Cícero e as pequenas fugas diárias

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11:51

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Por | João Roc

 

Se pudéssemos traçar uma perspectiva ótica e existencial entre seu primeiro álbum de estúdio Canções de Apartamento (2011) e Sábado (2013) segundo disco,  certamente a sensação é que se no primeiro as canções que predominavam eram de um intimismo de um sujeito oculto, na solidão diária do olhar distante, aquela perspectiva confessional olhando os carros-formigas da manhã, mas de longe, como um ponto fosco em uma janela no centro da cidade. O segundo trama uma fuga, uma passeio entre devaneios cinzentos pelas vielas, a solidão persiste, mas agora é aquela solidão na companhia de uma multidão, aquela inadequação que vem e vai de forma clandestina, consome o espaço e eclipsia qualquer gestual sentido de nossos passos.

 

‘D e   l a d o   p r a   a l e g r i a   t o d a
p r o c u r o   c a l a d o   a   c a i x a   d e   f ó s f o r o s
a   c o n f u s ã o   a   c a m i n h a r
e   a   s o l i d ã o   a   b a t u c a r’

 

O motivo? Não sabemos, apenas queremos andar procurando-o. Talvez encontrar a nós mesmos, meio, esquecidos num bar, num praça, no ponto de ônibus ou dentro dele, num canto qualquer esperando o tempo passar. O universo solitário é preenchido enquanto o mundo desencanta entre seus personagens, reais na dimensão do contexto e importantes em suas realidades intransponíveis. O que aconteceria se trocássemos de lugar com eles? Qual a significância de suas vidas e das nossas? Ouça ‘Fuga nº3 da rua Nestor’ e entenda.

 

t o d o   o   â n i m o   a t r á s
d e   u m   m o t i v o
u m   m o t i v o’

Sábado’ é daqueles trabalhos que foram feito para ouvir sozinho ou lado de uma doce companhia, pede uma cumplicidade mágica. O disco trama uma fugitiva reverberação de sentimentos que parecem serem mais bem compreendidas no silêncio calmo de uma madrugada. Não necessariamente é preciso existir e mergulhar em alguma pontual tristeza. O Poeta é um andarilho urbano que persegue, as vezes desmotivadamente, as vezes obsessivamente, um destino tão desconhecido quanto o último verso de um poema. O violão encontra ecos em dedilhações sublimes que se erguem como frágeis paredes ocultas ao olhar. Gotículas de piano sobre uma calçada como na beleza de “Frevo por acaso” ou reversas baterias que contrastam com a voz cheia de versos-neblinas em “Fuga Nº 4”, as verdades saltando das garagens e portas das casas trancadas, um canto de acordamento para embalar aqueles dormes e sussurrar nos ouvidos da aurora em Porta retratos que se metamorfoseiam no mesmo instante que são capturados pela poesia do momento.

 

‘Q u a n d o   v o c ê   v o l t a r   p r a   c a s a ,   p e q u e n a
n ã o   h á   t r i s t e z a   q u e   v a l h a   a   p e n a’

 

Em Canções de Apartamento , Cícero dialogava em seu violão com acordes tão próximos de Marcelo Camelo (que em sábado toca bateria na primeira faixa e baixo e guitarra na canção “Ela e a Lata”) e trazia referências tão sutis como a banda inglesa Radiohead. Em Sábado, o compositor chama para passear Adriana Calcanhoto e/ou Moska e atravessa as ruas escuras do Rio de Janeiro ou de alguma cidade qualquer do ocidente em busca da dose fundamental de sonhos e imensidão. Chutando as latas deixadas por jovens inebriados, fazendo as ligações para o outro lado do mundo, pintando com acordes fantasmas a metrópole, ele, um sujeito homem envergando, andando ou voando sobre os arranhas céus com as asas deltas imaginárias que pousam delicadamente nos sentimentos tão inconfessáveis de nós.

 

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O trabalho de Cícero remete aquela sensação que vez ou outra nos toma, largar tudo por algum instante e vagar sem rumo apenas no rumo certo de nossas incertezas e depois voltar para os braços de uma aparente normalidade, tão aparente quanto nós.

 

‘E se um dia precisar
de alguém pra desabar
Eu tô por aí’

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From the Basement | os porões sonoros de nigel godrich

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08:46

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Por | João Roc

O inglês Nigel Godrich é um engenheiro de som que estudou na SAE - Escola de Engenharia de Áudio - de Londres. Com a oportunidade de trabalhar ao lado do lendário John Leckie, no histórico, Abbey Road Studios, ajudou a produzir o segundo álbum do Radiohead, em 1995, e todos os discos dos ingleses até os dias de hoje. Além de colocar sua marca em álbuns pontuais de grupos do calibre de um R.E.M, dos franceses do Air, Metric e artistas icônicos como Paul McCartney por exemplo.

 

Godrich também é musico, em 2010, lançou um álbum com a banda Ultraísta, onde compôs, arranjou e produziu o belo trabalho. Mas, além de um grande legado na discografia de figuras importantes de sua geração, Nigel reformulou o conceito de apresentação aos moldes da internet, modernizando a ideia de performances acústicas no seu pontual The From The Basement.

 

Em 2006, convidou Dilly Gent, James Chads, John Woollcombe para produzir uma série que captasse as bandas em seu real –visceralidade -Sem plateias, sem intervenções de Mcs ou apresentadores engravatados com piadas de bolso para codificar os sentimentos do ouvinte/telespectador/usuário. O fluxo do programa seria determinado pelo próprio artista, sua arte ali, sendo executada sem cortes, sem oportunidade de maquiar qualquer tipo de realidade.  O local escolhido foi o Maida Studios, um aglomerado de estúdios da BBC que estava prestes há completar cem anos. Algumas apresentações também foram no Berkeley Street Studio, em Los Angeles.

 

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From The Basement é um documento visual fantástico e talvez tenha sido esta a intenção de Nigel. Trazer às bandas para um território seu, quase como um ensaio catártico, fechado, claustrofóbico na criação, no afunilamento de sua obra exposta para câmeras em HD e depois canibalizada para um público sedento. Detalhes de mãos, passos, acordes verossímeis, baquetas e palhetas sob a ótica do detalhe, da íntima execução e recriação da obra. Rosto, gestos, sensações e guitarras acústicas sendo tocada em sua intrínseca conversa silenciosa, no suor criativo do autor. De The White Stripes à Kieran Hebden (Four Tet), as escatológicas performances de Thom Yorke e seu Radiohead às confissões sublimes de Pj Harvey ou Back. Das guitarradas nervosas de um Queens Of The Stone Age aos messiânicos rifs do Sonic Youth, desaguando em Jam Session dos Red Hot Chilli Peppers e poéticas reverberações de Damien Rice ou Fleet Foxes.  .

 

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Mas do que a efemeridade que alcança o universo das produções de hoje, o trabalho visual e o resultado definitivamente ímpar de Godrich garante uma atemporalida sonora - para além do disco- para além dos concertos ao vivo ou participações em programas.  Temos a oportunidade, de mesmo detrás das lentes do monitor ou da TV, nos conectarmos com um lado mais palpável, sem amarras, quase como se, por uma obra do destino, pudéssemos participar das sessões de gravação destes artistas. Como ouvintes e como cúmplices e confidenciássemos sua genialidade, através desta profunda experiência sensorial, para as próximas gerações.

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O golpe semântico da indústria da música

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21:47

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Por | João Roc

 

Vivemos tempos difíceis na arte. Esta  buscando se redesenhar no olhar contemporâneo de novos artistas. Momento de entressafra entre Escritores, músicos, cineastas, artistas digitais e/ou do gueto, cada um tentando apalpar seu espaço e alguns almejando a reinvenção, enquanto outros, permanecem simplesmente atolados  no jogo comercial. E sua arte (neste caso, sua música)  recém criada, portanto, potencialmente uma novidade, já nasce velha.

 

Falando especificamente na indústria da música. Com o advento da internet, produtores, bandas e todo o tipo de profissionais que trabalham no meio se viram em preocupantes quedas de vendas depois da farra que foi a década de 90. A última década do milênio aqui no Brasil sobretudo, houve, desde seu início, uma verdadeira explosão pop que levantou as vendagens à altos patamares e alavancaram jovens ambiciosos músicos (ambiciosos no sentido estritamente financeiro vamos deixar claro) ao status de grandes artistas tupiniquins. O Pop sempre existiu é óbvio, algumas bandas na década de 80 eram absurdamente comerciais, caricaturadas e sinistramente canalhas. Isso não mudou na década posterior, o que mudou foi o tamanho da coisa.

 

Não só no Brasil mas também no mundo todo, a internet causou grande impacto na forma de distribuição e na relação do artista e seu público. Nascia aí um termo que sintetizava a angústia das gravadoras e a ira de profissionais, a cyberpirataria. Todavia, no Brasil temos um caso bastante curioso. A reinvenção da máquina pop não em sua estrutura sonora, esta há tempos sucateada e banalizada por suas letras sofríveis e sua postura pseudosentimental. Mas uma reinvenção que se dá no campo da semântica.

 

Sim, você pode chamar de Tags, Marcadoras, novo estilos, sub-gêneros, seja lá o for, mas a grande verdade é que a indústria fonográfica conseguiu se manter viva no Brasil nesses últimos anos graças a uma forma de renovar as prateleiras e o gosto do ouvinte lhe entregando, em sua concepção, digamos, sínica, novos gêneros e dentro dele, variantes que se atropelam na sua falta de lógica e conteúdo. Este é o último elemento que vamos encontrar em uma busca profunda.

 

O golpe é sempre o mesmo, para cada discutível estilo, outro semi-estilo acompanhando. Então temos o sertanejo (que na verdade não passa de músicas românticas chupadas de estilos bregas da década de 80) e depois temos, vejam só, o “Sertanejo Universitário”, a princípio um sertanejo mais jovem, mais animado, mas que garante um enxurrada de novos rapazes e duplas que irão fazer a felicidade dos donos de gravadoras. Depois temos o Funk. Com grande incentivo midiático, um pano de fundo social para validar a figura dos novos artistas. Logo depois o “Funk Ostentação” um estilo de letra que lembra muito alguns artistas negros americanos que versam sobre carros de luxo, mulatas gostosas e cordões de ouro. O que lá parece uma reafirmação social, aqui não passa de modinha barata e antagonicamente pobre em sua estrutura sonora. Claro, um sem números de grupos se agregaram ao “novo estilo”

 

No Pará um pequeno movimento underground, uma espécie de “faça você mesmo” do norte do Brasil. Artistas do chamado “TechnoBrega” encontraram na distribuição manual uma forma de retrabalhar sua divulgação para além das rádios ou gravadoras. O resultado foi um intercâmbio entre frentes que poderiam ventilar este trabalha e o faziam e o baixo custo da obra/disco, refletindo em bom lucro para os seus autores. Mas nem mesmo assim se fugiu muito do vazio de inovações que a música pop brasileira tenta disfarçar através da criação dessas ilusões ortográficas. O Techno lá, tem mais a ver como isso vai soar no Marketing, no contato com um público que acredita em uma que algo “moderno” surgiu de um estilo que sempre foi discriminado no país. O tiro foi certeiro, com direito até a uma apaixonada resenha de Nelson Motta no Jornal.

 

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A criação de novas nomenclaturas para enquadrar determinadas variantes não é novidade e muito menos é uma invenção brasileira. Na música eletrônicas, uma pequena mudança de andamento do som já coloca este num estilo diferente se o andamento fosse só alguns BPMs mais acelerados. O rock mesmo possui uma gama de gêneros que moldam em muitos casos a orientação musical de muitos fãs.

 

Mas em se tratando da indústria da música aqui no Brasil, isso foi como achar água no deserto. A invenção de falso estilos, novas variantes que desandam para um mesmo fim explicitamente plagiador, a fabricação de novos artistas a cada temporada, mantendo aquecida as vendas e mostrando a efemeridade de como estas novas celebridades vão e se vão. Tudo é uma forma de fazer a roda da fortuna continuar girando. Entretenimento puro e amoral. A música tratada como mercadoria que vai ser consumida com álcool e outras drogas.  Uma farra de mulheres e homens, quase, desesperados por aquela canção, aquele hit que irá coloca-lós nos holofotes. A sociedade do espetáculo transformando a arte em uma escada para ser pisada e fatiada em Talk Shows. Para a indústria, é tudo novo de novo. A música neste universo puramente capitalista, é só um meio.

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simon reynolds e a arte da crítica

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12:22

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Por | Joao Roc

 

Com pouco mais de 20 anos, Simon Reynolds já era um dos grandes nomes da revista britãnica Melody Maker. Esta havia, na década de 60, se tornado uma das grandes referências da música underground do Reino Unido, considerada a “voz” do progressivo. Entretanto, perdeu espaço com o advento do Punk. Então, anos depois, para rivalizar com a forte NME, um grupo de jovens impetusos escritores começaram a redesenhar o períodico e este em pouco tempo se revelaria um dos mais febris e pontuais da crítica musical inglesa, já nos finais dos  anos 70. Recuperando seu posto e sendo a porta-voz de novos grupos, movimentos e a cena pós-punk até o início dos anos 90.

 

‘Beijar o Céu’ foi lançado pela Editora Conrad com tradução de Camilo Rocha e traz alguns dos mais fantástico trabalhos da crítica musical dos anos oitenta e noventa sob a escrita análica, séria e apaixonada de Simon Reynolds. Os artigos versam sobre a rivalidade entre Hip-Hop e Indie Rock por exemplo. O crítico adentra o universo dos Rappers, com profunda análise sobre trabalhos como ‘Rhythm King’ de Schoolly ou ‘Music Madness’ de Mantrnix, passando pelos Beastie Boys. Para Renolds existe uma ruptura de aborbagens entre o pop que ele chama de ‘branco’ e o que ele chama de ‘negro’. O primeiro busca raízes na realidade: “O rock branco se volta cada vez mais para dentro, garipando o estreito veio de seu próprio passado” enquanto que o segundo se agarra à “protolocos sexuais” e “caricaturas utópicas

 

Outra pontual artigo é o fantástico  “Peal Jam versus Nirvana”. Reynolds traça um imparcial paralelo entre os dois frontmans. Enquanto Vedder parece exibir um tom messiânico em suas apresentações com o Peal Jam, uma espécie de líder de uma geração de jovem perdidos,  o Nirvana parecia querer sabotar sua próprio carreira depois do aclamado Nevermind. Mas ao contrário do que possa parecer, apesar das intensas contradições e do aparente (e real) antagonismo entre ambos, o escritor não julga, não ergue planos morais ou filosóficos, se atenta a fatos, palavras, letras das músicas e o contexto daqueles anos, para no final escrever taxativamente: “Junte Vedder e Cobain e você terá algo próximo de um ser humano por inteiro

 

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Outra grande trabalho dessa coletânia de artigos que é “Beijar o Céu” se faz sobre a banda inglesa Pink Floyd e sua primeira figura icônica, Syd Barrett. Simon se concentra em um dos temas centrais do grupo, “o fim da infância”, as relações do antigo vocalista em seu contexto familiar e como isso moldou a visão dos primeiros álbuns,  sobretudo “Piper at the gates of dawn (1967) e A Saucerful of secrets (1968) dos Floyds.  Em outro ponto de grande relevância nesta passagem é quando Reynolds analisa a importância do Pink Floyd para bandas que nasceram justante de sua temáticas pastorais, como o “shoegazes” e indo mais a fundo, o legado da banda britânica para a geração rave dos ano 90.

 

Ainda dos anos 90 mas especificamente nos anos 00, Simon Reynolds faz uma análise sobre como uma banda com alta vendagem e comoção no mainstream, como o Radiohead, conseguiu ser capa de uma das mais respeitáveis e considerada uma das revistas alternativas mais importantes do mundo, a The Wire.  Para isso, o crítico se aprofunda em uma hilária, surpreendente e relevadora entrevista com os membros da banda de Oxford. E se choca com a simplicidade, quase constragedora de Thom Yorke, para quem se acreditava ser uma figura de caráter problemático, como sugere os discos do Radiohead pós-Ok Computer (1997) revelou-se simples, modesto em sua real dimensão para o rock. Fuga ou escudo ou simplesmente um artista na real dimensão do termo.

 

 

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Morrissey (quem Reynolds é fã), de Joy Division ao rap feminino à geração pós-rave, o delicioso trabalho de construção de uma critica que foge do óbivio, do lugar comum, que tenta aproximar o leitor do mais próximo possível da experiência de ouvir um álbum em palavras. Estes são alguns dos grandes triunfos destes artigos compilados em “Beijar o Céu”

 

Importante dizer que Simon Reynold também colaborou para algumas das mais importantes publicações do mundo como The New York Times, The Guardian, New Musical Express e a The Wire.  Alguns artigos deste trabalho foram  tirados de alguns dos seus melhores livros como The Sex Revolts: Gender, Rebellion And Rock’n’Roll (1996) e também do Rip It Up and Start Again: pós Punk 1978-1984 (2005). Além de matérias das publicações no qual ajudou a construir um legado.

 

“Beijar o Céu” é para todos, como fator histórico e riqueza cultural e também para quem gosta de ler sobre música, pormenores, construções apaixonadas e tramas filosóficos em suas entrelinhas, algo só possível com alguns dos grandes artistas compilados nesse trabalho.

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Nota sobre Marcel Caram | Surrealismo, confins e arte digital

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11:04

A obra do brasileiro Marcel Caram converge para signos que saltam da impessoalidade dos meios para um fim onde um mundo tênue passa a existir, entre o imaginário e as fronteiras da sublimação, tão cara e única a nós, validando, aquilo que chamamos de, arte.

 

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Por | João Roc

 

A Arte assim como o ser humano é mutável. Suas linguagens se agregam a novas experiências, contemporâneas tecnologias e esta tornam-se, para o artista, ferramentas que possibilitam agregar a sua obra à outros elementos e lhe permite continuar criando o até então, inimaginável.
 
Nascida do avanço tecnológico da metade do século XX, com a evolução dos hardwares e softwares, a Arte Digital trouxe ao mundo das artes novas abordagens que se disseminaram em intensos experimentos. No Brasil, um dos grandes pioneiros dessa vanguarda foi o artista plástico Waldemar Cordeiro, que desenvolveu estudos, sobre arte realizada no computador, ao lado do físico  Giorgio Moscati. Cordeiro também dirigiu, em Campinas, o Centro de Processamento de Imagens do Instituto de Artes, além de produzir uma histórica exposição chamada ‘Arteônica’ realizada na cidade de São Paulo em em 1971.

 
Seguindo esta tradição experimental e tomado pelo universo surrealista, Marcel Caram é, sobretudo, um desconector do mundo exterior e sua veloz aglomeração, fazendo da sua arte, a arte de se reconectar à contemplação mágica, muito além do sonho, muito além da mera irrealidade ou dos artifícios programados da modelagem sintética. Sua obra conversa com cada objeto, caro ao nosso dia-a-dia, e tão próximo a nós. Acessar os sentimentos que se erguem no contato com sua película oculta é um dos grandes triunfos deste artista. Caram subverte a lógica gélida da criação na máquina. Seu pictórico digitalismo, no lirismo da poesia, é capaz de, como um filme, nos submergir em tramas filosóficas e questionamentos para com as nossa relação com o espaço ao redor.

 

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Para isso, o mineiro parece traçar um diálogo nos confins do desconhecido com duas referências que surgem imediatamente no encontro com sua obra: Salvador Dáli e Rene Magriitte. Do primeiro, a tendência ao absurdo, ao grandioso mundo imaginário que é desbravado e que nos convida às imagens que causam, até hoje, uma profunda e deliciosa estranheza.

 

Mas é no universo do pintor belga que Marcel vaga em busca do antídoto inconsciente: O ordenamento dos objetos. O uso do espaço longínquo, a vastidão meticulosa, a jogo que nasce do questionamento entre artefatos reais e nossa relação com os mesmos, às vezes até, imperceptível, mesmo que íntima. A luz percorrendo até aonde o olhar se perde, a solidão de personagens que parecem absurdamente iguais a nós em sua dimensão moldurada, a ausência de uma poluição visual, em outras palavras, certo enxugamento de ideias que o aproxima de Magritte.

 
Percorrer os trabalhos de Marcel é fazer um estudo intrínseco. Permutar nossa visão de arte olhando acima os ombros das linguagens prefixadas (ou convencionais) e contornar o abismo que separa uma arte criada pela tradição e outra que nasceu do seu tempo, não nasceu para ser uma nova arte certamente, os elementos estão todos lá, à amostra no resultado definitivo.

 

Apenas a pintura (neste caso) foi reafirmada. É a mesma, naquilo que deságua no fascínio. Marcel Caram se transmuta dentro do universo surrealista. Suas imagens inspiradoras, se revelam oníricas conversas que temos conosco, mas que ficam intraduzíveis no barulho póstumo das obrigações diárias, no calor insepulto que permanece e impede o raciocínio lógico de nossas imaginações magnânimas. O artista parece que ouviu nossas confissões depois de ler Rimbaud ou Lautreamont e com um mouse, as desenhou, usando os monitores como enquadramento de uma paisagem que joga com nossa percepção de realidade.

 

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Recentemente sua obra foi selecionada no SoJie 6, uma espécie de concurso cultural que reúne artistas de várias partes do mundo. A exposição acontece virtualmente, com renomados curadores e engloba arte digital, pintura convencional, fotografia. O festival  é uma iniciativa da empresa australiana REDBUBBLE. Esta funciona como um mercado virtual, um espécie de “Spotify” no sentido de alcançar novos artistas, permitindo-os expor e vender seus trabalhos e regular seus próprios preços.

 

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Os trabalhos de Marcel Caram podem ser visualizados na sua página no Flickr e também acessados e/ou comprados Aqui

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Reality shows não são meras coincidências

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16:19

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Por |João Roc

 

Ok, tal entretenimento na TV já são fórmulas batidas, desgastadas por clichês da propaganda e rendem em ralação a qualquer expectativa de conteúdo rico em cultura de qualidade uma grande frustração certamente. Mas se jogarmos isso, no dia-a-dia das relações humanas, na sala fechada de algum escritório ou repartição, teremos nestes poluídos programas, uma pequena amostra de como uma convivência diária com pessoas completamente diferentes pode construir, para o bem ou para o mal, determinantes em nossa postura, moral, desejos e revelar um lado de nós até então imperceptível.

No trabalho, assim como nos Reality shows há as grandes estratégias. Se lá no confinamento das emissoras, o desejo é por uma fortuna que poderá, na cabeça do competidor, mudar para sempre sua condição financeira, no trabalho a ânsia é de se manter ou de subir nos altos patamares conceituais no cargo, o que fatalmente refletirá em suas finanças no fim de mês. A estratégia é bem definida: Vencer. Para alguns, isso significa atropelar qualquer oponente e até jogar na lama sua ética e/ou caráter. Sim, muitos arremessam sua conduta num fosso e muitos mais, não se importam nem por um momento com isto, querem no final, a certeza é que são vencedores em suas profissões ou emprego e não se são padrões cristãos.

Para outros a tática é de corromper o oponente para um campo que ele conhece muito bem. Formam-se então grupos, verdadeiras panelas para um bem em comum. Todos ganharão é a certeza. Cargos melhores, aumento nos salários, quem sabe até privilégios ocultos para os demais participantes deste banquete, não importa, todos lutam para serem campeões na visão do chefe ou de algum superior hierárquico.

Se nos realyst, cada membro terá que convencer o telespectador que é o melhor e merece seu carinho e sua dedicação nos sites especializados para a votação, no trabalho o convencimento será para a cúpula, para o patrão, para aquele que pode trazer enfim aquela promoção tão sonhada por horas a fio da madrugada.

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Mas é nas entrelinhas da convivência entre os seres humanos e seus múltiplos interesses pessoais que esses programas passam a ser um verdadeiro espelho da realidade diária de muitas pessoas. A conversa em baixo tom, o chiado de verbos decodificados, o diálogo invisível para aquele que virou de costas, o leva e traz embalado para confundir, o puxar o tapete para um desabamento trágico ao mesmo tempo em que um triunfo mágico profundamente amoral se ergue. Nas relações humanas, nestes ambientes pragmáticos, mulheres e homens parecem fazer parte do mesmo universo íntimo. Seus medos e alegrias estão enraizados em seus lares, redutos para um dia cansativo e atormentador. Mas antes que está paz chegue no final do dia…

Tribos conspiradores contra você ou você conspirando contra determinados e seletos segmentos. Risos femininos enquanto o olhar promove um ácido Raio-X aparentemente inofensivo. Elogios rompendo os limites da tua própria verdade, palavras na linha indireta que se mostram, pequenos licores cheios de espinhos e ódio permanente, porém; moderado. O homem briga, argumenta, mostra-se um inimigo contínuo e crepuscular. A mulher disfarça. Mostra os dentes e os lábios avermelhados, mas não pelo batom e sim porque na verdade gostaria de abocanhar a oponente e sugar sua empáfia. Deixa pequenos rastros de sangue nos olhos daquela que por ventura foi feliz na escolha do vestido feito de pequenos punhais de defesa. O Homem derruba com um traço, um golpe de punho e escreve à caneta suas justificativas. A mulher não deixa recado, seus recados foram dados em pequenos trechos, pequenos dizeres nas gavetas ou sobre os monitores enfeitados de rosa com fotos de um casal feliz em algum dia verdadeiro.

Todavia, a crucial diferença entre àqueles programas de TV e as manhãs intermináveis de alguns transeuntes que é lá tudo estão à amostra. Explicito, explorado, editado, gravado e depois, como tudo nestas legendas: descartado, efêmero em sua insignificância. Mas no trabalho, as coisas estão ocultas, o jogo está sendo jogado mas ninguém confessa. Cada olhar não pode ser avistando por terceiros, cada gesto calculado jamais encontrará a luz se seu autor não quiser.

Neste labirinto de fácil saída mas de difícil permanência, um mergulho no ambiente calmo e sereno de alguém que passa muitas horas da sua vida trancado em uma sala com pessoas, sou simplesmente na convivência múltipla com seres pensantes em prol de objetivos a princípio tão iguais mas que se traduzem em verdades perturbadoras sobre a psique humana em toda a sua plenitude.

Claro, isso não é uma regra e nem um modelo, o cotidiano de alguns pode ser o oposto de tudo isto no trabalho, se for para você, parabéns.

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Homens e Mulheres Touch Screen

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14:17

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Por | Andrey Tasso

Se pararmos um pouco para olhar para o lado, muito provavelmente, vamos encontrar. Estão de cabeça baixa, olhos fixos sobre a tela sensível, até mais que eles mesmos. Ou debruçados sobre os teclados, não de algum mágico piano, para longas e enigmáticas conversas onipresentes. Não são todos logicamente, nem todo mundo tem condições de desembolsar uma pequena fortuna para acompanhar a dinâmica tecnologia. Alguns resistem, outros roubam até, para ter. Outros berram “minha vida estava lá!”

Enquanto eles se misturam pela realidade virtual irreparável a paisagem os convida a contemplação. Perto dali é possível enxergar as crianças fugindo das mãos acolhedores de suas mães e partido em corridas mais extensas que a distância entre as galáxias, mas que duram apenas algumas calçadas. Ao lado, o senhor de idade caminha olhando para todos as direções após sair do banco, precisa comprar os remédios que o manterá vivo por mais alguns séculos. Cães esperam a passagem dos caros confiando em nossas percepções de segurança e esses carros parecem mais psicopatas enlatados dirigidos por ciborgues apocalípticos. Pássaros riem, mulheres mexem nos cabelos milhões de vezes por segundo. Homens da construção civil uivam mais que lobos cortejando sua futura caça e esta acuada e desejada passa em frações de segundos. Um casal briga no aglomerado da feira coberta e um avisa o outro para não esbarrar na mulher grávida que espera o filho para outro milênio. O Mundo não para, é óbvio, talvez quem tenha parado somos nós.

Publicitários e afins exaltam seu poder psíquico. Sua elementar influência comportamental, psicologia barata, cara aos bolsos do proletariado. A cada nova invenção, entre elas, redes sociais (algumas até prometem agora, financia o usuário!), mensagens decodificadas nas telas ocultas, diálogos impossíveis à quilômetros da realidade. Guy Debord deve estar dando verdadeiras gargalhas em nossas faces gélidas, derretidas pelo wi-fi, um verdadeiro super-herói futurista, oculto mas necessário. Eric Arthur Blair deve estar tomando seu café enquanto escreve os dramáticos anos de nossa história moderna e patética. Onde estão os jovens pensadores, ele me perguntaria. Responderia que eles estão pendurados em seus aparelhos como um inseto seduzido pela lâmpada mágica do novo milênio, inclusive eu, respondo confessadamente.

Agora mesmo, estamos submersos nas barbas de alguma Microsoft da vida, fazendo algum download de algum livro que jamais procuramos em alguma rara livraria esquecida nos becos da grande cidade. Descarregando músicas pelas entrelinhas anônimas, lutando contra vírus metálicos e limpando as lixeiras do destino. Velozes, nosso olhar percorre as barras rumo ao infinito, nossos sorrisos preparam a próxima postagem para se mostrar. Eles estão aqui, são crianças, mudas crianças que desconhecem as alegorias escondidas em algum quintal. Também são adolescentes, seus lábios são logo preparados para a próxima foto, o próximo tour pelos comentários, a próxima ida à academia e depois tudo isso novamente para logo depois tudo ser descartado e depois reprocessado à gosto da televisão e da próxima viral, moda. Música, estilo, estrangeirismos estilosos nas placas sedentas: Fitness, drive tour, Cupcake…Ostentação tupiniquim para abarrotar a caixa de curtidas e a fama para entre os amigos, admiradores, inimigas, até íntimas e uma olhada depois, antes de ir dormir, naquele site e saber se alguém comentou àquele desabafo que você deu, após um longo dia de trabalho ou dar aquele parabéns para o amigo, após receber um alerta programado no site.

O mundo virou uma pequena ilha. Estamos tão perto de pisar em marte mas tão longe de saber cuidar do nosso próprio jardim, o que faremos lá? Enjaulados pelo dinheiro, pelo mercado de trabalho cada vez mais exigente, reféns da cultura do descartável, amantes fies da lógica do mercado, como zumbis cibernéticos como disse o pensador Hakim Bey, marionetes da próxima onda, imitadores de gestos para sermos aceitos, fazermos parte da aldeia global, da mecânica da globalização, da felicidade pelo consumo, pelo ter e não pelo querer. Para no final das contas, tocarmos a vida como em uma tela sintética, fina, jamais de fato, jamais realmente nas profundezas, jamais se conhecer, jamais apenas contemplar, pensar, simplesmente reinventar, recriar um novo, não um novo paradigma para ser espetaculazado, apenas a mais sincera inquietação do pensamento, do diálogo, do levantar a cabeça, olhar as nuvens, os arco-íris, as estrelas, o amor que pode estar ao lado, os animais, as crianças. Passar pela vida não como um usuário que digitou seu password e descortinou um perfil, passar pela vida para além de si mesmo, seja esta experiência o que for. Desconhecidamente sua, minha, nossa.

O tocar, uma das nossas experiência mais profundas.

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O Artista não veio para impedir uma guerra

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Por | João L

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Muito já se falou sobre um dos maiores artistas mexicanos, o ator Roberto Gómez Bolaños, criador de personagens que embalaram a infância de muitas gerações, onde a simplicidade dos gestos, que lembra muito o de artistas como  Charles Chaplin, encantou muitos ao ponto de causar grande comoção em vários países. Mas, a verdadeira relevância do artista está para além das piadas, está no olhar que ele deu para um dos países mais problemático da américa, o México.

Sofrendo com gravíssimas crises sociais, que inclui uma alarmante desigualdade e uma crescente violência, que consegue em alguns casos, superar a do Brasil, um país absurdamente violento. Em 1994 o país entrou para o NAFTA (Área de Livre Comércio da América do Norte) o que a princípio poderia parecer bom para o povo se mostrou pouco tempo depois um tiro no pé. Como o maior país de língua espanhola iria concorrer com Estados Unidos e Canadá, outros dois poderosos membros do grupo? a Revolta de Chiapas foi um dos pontos importantes nesses conflitos de interesses que isto se tornou. Mas nos últimos anos, tudo tem se agravado. Grandes cartéis de drogas tornaram as fronteiras mexicanas locais nebulosos. Com armas compradas ou não, nos grandes vizinhos. Outro fator grande é o desemprego e o baixo crescimento econômico.

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Quando apresentou na década de 70 seu personagem, talvez Bolaños não acreditasse que chegaria tão longe, por tantos anos à tantos países. Retratando a simplicidade de uma vila, as frágeis relações humanas, os problemas financeiros e a pequena realidade desigual do povo, ela acabou conquistando muitos fãs. Talvez por encontrar no personagem, uma espelho de uma terrível realidade vivida pelo cidadão. Mas, Chespirito não tinha a intenção de ser nenhum revolucionário, Roberto Gómez nunca foi um grande ativista das causas mexicanas, sempre permaneceu em sua real dimensão, um artista. Como os artistas mexicanos, como o  grande escritor Octavio Paz ou Frida Kahlo por exemplo.

E é neste contexto que o papel do artista se releva necessário e onde fica sua verdadeira significância. Claro, nada impede que um artista saia às ruas e proteste contra o governo e as mazelas sociais mas ele não deixará de ser menos artista se o não fizer. Para Nietzsche a arte existe para que a realidade não nos destrua, seu papel não é de exatamente mudar o mundo, impedir as tragédias entre os homens – sabe-se que Hitler tinha a obra completa de Shakespeare em sua biblioteca pessoal – Como disse o poeta Roberto Piva: Baudelaire, o Artaud, o Gottfried Benn e o Georg Trakl não impediram Auschwitz. Mas poderiam?

A comoção e a tristeza em torno da morte de Roberto Gómez é válida e sincera em muitos casos. Claro, prato cheio para que a mídia sensacionalista ou a “sociedade do espetáculo” surfar e muitos vão nessa onda, fala-se até na divisão da herança e dos direitos sobre os personagens criados por ele. Aqui no Brasil nos habituamos a encontrar o “Chaves” todas as tardes na emissora do Sílvio Santos, lá é um dos programas de maior audiência de uma TV que tem seu público fiel apesar de ter uma programação por vezes, sofrível. Uma parte da nossa geração cresceu rindo das piadas e tiradas atemporais do garoto que mora num barril, que é absurdamente sua casa, muitos aqui no Brasil só têm um papelão para se cobrir do frio, é a arte imitando a vida.

Roberto Gómez Bolaños se foi, a arte criada com Chespirito ainda deve embalar e fazer rir muitas gerações. Seu papel foi de encantar, fazer sonhar, contar uma dramática realidade de um problemático país com bom humor e sensibilidade, mas não o impediu este lugar de ser tão desigual, tão cheio de contrastes. Ter assistido suas belas criações como ator não evitou que toda uma geração se perdesse. Definitivamente, o artista não veio para impedir uma guerra mas a arte de traduzir a realidade, seja ela qual for, é um dos seus mais nobres papeis.

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A ‘Poesia em Pânico’ de Murilo Mendes

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11:16

Por | João L

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A poesia brasileira ganhou, mais ainda, altos patamares no século XX, com um dos seus maiores representantes: Murilo Mendes. Nascido em Juiz de Fora, foi ao lado de Manuel Bandeira e/ou Carlos Drummond, um dos oásis da poesia moderna tupiniquim.   De escrita por vezes abstrata, por vezes de um surrealismo, quase, religioso, base de sua iniciação ao catolicismo, sob a batuta do artista plástico Ismael Nery, que morreria  anos antes do lançamento do livro, causando enorme impacto na fé e na poesia de Mendes e seu olhar-sensações sobre os eventos do mundo exterior.

Lançado em 1938, Poesia em Pânico, é uma experiência poético-celestial, onde o poeta, com forte influência cubista, desestrutura os versos para poder então, recria-lós em conformidade com a criação divina. Nas suas primeiras manifestações, sentimos a dimensão do encontro mágico “O espírito da poesia me arrebata” e sim, somos levados aos solavancos dos descaminhos do homem e seus obscuros paradigmas.

O visionariíssimo elegante do poeta mineiro se choca com o mundo e seus objetos em “O Exilado” e o pessimismo tão dramaticamente contemporâneo em “A Destruição”. Nas nuvens de anjos se precipitando no caos alvoroçantes das ruas do apocalipse, Murilo se revela desesperanço, sem ânimo para o amor nem para o ódio, uma neutralidade metafísica que o lança em monólogos exteriores onipresentes, como no verso “Eu sou meu companheiro no deserto” do poema ‘O Homem Invisível’ e assim vamos sendo apresentados a mais um referencial da poesia do mestre, a presença feminina.

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O pecado, o sedutor percurso do olhar da mulher que controla as ações do poeta além dos espaços em branco da inconsciência. “Mulher, o mais terrível e vivo espectro” O Mundo muriliando nas cordas bambas com Deus e com os demônios da mocidade. Um entrelaçamento descavernoso no âmago do destino. O colapso entre os contrários se ergue no fluxo entre Homem, a musa- igreja, Deus, ou seriam deuses repletos de imagens de si mesmo? Murilo avança nesse encontro contraditório, a mulher, como um ícone de um desejo que ele quase procura se afastar, mas tropeça em versos evidentemente reveladores, como no poema “O Primeiro Poeta” ou no poema “A Esfinge” onde temos talvez a grande síntese do pânico existencial de Murilo Mendes: Ó Deus / Eu nasci para ser decifrado por ti /Com um pé no limbo, o coração na estrela Vênus e a cabeça na Igreja.

O Poeta se acha num verdadeiro labirinto íntimo e controverso, ao tentar juntar os extremos divinos e de sua própria extremidade, Como um “Amante Invisível” do mundo exterior, como uma fotografia que procura enquadrar todos as nuances da atemporalidade, ele acaba se convertendo aos acontecimentos em toda a sua significância. Em Poesia em Pânico, Murilo Mendes busca reconciliar os acontecimentos da vã existência com os enigmas inconfessáveis do homem, suas ânsias quase, inadiáveis, seus pensamentos, quase, independes, suas musas e suas indomáveis e secretas mutações, que são, porque não, verdades da criação divina. Portanto, a verdadeira natureza das coisas, sempre teve, em todos os instantes, o aval divino.

O Livro, lançado pela Cooperativa Cultural Guanabara na década de trinta, é um verdadeiro clássico da poesia nacional. Sua obra completa acaba de ser relançada pela Cosac Naify sob a coordenação de Júlio Castañon Guimarães, Murilo Marcondes de Moura e do editor Milton Ohata. Ainda sem Poesia em Pânico, mas com outros grandes livros de um poeta ainda a ser redescoberto.

| Começo |

O espaço e o tempo
Hão de se desfazer no vestido da Grande noiva branca.
Serei finalmente decifrado, o estrangeiro da vida
descansará pela primeira vez no universo familiar.

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EU ACREDITO NA RAPAZIADA

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12:22

Por | Andrey Tasso

Mapa da violência

Nosso país têm um dos maiores índices de homicídios do mundo e esses dados entre a juventude é alarmante. Os números cresceram vertiginosamente segundos dados da Unesco de 1980 à 2012 e supera em muito o de países em guerra. A percepção que o cidadão comum tem é de que a nossa juventude, como sugerem os dados, os jovens entre 15 e 29 anos, estão completamente perdidos. Outro dado preocupante é da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios onde quase 20% da população na mesma faixa etária não estuda nem trabalha, os chamados “Nem-Nem”. Recentes dados apontam que muitos jovens têm adiado sua entrada no mercado de trabalha a fim de estudar primeiro, se qualificar, prestar concurso público etc. E é neste ponto que as coisas podem ser vista com positividade.

Uma parte de nossos jovens estão morrendo e a outra ainda resiste. Com a quase obrigatoriedade de uma boa qualificação exigida por parte do grande capital coorporativo, criou-se ainda mais dificuldade na busca pela estabilidade e qualidade de vida da população e sua relação com o trabalho. Apesar da grande oferta de emprego no comércio e na construção civil por exemplo, isso não é necessariamente garantias de vida confortável ou de espaço para realização de alguns sonhos que estão fora do orçamento. Pensar na sobrevivência primeiro é o crucial para esses jovens e é objetivo a se pensar, para quem busca uma vida digna em uma sociedade que exclui aquele que por ventura, ouse, trilhar outros caminhos à margem do dinheiro.

Basta entrar em alguma sala de cursinho pré-vestibular ou algum preparatório para concurso público ou olhar com mais atenção para todos jovens prestando o ENEM, para acreditar que forças ainda estão sendo empregadas na construção de um país melhor. O jovem precisa de oportunidade e educação, isso é fato, mas ele quer mais. Quer emprego de qualidade e não ser sufocado pelo lucro, pelos horários abusivos para sua existencialidade, pelo caos de simplesmente se manter vivo fazendo a roda da fortuna funcionar para os senhores encheram ainda mais suas gordas contas bancárias. Será que políticas públicas mais abrangentes não poderiam ser construídas para que o rapaz ou a moça pudesse criar suas bases para além do elementar jogo de deixar tudo para o futuro? Tudo o que? perguntaria o jovem leitor. Sua vida. Sua juventude. Seu tempo para si mesmo. Querer demais?

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Isso também passa pela mentalidade consumista que desde pequenos aprendemos. Por àquela propaganda, dita inocente, que fazia nossa cabeça e obrigava nossos pais a serem os fundamentais saciadores desta fome por tudo que o dinheiro puder comprar. Crianças têm entrado cada vez mais cedo por este labirinto, para alguns inevitável. A construção de uma personalidade inspirada pelo luxo, pela compra, pelo corpo perfeito, pelo carro importado, pela casa naquele bairro chamado de “nobre” tudo isso é ventilado com bastante entusiasmo pela grande mídia, pelo cinema, pelos grandes bufões da política e do empresariado. Enquanto somos ensinados e porque não, obrigados a abrir mão de alguns bons anos de nossas vidas para construir um patrimônio material que obviamente iremos usufruir por alguns anos e deixar para nossos filhos. Há como fugir destas amarras?, só se um grande desprendimento for empregado em prol de uma vida absurdamente longe do capital. Nossa juventude ainda não tem tamanho senso crítico e nem faz parte da nossa cultura, brasileira, latina, a buscar pela utopia, seja ela qual for, então a esperança reside em alguns milhões de jovens com força de vontade para mudar suas próprias vidas, longe dos tentáculos do tráfico, da vida vazia ostentadora e do passional desinteresse pela educação.

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Claro, os dados são extremamente pessimistas, são reais, e um grande banquete para os carniceiros da TV e sua pseudosensibilidade para com o povo. O olhar não deve ser reducionista, deve ser amplo, os índices de criminalidade há tempos ultrapassam o normal, há tempo somos enganados e nos deixamos enganar pela classe política, nós que temos o poder originário apenas no papel mas não de fato, apesar de que, de fato temos este poder, mas tem pouca habilidade em entender como ele funciona.

Entretanto, neste exato momento enquanto há dezenas de jovens usando crack, roubando, esquecidos debaixo dos viadutos, assassinados por serem negros na periferia, há também dezenas estudando, trabalhando e/ou até buscando às ruas para protestar, se qualificando, mesmo com toda uma eventual problemática econômica e porque não, familiar, praticando esportes, ousando sonhar com as artes ou com suas profissões e porque não, contrariando a máxima de serem, preconceituosamente, vistos como frutos do seu meio. O panorama é de uma epidemia de violência e caos mas há pequenas luzes não nos fins dos túneis, mas sim das salas de aulas, no comércio, nas empresas e em todos os lugares.

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O Sublime Segundo Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel

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08:48

Por | Andrey Tasso

Dez anos de um dos melhores trabalhos da dupla francesa, Air. Com produção de Nigel Godrich e considerado um dos melhores álbuns dos anos 00 pela Pitchfork Media.

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Que uma canção tem o poder de subverter o espaço-tempo e nos arremessar tanto no passado, como no futuro ou simplesmente nos tirar da nossa zona de conforto de nossas divagações diárias e, como uma mágica metafísica inacreditável, Nos fazer adentrar pequenos em universos ocultos até então, mas que são prazerosamente desvendados, como uma criança que atravessa um túnel de nuvens perseguindo uma balão misteriosamente íntimo só a si mesma.

Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel conseguiu tamanha façanha em diversos momentos de sua suave carreira, entretanto, com Talkie Walkie lançado em 2004 eles chegariam perto da perfeição da canção sublime. Com produção de ninguém menos Nigel Godrich (considerado um dos melhores do ramo por gente como Paul MacCartney e Radiohead), o título faz referência ao grande compositor Serge Gainsbourg que compôs "Le Talkie Walkie" lançado na compilação “Du Jazz Dans Le Ravin” de 1997.  O disco, o quarto da discografia dos franceses, obteve apenas singelas manifestações e uma recepção até fria, porém positiva, da crítica da época, mas ao ser redescoberto dez anos depois, podemos sentir suas nuances, seu equilibrado jogo de notas cristalinas, sua atmosfera cheias de esparsas primaveras, sua permutação que envolve nossos ouvidos em algodões metafóricos e como uma cortina, fecha nossos olhos para o mundo exterior ao mesmo tempo em que os descortina para longínquos lugares que jamais havíamos ousado pisar.

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Como em “Vênus” onde um piano faz nossas marcações nas calçadas desacontecidas, íamos para o trabalho ou para algum lugar decididamente confortável?, Onde não teremos que cumprir às metas da semana e sim apenas nos preocuparmos em conhecer os descampados antes de nos deitarmos, mas a noitinha, para olharmos os grandes aglomerados, não do caótico trânsito, mas sim das constelações. Ou como bela “Cherry Blossom Girl” onde novamente o piano e bateria se rendem ao falsete delicado da dupla, que como que declarando um frágil poema de amor, vai preenchendo os espaços até então escuros de nossas saudosistas reverberações de saudades.

Run” pode parecer a princípio exótica na montagem de seus soltos elementos e da repetição da palavra. Neste momento, estamos olhando os transeuntes e suas idas e vindas pelos solavancos, nas vielas úmidas de Paris ou de qualquer lugar do mundo, onde após um período chuvoso, na impetrável passividade dos senhores, na seriedade pálida das senhoras, o inadequado jovem que olha o celular no exato momento que um comboio de pássaros atravessava a esquina formando poéticas formas de dialogar com a vida.

Também poderíamos falar do cintilar sussurrante de “Universal Traveller”, o tom baixo, o diálogo oculto esquecida do casal que procura se entender, a mãe carregando o filho nos colos invisível da barriga, a pressa juvenil do menino que desnecessariamente quer chegar logo ao objetivo, o mudo encontro de silhuetas no lado esquerdo do coletivo, o mundo não para, o clico dos acontecimentos rememora suas memórias, nós, seres pensantes, não conseguimos parar para pensar, uma açucarada ironia de excesso. “Mike Mills” é aquela parada para o café, onde precisamos fechar as contas do mês, onde a beleza está ali e é obvia que está mas não a queremos neste instante, é uma transição calma para  “Surfin On A Rock” onde a dupla desprende-se dos grilhões da elementar previsibilidade e joga-se na estrada desconhecida. O destino nem eles sabem, mas se olhar para trás e perceber o quanto já percorremos pode render um prazer sobre-humano, então, está seguindo de fato nossas doces verdades inconfessáveis é uma segura certeza.

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Com algumas imperfeições, sutis tropeços, como a vida, como tudo, Talkie Walkie é daqueles discos que merecem ser revivido em sua intrínseca harmonia, o intenso piano sendo decodificado em prol do esculpir cada canção rumo ao acabamento múltiplo de um presente atemporal. O final, quase como um sintético circo se desdobrando sobre a fina normalidade do dia-a-dia é a mostra de como uma arte não precisa necessariamente mudar o mundo, basta apenas o convidar para ouvir novas belas (no caso, canções) sendo criadas para embalar a sua rígida jornada. Como um “Walkie-talkie” trazendo boas vibrações para um dia que está a começar.

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O que você vai ser. Quando você crescer?

23:00
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A ingratidão é uma das maiores armas do ser humano. Com ela, o ser corta, não a pele, muito menos quebra os ossos, mas sim, perfura a alma, mas ela insiste em permanecer viva, na lentidão melancólica de amar o ser ingrato.
Dezenas de alegorias poderiam ser empregadas na construção deste sentimento, tão destruidor. Alguns até poderiam sim, defender a tese de que nada foi feito pensando em trocas de favores ou seja lá o que for, que tudo foi realizado por amor e foi certamente, mas no mais íntimo desejo do labirinto humano, você sim, espera um reconhecimento. 

Entre pais e filhos e isso torna-se mais latente, pais geralmente mergulham suas vidas em uma dedicação quase religiosa ao filho. Abrem mão de um tempo que jamais voltará, até da companhia um do outro em prol daquele ser que foi gerado e trazido ao mundo com orgulho e prazer. Não é raro vermos lindas histórias de luta e superação de mães vencedores, que jamais desistem da guerra pela sobrevivência, não dela mesma, mas do próprio filho. Quem nunca ouvir a expressão que perder um filho é a pior dor do mundo… Entretanto, curiosamente, filhos não tem o mesmo sentimento (não todos assim como não todos os pais, é verdade) mas nas leis ocultas da natureza, isto é uma grande verdade e um até rotineiro acontecimento. Filhos, às vezes, simplesmente vivem suas vidas desprezando pais, magoando-os por razões infantis, lutando contra argumentos e posturas sem a habilidade e sabedoria de se fazer compreender, apenas usado a violência da palavra e as costas viradas.
Quisera por algum momento, o ser ingrato pudesse sentir a mais pontiaguda lâmina do desprezo e da fúria desprezadora de si mesmo, quisera entender, que nas relações humanas, há muito mais do que a alquimia surreal de trazer o ser ao universo, e educar, vestir, lhe dar de comer etc.,  foi empregado neste processo, um hermético e desconhecido sentimento que valeu por toda a sua vida. Como se a partir dali, você passasse a viver para um outro ser humano, na mais pura condição de ser, do ser.  

A certeza é que apenas àqueles que sabem o quão precioso é ter seus pais do lado, sabendo que jamais eles estarão ali para sempre, podem ser realmente esboçar algum tipo de paz e/ou felicidade com suas novas famílias ou simplesmente em seus destinos escolhidos por si mesmos na vasta solidão do amadurecimento.

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Cronie
Imagem | Kyle Thompson
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A Paranoia Poética de Roberto Piva

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19:10

“O poeta existe para impedir que as pessoas parem de sonhar.”

Por | Andrey Tasso

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Nasceu na São Paulo da década de 30 e se foi em pleno século 21, mas foi certamente para provocar alucinantes orgias com Rimbaud e Allan Ginsberg nas dimensões dos poetas malditos e para pichar os mantos brancos dos anjos com eróticas poesias xamânicas e marginais. Roberto Piva escreveu algumas das mais delirantes e rebeldes paisagens da sua geração. Com forte referência surrealista, sob a batuta de André Breton e Dali, chamando Mário de Andrade, Rilke e Jorge de Lima para um jogo de transgressão e utopia. Antes, Piva foi lançado na Antologia dos Novíssimos (São Paulo: Massao Ohno, 1961) mas seu primeiro livro, Paranoia, lançado em 1963 pela editora Massao Ohno, é um clássico oculto, à margem da realidade previsível das rimas e das temáticas do amor e do ufanismo idiotizante. Piva crava seu olhar acidamente febril em São Paulo, suas vielas, sua juventude libertária, suas tramas invisíveis nas esquinas do prazer e do homoerotismo enraizado.

Ao saltarmos no urbanismo cinzento do poeta paulistano nos damos conta que a beleza obvia foi dizimada entre longos períodos serpenteando nossas percepções a fim de nos envenenar com líquidos ejaculados de catarse e turbulentos aniquilamentos. Paranoia começou a ser construído no contato e no estudo de Piva sobre A Divina Comédia de Dante Alighieri, realizado no final da década de 50. (Roberto Piva fez o curso com Edoardo Bizzarri no Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro). Foi fundamental também para a sedimentação e amadurecimento dos seus versos a experiência com William Blake, Hölderlin e dos alemães Gottfried Benn e Georg Trakl. Falando aqui do Brasil, Murilo Mendes foi um dos grandes nortes do mestre Piva. O poeta mineiro de versos que bailavam entre o abstrato e visões onírico-celestiais que sopravam as saias das meninas castas e observava a chuva como um fotógrafo Magrittiano sedento pelos corpos da beleza íntima das coisas ajudou a esculpir a desolação ambígua da obra.

Paranoia, vai nos contaminando com doses metafísicas de caos, como em "Jorge de Lima, panfletário do Caos" ou versos como “A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem de morfina” do poema “Praça da República dos meus Sonhos". Para adentrar em mais um elemento alquímico da obra, Piva relatou algumas experiências com alucinógenos e outras translucidas substâncias, aproximando-se da geração Beat de William Burroughs e Allan Ginsberg, estampado em poemas como “Os anjos de Sodoma”, por exemplo.

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Mas é no desbunde da alma com entorpecimentos múltiplos vazados pelos dedos e por sua vagina transparente que Roberto Piva se releva um bruxo marginal que sai para roubar alguns livros ao lado de Baudelaire e Artaud. São Paulo ou a “Paulicéia desvairada” dos anos 60 na visão lautreamonteana de Piva vai sendo aos poucos revelada. Violada em sua pálida virgindade, agredida à tapas por um Sade doentio que se esconde nos cabelos das putas e dos bêbados e barbudos declamadores incendiários do futuro. Para o poeta, a cidade que é era paranoica e não ele e vamos sendo convencidos a tirar a roupa de nossos pudores homeopáticos e participar deste ritual que romperá os laços acadêmicos de nossos sentidos.

Essa poesia alucinatória dos detalhes rendeu a Piva a honra de ser um dos três únicos escritores brasileiros a fazer parte do Dicionário Geral do Surrealismo, publicado na França em 1965 e dirigida por ninguém menos que André Breton. (Os outros foram o Claudio Willer e o Sérgio Lima).

Paranoia foi relançado pelo Instituto Moreira Salles em 2000 ainda com as fotografias e desenhos de Wesley Duke Lee e o prefácio do jornalista Thomaz Souto Corrêa e se mostra atemporal em todos os seus sentidos vertiginosos. Piva dobrou a esquina deste mundo em 2010 depois de complicações renais mas sua poética ou seu “impulso pelo irracional” é mais atual do que nunca. Na Paranoia diária do cotidiano, nos jovens mortos em sua própria ânsia consumista, no trânsito louco e assassino das grandes cidades, na hipocrisia nefasta e no preconceito psicopata, os marginais de ontem se foram e nossos marginais não tem ética, não tem código, não conhecem Nietzsche ou Maiakóvski, querem apenas o último celular da moda e uma moto para “charlar” com suas patricinhas onde a academia é sua biblioteca vazia. 

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No lema “só acredito em poeta experimental que tem vida experimental” Roberto Piva nos entregou uma obra prima da poesia nacional que reflete suas intensas manifestações diárias, seu olhar cirurgicamente nebuloso, seu descabelado berro ou seria um gemido de transgressão dionisíaca gozando sobre as costelas da normalidade?. O mal-estar Piviano é onipresente e convida nosso imaginário a voos não-piedosos que levam ao transe, à transa, de sentidos ou ao pessimismo modernistas, do suor às constelações cinzentas do eu. Corremos o risco de nos tornamos “arcanjos de enxofre” querendo assim como ele quis um dia, a destruição de tudo que é frágil.

Assim diz o último verso de Paranoia “Eu sou uma alucinação na ponta dos teus olhos” Piva e sua poesia estão prontas para nos fazer ficar “sonhando pendurados” em versos da eternidade.

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Livros |

Paranóia, 1963

Piazzas, 1964

Abra os olhos e diga ah!, 1975

Coxas, 1979

20 Poemas com Brócoli, 1981

Antologia Poética, 1985

Ciclones, 1997

Um Estrangeiro na Legião: obras reunidas, volume 1, 2005

Mala na Mão & Asas Pretas: obras reunidas, volume 2, 2006

Estranhos Sinais de Saturno: obras reunidas, volume 3, 2008

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A ARTE DA INADEQUAÇÃO

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18:12

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Fotografia | Andre Kertesz

 

Ser contemporâneo é andar de cabeça baixa com seu aparelho de última geração daquela marca famosa que ninguém conhece de fato, atravessando a rua ou indo para o ponto de ônibus ou simplesmente batendo um selfie no meio do grande congestionamento cotidiano. Talvez ser contemporâneo seja pedir a volta da ditadura porque a também distorcida democracia ouviu alguns e não outros. Ou não, ser contemporâneo é ouvir música sertaneja que não é sertaneja, funks ostentação que ostenta apenas o desejo consumista e não a verdadeira conta bancária, ou usar o photoshop para forjar uma viagem pelos lugares mais belos do mundo. Meu Deus, ser contemporâneo é ofender pessoas de outras regiões por sua condição educacional e seus benefícios perante o governo. Ou simplesmente ser contemporâneo é atacar com racismo porque de fato o time de futebol é mais importante que as pessoas. Contemporâneo deve ser um apresentador que se diz vítima de racismo por ser branco ao mesmo tempo em que oferece uma banana nas redes sociais para uma pessoa negra.

Definitivamente ser contemporâneo deve ser fazer uns ‘rolezinhos’ para causar aquela impressão perante a sociedade e buscar aqueles minutinhos de fama. Quem sabe ser contemporâneo é roubar um carro mesmo sendo da família rica apenas para “causar”. Quem sabe ser contemporâneo é dirigir alcoolizado e matar pais de famílias e/ou arrancar os braços de algum jovem negro. Ou quem sabe ser contemporâneo é deixar os filhos serem vítimas da psicologia dos publicitários ou as filhas andarem mais pintadas que alguma dama já envelhecida de batom ultrapassado. Contemporâneo é falar em sustentabilidade para soar relevante. Contemporâneo é não se apaixonar por ninguém nem por nada e sim beijar todas as bocas possíveis e no fim da noite deitar com aquela mulher ou homem que no final das contas te fará menos solitário por algumas horas. Ser contemporâneo é fazer intercâmbio e depois voltar deprimido de morar no seu próprio país. Ser contemporâneo é sair nas ruas para protestar, mas só que não, era apenas para tirar umas fotos e jogar no Instagram. Não sei, acho que ser contemporâneo é cultuar a violência mas querer a paz. Hum, acho que ser contemporâneo é espancar mulheres porque enfim, elas resolveram terminar o relacionamento.

Ou melhor, ser contemporâneo  é ler livros sobre sedução, ser espontâneo e verdadeiro para quê? Ser contemporâneo é desprezar os grandes autores do cinema e venerar algum grande filme de vampiro adolescente, porque afinal, são menos chatos e mais populares. Ser contemporâneo é ter orgulho de ser hetero mas também ter orgulho de ser diferente não sendo isso. Contemporâneo é lutar, brigar, matar e ir arduamente para o estádio toda a quarta ou domingo para que seu time seja campeão de alguma coisa, mas sentir preguiça de ir votar num domingo a cada dois anos. Ser contemporâneo é votar nulo, até porque, que novas ideias podem surgir para mudar de fato este país nas urnas? Ser contemporâneo é vaiar a presidente pelos gastos na copa, mas fazer isto de dentro do próprio estádio construído com este dinheiro. Ser contemporâneo é ser contra as graves de alguma classe de trabalhadores, além do mais, eles atrapalham o trânsito daqueles que ganham bem. Contemporâneo também é ver mulheres se humilhando em programas de TV pela efêmera fama. Ser contemporâneo é não saber bem qual faculdade fazer, afinal, queremos fazer tudo ao mesmo tempo, ou melhor, ser contemporâneo não é fazer a faculdade dos sonhos, porque sei lá, não se ganha muito dinheiro com esta profissão.

Ser contemporâneo neste mundo é se submeter a todas as sensações, desejos, tentações, consumos, moda, modinhas, gírias, compras, feriados, religiosos ou não, possuir, descartar, querer o que não precisa precisando, se cansando, buscando sei lá o que para ser feliz, não sendo, sendo, depois, insatisfeito, desfeito, refeito. Queremos tudo e um pouco mais que isso. Queremos ser contemporâneos, só isto basta, mesmo que no fim de tudo, ainda estejamos vivendo como nossos pais, como bem cantou Elis Regina.

Para terminar, ser contemporâneo é escrever esse texto, mais um, entre milhões navegando e naufragando na grande rede. Ser contemporâneo é não ser lido e se for lido, ser deixado, abandonado, esquecido ou não, não importa, algo importará mais daqui umas horas.

Nada mais contemporâneo que o esquecimento.

 

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Por | Andrey Tasso

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Nós, A incógnita experiência

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19:00

Por | Cronie

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Não demos certo ou simplesmente ainda precisamos acreditar que um dia resolveremos todos os problemas, filosóficos, políticos, sociais, científicos? Resolveremos a problemática da felicidade? Do Amor? Do ódio? Das guerras? Frias e calorosas, da guerra dia-a-dia pela sobrevivência, nós, de países ainda em desenvolvimento. Qual desenvolvimento? Moral? Racional? Cultural? Matamo-nos a todos diariamente, alguns se nutrem desta desgraça outros lutam para isto acabar. São sempre duas forças contínuas, uma destrutiva outra autodestrutiva, o panorama não é otimista.

Há tantas questões para serem reestruturas. Como viverão nossos netos? Como viverão nossos filhos? A tecnologia vem se mostrando fascinante e/ou viral em toda a sua opulência, mas pouco se mostra capaz de ser vantajosa para todos e não passar de um mero jogo da manipulação publicitária. O mundo de hoje, início do século 21 é uma incógnita, um oceanos escuro com vida mas que vai sendo poluído lentamente. Alguns acreditam que seja a ganância, para outros é o dinheiro, para muitos é o próprio homem.

Sim, homens e mulheres habitantes deste enorme e pequeno planeta na periferia da galáxia. Um ponto azul no meio da escuridão. Nossa raça, nossa espécie, pode ser a única e a última, o que faremos para continuar? Ir devagar, quase, parando, ou andar mais rápido rumo ao progresso, desta vez, homogêneo? Se vão se salvar a todos ou só àqueles que fazem parte do grande banquete? A gravidade implacável vai derrubando a todos, um por um. Religiões, seitas, teorias, fé, nós humanos amamos o desconhecido e amamos tão ou mais a esperança. O mergulho pelos nevoeiros da morte para quem sabe, nadar ao encontro de algo mais belo, mais real, até, infernal, céu, purgatório, adoramos dar nomes e interpretações épicas para densas incertezas. E as relações humanas? Frias em sua complexidade mas vulcânica em sua essência. Uns atacam outros salvam vidas, se doam, querem compartilhar com os outros animais deste planeta, enquanto uns querem apenas, come-lós. Há sempre o antagonismo.

Lei, regras, controle social, mídias, interesses ocultos e múltiplos, põem em jogo nosso caráter, quem por acaso tiver, alguns não têm, não sabem, não foram ensinados, ou seria, adestrados? Precisamos de tantas cargas, pesos, métodos, a juventude é tão curta, a velhice é longa e passageira e a infância inalcançável e bela, mas sabemos disso apenas tarde demais. O amor, inexorável, gélido para conservar as memórias, fogueira que queima a consciência na outra ponta. Poderoso antídoto floreado, poetizado, trágico, para alguns, irreal, químico, desnecessário. Mais uma vez as forças contrárias, agindo no final, juntas, no mesmo barco, na mesma linha mas em direções contrárias, que não raro, colidem.

Alguns chamam de bem e mal, outros preferem acreditar na força indomável da natureza. Para alguns a natureza das coisas não existe, está tudo suspenso, o destino é um conto de fadas e o acaso é o grande imperador deste mundo. Para outros, Deus impera, para muitos, nada pode ser provado, portanto, tudo pode ser verdade ou relativo, ou contrário, os deuses podem ser astronautas ou podem ser, nós mesmos no futuro ou no passado ou para muitos; deuses mesmos, maiores que nós.

O mundo está à beira do abismo como dizia o poeta beat, mas ao contrário dele, o que virá depois já se sabe: O fim, o colapso. Nossos recursos naturais, nossos animais, nossas floresta, nosso ar, nossas relações demasiadamente humanas, o futuro parece uma nuvem de fumaça assustadoramente oculta, quase imperceptível, medonha, não pessimista nem otimista, apenas um fato que podemos desprezar ao pensar nós e no presente ou mudar, ao pensar quem somos e o porquê nascemos de fato, e até isso está em cheque. Ainda não somos viajantes do tempo mas podemos hoje, mudar o futuro com a simplicidade do querer mudar esta experiência que é, viver.

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Por | Andrey Tasso

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Missão Rosetta: sonda Philae pousa com sucesso no cometa 67P/Churyumov–Gerasimenko

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15:37

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Depois de uma longa jornada de dez anos pelo Sistema Solar, finalmente chegou o grande dia para a missão Rosetta, da Agência Espacial Europeia (ESA). Nesta quarta-feira (12/11), o módulo de pouso Philae aterrissou com sucesso no cometa 67P/Churyumov–Gerasimenko por volta das 13h30 (horário de Brasília), mas só tivemos a confirmação de que tudo correu bem em torno de 14h10 - o atraso se deve ao tempo que o sinal demora para viajar pelo espaço e percorrer os cerca de 400 milhões de quilômetros até a Terra.

A sonda robótica Philae foi ejetada às 6h35 e levou cerca de sete horas para percorrer os 22,5 quilômetros que a separavam da superfície do astro. Com o pouso bem sucedido, o dia de hoje entra para a história da exploração espacial: pela primeira vez, um objeto construído pela humanidade realiza uma aterrissagem em um cometa.

Os sinais recebidos pela ESA permitiram confirmar que o pouso foi suave, e a única questão que agora preocupa os cientistas e engenheiros da agência é o indício de que os arpões que devem prender o robô ao solo parecem não ter sido disparados. Uma nova tentativa deverá ser feita em breve.

Após o evento desta quarta-feira, a sonda Rosetta continuará orbitando e estudando aspectos do corpo celeste com seus 11 instrumentos científicos, enquanto o módulo de pouso Philae conduz experimentos in loco por meio de 10 equipamentos diferentes.

O 67P/Churyumov–Gerasimenko leva em média seis anos e meio para completar uma órbita em torno do sol e, como qualquer cometa, preserva materiais intactos provenientes dos primórdios do Sistema Solar, formados há cerca de 4,6 bilhões de anos - por isso a importância da missão, que pode vir a esclarecer questões fundamentais como o surgimento da vida e a abundância de água na Terra, assim como a formação do nosso e dos outros planetas.

 

FONTE | Revista Galileu

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Explorando O Universo Com ‘Universal Consciousness’ De Alice Coltrane

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22:31

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Há muito já se sabia que Alice Coltrane havia achado uma forma de explorar as galáxias, muito além da física elementar, muito além de qualquer teoria plausível, suas descobertas propulsoras estavam em harpas-pássaros que sobrevoavam as claves até então ocultas e desafiavam o som ao baile perante os Cinturões da Via láctea. Já nas primeiras faixas, Universal Consciousness vai escavando o misterioso vácuo, nossos ouvidos pressionados pelos ecos indomáveis do percurso, gritam como elefantes mágicos fugindo do circo mântrico da inconsciência e saltando pelos descampados limites onde a Voyager é fotografada e já ultrapassada progressivamente.

Battle At Armageddon’ segue explorando as dimensões, sobrepondo-se em uma bateria descontínua enquanto metais vão abrindo as vísceras e reconstruindo a beleza não obvia e reluzente de nossos chácaras. Aqui o jazz é o suco mítico que escorre do átomo lúdico debaixo das saias orientais de Alice Coltrane. A certeza de quem somos até aqui, dependerá de nossa retorcida natureza passageira, espontâneo em seu confuso alicerce, capaz de proezas bélicas de palavras e de ruidosos textos nas costas do espaço intrínseco.

Oh Allah’  nos apresenta os primeiros raios do sol de alguma nebulosa que vai sendo desvendada em pequenos olhares pelos solavancos dos ombros ou pelas silhuetas sábias da musa. Uma oração crepúsculos que se afasta de nós como um passageiro futurístico que se perdeu de vista antes da chegada inconfessável ao extremo pulsar das estrelas. ‘Hare Krishina’  é a chagada aos úteros das singularidades, desbravando os anéis muito mais distante daqueles vistos tão de perto em saturno, pelas cores que jamais poderíamos conhecer e que vão sendo escolhidas a dedo por Coltrane. Ela, na particularidade profunda de uma declamação mosaica que refaz antigas máximas humanas, que redesenha as notas musicais para além da geometria, para além do som combinado entre duas ou mais formas inventadas pelos campos harmônicos do destino.

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Recriando a beleza libertadora da canção sem qualquer resquício terreno, Alice olha para os lados e entrega-se aos seus próprios limites de beleza até então desgastado pelo antigo senhor-tempo, esse já apenas uma nomenclatura em algum lugar do passado. ‘Sita Ram’  é aquela razão que emerge do líquido olhar pingando nas bordas dos exoplanetas e causando sensações de arco-íris por quem por ventura puder perceber naquele instante nas longínquas civilizações invisíveis. Mas, temos que voltar, ou não, e The Ankh Of Amen-Ra’ faz nossa reentrada pelos litorais dos berços estelares. Cometas são agora pequenos golfinhos que se arremessam nas órbitas de algum satélite a fim de conhecer seu lado secreto e fabuloso. Voltamos a avistar a terra, Alice mergulha, não no mar, mas sim em harpas vestidas de oceanos que amortecem nossa consciência.

Explorar o universo sob as bênçãos de Alice Coltrane e seu Universal Consciousness é uma experiência metafísica que só a arte é capaz de abrir tal porta.

Track |

1. Universal Consciousness

2. Battle At Armageddon

3. Oh Allah

4. Hare Krishna

5. Sita Ram

6. The Ankh Of Amen-Ra

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A Sensação de violência na cidade

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20:19

A violência que sentimos e fazemos parte nas grandes cidades e suas periferias em todo o Brasil não é fruto de um fator apenas e sim de múltiplas realidades possíveis e imagináveis. Viver e conviver próximo ao medo, em sua voraz face desconhecida, passou a ser o dia-a-dia de milhões de cidadãos neste país.

120915princSABweb.jpg Imagine você caminhando pelas ruas desertas, esburacadas, calçadas deterioradas, asfalto feito para não durar, pessoas trancadas em seus lares, hoje grandes prisões domiciliares, você com seu aparelho moderno e sua pequena fortuna diária e o sentimento iminente que tudo pode ser tomado em alguns segundos, isso inclui inevitavelmente, a vida. Ou você com seu carro, comprado em inúmeros prestações, ou não, não importa neste caso, saindo de casa para ir ao trabalho e por sair relativamente cedo, é obrigado a monitorar a movimentação nos arredores a fim de evitar que este patrimônio seja levado e ainda seja vítima de truculência e/ou estupro. Na periferia e nas capitais todos podem ser suspeitos. Para alguns basta ser negro, vestir-se de forma descolada, pintar o cabelo ou apenas ter algumas tatuagens. Para outros, basta ver uma moto e dois passageiros homens, basta ver dois jovens em uma bicicleta, basta que estes mesmos entrem nos coletivos para alguns garantirem uma descida em um ponto de ônibus qualquer. Seja qual for as motivações elas beiram uma verdadeira paranoia coletiva.

A falta de uma educação de qualidade é um dos grandes responsáveis de fato, mas não é o único. Nesse mundo capitalista em que vivemos o governo aliado às grandes corporações midiáticas e comerciais garantem o vínculo às marcas e ao gosto pela compra. O jovem, a criança, o adulto em geral é incentivado implacavelmente ao consumo. O comércio se nutre do sedutor discurso dos publicitários e estes moldam o gosto popular em sua mais profunda ânsia de fazer parte do grande jogo de ser moderno, atual, contemporâneo. O adolescente da periferia e da grande cidade quer fazer parte do mesmo banquete que o riquinho na área nobre faz. Quer ter o mesmo carro, a mesma moto, o mesmo acesso à tecnologia, da roupa ao sapato da moda. Na verdade, na construção do pensamento consumista, muitos querem também fazer parte deste processo rumo ao luxo e até a ostentação. Outro fator crucial: O glamour da violência nos cinemas, a banalização da criminalidade transvertida de ação social pela TV, a música como motor desta calamidade amoral e a paixão pelo descartável.

 3_cria1.gif O cinema americano, falando especificamente, tem um verdadeiro culto pela violência. Diretores como Tarantino, Scorsese (em alguns casos) a tornam algo natural, humano, diversão para muitos, violência gratuita para alguns, claro, eles não são culpados nem responsáveis pelo que fazem e o sentimento e indução que pode causar seu cinema, mas a brutalidade está ali e é muitas das vezes, banal e tola e um mero exercício de estilo e machismo o que acaba virando na inconsciência do garoto um paradigma de estilo e status.

Na TV, por exemplo, espalharam-se por todo o país os programais policiais. Verdadeiros banhos de sangue publicitário. Apresentadores vestidos com seus ternos para causar seriedade, mas com palavras de ordem. São contra termos como “direitos humanos”, porém não parecem saber o que realmente estão falando. Pregam o ódio de uma sociedade que já sente ódio por sua própria condição de refém do tráfico e das armas. Algumas vezes o bandido em si vira celebridade. Suas palavras e até sua postura é filmada e exposta com ridicularização. Um tiro no pé, esse mesmo bandido se torna referência em colecionar fichas criminais e prisões, em outras palavras, um anti-herói da periferia, entretanto, motivado pelo sentimento de justiça e abandono do poder público, este mesmo telespectador usa sua força coletiva e brutal para promover linchamentos deste mesmo jovem, pessoas de bem sujando suas mãos na fúria de um animal acuado.

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Em suma, viver neste país nos tempos atuais do século XXI é desafiador. Se, somos ainda meras colônias capitalistas, aos poucos vamos afundando na própria lama de nossa ignorância política. Despolitizados e cada vez mais presos nas amarras do mercado financeiro, se as taxas de desemprego parecem cair por outro lado o salário é precário, como por exemplo, os professores, que em tese, deveriam ter os mais altos salários na nação. Outro exemplo são os trabalhadores do grande comércio que são explorados até os ossos e não têm a mínima condição de escolher o tempo que vão parar para respirar. Vamos sendo encurralado ciente que é por nossa própria vontade afinal, fomos educados desde pequenos pelos comerciais, pelos desenhos na ingênua televisão matinal, pela grande mídia corporativa que era assim, que temos que ganhar muito dinheiro e que “curtir a vida” dependerá destas escolhas. Nem que estás dependam de um roubo (em pequena ou grande escala), de um desvio moral, de alguma improbidade, de mero egoísmo, ganância, psicopatia associada a consumo e sede de riqueza, não importa as maneiristas justificativas, hoje, viver neste país significa um ato de sobrevivência frente à violência que vem, não só de um lado, não só de uma classe, não só de um grupo, não só de alguém, também de um pensamento destrutivo, a busca pela felicidade, pelo dinheiro, pelo consumir tudo e jogar fora na mesma proporção para enfim nos satisfazermos em ter, ser, poder, quem sabe, viver.

 

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Por | Cronie

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