Defendam Assange, não o insultem

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23:44

 

por John Pilger

 

"Guardiães dos direitos das mulheres" na imprensa liberal britânica apressaram-se a condenar o fundador da Wikileaks. Na verdade, de todas as vezes que é envolvido no nosso sistema de justiça, os seus direitos individuais fundamentais têm sido violados.


Há quarenta anos, um livro intitulado The Greening of America causou sensação. Na capa estavam escritas estas palavras: "Aproxima-se uma revolução. Não é uma revolução como as do passado. Tem origem no indivíduo". Eu era correspondente nos EUA nessa altura, e lembro-me de como numa noite foi elevado ao status de guru o autor, o jovem académico de Yale, Charles Reich. A sua mensagem era a de que a acção política tinha falhado e só a "cultura" e a introspecção poderiam mudar o mundo. Isto combinado com uma insidiosa campanha de relações públicas empresariais que visava recuperar o capitalismo ocidental a partir do sentimento de liberdade inspirado pelos direitos cívicos e movimentos anti-guerra. Os eufemismos da nova propaganda eram o pós-modernismo, consumismo e "ego-ismo".


O ego era agora o zeitgeist. Impulsionado pelas forças do lucro e da comunicação social, a busca da consciência individual quase dominou o espírito da justiça social e do internacionalismo. Uma nova divindade foi proclamada, o individual era a política. Em 1995, Reich publicou Opposing the System, no qual repudiou quase tudo do The Greening of America.


"Não haverá nenhuma sensação de alívio com insegurança económica ou com a ruína das pessoas," escreveu ele" até reconhecemos que as forças económicas descontroladas criam o conflito e não o bem-estar…." Não houve filas nas livrarias dessa vez. No tempo do neoliberalismo económico, Reich estava em contradição com o individualismo desenfreado da nova elite política e cultural do ocidente.


Falsos tribunos


O restabelecimento do militarismo no ocidente e a busca de uma nova "ameaça" a seguir ao fim da guerra-fria dependiam da desorientação política daqueles que, 20 anos antes, tinham formado uma forte oposição. No 11 de Setembro 2001, eles calaram-se finalmente, e muitos foram cooptados para a "guerra contra o terrorismo". A invasão do Afeganistão em Outubro de 2001 foi apoiada por dirigentes feministas, especialmente nos EUA, onde Hillary Clinton e outros falsos tribunos do feminismo, fizeram da atitude dos Talibãs, relativamente às mulheres afegãs, a justificação para atacarem um país ferido causando a morte de pelo menos 20 mil pessoas, enquanto davam aos Talibãs uma vida nova. De tal modo os senhores da guerra apoiados pelos EUA eram tão medievais como os Talibãs, que não foi permitido suspender o direito em causa. O zeitgeist, através de anos de despolitização "pessoal" e distraindo o verdadeiro radicalismo, tinha funcionado. Nove anos depois, o desastre que é o Afeganistão é a consequência.


Parece que a lição deve ter sido aprendida mais uma vez, com um grupo de feministas da comunicação social a juntarem-se ao ataque a Julian Assange e à Wikileaks, ou "Wikiblokesphere", como Libby Brooks o injuria no Guardian. Do Times até ao New Statesman, é dada uma aparente credibilidade feminista às acusações caóticas, incompetentes e contraditórias contra Assange na Suécia.
On 9 December, the Guardian published a long, supine interview by Amelia Gentleman with Claes Borgström, the "highly respected Swedish lawyer". In fact, Borgström is foremost a politician, a powerful member of the Social Democratic Party. He intervened in the Assange case only when the senior prosecutor in Stockholm dismissed the "rape" allegation as based on "no evidence". In Gentleman's Guardian article, an anonymous source whispers to us that Assange's "behaviour towards women . . . was going to get him into trouble". This smear was taken up by Brooks in the paper that same day. Ken Loach and I and others on "the left" are "shoulder to shoulder" with the misogynists and "conspiracy theorists". To hell with journalistic inquiry. Ignorance and prejudice rule. Em 9 de Dezembro, o Guardian publicou uma entrevista longa e indiferente entrevista de Amelia Gentleman a Claes Borgström, "o altamente respeitado jurista sueco".

De facto, Borgström é acima de tudo um político e um poderoso membro do Partido Social-Democrata. Ele interveio no caso Assange apenas quando o promotor sénior em Estocolmo rejeitou a acusação de "violação" com base na "falta de prova". No artigo de Gentleman no Guardian uma fonte anónima resmunga que o "comportamento de Assange para com as mulheres… ia dar-lhe problemas". Essa calúnia foi retomada por Brooks no jornal nesse mesmo dia. Ken Loach, eu próprio e outras pessoas "de esquerda" estamos "ombro a ombro" com os misóginos e "teóricos da conspiração". Para o inferno com a investigação jornalística. A ignorância e o preconceito é que mandam.


O advogado australiano James Catlin, que representou Assange em Outubro, diz que ambas as mulheres envolvidas no caso disseram aos promotores que consentiram ter sexo com Assange. Depois do "crime", uma das mulheres deu uma festa em honra de Assange. Quando perguntaram a Borgstörm porque estava a representar as mulheres tendo elas negado terem sido violadas, ele respondeu: "Pois, mas elas não são advogadas". Catlin descreve o sistema de justiça da Suécia como "uma anedota". Durante três meses, Assange e os seus advogados, pediram às autoridades suecas para os deixarem ver a acusação. Isto foi-lhes negado até 18 de Novembro, quando chegou o primeiro documento oficial – em língua sueca, em contrário do direito Europa.


A ameaça descoberta


Assange ainda não foi acusado de nada. Nunca fugiu. Pediu e obteve autorização para sair da Suécia, e a polícia britânica sabia do seu paradeiro desde a sua chegada àquele país. Tudo isto não impediu um magistrado londrino em 7 de Dezembro de ignorar sete cauções e de o enviar para a solitária na Prisão de Wandsworth.
Em todas as vezes, os direitos fundamentais de Assange foram violados. O cobarde governo australiano, que está legalmente obrigado a apoiar os seus cidadãos fez uma ameaça velada para lhe tirar o passaporte. Nos seus comentários públicos, a primeira-ministra, Julia Gillard, rasgou vergonhosamente a presunção de inocência subjacente à lei australiana. O ministro dos Negócios Estrangeiros australiano devia ter chamado os dois embaixadores da Suécia e dos EUA, para os alertar contra qualquer abuso dos direitos humanos contra Assange, tais como o crime de incitamento ao assassinato.


Em contraste, um grande número de pessoas dignas em todo o mundo têm-se unido no apoio a Assange: pessoas que não são nem misóginas nem "cães de assalto da internet", para citar Libby Brooks, e que apoiam um conjunto de valores muito diferente daqueles defendidos por Charles Reich. Estão aí incluídas muitas feministas célebres, tais como Naomi Klein, que escreveu: " A violação está a ser utilizada na acusação a Assange da mesma forma que a liberdade das mulheres foi utilizada para invadir o Afeganistão. Acordem!

O original encontra-se em http://uruknet.net/?p=m72916&hd=&size=1&l=e e a versão em português em http://tribunaliraque.info/pagina/artigos/depoimentos.html?artigo=815 . Tradução de F. Macias (c/ pequenas alterações de resistir.info).


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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Wikileaks: Casa Branca financia blogueiros de Cuba

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08:58

Por Operaleaks 25/12/2010 às 20:37

 

 

Blogueiros e tuiteiros "dissidentes" de Cuba são financiados pela Casa Branca
Se Yoani Sanchez e colegas fossem americanos e fizessem exatamente a mesma coisa para outro país nos EUA seriam presos e provavelmente fuzilados. Em Cuba continuam livres e posando de vítimas para a mídia internacional com os bolsos cheios de dólares. Não há um país no mundo onde esse comportamento não renda prisão perpétua ou execução.

OperaLeaks


Daniella Cambaúva ? Redação


Mensagens secretas enviadas pelo chefe do Escritório de Interesses dos Estados Unidos em Havana, Jonathan Farrar, ao Departamento de Estado e divulgadas pelo Wikileaks descrevem o encontro entre a subsecretária de Estado adjunta para a América Latina, Bisa Williams, e dissidentes cubanos.


Durante uma visita feita a Havana, em setembro de 2009, cujo objetivo era dialogar sobre o restabelecimento de correspondência direta entre Cuba e os EUA, a norte-americana - a funcionária de mais alto nível que visitou Cuba em décadas - se reuniu com blogueiros oposicionistas do regime cubano, entre eles, a sensação internacional Yoani Sanchez.


O informe foi enviado em 25 de setembro de 2009 e divulgado no domingo (19/12). Ao referir-se ao encontro que a funcionária teve com os blogueiros, Farrar escreveu: ?Os blogueiros que, em parte por sua própria preservação, não querem estar agrupados com a comunidade dissidente, estavam igualmente otimistas com o curso dos acontecimentos.?


De acordo com os vazamentos, o chefe do Escritório de Interesses em Havana assegurou que "é a nova geração de ?dissidentes não tradicionais?, como [a blogueira] Yoani Sanchez, poderia ter impacto de longo prazo na Cuba pós-Fidel Castro".


Na reunião, Yoani defendeu a aproximação com os EUA para mudar a política da ilha. "Uma melhora das relações dos EUA é absolutamente necessária para que surja a democracia aqui?, disse a blogueira dissidente.

 
No encontro, foi destacado um pedido feito por Yoani: o fim da restrição a compras feitas pela internet. "As restrições só nos prejudicam?, disse a cubana. "Sabe o quanto poderíamos fazer se pudéssemos usar o Pay Pal ou comprar produtos on-line com um cartão de crédito?"sugeriu ela à Bisa.


Segundo documentos públicos do Senado norte-americano, a maior parte dos fundos públicos destinados a promover a mudança de governo em Cuba é enviada aos blogueiros e tuiteiros. São mais de cinco milhões de dólares por ano, informou o site cubano Cuba Debate.


Em outro despacho, datado de 27 de novembro de 2006, o ex-chefe do Escritório de Interesses, Michel E. Parmly, descreve uma reunião de funcionários da sede diplomática com "jovens ativistas pela democracia", realizada "no quintal da residência de um diplomata norte-americano em Havana".
Parmly escreveu que esperava que as autoridades cubanas reagissem a esse encontro "carimbando os jovens líderes como agentes do governo dos EUA? [Nós] estaremos trabalhando da mesma maneira que o governo cubano para incentivar as ações em outra direção, mais concretamente, articulando um maior e melhor trabalho na rede com os estudantes universitários que se opõem ao regime."


Em 1º de junho de 2010, um despacho enviado pelo representante máximo da diplomacia norte-americana na ilha, Johnatan Farrar, dedica um trecho de seu informe à Yoani Sanchez e à atenção dispensada pelo governo dos EUA:
"O pensamento convencional em Havana é que o governo de Cuba vê os blogueiros como seu mais sério desafio, que tem dificuldades para conter como fez com os grupos tradicionais de oposição. Os dissidentes da ?velha guarda? estão bastante isolados do resto da ilha. O governo de Cuba não presta muita atenção a seus artigos e manifestos, porque não têm ressonância nacional e possuem um peso muito limitado internacionalmente".

 

 

 

TEXTO ORIGINAL EM>>midiaindependente

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Videoarte: Poema e Poesia

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09:55

DE  João Leno Lima

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AQUILO QUE ME ASSOLA

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15:01

À Sokurov

Por vezes asola-me a certeza que vou perder alguém.

Caminhos uma vez cruzados,

por uma continua margem de passeio

verticalidade de um trem interno

passando pelas paisagem mais escondidas de nós.

A certeza que perderemos o contato

com os seres que amamos em certa altura da existência

desmorona-me em chamas.

Corro como uma alucinação de mim mesmo,

A morte, com sua flecha certeira

levará para bem longe o toque das mãos,

não sairemos desse delírio de ser

sem a dor da perda em estado do bruto,

corações e mentes parecem afiados punhais ponte agudos

dilacerando essa possibilidade real,

longos tratados e sublimes mapas tentam desvendar os passos

mais a frente agregamos em nós

certezas mais solidas que as rochas,

razoes e propósitos mais profundos que os oceanos,

solidão de escolher a melhor cratera de verdades,

precisamos progressivamente esquecer

que perderemos um dia o contato com o mundo.

 

Perderemos o toque carinhoso no rosto da mãe e do pai

perderemos o abraço amigo e confissoes de amor,

perderemos até aquilo que nos parece insignificante

como o olhar para os pássaros e uma chuva passageira,

estamos preparados para sermos

esquecidos pelos vendavais do tempo?

aceitaremos com prazer e cordialidade

os rituais do nosso esquecimento?

 

e ainda pior...

esqueceremos com louvor e paz a perda irreparável do outro?

a perda...

é quando voltamos a ser criança

e olhamos para nós mesmos

pedindo abrigo...

 

 

 

 

 

João Leno Lima

25-12-2010

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Andrei Tarkovski - O rolo compressor e o violinista

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20:38

Andrei Tarkovski, Katoki i skripka, URSS, 1959

Primeiros Planos, Estética e Política, Política Estética

A análise de filmes do passado exige uma reconfiguração do olhar. Nossa percepção não tem como ser a mesma dos espectadores situados nos momentos nos quais as obras foram lançadas, embora percepções das mesmas evidências, em um mesmo momento e em uma mesma sociedade, também não sejam uniformes e dependam do repertório agenciado por cada espectador.

Já quando o espectador está, em relação à obra, décadas à frente e, em relação à origem da mesma, milhares de quilômetros distante, tem duas opções, não necessariamente excludentes, para penetrar na narrativa. Uma é assimilar as imagens a partir de informações colhidas fora delas, mediado pelo distanciamento em relação ao período histórico, assim como pela localização da obra no percurso dos autores e do cinema. Leva-se para o filme, assim, o manual de decodificação. Não há como se desvincular desse processo em textos analíticos. Uma outra opção, a princípio mais fácil, mas na verdade mais complexa, é ignorar os contextos, atendo-se apenas às evidências na tela. Não nos importa, nessa experiência, quem assina o filme.

Tampouco o futuro de sua filmografia, já tornado passado para o crítico. Busca-se na obra, portanto, sua permanência. E também sua capacidade de transpor barreiras culturais para se afirmar em outro ambiente, não sem inevitáveis ruídos e limites de comunicação. Tentaremos aqui uma aproximação dupla e complementar em relação a O Rolo Compressor e O Vilonista, de Andrei Tarkovski, um média metragem de conclusão de curso universitário pouco conhecido até por seus admiradores mais empenhados.


Primeiro, as evidências. Um menino fecha uma porta, desce as escadas carregando um violino, tenta esquivar-se de vizinhos, mais ou menos da mesma idade, que o atazanam e o desprezam, justamente por ele ser músico, circunstância que o torna diferente, distante de moleques rudes e agressivos. O músico mirim esconde-se, nesse início, no saguão de seu prédio. Tem medo de ser mal tratado. Nessa primeira aproximação, temos pistas temáticas: o embate entre arte e força, com conseqüente isolamento do artista, que vive em exílio social, asfixiado pela brutalidade. Vemos ainda nestes primeiros segundos, após meia dúzia de planos, algumas características que, no desenrolar das imagens, irão se tornar um padrão.

Há uma preocupação em situar os atores em espaços físicos bem definidos, um rigor na distribuição simétrica dos corpos e objetos nesse espaço, a quase obsessão em compor a cena com raios solares e sombras, enquadramentos construídos em posições pensadas para aumentar ou diminuir o tamanho dos personagens na tela (câmera baixa, câmera no alto) e uma busca de uma harmonia visual pictórica, mesmo quando a câmera está em movimento. Mais alguns segundos e vemos outro recurso, até desnecessário às vezes, que retornará em um trecho ou outro: o uso da grua, que ora vem de cima e se aproxima dos atores, ora sai do chão e, subindo, distancia-se dos corpos. A profundidade de campo também será acionada aqui e ali, motivando cenas aparentemente concebidas apenas para sua utilização.

Tem-se assim, dos primeiros aos últimos minutos, um culto à imagem, com a decorrente manipulação de sua superfície. Dois momentos revelam essa disposição em distorcer os signos para se afastar de significações imediatas e sugerir outras no lugar. Primeiro quando o menino pára diante de uma vitrine e olha imagens duplicadas nos espelhos à sua frente. Ele sorri, tem prazer com a percepção diferente do mundo. Poucos segundos adiante, em uma prova de música, durante a qual a professora cobra do garoto o andamento correto, mais veloz, vemos uma imagem desfocada, que sugere um pêndulo, um marcador do ritmo musical. É um copo de água, com esta em movimento.


Nas relações entre os seres, assim como nas ações deles, surgem significações políticas. Essas derivam da aproximação entre os dois personagens centrais, o menino músico e um operário, que ao longo da narrativa iniciam uma amizade. O menino aprenderá com o operário a tomar partido nas situações injustas e a reagir dentro das possibilidades quando tentam oprimi-lo. O operário aprenderá com o menino uma ou outra coisa sobre música. A relação seria selada em uma sessão de cinema, do filme Chapayev, dos irmãos Vassiliev, título símbolo da pobreza estética dos anos 50 na URSS. Essa aproximação do artista com o proletariado, um enriquecendo o outro, é explicitada em uma seqüência, elaborada com montagem paralela. Vemos a imagem do operário trabalhando e do menino tocando violino. O som da máquina e o do instrumento preenchem o quadro. Na cena seguinte, o menino, mãos sujas de graxa, com as quais tocou o violino, é repreendido pela mãe. Seu encontro com o operário é abortado pela autoridade familiar. Somente em um sonho-delírio a união poderá ser realizada.


Percebe-se nessas situações a construção de uma postura política crítica em relação a pelo menos dois alvos: uma nova geração desprovida de sofisticação na formação, que reage à vida com ressentimento, e adultos apegados a um rigor conservador, expresso tanto pela mãe como pela professora de música. Nos dois casos, tolhe-se a liberdade, comportamental e artística. A mãe o impede de sair de casa. A professora exige cumprimento do ritmo. Não estamos nessa primeira passada de olho criando paralelos entre esse material e a sociedade no qual foi construído em um momento específico (a sociedade soviética de finalzinho dos anos 50).

Fiquemos por ora na autonomia da diegese. A abordagem política está na tela, sem alegorias ou simbolismos explícitos, embora, quando vemos casas velhas sendo derrubadas e ao fundo avistamos um prédio alto e novo, no qual reflete intenso raio solar, somos convidados a perceber as evidências de mudanças naquele meio onde vivem os personagens. Vira-se uma página, do velho para o novo, embora não saibamos, pelas evidências na tela, nenhum contexto mais amplo, assim como nenhuma informação mais concreta. Também percebemos, ainda pela evidência, que essa mudança, a rigor, está limitada pelas autoridades. É preciso cumprir à risca a convenção musical na aula e obedecer à proibição da mãe de sair de casa. A imaginação, expressa na cena final, seria uma fuga. Ou melhor: um concerto para o mundo.


Mas esse não é um filme qualquer, mas um média-metragem de Tarkovski, realizado poucos anos antes de A Infância de Ivan, sua estréia em longa-metragem. O cineasta faria apenas outros cinco até se despedir com O Sacrifício. Em virtude do conhecimento de suas obras posteriores, tendemos a ver em sua primeira experiência sinais de traços estilísticos depois melhor elaborados, ou ainda características menos comuns em sua filmografia. Também somos tentados a identificar a postura crítica com as autoridades, quando tinha 28 anos e nada no currículo fílmico, que antecipa as lutas do artista contra a burocracia e a censura soviéticas. Há nesse trabalho de faculdade alguns componentes trakovsvianos.

Em relação a A Infância de Ivan, sua "estréia oficial" (definido por Jean Paul Sartre como "surrealismo socialista"), a aproximação é imediata, não sem distinções para cada um dos títulos. Não é aleatória a opção por dois desfechos situados no terreno da imaginação, onde os limites do real são corrigidos não sem perda do olhar crítico. Percebe-se nessa libertação pela arte ecos de Invitation to a Beheading, de Nabokov, livro publicado em fascículos em 1932, no qual o protagonista, Cincinnatus C resiste à asfixia política pela escrita. Seu heroísmo não está em ações com metas coletivas, mas em resistir a ser como os outros. A recusa em atender o que esperam dele, para assim não compactuar com um sistema produtor de iguais, faz do personagem um rebelde disposto a não conceder.


Há outra aproximação com A Infância de Ivan. Ambos têm como protagonistas uma criança, embora, no longa-metragem, a rebeldia já esteja sedimentada no menino, ao contrário de em O Rolo Compromessor e o Violinista, no qual o espírito subversivo ainda está para brotar, ou melhor, brota apenas na imaginação. De qualquer forma, ao optar por crianças (ou pelo futuro em gestação), mas sem lhes dar obviamente otimismo, o cineasta revela, sem meias luzes, ceticismo no mundo concreto e crença na arte, não expressando isso, contudo, em forma de pregação. "Eu não dirigi nenhuma mensagem à Rússia porque não sou um profeta, nem faço parte dos artistas com discursos semelhantes aos de fiéis em uma catedral" (1).


Sem tanta freqüência e vigor no rompimento com o mimetismo, como já ocorre em A Infância de Ivan, mas já incorporando a obsessão pela água como reflexo de imagens (presente com mais força em A Infância de Ivan, Solaris e Nostalgia), a busca de uma imagem não naturalista e a construção de um mundo com estatuto próprio, O Rolo Compressor e O Violinista apresenta um cineasta com olho apurado, contemporâneo do início de outros autores dispostos a retrabalhar a linguagem (Jean-Luc Godard, Píer Paolo Pasolini, Alain Resnais), que se desvia da tradição do cinema soviético, priorizando o subjetivo ao coletivo, com fio condutor individual, capaz de carregar um mundo em sua visão. O fato do mentor de Tarkovski no Instituto Estatal de Cinematografia ter sido Mikhail Romm, discípulo de Eisenstein, não promoveu nenhuma aspiração nele de tornar-se herdeiro eisensteiniano. Pelo contrário: seu fundamento estético é o plano, o tempo da cena, "a pressão interna da imagem", não a montagem-choque, ou o encadeamento violento, com sua indução didática ou alucinatória, como praticavam Eisenstein e Vertov.


Em certa medida, Tarkovski reagiu a seu tempo (sociedade e cinema). Sua formação cinefilíca, nos anos 40, foi muito pobre. O realismo soviético instaurado nos anos 30, ainda durante sua infância, havia matado a arte em nome da propaganda política. A fase final de Pudovkin, por exemplo, tinha pouca indagação estética e, de forma geral, acomodado em um estilo reacionário, o cinema soviético, antes revolucionário na forma (mais que no conteúdo), aburguesara-se (na forma) e mumificara-se (no conteúdo). O regime comunista também já não iludia mais os artistas. Tarkovski, de certa maneira, responde a isso. Nada da papagaiada realista, com seu slogan mentiroso de se mostrar a realidade como é , ou, na verdade, como queriam que ela fosse, de acordo com conveniências do PC. Seu cinema é alérgico a programas e à missão de reproduzir a realidade (ou de se representar a realidade de forma distorcida para vendê-la como imitação fiel dos fatos e dos contextos). Isso não significa que, por nortear-se pela moral e não pela ideologia (como preconizava Godard), tenha abortado uma visão política. Essa está lá, nas imagens, basta enxergar.


(1) Entrevista concedida ao France Culture em 7-1-86
Cléber Eduardo

 

 

 

TEXTO ORIGINAL EM> CONTRACAMPO

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Daniel Ellsberg: Precursor do WikiLeaks e inimigo da teoria económica neoliberal

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11:57

 

 

por Yanis Varoufakis [*]

Daniel Ellsberg. Não é a primeira vez que milhares de documentos classificados foram "libertados", revelando a um público espantado como o seu governo travou uma guerra deliberada de desinformação contra si a fim de dobrar a sua vontade quanto a uma guerra inútil: uma guerra em cujo altar o público enganado é solicitado ritualmente a sacrificar os seus filhos, maridos, esposas, amigos. Esta não é a primeira vez que o establishment uniu-se na sua condenação do corajoso "denunciante" por "colocar as vidas de soldados e mulheres em risco". Não é sequer a primeira vez em que o portador de verdades odiosas foi denegrido, perseguido, aprisionado.


Nesse sentido, nada mudou. Excepto, naturalmente, que, na era da Internet, o WikiLeaks pode inundar o mundo, por meio de uns poucos toques de teclas, com os documentos classificados sacados dos seus cofres bem guardados num minúsculo dispositivo USB. Velocidade e volume contam. No entanto, esta geração de buscadores da verdade, corajosamente a combater pelo direito a saber, ainda deve aos seus antecessores um preito de gratidão por lhes abrir o caminho numa época em que dar fuga à informação significava árduo trabalho físico (noites infindáveis em fotocopiadoras) o que os expunha a riscos muito maiores.

O mais celebrado antecessor do WikiLeaks é, naturalmente, nada menos do que um economista educado em Harvard, Daniel Ellsberg. A sua história é de uma coragem, honestidade intelectual e brilho científico incomuns, pela qual, talvez sem ele próprio saber, deparou-se com um resultado analítico e empírico que deveria ter posto um travão aos trabalhos da teoria económica neoliberal.
A história recordará Ellsberg como uma figura do establishment, o cientista Guerreiro Frio e estrategista político cuja consciência se ergueu contra os seus próprios esforços e que executou um acto notável de resistência: um acto que efectivamente minou a argumentação moral e militar para continuar a Guerra do Vietname. Quase toda gente recorda os infames Pentagon Papers que Ellsberg passou à imprensa, revelando a verdade de que a carnificina chamada Guerra do Vietname era não só uma guerra invencível como também que, notavelmente, os que tinham o poder tinham conhecimento disso há anos e mesmo assim continuavam a enviar jovens soldados à Indochina para matarem e serem mortos. Entretanto, o que é menos sabido é que Ellsberg também costumava, de forma sub-reptícia, minar as falsidades estabelecidas em outro campo de batalha crucial.


O experimento subversivo


Ellsberg principiou a sua carreira como um cientista da RAND que passava o tempo a estudar a teoria da decisão: modelos matemáticos cujo objectivo é estabelecer as regras das escolhas racionais face à incerteza. O Pentágono preocupava-se com estes modelos pois queria ajuda sobre quando atacar, como atacar preventivamente um inimigo, como planear ataques nucleares, etc. Naquele tempo, alguns dos melhores e mais dotados trabalhavam na RAND ou em torno dela sobre estes modelos matemáticos, com John von Neumann como líder natural do conjunto.


A importância destes modelos não pode ser exagerada. O seu principal artifício era converter matematicamente opções incertas em outras bem definidas. A ideia original (devida primariamente a von Neumann e posteriormente a Leo Savage) era simples: considerar toda opção disponível para o decisor (exemplo: posicionar um submarino nuclear ao largo de Vladivostok ou reduzir o preço do seu produto para minar seu competidores); calcular os valores esperados de cada opção, uma vez consideradas todas as probabilidades relevantes; escolher então a opção com o maior valor esperado.


Perguntou alguma vez onde os engenheiros financeiros que nos deram os agora famosos derivativos tóxicos obtiveram tanta confiança para calcular números exóticos, como Valor em risco (Value at Risk, VAR), os quais tranquilizavam os administradores de riscos dos bancos e levava-os à aceitação imbecil dos riscos absurdos (mas supostamente "sem riscos") que os seus rapazes estavam a assumir? A resposta: estes mesmos modelos matemáticos elaborados na RAND e outras entidades tais como as unidades de investigação da Guerra-fria na década de 1950. Todas estas pessoas incrivelmente inteligentes acreditavam piamente que a sua abordagem matemática do valor esperado era o caminho para avançar. Todas excepto uma: Daniel Ellsberg, que logo, desde o princípio e com absoluta honestidade intelectual, revelou a loucura absoluta de toda a abordagem. Para demonstrá-lo, concebeu um experimento brilhante.


Suponha que uma urna contenha 90 bolas e dizem-lhe (a) que 30 são vermelhas e (b) que as restantes 60 bolas são uma mistura desconhecida de negras e amarelas (Importante: não lhe dizem quantas destas 60 negras ou amarelas são realmente negras ou amarelas. Na verdade, podem ser todas amarelas, todas negras ou qualquer combinação de negras e amarelas).

Uma bola é seleccionada aleatoriamente e dão-lhe a seguinte escolha. A Opção I lhe dará US$100 se for retirada uma bola vermelha e nada se for negra ou amarela. A Opção II lhe dará US$100 se for retirada uma bola negra e nada se for uma vermelha ou amarela. Aqui está um resumo das opções:

Vermelho

Negro

Amarelo

Opção I
$100
0
0

Opção II
0
$100
0

Anote a sua escolha e considere então duas outras opções baseadas igualmente na retirada aleatória desta urna (depois de as bolas terem sido recolocadas de modo a que a urna contenha as mesmas bolas como antes:

Vermelho

Negro

Amarelo

Opção III
$100
0
$100

Opção IV
0
$100
$100

Qual opção escolheria agora?


O experimento, no qual Ellsberg pediu a centenas de pessoas inteligentes para efectuarem estas escolhas, revelou que a maior parte das pessoas seleccionou as Opções I e IV. Ellsberg destacou então que estes resultados não podiam sem enquadrados com a abordagem matemática (descrita acima) preferida pelos seus colegas da RAND. Por que?


Recordar que os matemáticos da RAND assumiam que, quando apresentados com opções incertas, a pessoa racional assinalaria um valor numérico específico a cada uma e então escolheria a opção com o valor mais alto. Nesta interpretação, quando uma pessoa escolhe a Opção I em detrimento da Opção II, ela está a revelar uma expectativa de que deve haver mais bolas vermelhas na urna do que negras (uma vez que o número de bolas amarelas não tem consequência, uma vez que ela nada ganhará na outra opção se uma amarela for retirada da urna). Contudo, quando a mesma pessoa prefere a Opção IV à Opção III, ela revela exactamente o oposto: que pensa haver mais bolas negras do que vermelhas na urna. (Por que de outro modo daria uma avaliação mais alta à Opção IV do que à Opção III?). Mas isto não pode ser "racional". Não há, na verdade, qualquer meio para que alguém possa racionalizar uma crença de que há mais bolas vermelhas do que negras quando escolhendo entre as Opções I e II e, ao mesmo tempo, pensar que há mais bolas negras do que vermelhas quando escolhendo entre as Opções III e IV. Afinal de contas, trata-se da mesma urna que contem as mesmas bolas.


Então, o que está a acontecer aqui? A explicação simples de Ellsberg é que as pessoas não actuam como os seus colegas da RAND esperavam. Que elas não olham para as suas várias opções de risco, atribuem-lhe diferente valores numéricos esperados e então tratam de escolher a que tem o valor mais alto. As pessoas reais, pensava Ellsberg, interessam-se por algo que os cientistas da RAND desprezam: nós não gostamos de ambiguidade! Para ver o que isto significa, recorde, ao escolher entre as Opções I e II, a pessoa que opta por I sabe a probabilidade exacta de ganhar US$100: é 1 em 3 (uma vez que lhe foi dito inequivocamente que 30 das noventa bolas na urna são vermelhas). Em contraste, se escolhesse a Opção II, a probabilidade de vencer seria desconhecida para ela (uma vez que a proporção de bolas negras é desconhecida). Agora olhe as Opções III e IV. Mais uma vez, ao escolher a Opção IV, a pessoa sabe a probabilidade exacta de vencer: 2 em 3 (uma vez que 60 das bolas não são vermelhas). Em contraste, a probabilidade de ganhar US$100 ao escolher a Opção III é ambígua (pois a proporção de bolas vermelhas e amarelas é desconhecida). Por outras palavras, as escolhas de I e IV podem ser explicadas pela aversão à ambiguidade e preferência por opções que venham com informação precisa e objectiva acerca da probabilidade de ganhar ou perder. Esta espécie de preferência viola a lógica dos cientistas da RAND mas não pode de modo algum ser ignorada.

Este experimento, cujos resultados Ellberg publicou em 1961, [1] passou a ser conhecido como o Paradoxo de Ellsberg . A sua importância é que reflecte um problema mais profundo de toda a teoria económica neoliberal: o tipo de teoria que, especialmente após o fim de Bretton Woods, apossou-se não só da academia como também do sector financeiro e da elaboração da política económica nos governos. O seu princípio básico era, e continua a ser, que coisas incertas podem ser tratadas como se fossem seguras, desde que os riscos tenham sido factorados probabilisticamente! Risco sem risco, por outras palavras. Será que isto o recorda de alguma coisa? Como as classificações AAA dos derivativos que explodiram em 2008?


Ellsberg lançou a advertência urgente de que avaliações de probabilidade captam de forma inadequada o modo como a incerteza entra na tomada de decisão. Embora ele não o tenha dito no momento da publicação do artigo, o experimento acima deveria fazer soar campainhas de alarme todas as vezes que fosse proposto um modelo neoliberal. Se a contribuição científica de Ellsberg não tivesse sido ignorado pela profissão das ciências económicas, os últimos trinta anos ou pouco mais poderiam ter sido diferentes. Infelizmente, resultados científicos como esse de Daniel Ellsberg podem ser seguramente ignorados quando a pista do dinheiro aponta uma direcção diferente.


A grande fuga


Possivelmente devido ao seu profundo envolvimento na RAND e no complexo militar-industrial do qual a RAND era uma parte importante, Ellsberg tornou-se profundamente envolvido na política do governo dos EUA, a saber, a corrida às armas nucleares, a Crise Cubana dos Mísseis, a Guerra do Vietname, etc. Devido às suas credenciais inquestionáveis como empregado da RAND e como um Guerreiro Frio, ele tinha acesso aos chamados Pentagon Papers: um vasto conjunto de documentos altamente classificados que provavam para além de qualquer dúvida que toda a administração dos EUA já sabia que a guerra não podia ser vencida e que as baixas seriam enormes.


Chocado com o que lia, Ellsberg começou a comparecer a reuniões anti-Guerra do Vietname. Em 1969, numa destas reuniões, encontrou um soldado que estava determinado a tomar posição contra a continuação dessa guerra estúpida mesmo que tivesse de ir para a prisão. Ter contacto pessoal com um objector de consciência de carne e osso, um homem pronto para arriscar tudo a fim de fazer a coisa certa, provocou a epifania de Ellsberg a qual o estimulou a tornar-se o mais famoso dissidente do governo dos EUA.


Com a assistência de outro empregado da RAND, ele passou noites incontáveis a fotocopiar documentos, um por um. Depois de terem fracassado as suas tentativas de interessar legisladores quanto ao seu conteúdo, ele passou-as para o New York Times e o Washington Post. Os primeiros extractos explosivos foram publicados em Junho de 1971. A seguir Ellsberg foi despedido do seu emprego e em 1973 foi sujeito a um julgamento sob acusações que o teriam feito passar mais de 110 anos na prisão. Contudo, a notoriedade do seu caso, a defesa rigorosa por advogados qualificados e a evidência clara de subterfúgio do governo (incluindo uma campanha encoberta para difamar e mesmo insultar Ellsberg) levaram finalmente à sua absolvição. Até hoje o establishment americano, incluindo a RAND, não o esqueceu.

Epílogo


No momento em que os nossos estados "liberais" emitiram o equivalente a uma fatwa contra Julian Assange por ajudar, através do WikiLeaks, a tornar públicas verdades vergonhosas, é importante para esta geração recordar os pioneiros, e aprender com eles, nesta luta inter-temporal contra a misantrópica indústria militar e do confusionismo económico.

[1] Ver Daniel Ellsberg (1961) "Risk, Ambiguity, and the Savage Axioms," Quarterly Journal of Economics, 75 (4): 643-669. Curiosamente, o seu resultado experimental está próximo da rejeição de John Maynard Keynes da noção de que, num mundo incerto, pessoas racionais comportam-se como se fossem maximizar alguma função bem definida envolvendo expectativas matemáticas.
[*] Professor de Teoria Económica e director do Departamento de Economia Política da Faculdade de Ciências Económicas da Universidade de Atenas. Seus livros incluem: The Global Minotaur: The True Origins of the Financial Crisis and the Future of the World Economy; (com S. Hargreaves-Heap) Game Theory: A Critical Text (Routledge, 2004); Foundations of Economics: A Beginner's Companion (Routledge, 1998); and Rational Conflict (Blackwell Publishers, 1991). O artigo acima resume argumentos apresentados no Capítulo 12 de Modern Political Economics: Making Sense of the Post-2008 World, de autoria de Yanis Varoufakis, Joseph Halevi, e Nicholas Theocarakis (a ser publicado em Março 2011 pela Routledge).


O original encontra-se em

http://mrzine.monthlyreview.org/2010/varoufakis161210.html


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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Marituba - Longa e Tenebrosa Estrada

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11:39

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Velho/Novo ginásio de Esportes jamais terminado

Para uma cidade montada na beira da estrada e para alguns quilômetros de Belém, Marituba parece um amontoado de casas mal construídas (digo sem planejamento) que vao despontando rumo ao futuro caótico onde o poder público é refém de seu próprio amadorismo e ganância.

Desde da sua emancipação a cidade pouco andou para frente, aliás, nesse sentido, retrocedeu. Já teve estádios de futebol (amadores) belos igarapés, cinema e cines teatro além da estrada de ferro. Hoje dominada pela falta de infra estrutura em hospitais públicos, pela ausência de uma politica que traga alternativas de emprego para uma população que vive da informalidade ou trabalha na capital e a falta de apoio a cultura (sem a mascarada postura elitista de selecionar apenas os “seus”) além disso, outra grave problema que não é exclusivo da cidade assola…Drogas.

Marituba já é vista como uma das mais violentas cidades da região (claro a imprensa transforma isso num espetáculo midiático) e seus dependentes químicos se esbarram pelas ruas pouco iluminadas a procura de poucos trocados ou de vítimas casuais para furto de objetos a serem trocados nas instituições capitalizadas para isso.

Se por um lado o cenário é desolador (e é) Marituba tem desdá sua existência um vocação para as artes. Grupos de teatro, bandas, grafites, grupos de poesia e carimbó fazem parte da história da cidade e pauta sua relevância no cenário metropolitano. Em meio ao descaso do estado a arte transborda nos bueiros abertos e onde reina a corrupção mistura-se longas caminhadas de seus artistas marginais por conveniência.

Nesse ponto, Marituba vive um contraste invisível. O incentivo a cultura é vazio e pouco dialogia com a vanguarda e suas reflexões (não se pode esperar outra coisa do estado) e a dita “vanguarda” parece pouco disposta a se organizar para retomar seu espaço. Um dilema sempre revisto nas “mesas” de discussão underground que parece durar a eternidade.

A verdade é que sem o apoio do poder público os movimentos da cidade tendem a se esvaziar de ações, o que deveria ser ao contrário, sabendo que o poder do estado tem interesses superficiais em relação a arte e sua parcela fica na esfera do entretenimento e não é de sua vocação qualquer ruptura com a máquina capitalista; os movimentos na cidade deveriam se unir, em coletivos e movimentos de ação e estudo (algo que soa acadêmico se você apenas quiser teorizar mas que é fundamental para a estrutura do argumento das ações) e  estudar (com projetos, ações coletivas, oficinas, performances, panfletagem, rádio, internet etc....)  uma maneira de se inserir no campo social e  para a melhoria da vida das pessoas naquilo que cabe ao artista, levar sua arte e fazer que ela ajude no processo de humanização e integração da pessoa com ela mesma ao ponto que ela se liberta dos grilhões da mídia televisiva, da propaganda, da força politica desdenhosa com os assuntos de interesse mútuo, com os traficantes e suas vidas cheio de luxo em nome da desgraça de famílias, dos jovens envelhecidos pela sua própria ausência de sentido em viver um uma cidade que pouco se importa com o ser humano e onde a banalização da vida é so reflexo do mundo em que vivemos hoje.

Cabe a todos o amadurecimento para encontrar a razão de existir de uma cidade que pode melhorar se as pessoas acreditarem nelas mesmas, nas pessoas ao redor que podem ajudar e no futuro. Sem isso, viver em Marituba pode se tornar insuportável.

 

João Leno Lima

21-12-2010

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EUA pressionaram BRASIL por acordo que dificultava punir abusos

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11:36

 

O Itamaraty encerrou uma parceria com os EUA para treinamento de militares após sofrer pressão para assinar acordo bilateral que visava dificultar o trabalho do Tribunal Penal Internacional (TPI). A informação consta de documentos levados a público pela ONG WikiLeaks. As negociações ocorreram sobretudo entre 2004 e 2005. Em 2002, o TPI, ligado à ONU, foi criado para julgar casos de abusos contra os direitos humanos. Os EUA, porém, não reconheceram a autoridade do novo órgão. A informações são do jornal Folha de S. Paulo.

O governo de George W. Bush começou então uma campanha para fechar acordos bilaterais de imunidade -denominados genericamente "Artigo 98"- com países que reconheciam o TPI. O objetivo era que cidadãos americanos, sobretudo militares, que cometessem crimes nesses países não fossem julgados no TPI, sediado em Haia (Holanda). Segundo os telegramas, inicialmente o Brasil se mostrou aberto a negociar condições especiais para militares americanos que participassem de exercícios militares em território nacional, mas rechaçou o acordo.

 

 

 

 

NotIcia ORIGINAL EM>

noticias.terra

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Negociatas à vista

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17:23

por Correio da Cidadania

 

 

Para sediar a Copa e os Jogos Olímpicos a FIFA exige que o Brasil construa novos estádios de futebol.
Trata-se de uma chantagem. O Brasil já possui estádios suficientes para abrigar os públicos interno e externo que irão assistir a esses eventos.
Além dos estádios, a FIFA exige que o Brasil amplie seus aeroportos – gasto igualmente desnecessário.
Sem dúvida, o esporte é uma atividade importante e merece a atenção do poder público. Contudo, um país que não consegue sequer alimentar adequadamente todo o seu povo precisa alocar os escassos recursos do seu orçamento em obras mais urgentes.
É pouco provável, entretanto, que o bom senso prevaleça. A grande massa apóia o gasto e, além disso, propiciará polpudos contratos com empreiteiras e muita especulação imobiliária – uma conjugação de muito poderosos interesses.
Tão certos estão os empresários da efetivação de tais gastos que os preços dos terrenos nas regiões em que serão construídos os estádios já aumentaram substancialmente. Para isto contribui o governo, que já iniciou a higienização social dos bairros onde se localizarão os estádios. Negros, pardos, cafusos e brancos pobres já foram advertidos de que não se tolerará qualquer tipo de comportamento que venha a incomodar os turistas.
A recente operação policial-militar realizada nos morros do Rio de Janeiro não teve, na verdade, o objetivo de prender narcotraficantes. A Polícia sabe muito bem que os chefes do narco não moram nos morros do Rio, mas nos luxuosos apartamentos da Vieira Souto [1] . Nos morros moram os sargentos e soldados desse exército criminoso.
Os primeiros, instalados no alto dos morros, com visão total da aproximação dos veículos policiais, obviamente escaparam a tempo. Ficaram os soldados, estes que vimos correndo desesperados, no show televisivo que a mídia encenou a fim de que a advertência extrapolasse o Rio de Janeiro e atingisse os pobres de todo o país.
Um gráfico dos locais nos quais foram instalados os quartéis da UPP (Unidade de Policia Pacificadora) coincide exatamente com a proximidade entre favelas e bairros elegantes. Nos morros mais distantes não se cogitou disso.
Urge fazer um movimento de opinião para bloquear a negociata. O Brasil não tem pó rque curvar-se a uma corja de cartolas que vivem da exploração do fascínio que o esporte desperta em todos nós.

17/Dezembro/2010

[1] A Av. Vieira Souto, na zona Sul do Rio de Janeiro, é conhecida por ter o mais alto custo por metro quadrado da América Latina .


O original encontra-se em http://www.correiocidadania.com.br/content/view/5303/128/


Este editorial encontra-se em http://resistir.info/ .

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Terrorismo de Estado e a Insegurança Pública das Ações Policiais no Rio de Janeiro

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13:55

 

Federação Anarquista do Rio de Janeiro

 

Após a tomada de uma casa que servia a traficantes na Vila Cruzeiro  (favela da cidade do Rio), um policial foi perguntado sobre qual seria  o destino do imóvel. A resposta foi que – como símbolo do que está  acontecendo na comunidade – ali passaria a funcionar um batalhão da PM. Realmente tal “mudança” na função do imóvel é bastante emblemática  do que ocorre hoje na vida da população de favela. Onde antes existam  homens armados intimidando o povo, agora haverá... homens armados  intimidando o povo, só que uniformizados e remunerados pelos cofres  públicos. A população está passando a ser oprimida pelos ditadores fardados e não mais pelos já conhecidos varejistas da droga.

Na quinta-feira, 25 de novembro de 2010, uma ação que reuniu três mil policiais e militares das Forças Armadas ocupou simultaneamente as comunidades de Vila Cruzeiro (uma das 10 favelas do complexo da Penha)  e o Complexo do Alemão ( formado por 12 favelas), ambas na capital fluminense. Na região vivem mais de 400 mil pessoas. E qual o perfil desse povo? Será que o que ele está precisando é de mais armamento e truculência estatal? Quais são suas demandas?

Bem, o Complexo do Alemão é considerado, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o bairro dono dos piores Índices de Desenvolvimento Social (IDS) do Rio de Janeiro. Calculado ainda que pelo suspeito Instituto Pereira Passos (IPP), o índice leva em consideração o acesso da população ao saneamento básico, à habitação, à escola e ao mercado de trabalho. Segundo os dados, nas 12 comunidades do maior complexo de favelas da cidade, 15% das residências não contam com rede de esgoto; 36,43% dos chefes de família têm menos de quatro anos de estudo; um em cada 11 moradores com mais de 15 anos de idade é analfabeto; na faixa etária entre 15 e 17 anos, 11,37% das meninas já são mães; 60,55% dos trabalhadores ganham, no máximo, dois salários mínimos; na faixa etária dos 15 aos 17 anos, 27,83% dos jovens não freqüentam a escola.

Mesmo assim, as ações que vemos por parte do governo em nada se voltam para a reversão desse quadro calamitoso. Pelo contrário, os sucessivos governos roubam e espancam camelôs através da Guarda Municipal; reprimem os sem-terra, favorecendo assim o êxodo rural e o aumento de favelas... O mesmo Estado que diz querer resolver o problema das favelas ataca o movimento sem-teto, fazendo, com isso, que famílias deixem de viver de maneira comunitária e harmônica em ocupações e sejam obrigadas a residir em morros labirínticos, facilmente domináveis por traficantes e milícias opressoras. A verdade é que o Estado não quer resolver o problema das comunidades carentes, mas sim favorecer grandes comerciantes, latifundiários e a especulação imobiliária.

O curioso é que alguns políticos, mesmo aqueles que se notabilizam pela defesa de políticas humanitárias, não têm feito muito para impedir a ascensão de um Estado policialesco. É o caso do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) - aliás estrela, na pele do personagem "Fraga", do comemoradíssimo "Tropa de Elite 2", do não menos "comemorado" liberal José Padilha - que pregou em seu recente discurso na ALERJ: mais recursos públicos para a PM, mais armamentos, mais "inteligência" e maiores salários para os policiais. Assim, a julgar pelo discurso de Freixo, em que pese algumas outras sugestões previstas em um contexto de “estado de direito”, este prescreve medidas no sentido do aperfeiçoamento das principais instituições repressivas (polícias, exércitos etc.), nas suas funções de defesa da propriedade privada e da legalidade burguesa. Dentro da perspectiva capitalista, essas são propostas coerentes, mas querer chamar isso de Socialismo é clara hipocrisia.

Hipocrisia também é o que podemos observar na maioria das coberturas que a imprensa tem feito ultimamente. A mídia burguesa brasileira (Rede Globo, SBT, Record e outras porcarias) têm transformado a cobertura das incursões policiais em verdadeiros shows, onde o  sensacionalismo e a bajulação do governo e suas polícias marcam forte presença. Só que, para boa parte dos moradores das favelas cariocas, as invasões policiais nas comunidades pouco têm de heróico, bonito ou glamouroso.

Em entrevista ao jornal Correio Brasiliense, o representante de vendas Ronai Braga, de 32 anos, morador da Vila Cruzeiro, denunciou a invasão de sua casa por policiais, que destruíram móveis e eletrodomésticos e roubaram cerca de 30 mil reais. O dinheiro era fruto de uma rescisão trabalhista e seria usado para comprar um imóvel, contou Ronai. No geral, a imprensa está criando um “oba-oba geral” em torno da  suposta “derrota do crime organizado”. Mas devemos ter um olhar mais atento sobre essa questão. Afinal, basta ver qual tipo de pessoa está sendo presa para notarmos algo de errado nessa história toda. Os presos – basta observar – são todos favelados negros e pardos. Ora, o crime organizado é aquele que permeia o aparelho estatal, tem ramificações internacionais, conta com representantes em parlamentos pelo mundo a fora, elege e derruba governos nacionais, ou seja: é obra de gente da elite.

Os que estão sendo presos hoje no Rio são só pequenos varejistas das drogas ou, no máximo, “micro-empresários” dos entorpecentes, que têm seguido a lógica “empreendedora” (leia-se individualista e não-solidária) propagada pela própria ideologia capitalista defendida pela imprensa brasileira.

Um outro aspecto conjuntural, aquele que nos remete a importância do Rio de Janeiro para os eventos de 2014 e 2016, Copa do Mundo e Olimpíadas respectivamente, encontra na especulação imobiliária  e nas obras de infra-estrutura para a capital do estado grande relevância. O projeto "Porto Maravilha", revitalização da área portuária do centro do Rio; os anéis viários, que já estão justificando a remoção de várias comunidades carentes na zona Oeste; assim como as ações orquestradas pelas obras do PAC, formam o conjunto de ações a compor o mosaico da fachada burguesa que deve substituir a cidade real, aquela formada pela imensa massa humana de explorados e oprimidos. E a guerra de classes, escamoteada pelo combate ao narcotráfico, na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão, é apenas mais um sintoma.

Assim, no Capitalismo, as alternativas deixadas ao povo pobre, negro, oprimido, são mesmo bastante escassas. 122 anos após o término oficial da escravidão no Brasil, e 100 anos após a Revolta da Chibata, os negros e pardos ainda são imensa maioria nas favelas e prisões. Então  nos cabe perguntar: que possibilidade de ascensão é essa que a “democracia” nos garante, com igualdade de oportunidades?

Historicamente o Capitalismo tem reservado o que há de pior para os trabalhadores, tanto mais quando estes podem ser identificados com o crime e a contravenção. O que se assiste no Rio de Janeiro hoje, para além do que aqui foi exposto, é a didática parceria entre a mídia, o “poder público” e o empresariado. Como em outros momentos, tal acordo sempre custou muito ao povo. No caso atual, com maior evidência, a contabilidade pode ser aferida em vidas humanas.

Fonte: FARJ
Autor(a): FARJ

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ANARQUISMO JÁ!

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12:25

Ethel de Paula

 

(ARQUIVO RIZOMA)


O animal político também é criativo, anárquico, festivo. No Rio de Janeiro,um grupo de artistas plásticos elegeu o imprevisível como bandeira, fundando um comitê no apartamento de um deles e consolidando o que chamaram de ''phoder paralelo''. Nas ruas, palco democrático por

excelência, a ordem foi fazer performances, mexer com a ideologia
estabelecida, alterar a percepção da realidade. ''Criamos uma campanha fictícia e nos apresentamos como candidatos políticos, percorrendo vários pontos da cidade, distribuindo panfletos, camisetas, bananas e salsichão. As pessoas chegavam a assinar um documento se filiando ao nosso pseudo partido e prometendo votos. Também recebemos muitos pedidos dos nossos eleitores'', riu-se o pernambucano Edson Barrus, um dos envolvidos no teatro vivo.


''Trabalhamos com a ressignificação da idéia de poder. Por isso escreve-se phoder com ph. Assim, soa como efe e remete à gozo, à prazer. As performances apontam então para a surpresa, promovemos uma grande quermesse artística, tentando dissolver categorias repressoras, desestabilizar o que está posto, valorizando a inserção social e o indivíduo criativo'', defende Edson. Para tanto, impera a anarquia. O ''phoder paralelo'' é responsável pela pichação de pênis em outdoors de candidatos políticos nessa última eleição. ''Mais imoral que o desenho é a cara cínica dos políticos'', metralhou. O Aterro do Flamengo também foi alvo de protesto simbólico. ''Estendemos várias faixas onde se lia 'Xêre Brizola'.
Aqui, Brizola é uma gíria, significa cocaína. Então, por também ser o nome de um político, vem a calhar com o momento das eleições. Mas é importante que se diga: até então não havíamos assumido a
responsabilidade por nenhuma dessas ações. Isso para resguardar nossa integridade física'', segreda.


O grupo aprontou mais. Fernando de la Roque é o 'pai' da Barata Dourada que virou uma espécie de mascote do ''phoder paralelo'' em época de campanha eleitoral. ''Ele capturava uma barata viva e com spray fazia ela ficar dourada. Depois punha em um vidrinho transparente e vendia nas ruas por um real. Essa ação está ligada ao nojo que é a política, à reversão de valor através da maquiagem'', reflete Edson. Da sacada do apartamentocomitê, ainda voaram panfletos com instruções detalhadas sobre como inutilizar uma urna eletrônica. Já com o grupo Urucum, de Macapá, o ''phoder paralelo'' planejou uma intervenção conjunta. ''A gente mandava cartazes de candidatos daqui do Rio para eles espalharem por lá e eles faziam o mesmo conosco. Tudo para confundir os eleitores'', assume o
artista.


O poste e o ateu


Niterói é a cidade-sede da Galeria do Poste. No caso, um simples poste do bairro Gragoatá ganhou status de museu de arte desde que a comunidade artística assim resolveu, passando a usá-lo como legítimo suporte para periódicas exposições. Convidado a expor no poste, o carioca Felipe Barbosa aproveitou as eleições municipais do ano 2000 para devolver a ele sua função original de canal anônimo de informação. ''Nessa época, o poste adotado pelos artistas era o único poupado de cartazes e santinhos de
candidatos. Então resolvi criar meu próprio material de campanha, idêntico ao dos demais políticos, e pregar nele. Além do meu cartaz, onde se lia Felipe 2000, local e data da vernissage, preguei também os dos candidatos de fato, o que fez com que ele ficasse exatamente igual aos postes comuns'', detalha.


Na vernissage, porta título de eleitor, camiseta, adesivo de carro. Crítica indireta ao processo eleitoral, direta à sacralização dos espaços de arte. Mais incisiva do ponto de vista político, a intervenção do paulista Marcelo Cidade, na grande São Paulo, aconteceu de madrugada, às escondidas. ''Contratei pichadores para escrever sobre cartazes de candidatos políticos a palavra 'ateu', sugerindo assim a minha descrença em relação à política.
Sempre estive ligado ao grafite, a essa comunidade tida como underground. O curioso é que, em época de eleição, os candidatos fazem o mesmo que fiz, contratam para verem seus nomes pichados pela cidade, mas nesse caso a população aceita, a poluição visual é permitida, porque institucional'',
provoca.


(05/10/2002)
Fonte: Jornal O Povo (www.noolhar.com/opovo/).

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Lições para o setor do petróleo graças ao WikiLeaks

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14:55

 

Escrito por Paulo Metri

17-Dez-2010

Até que se prove algo em contrário, o WikiLeaks veio para diminuir o número de anjos na sociedade mundial. As lições que se tiram do vazamento relativo ao setor de petróleo do Brasil são muitas. Para os interessados, que ainda não se atualizaram, vamos listá-las sem ordem de importância.

É incrível, mas algumas pessoas ainda se surpreendem com o fato de a embaixada dos Estados Unidos estar envolvida em assuntos internos do Brasil, buscando interferir a favor dos interesses das suas empresas. Além disso, a importância que o pré-sal tem para as petrolíferas americanas e os Estados Unidos foi desnudada. Inclusive, é mostrado como eles atuaram no nosso Congresso para que o contrato de partilha proposto pelo governo

Lula não fosse aprovado, o que faria com que a lei das concessões da era FHC permanecesse em vigor. Por isso, a conclusão rápida que se pode tirar é que o contrato de partilha deve ser melhor para a sociedade brasileira que as concessões.

José Serra seria favorável à lei das concessões, que muitos congressistas do seu partido defendem, abertamente. Com os vazamentos, ficou claro que, apesar da diminuição de lucro e poder que o contrato de partilha acarreta, as petrolíferas estrangeiras não querem sair do Brasil, inclusive porque não há muitos lugares no mundo para onde elas possam ir, atualmente.

As empresas estrangeiras de petróleo só querem comprar de seus fornecedores no exterior, o que seria facilmente constatado, se as compras delas, em comparação com as da Petrobrás, fossem verificadas nestes 13 anos de existência da lei das concessões. Não é por outra razão que elas se opunham, como mostra o WikiLeaks, à Petrobrás ser a operadora única do pré-sal.

A afirmação "as regras sempre podem mudar depois" dita por um executivo de uma petrolífera estrangeira chega a ser um acinte contra a soberania nacional, o que consta ter sido repetido pelo candidato do PSDB à presidência. A constância do capitalismo internacional em querer usurpar as riquezas onde elas estiverem, além de danosa para os proprietários das riquezas, revela a característica de saqueadores inveterados.

WikiLeaks revelou que as entidades Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP) e Organização Nacional da Indústria do Petróleo (ONIP) são brasileiras e nacionais só no nome. A boa notícia é que os estrangeiros têm medo que a sociedade brasileira saiba de toda a tramóia deles e se indigne. Então, como a sociedade está agora começando a saber, deveremos ter boas notícias brevemente.

Finalizando, todos aqueles que acusaram a Associação de Engenheiros da Petrobrás (AEPET) e seu presidente, engenheiro Fernando Siqueira, de adeptos da "Teoria da Conspiração" deveriam reconhecer que eles estavam certos. A conspiração existia e era extremamente danosa para a sociedade brasileira.

Relacionado a este tema, fiquei pasmo em saber que boa parcela dos jovens engenheiros admitidos nos últimos concursos da Petrobrás não usufrui do privilégio de serem filiados a esta Associação. Isto ainda é conseqüência da década neoliberal passada, sendo recomendável a leitura por parte deles das conquistas da classe trabalhadora, desde a revolução industrial, conseguidas unicamente devido à união da classe.

Ao se filiarem à AEPET, como profissionais liberais, além de estarem atuando com seus pares, estão em uma entidade que busca preservar os interesses da empresa em que trabalham, que são, na sua quase totalidade, os mesmos da sociedade brasileira. Portanto, filiar-se à AEPET chega a ser um dever ético.

Paulo Metri é conselheiro da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros.

 

TEXTO ORIGINAL EM> Correio da cidadania

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IRLANDA: SACRIFÍCIO INÚTIL

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09:46

 

 

Os termos do "salvamento" que o FMI/UE/BCE impôs à Irlanda são muito piores do que tudo o que já foi visto até agora. Até o dinheiro do Fundo de Reserva Nacional de Pensões (NPRF) foi devorado na voragem. Os abutres não perdoaram nem a pensão dos velhinhos! Este salvamento não é do povo irlandês e sim dos banqueiros privados irlandeses.


A manobra decorreu em vários passos:  1) Num autêntico acto de traição nacional o governo irlandês resolveu garantir a dívida dos banqueiros privados irlandeses (os tais que estavam em situação muito saudável segundo o teste de stress feito em Julho pelo BCE);

2) Em consequência, de imediato o défice orçamental irlandês sofreu um aumento brutal, saltando de 11,9% do PIB para 32% do PIB; 

3) Diante de tal défice a UE/FMI obrigou o governo irlandês a impor sacrifícios brutais ao seu povo (despedimentos em massa, cortes na educação, saúde, salários e pensões, etc) em troca do dito "salvamento".

4) Ainda assim, cedo ou tarde, a Irlanda (tal como a Grécia e outros países europeus) entrará em incumprimento (default).
Destes tristes episódios podem-se tirar algumas lições: 

1) Os sacrifícios que o capital financeiro pede/exige a governos servis como o irlandês, grego, português e outros são inúteis pois não levarão ao aumento das respectivas produções nacionais nem resolverão os problemas económicos subjacentes; 

2) Em situações de insolvência mais vale declarar moratória antes de uma ruína total do que persistir inutilmente em pagar dívidas impagáveis; 

3) Sacrificar povos no altar do capital financeiro é uma opção e não uma inevitabilidade; 

4) Filosoficamente, a resolução de um problema de dívida incobrável pode-se dar tanto em favor dos credores como dos devedores;

5) Historicamente, verifica-se que as classes dominantes sempre optaram pela resolução em favor dos credores e as oprimidas sempre pretenderam o inverso. 

6) A capitulação frente às exigências do capital financeiro leva à pauperização dos povos – cabe a estes tomarem o destino nas suas mãos se quiserem salvar-se.

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Senado LADRÃO!

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23:23

 

 

Senado aprova salário de R$ 26,7 mil para parlamentares

Qua, 15 Dez, 05h58

Em uma votação relâmpago, o Senado aprovou hoje o projeto que concede aumento de 61,83% no salário dos próprios senadores e dos deputados federais, de 133,96% no valor do vencimento do presidente da República e de 148,63% no salário do vice e dos ministros de Estado. A proposta foi aprovada no inicio da tarde pelos deputados e não aguardou nem uma hora para ser votada pelos senadores.

O projeto iguala os salários de deputados e senadores, do presidente da República, do vice e dos ministros. Todos eles passarão a receber R$ 26.723,13 por mês, mesmo valor do salário do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e que serve como teto do funcionalismo público. O novo salário entrará em vigor em 1º de fevereiro de 2001.

Apenas a senadora Marina Silva (PV-AC) e o senador Alvaro Dias (PSDB-PR) se manifestaram contra a proposta. Marina acha injusto os parlamentares receberem reajustes muitas vezes superiores aos dos demais servidores públicos do País. Já o tucano defendeu que o reajuste deveria implicar na extinção da perda da verba indenizatória de R$ 15 mil que cada um deles recebe mensalmente para custear gastos no exercício do mandato nos Estados.

 

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Declínio e queda do império americano

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11:51

Quatro cenários para o fim do século americano em 2025

por Alfred W. McCoy [*]

Uma aterragem suave para a América daqui a 40 anos? É melhor não apostar. O desaparecimento dos Estados Unidos, enquanto superpotência global, pode chegar muito mais depressa do que se imagina. Se Washington está convencido que o fim do Século Americano será lá para 2040 ou 2050, uma avaliação mais realista das tendências internas e globais sugere que em 2025, apenas daqui a 15 anos, pode estar tudo acabado excepto a gritaria.
Apesar da aura de omnipotência que a maior parte dos impérios projecta, uma olhadela para a sua história devia lembrar-nos que eles são organismos frágeis. A sua ecologia de poder é tão frágil que, quando as coisas começam a correr mesmo mal, os impérios normalmente esboroam-se com uma rapidez impiedosa: um ano apenas para Portugal, dois anos para a União Soviética, oito anos para a França, 11 anos para os otomanos, 17 anos para a Grã-Bretanha e, com toda a probabilidade, 22 anos para os Estados Unidos, a contar do ano crucial de 2003.


Os futuros historiadores identificarão provavelmente a imprudente invasão do Iraque da administração Bush nesse ano como o início da queda da América. Mas, ao contrário do banho de sangue que marcou o fim de tantos impérios do passado, com cidades a arder e massacres de civis, este colapso imperial do século vinte e um pode ocorrer de modo relativamente calmo através dos rebentos invisíveis do colapso económico ou da guerra cibernética.
Mas não tenham dúvidas: quando finalmente acabar o domínio global de Washington, todos os dias haverá recordações dolorosas do que tal perda de poder significa para os americanos qualquer que seja o seu estilo de vida. Como meia dúzia de países europeus descobriram, o declínio imperialista tende a ter um impacto bastante desmoralizante numa sociedade, impondo pelo menos uma geração de privações económicas. À medida que a economia arrefece, a temperatura política sobe, estimulando frequentemente uma grave turbulência interna.


Os dados económicos, educativos e militares indicam que, no que se refere ao poder global dos EUA, as tendências negativas convergirão rapidamente em 2020 e provavelmente atingirão uma massa crítica por volta de 2030. O Século Americano, tão triunfalmente proclamado no início da II Guerra Mundial, estará esfarrapado e moribundo em 2025, na sua oitava década, e pode pertencer ao passado em 2030.


Significativamente, em 2008, o National Intelligence Council dos EUA reconheceu pela primeira vez que o poder global da América estava de facto numa trajectória de declínio. Num dos seus relatórios futuristas periódicos, Global Trends 2025, o Conselho citava "a transferência da riqueza e do poder económico globais actualmente em curso, grosso modo do ocidente para o oriente" e "sem precedentes na história moderna", como o principal factor no declínio da "força relativa dos Estados Unidos – mesmo na área militar". Mas, tal como muita gente em Washington, os analistas do Conselho previam uma aterragem muito prolongada e muito suave para o predomínio americano global e albergavam a esperança de que, de certa forma, os EUA iriam "manter competências militares únicas… para projectar globalmente o poder militar" durante as próximas décadas.


Não vão ter essa sorte. Segundo as actuais projecções, os Estados Unidos vão encontrar-se em segundo lugar, atrás da China (já a segunda maior economia do mundo) em produtividade económica por volta de 2026, e atrás da Índia em 2050. Do mesmo modo, a inovação chinesa está numa trajectória para a liderança mundial em ciências aplicadas e em tecnologia militar algures entre 2020 e 2030, na altura em que o actual suprimento de brilhantes cientistas e engenheiros da América se reformarem, sem uma substituição adequada por uma geração mais nova com deficiente instrução.
Em 2020, segundo os planos actuais, o Pentágono jogará uma última cartada para um império moribundo. Lançará uma tripla cobertura letal de modernas armas aeroespaciais robóticas como a última esperança de Washington para manter o poder global apesar da redução da sua influência económica. Mas nesse ano, a rede global chinesa de satélites de comunicações, apoiada pelos super-computadores mais poderosos do mundo, também estará plenamente operacional, fornecendo a Beijing uma plataforma independente para o armamento do espaço e um poderoso sistema de comunicações para ataques de mísseis ou cibernéticos em todos os quadrantes do globo.


Embrulhada numa arrogância imperial, tal como Whitehall ou o Quai d'Orsay antes dela, a Casa Branca parece imaginar ainda que o declínio americano será gradual, suave e parcial. No discurso sobre o Estado da Nação em Janeiro passado, o presidente Obama voltou a garantir que "eu não aceito um segundo lugar para os Estados Unidos da América". Dias depois, o vice-presidente Biden ridicularizou a ideia de que "estamos destinados a cumprir a profecia [do historiador Paul] de Kennedy de que vamos ser uma grande nação que falhou porque perdemos o controlo da nossa economia e exagerámos". Do mesmo modo, ao escrever na edição de Novembro da revista institucional Foreign Affairs, o guru da política neoliberal Joseph Nye afastou qualquer conversa sobre o crescimento económico e militar da China, desdenhando "metáforas enganadoras de declínio orgânico" e negando que estivesse em marcha qualquer deterioração do poder global dos EUA.


Os americanos vulgares, que vêem os seus empregos a fugir para além-mar, têm uma perspectiva mais realista do que os seus lideres mimados. Uma sondagem de opinião de Agosto de 2010 chegou à conclusão de que 65% dos americanos estão convencidos de que o país já se encontra "numa situação de declínio". A Austrália e a Turquia, tradicionais aliados militares dos EUA, já estão a usar as suas armas fabricadas por americanos em manobras aéreas e navais conjuntas com a China. Os parceiros económicos mais próximos da América já estão a distanciar-se de Washington quanto à oposição às taxas de câmbio da China. Quando o presidente regressou da sua visita à Ásia no mês passado, um cabeçalho tristonho do New York Times resumia a situação desta maneira: "A visão económica de Obama é rejeitada no palco mundial, a China, a Grã-Bretanha e a Alemanha desafiam os EUA, Conversações comerciais com Seul também falham".


Vista numa perspectiva histórica, a questão não é se os Estados Unidos vão perder o seu incontestado poder global, mas qual o grau de rapidez e de violência que o declínio terá. Em vez do pensamento desejoso de Washington, vamos utilizar a própria metodologia futurista do National Intelligence Council para sugerir quatro cenários realistas para ver como o poder global dos EUA pode chegar ao fim nos anos 20, seja com um golpe ou com um gemido (acompanhados de quatro análises correspondentes da situação actual). Os cenários futuros incluem: declínio económico, choque petrolífero, desventuras militares e III Guerra Mundial. Embora estas não sejam as únicas possibilidades no que se refere ao declínio americano ou mesmo ao seu colapso, constituem uma visão sobre um futuro próximo.


Declínio económico: Situação actual

Existem presentemente três ameaças principais para a posição dominante da América na economia global: perda de peso económico graças à quota minguante do comércio mundial, declínio da inovação tecnológica americana e fim da situação privilegiada do dólar enquanto divisa de reserva global.


Em 2008, os Estados Unidos já tinham descido para o número três nas exportações globais de mercadorias, com apenas 11% em comparação com 12% para a China e 16% para a União Europeia. Não há nenhuma razão para crer que esta tendência se vá inverter.
A liderança americana na inovação tecnológica também está em decadência. Em 2008, os EUA ainda eram o número dois a seguir ao Japão nos pedidos de patentes mundiais com 232 mil, mas a China estava a aproximar-se rapidamente com 195 mil, graças a um aumento fulgurante de 400% desde 2000. Um arauto de maior declínio: em 2009 os EUA atingiram o último lugar na classificação entre os 40 países analisados pela Information Technology & Innovation Foundation no que se refere a "mudança" em "competitividade global com base na inovação" durante a década anterior.

A dar mais peso a estas estatísticas, o Ministério da Defesa da China divulgou em Outubro o super-computador mais rápido do mundo, o Tianhe-1A, tão poderoso, disse um especialista dos EUA, que "estoira com a actual máquina nº 1" na América.
Acrescentem a isto a clara evidência de que o sistema educativo dos EUA, a fonte dos futuros cientistas e inovadores, tem vindo a ficar para trás em relação aos seus competidores. Depois de liderar o mundo durante décadas, no que se refere a gente entre os 25 e os 34 anos de idade com graus universitários, o país mergulhou para 12º lugar em 2010. O Fórum Económico Mundial classificou os Estados Unidos com um medíocre 52º lugar entre 139 países quanto à qualidade do ensino universitário de matemática e ciências em 2010. Actualmente, quase metade de todos os estudantes formados em ciências nos EUA são estrangeiros, a maioria dos quais regressará aos seus países, em vez de se manter aqui como acontecia anteriormente. Por outras palavras, em 2025, os Estados Unidos enfrentarão provavelmente uma escassez crítica de cientistas talentosos.


Estas tendências negativas estão a estimular críticas cada vez mais duras ao papel do dólar como divisa de reserva mundial. "Os outros países já não estão dispostos a comprar a ideia de que os EUA sabem o que é o melhor em política económica", observou Kenneth S. Rogoff, um antigo economista de topo do Fundo Monetário Internacional. Em meados de 2009, quando os bancos centrais mundiais detinham um valor astronómico de 4 milhões de milhões de dólares em notas do Tesouro americano, o presidente russo Dimitri Medvedev insistia que era tempo de acabar com "o sistema unipolar mantido artificialmente" baseado "numa divisa de reserva que antigamente era forte".


Simultaneamente, o governador do banco central da China sugeria que o futuro poderá assentar numa divisa de reserva global "desligada de países individuais" (ou seja, o dólar dos EUA). Considerem isto como indicadores de um mundo futuro, e duma possível tentativa, conforme referiu o economista Michael Hudson, "para acelerar a falência da ordem mundial financeiro-militar dos Estados Unidos".


Declínio económico: Cenário 2020


Em 2020, depois de anos de gordos défices alimentados por intermináveis guerras em países distantes, e conforme esperado há muito, o dólar dos EUA perde finalmente o seu estatuto especial como divisa de reserva mundial. Subitamente, o custo das importações dispara. Impossibilitado de pagar os défices enormes através da venda ao estrangeiro das notas do Tesouro agora desvalorizadas, Washington é finalmente forçado a reduzir o seu inchado orçamento militar. Debaixo da pressão interna e externa, Washington faz regressar lentamente as forças americanas das centenas de bases ultramarinas para um perímetro continental. Mas agora já é tarde demais.


Confrontados com uma superpotência moribunda incapaz de pagar as contas, a China, a Índia, o Irão, a Rússia e outras potências, grandes e regionais, desafiam provocadoramente o domínio dos EUA sobre os oceanos, o espaço e o ciber-espaço. Entretanto, no meio de preços altos, de um desemprego sempre crescente e de uma queda continuada dos salários reais, as divisões internas resultam em choques violentos e debates fracturantes, muitas vezes sobre questões totalmente irrelevantes. Na crista de uma onda política de desilusão e desespero, um patriota da extrema-direita conquista a presidência com retórica retumbante, exigindo respeito para com a autoridade americana e ameaçando retaliação militar ou represálias económicas. O mundo não liga nenhuma quando o Século Americano termina em silêncio.


Choque petrolífero: Situação actual


Uma consequência do poder económico moribundo da América tem sido a sua dificuldade nos abastecimentos globais de petróleo. Ultrapassando a economia ávida de gasolina da América, a China passou a ser o maior consumidor de energia este Verão, uma posição que os EUA mantiveram durante mais de um século. O especialista em energia Michael Klare argumenta que esta mudança significa que a China vai "assumir o comando na definição do nosso futuro global".


Em 2025, o Irão e a Rússia vão controlar quase metade do abastecimento mundial de gás natural, o que potencialmente lhes dará uma vantagem enorme sobre a Europa faminta de energia. Acrescentem as reservas de petróleo a esta mistura e, conforme alertou o National Intelligence Council, dentro de apenas 15 anos, a Rússia e o Irão poderão "emergir como os reis da energia".
Apesar duma espantosa capacidade de invenção, as grandes potências petrolíferas estão neste momento a esgotar as grandes bacias de reservas petrolíferas que são de extracção fácil e barata. A grande lição do desastre petrolífero do Deep Horizon no Golfo do México não foi o padrão negligente de segurança da BP, mas o simples facto que toda a gente viu no "pequeno ecrã": os gigantes da energia já não têm alternativa senão procurar aquilo que Klare designa por "petróleo difícil" a quilómetros abaixo da superfície do oceano para conseguir manter os seus lucros.


A agravar o problema, os chineses e os indianos tornaram-se repentinamente enormes consumidores de energia. Mesmo que os abastecimentos de combustíveis fósseis se mantivessem constantes (o que não acontece), a procura, e portanto os custos, aumentará certamente – e de forma acentuada. Outras nações desenvolvidas estão a enfrentar esta ameaça de uma forma agressiva dedicando-se a programas experimentais para desenvolver fontes de energia alternativas. Os Estados Unidos seguiram um caminho diferente, fazendo muito pouco para desenvolver energias alternativas ao mesmo tempo que, nos últimos trinta anos, duplicaram a sua dependência das importações de petróleo estrangeiro. Entre 1973 e 2007, as importações de petróleo aumentaram de 36% da energia consumida nos EUA para 66%.


Choque petrolífero: Cenário 2025


Os Estados Unidos mantêm-se tão dependentes do petróleo estrangeiro que qualquer pequena evolução adversa no mercado global de energia em 2025 provoca um choque petrolífero. Em comparação, o choque petrolífero de 1973 (quando os preços quadruplicaram em poucos meses) não é nada. Irritados com a queda do valor do dólar, os ministros do Petróleo da OPEP, num encontro em Ryadh, exigem os pagamentos futuros da energia num "cabaz" de ienes, iuans e euros. O que só contribui para aumentar o custo das importações do petróleo dos EUA. Na mesma altura, enquanto assinam uma nova série de contratos de entrega a longo prazo com a China, os sauditas estabilizam as suas próprias reservas de divisas estrangeiras mudando para o iuan. Entretanto, a China injecta milhares de milhões na construção de um enorme oleoduto trans-Ásia e no financiamento da exploração no Irão do maior campo de gás natural do mundo, em South Pars no Golfo Pérsico.


Com a preocupação de que a Marinha dos EUA já não seja capaz de proteger os petroleiros que viajam do Golfo Pérsico para abastecer a Ásia oriental, uma coligação de Teerão, Riad e Abu Dabi forma uma inesperada nova aliança do Golfo e afirma que a nova frota da China de porta-aviões ligeiros passará a patrulhar o Golfo Pérsico a partir duma base no Golfo de Oman. Sob uma forte pressão económica, Londres concorda em cancelar o aluguer aos EUA da sua base na ilha de Diego Garcia no Oceano Indico, enquanto Camberra, pressionada pelos chineses, informa Washington que a Sétima Frota deixou de ser bem-vinda para usar Fremantle como porto de abrigo, expulsando assim na prática a Marinha dos EUA do Oceano Indico.
Duma penada, e após alguns avisos sucintos, a 'Doutrina Carter', segundo a qual o poder militar dos EUA iria proteger eternamente o Golfo Pérsico, é posta de parte em 2025. Todos os elementos que há muito garantiam aos Estados Unidos abastecimentos ilimitados de petróleo a baixo preço daquela região – logística, taxas de câmbio e poder naval – evaporam-se. Nesta altura, os EUA ainda conseguem cobrir uns insignificantes 12% das suas necessidades energéticas a partir da sua alternativa embrionária da indústria energética e mantém-se dependente das importações de petróleo para metade do seu consumo de energia.


O choque petrolífero que se segue atinge o país como um furacão, disparando os preços para alturas impressionantes, tornando as viagens uma proposta extremamente cara, colocando os salários reais (que há muito estavam em declínio) em queda livre e tornando não competitivas as poucas exportações americanas que ainda restam. Com os termóstatos a descer, os preços da gasolina a furar o tecto, e os dólares a fugir mar fora em troca do petróleo caro, a economia americana fica paralisada. Com as alianças há muito desgastadas no fim e as pressões fiscais a aumentar, as forças militares americanas começam finalmente uma retirada encenada das suas bases ultramarinas.


Em poucos anos, os EUA estão funcionalmente na falência e o relógio aproxima-se da meia-noite do Século Americano.
Aventuras militares desastrosas: Situação actual
Contrariando o bom senso, à medida que o seu poder enfraquece, os impérios embarcam frequentemente em aventuras militares desastrosas e mal aconselhadas. Este fenómeno é conhecido entre os historiadores do império como "micro-militarismo" e parece envolver esforços psicologicamente compensadores para salvar o estigma da retirada ou da derrota ocupando novos territórios, mesmo que breve e catastroficamente. Estas operações, irracionais mesmo do ponto de vista imperialista, representam muitas vezes gastos hemorrágicos ou derrotas humilhantes que só aceleram a perda do poder.


Em todas as épocas, os impérios bélicos sofrem de uma arrogância que os leva a mergulhar cada vez mais profundamente em aventuras desastrosas até que a derrota se transforma em derrocada. Em 413 AC, uma Atenas enfraquecida enviou 200 barcos para serem massacrados na Sicília. Em 1921, uma Espanha imperialista moribunda enviou 20 mil soldados para serem dizimados pelos guerrilheiros berberes em Marrocos. Em 1956, um Império Britânico em decadência destruiu o seu prestígio atacando o Suez. E em 2001 e 2003, os EUA ocuparam o Afeganistão e invadiram o Iraque. Com a arrogância que define os impérios ao longo dos milénios, Washington aumentou o número de efectivos no Afeganistão para 100 mil, alargou a guerra até ao Paquistão, e prolongou o seu compromisso até 2014 e para além disso, namorando desastres grandes e pequenos neste cemitério de impérios com armas nucleares, infestado por guerrilhas.


Aventuras militares desastrosas: Cenário 2014


O 'micro-militarismo" é tão irracional, tão imprevisível, que cenários aparentemente irreais rapidamente são ultrapassados pelos acontecimentos reais. Com as forças militares americanas esticadas desde a Somália às Filipinas e as tensões crescentes em Israel, no Irão e na Coreia, são múltiplas as combinações possíveis para uma crise militar desastrosa no estrangeiro.


Estamos a meio do Verão de 2014 e uma reduzida guarnição americana no Kandahar em guerra no sul do Afeganistão é súbita e inesperadamente invadida por guerrilheiros talibãs, enquanto a aviação americana está no chão por causa duma tempestade de areia que impede a visão. São feitas pesadas baixas e, em retaliação, um comandante americano envergonhado envia bombardeiros B-1 e caças F-16 para demolir bairros suburbanos da cidade que se julga estarem sob controlo dos talibãs, enquanto helicópteros equipados com metralhadoras AC-130U "Spooky" varrem os escombros com um devastador fogo de canhões.


Imediatamente, os mullahs começam a pregar a jihad nas mesquitas por toda a região, e unidades do exército afegão, treinados por forças americanas para dar a volta à guerra, começam a desertar em massa. Então, os combatentes talibãs desencadeiam uma série de ataques extremamente sofisticados, visando as guarnições dos EUA em todo o país, fazendo aumentar as baixas americanas. Em cenas que fazem recordar Saigão em 1975, helicópteros americanos resgatam soldados e civis americanos nos telhados de Cabul e Kandahar.


Entretanto, irritados com o beco sem saída interminável que já dura há décadas no que se refere à Palestina, os lideres da OPEP impõem um novo embargo petrolífero aos EUA como protesto pelo seu apoio a Israel, assim como pela matança de número incontável de civis muçulmanos nas suas guerras em curso por todo o Grande Médio Oriente. Com os preços da gasolina a subir em espiral e as refinarias a ficarem secas, Washington toma a decisão de enviar forças de Operações Especiais para conquistar os portos petrolíferos do Golfo Pérsico. Isto, por sua vez, incentiva uma onda de ataques suicidas e a sabotagem de oleodutos e de poços de petróleo. Enquanto nuvens negras se acumulam no céu e os diplomatas se levantam na ONU para denunciar asperamente as acções americanas, comentadores em todo o mundo fazem ressuscitar a história para brandir este "Suez da América", uma referência explícita à derrocada de 1956 que marcou o fim do Império Britânico.


III Guerra Mundial: Situação actual


No Verão de 2010, as tensões militares entre os EUA e a China começaram a aumentar no Pacífico ocidental, outrora considerado um 'lago' americano. Ainda um ano antes ninguém teria previsto uma evolução destas. Tal como Washington se aproveitou da sua aliança com Londres para se apropriar de grande parte do poder global da Grã-Bretanha depois da II Guerra Mundial, também a China está a utilizar agora os proveitos do seu comércio de exportações para os Estados Unidos para financiar o que parece vir a ser um desafio militar ao domínio americano nas águas da Ásia e do Pacífico.


Com os seus recursos cada vez maiores, Beijing está a reclamar um vasto arco marítimo desde a Coreia à Indonésia há muito dominado pela Marinha dos EUA. Em Agosto, depois de Washington ter manifestado um "interesse nacional" no Mar do Sul da China e de ali ter efectuado exercícios navais para reforçar essa pretensão, o Global Times oficial de Beijing respondeu asperamente, dizendo, "O confronto de forças EUA-China em relação à questão do Mar do Sul da China fez subir a parada quanto à decisão de qual vai ser o verdadeiro futuro governante do planeta".


No meio de tensões crescentes, o Pentágono relatou que Beijing já detém "a capacidade de atacar… porta-aviões [americanos] no Oceano Pacífico ocidental" e visar "forças nucleares por todo… o continente dos Estados Unidos". Ao desenvolver "capacidades ofensivas de guerra nuclear, espacial e cibernética", a China parece determinada a competir pelo domínio daquilo a que o Pentágono chama "o espectro de informação em todas as dimensões do campo de batalha moderno". Com o desenvolvimento em curso do poderoso super míssil Longo Alcance V, assim como com o lançamento de dois satélites em Janeiro de 2010 e outro em Julho, num total de cinco, Beijing deu sinal de que o país estava a dar passos rápidos na direcção de uma rede "independente" de 35 satélites para capacidades de posicionamento global, de comunicações e de reconhecimento até 2020.


Para conter a China e alargar a sua posição militar globalmente, Washington pretende montar uma nova rede digital de robótica aérea e espacial, capacidades avançadas de guerra cibernética e vigilância electrónica. Os estrategas militares esperam que este sistema integrado envolva a Terra numa grelha cibernética capaz de ofuscar exércitos inteiros no campo de batalha ou de caçar um simples terrorista no campo ou na favela. Em 2020, se tudo correr conforme planeado, o Pentágono vai lançar um escudo de três camadas de pequenos aviões espaciais de controlo remoto – que vão da estratosfera até à exosfera, armados com mísseis ágeis, ligados por um elástico sistema de satélite modular e manobrados inteiramente por vigilância telescópica.


Em Abril passado, o Pentágono fez história. Alargou as operações dos aviões de controlo remoto até à exosfera lançando calmamente o X-37B, um veículo espacial não tripulado, para uma órbita baixa a 410 km acima do planeta. O X-37B é o primeiro de uma nova geração de veículos não tripulados que vão marcar o total armamento do espaço, criando uma arena para futuras guerras diferente de tudo o que já se viu.


III Guerra Mundial: Cenário 2025


A tecnologia do espaço e a guerra cibernética são coisas tão novas e sem estarem testadas que até os cenários mais estranhos podem vir a ser ultrapassados por uma realidade que ainda é difícil de conceber. Mas se utilizarmos apenas o tipo de cenários que a própria Força Aérea usou no seu Jogo de Capacidades Futuras 2009, podemos obter "uma melhor compreensão de como o ar, o espaço e o ciber espaço se sobrepõem na guerra" e começar a imaginar como poderá ser realmente travada uma próxima guerra mundial.
São 11:59 da noite de quinta-feira de Acção de Graças em 2025. Enquanto os ciber-compradores se apinham nos portais da Melhor Compra para beneficiar dos grandes descontos na última palavra de aparelhos electrónicos domésticos chineses, os técnicos da Força Aérea dos EUA no Telescópio de Vigilância Espacial em Maui engasgam-se com o café quando os seus ecrãs panorâmicos se apagam subitamente. A milhares de quilómetros, no centro de operações do Ciber-Comando dos EUA, no Texas, os ciber-guerreiros depressa detectam binários maliciosos que, embora lançados anonimamente, mostram as distintas impressões digitais do Exército de Libertação de Pequim.


O primeiro ataque aberto é um ataque que ninguém previra. "Vírus" chineses apoderam-se do controlo da robótica a bordo de um avião "Vulture" americano, de controlo remoto, não tripulado, alimentado a energia solar, quando ele se encontra a 70 mil pés de altitude sobre o Estreito Tsushima entre a Coreia e o Japão. Este dispara subitamente toda a carga de mísseis transportada na sua enorme envergadura de 120 metros, enviando dezenas de mísseis letais que mergulham inofensivamente no Mar Amarelo, desarmando eficazmente essa arma formidável.


Decidido a combater o fogo com fogo, a Casa Branca autoriza um ataque de retaliação. Confiante em que o seu sistema satélite F-6 "Fractionated, Free-Flying" é impenetrável, os comandantes da Força Aérea na Califórnia transmitem códigos robóticos para a flotilha de aviões espaciais de controlo remoto X-37B que se deslocam numa órbita a 400 km acima da Terra, ordenando-lhes que lancem os seus mísseis "Triple Terminator" contra os 35 satélites da China. Resposta zero. Quase em pânico, a Força Aérea lança o seu Cruise Vehicle Hipersónico Falcon para um arco a 160 km acima do Oceano Pacífico e, 20 minutos depois, envia os códigos de computador para disparar mísseis contra sete satélites chineses em órbitas vizinhas. Subitamente os códigos de lançamento deixam de estar operacionais.


À medida que os vírus chineses alastram descontroladamente pela arquitectura dos satélites F-6, enquanto os super-computadores americanos de segunda categoria não conseguem decifrar o diabolicamente complexo código do vírus, deixam de funcionar sinais de GPS vitais para a navegação dos navios e aviação americana em todo o mundo. Porta-aviões começam a andar em círculos no meio do Pacífico. Esquadrões de caças aterram. Mortíferos aviões de comando remoto voam sem rumo, despenhando-se quando se esgota o combustível. Subitamente, os Estados Unidos perdem o que a Força Aérea americana há muito chamava "o supremo terreno elevado ": o espaço. Em poucas horas, o poder militar que dominara o globo durante quase um século, foi derrotado na III Guerra Mundial sem uma única baixa humana.


Uma Nova Ordem Mundial?


Mesmo que os acontecimentos futuros venham a ser mais sensaborões do que estes quatro cenários sugerem, todas as tendências significativas apontam para um declínio muito mais impressionante do poder global americano em 2025 do que tudo o que Washington parece estar hoje a encarar.


À medida que em todo o mundo os aliados começam a realinhar as suas políticas para terem conhecimento dos crescentes poderes asiáticos, o custo de manter 800 ou mais bases militares ultramarinas vai tornar-se simplesmente insustentável, acabando por forçar uma retirada encenada numa Washington ainda renitente. Com os EUA e a China numa corrida para armar o espaço e o ciber-espaço, é inevitável que aumentem as tensões entre as duas potências, tornando pelo menos possível um conflito militar em 2025, embora isso não seja garantido.


A complicar ainda mais as coisas, as tendências económicas, militares e tecnológicas acima traçadas não funcionarão isoladamente. Tal como aconteceu aos impérios europeus depois da II Guerra Mundial, essas forças negativas vão mostrar-se inquestionavelmente sinérgicas. Vão combinar-se de formas perfeitamente inesperadas, vão criar crises para as quais os americanos não estão minimamente preparados e vão ameaçar precipitar a economia numa súbita espiral descendente, mergulhando esta nação numa geração ou mais de miséria económica.


Enquanto o poder dos EUA recua, o passado oferece um espectro de possibilidades para uma futura ordem mundial. Numa das pontas deste espectro, não se pode pôr de lado a ascensão de uma nova superpotência global, embora isso seja pouco provável. Tanto a Rússia como a China revelam ainda culturas auto-referenciais, escritas difíceis não romanas, estratégias de defesa regional e sistemas legais subdesenvolvidos, que lhes negam instrumentos chave para um domínio global. Portanto, de momento, parece que não há no horizonte nenhuma superpotência que possa suceder aos EUA.


Numa versão sombria, medonha, do nosso futuro global, uma coligação de corporações transnacionais, de forças multilaterais como a NATO e duma elite financeira internacional talvez pudesse forjar um único elo supra-nacional, possivelmente instável, que tornaria sem sentido continuar a falar de impérios nacionais. Enquanto as corporações desnacionalizadas e as elites multinacionais governariam assumidamente um mundo assim em enclaves urbanos seguros, a multidão seria relegada para a desolação urbana e rural.


No 'Planeta Favela' (Planet of Slums) , Mike Davis apresenta pelo menos uma visão parcial de um mundo desses. Defende que os mil milhões de pessoas já amontoadas em fétidos bairros pobres, tipo favelas, em todo o mundo (e que chegarão aos dois mil milhões em 2030) formarão "as 'cidades falhadas, selvagens' do Terceiro Mundo… o campo de batalha característico do século vinte e um". À medida que a noite se instala nalgumas das futuras super-favelas, "o império pode impor tecnologias orwelianas de repressão" como "helicópteros com metralhadoras, tipo vespas, a caçar inimigos enigmáticos pelas ruas estreitas dos bairros pobres… Todas as manhãs os bairros respondem com bombistas suicidas e explosões eloquentes".


A meio caminho do espectro de possíveis futuros, pode emergir um novo oligopólio global entre 2020 e 2040, com potências em ascensão como a China, a Rússia, a Índia e o Brasil colaborando com potências em decadência como a Grã-Bretanha, a Alemanha, o Japão e os Estados Unidos para imporem um domínio global ad hoc, parecido com a aliança solta dos impérios europeus que governaram metade da humanidade por volta de 1900.


Outra possibilidade: a ascensão de hegemonias regionais num regresso a algo que faz recordar o sistema internacional que funcionou antes de tomarem forma os impérios modernos. Nesta ordem mundial neo-westfaliana, com as suas imagens infindáveis de micro-violência e de exploração sem controlo, cada hegemonia dominará a sua região – a Brasília na América do Sul, Washington na América do Norte, Pretória na África do Sul, e por aí afora. O espaço, o ciber-espaço e as profundezas marítimas, libertos do controlo do antigo "polícia" planetário, os Estados Unidos, até podem tornar-se áreas públicas globais, controladas por um Conselho de Segurança das Nações Unidas alargado ou qualquer órgão ad hoc.


Todos estes cenários são extrapolações de tendências existentes para um futuro no pressuposto de que os americanos, cegos pela arrogância de décadas de um poder historicamente sem paralelo, não possam ou não queiram tomar medidas para gerir a erosão descontrolada da sua posição global.
Se o declínio da América está de facto numa trajectória de 22 anos, de 2003 a 2005, então já esbanjámos a maior parte da primeira década desse declínio com guerras que nos afastaram dos problemas a longo prazo e, tal como a água despejada nas areias do deserto, desperdiçaram milhões de milhões de dólares de que precisamos desesperadamente.


Se restam apenas 15 anos, ainda se mantém alta a possibilidade de esbanjá-los todos. O Congresso e o presidente encontram-se actualmente manietados; o sistema americano está inundado de dinheiro público destinado a emperrar as obras; e poucas indicações há de que quaisquer questões de significado, incluindo as nossas guerras, o nosso estado de segurança nacional, o nosso esfomeado sistema de educação, e o nosso antiquado fornecimento de energia, sejam tratadas com a necessária seriedade para assegurar o tipo de aterragem suave que podia maximizar o papel e a prosperidade do nosso país num mundo em mudança.


Os impérios da Europa acabaram e o império da América está a acabar. É cada vez mais duvidoso que os Estados Unidos venham a ter algo parecido com o êxito da Grã-Bretanha em moldar uma ordem mundial sucedânea que proteja os seus interesses, preserve a sua prosperidade e exiba o carimbo dos seus melhores valores.

[*] Professor de história na Universidade de Wisconsin-Madison, colaborador frequente de TomDispatch, autor de Policing America's Empire: The United States, the Philippines, and the Rise of the Surveillance State (2009). É também o lider do projecto "Empires in Transition" , um grupo de trabalho global de 140 historiadores de universidades de quatro continentes. Os resultados das suas primeiras reuniões em Madison, Sidney, e Manila foram publicados como Colonial Crucible: Empire in the Making of the Modern American State e as conclusões da sua última conferência aparecerão no próximo ano em "Endless Empire: Europe's Eclipse, America's Ascent, and the Decline of U.S. Global Power".


O original encontra-se em www.tomdispatch.com/... .

Tradução de Margarida Ferreira.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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