4
    O original encontra-se em www.guardian.co.uk/world/2012/jun/02/western-banks-colombian-cocaine-trade
    Tradução de MQ.

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