Por | João Roc
Se pudéssemos traçar uma perspectiva ótica e existencial entre seu primeiro álbum de estúdio Canções de Apartamento (2011) e Sábado (2013) segundo disco, certamente a sensação é que se no primeiro as canções que predominavam eram de um intimismo de um sujeito oculto, na solidão diária do olhar distante, aquela perspectiva confessional olhando os carros-formigas da manhã, mas de longe, como um ponto fosco em uma janela no centro da cidade. O segundo trama uma fuga, uma passeio entre devaneios cinzentos pelas vielas, a solidão persiste, mas agora é aquela solidão na companhia de uma multidão, aquela inadequação que vem e vai de forma clandestina, consome o espaço e eclipsia qualquer gestual sentido de nossos passos.
‘D e l a d o p r a a l e g r i a t o d a
p r o c u r o c a l a d o a c a i x a d e f ó s f o r o s
a c o n f u s ã o a c a m i n h a r
e a s o l i d ã o a b a t u c a r’
O motivo? Não sabemos, apenas queremos andar procurando-o. Talvez encontrar a nós mesmos, meio, esquecidos num bar, num praça, no ponto de ônibus ou dentro dele, num canto qualquer esperando o tempo passar. O universo solitário é preenchido enquanto o mundo desencanta entre seus personagens, reais na dimensão do contexto e importantes em suas realidades intransponíveis. O que aconteceria se trocássemos de lugar com eles? Qual a significância de suas vidas e das nossas? Ouça ‘Fuga nº3 da rua Nestor’ e entenda.
‘t o d o o â n i m o a t r á s
d e u m m o t i v o
u m m o t i v o’
‘Sábado’ é daqueles trabalhos que foram feito para ouvir sozinho ou lado de uma doce companhia, pede uma cumplicidade mágica. O disco trama uma fugitiva reverberação de sentimentos que parecem serem mais bem compreendidas no silêncio calmo de uma madrugada. Não necessariamente é preciso existir e mergulhar em alguma pontual tristeza. O Poeta é um andarilho urbano que persegue, as vezes desmotivadamente, as vezes obsessivamente, um destino tão desconhecido quanto o último verso de um poema. O violão encontra ecos em dedilhações sublimes que se erguem como frágeis paredes ocultas ao olhar. Gotículas de piano sobre uma calçada como na beleza de “Frevo por acaso” ou reversas baterias que contrastam com a voz cheia de versos-neblinas em “Fuga Nº 4”, as verdades saltando das garagens e portas das casas trancadas, um canto de acordamento para embalar aqueles dormes e sussurrar nos ouvidos da aurora em Porta retratos que se metamorfoseiam no mesmo instante que são capturados pela poesia do momento.
‘Q u a n d o v o c ê v o l t a r p r a c a s a , p e q u e n a
n ã o h á t r i s t e z a q u e v a l h a a p e n a’
Em Canções de Apartamento , Cícero dialogava em seu violão com acordes tão próximos de Marcelo Camelo (que em sábado toca bateria na primeira faixa e baixo e guitarra na canção “Ela e a Lata”) e trazia referências tão sutis como a banda inglesa Radiohead. Em Sábado, o compositor chama para passear Adriana Calcanhoto e/ou Moska e atravessa as ruas escuras do Rio de Janeiro ou de alguma cidade qualquer do ocidente em busca da dose fundamental de sonhos e imensidão. Chutando as latas deixadas por jovens inebriados, fazendo as ligações para o outro lado do mundo, pintando com acordes fantasmas a metrópole, ele, um sujeito homem envergando, andando ou voando sobre os arranhas céus com as asas deltas imaginárias que pousam delicadamente nos sentimentos tão inconfessáveis de nós.
O trabalho de Cícero remete aquela sensação que vez ou outra nos toma, largar tudo por algum instante e vagar sem rumo apenas no rumo certo de nossas incertezas e depois voltar para os braços de uma aparente normalidade, tão aparente quanto nós.
‘E se um dia precisar
de alguém pra desabar
Eu tô por aí’



Imagine você caminhando pelas ruas desertas, esburacadas, calçadas deterioradas, asfalto feito para não durar, pessoas trancadas em seus lares, hoje grandes prisões domiciliares, você com seu aparelho moderno e sua pequena fortuna diária e o sentimento iminente que tudo pode ser tomado em alguns segundos, isso inclui inevitavelmente, a vida. Ou você com seu carro, comprado em inúmeros prestações, ou não, não importa neste caso, saindo de casa para ir ao trabalho e por sair relativamente cedo, é obrigado a monitorar a movimentação nos arredores a fim de evitar que este patrimônio seja levado e ainda seja vítima de truculência e/ou estupro. Na periferia e nas capitais todos podem ser suspeitos. Para alguns basta ser negro, vestir-se de forma descolada, pintar o cabelo ou apenas ter algumas tatuagens. Para outros, basta ver uma moto e dois passageiros homens, basta ver dois jovens em uma bicicleta, basta que estes mesmos entrem nos coletivos para alguns garantirem uma descida em um ponto de ônibus qualquer. Seja qual for as motivações elas beiram uma verdadeira paranoia coletiva.
O cinema americano, falando especificamente, tem um verdadeiro culto pela violência. Diretores como Tarantino, Scorsese (em alguns casos) a tornam algo natural, humano, diversão para muitos, violência gratuita para alguns, claro, eles não são culpados nem responsáveis pelo que fazem e o sentimento e indução que pode causar seu cinema, mas a brutalidade está ali e é muitas das vezes, banal e tola e um mero exercício de estilo e machismo o que acaba virando na inconsciência do garoto um paradigma de estilo e status.
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