Vivemos um tempo em que a informação se tornou tão vital para o homem que passou a integrar o arcabouço de seus direitos fundamentais. Defender a boa qualidade da informação, pois, é defender um dos mais importantes direitos fundamentais do homem. É por isso que estamos aqui hoje.
No transcurso do século XX, novas tecnologias geraram o que se convencionou chamar de mídia, isto é, o conjunto de meios de comunicação em suas variadas manifestações, tais como a secular imprensa escrita, o rádio, o cinema, a televisão e, mais recentemente, a internet. Essa mídia, por suas características intrínsecas e por suas ações extrínsecas, tornou-se componente fundamental da estrutura social, formada que é por meios de comunicação de massa.
Em todas as partes do mundo - mas, sobretudo, em países continentais como o nosso -, quem tem como falar para as massas controla um poder que, vigendo a democracia, equipara-se aos Poderes constituídos da República. E, vez por outra, até os suplanta. Essa realidade pode ser constatada pela simples análise da história de regiões como a América Latina, em que o poder dos meios de comunicação logrou eleger e derrubar governos, aprovar leis ou impedir sua aprovação, bem como moldar costumes e valores das sociedades. Contudo, há fartura de provas de que, freqüentemente, esse descomunal poder não foi usado em benefício da maioria.
Não se nega, de maneira alguma, que as mídias, sobretudo a imprensa escrita, foram bem usadas em momentos-chave da história, como nos estertores da ditadura militar brasileira, quando a pressão (tardia) de parte dessa imprensa ajudou a pôr fim à opressão de nossa sociedade pelo regime dos generais. Todavia, é impossível ignorar que a ditadura foi imposta ao país graças, também, à mesma imprensa que hoje vocifera seus neo pendores democráticos, nascidos depois que sua recusa pretérita de aceitar governos eleitos legitimamente atirou o país naquela ditadura de mais de vinte anos.
O lado perverso da mídia também se deve, por contraditório que possa parecer, à sua natureza privada, uma natureza que também é - ou deveria ser - uma de suas virtudes. Nas mãos do Estado, a mídia seria uma aberração, mas quando é pautada exclusivamente por interesses privados, seu lado obscuro emerge tanto quanto ocorreria na primeira hipótese, pois um poder dessa magnitude acaba sendo usado por diminutos grupos de interesse. Nas duas situações, quem sai perdendo é a coletividade, pois o interesse de poucos acaba se sobrepondo ao de todos.
A submissão da mídia ao poder do dinheiro é um fato, não uma suposição. Os meios de comunicação privados nada mais são do que empresas que visam lucro e, como tais, sujeitam-se a interesses que, em grande parte das vezes, não são os da coletividade, mas os de grandes e poderosos grupos econômicos. Estes, pelo poder que têm de remunerar o “idealismo” que lhes convêm, cada vez mais vão fazendo surgir jornalistas dispostos a produzir o que os patrões requerem, e o que requerem, via de regra, é o mesmo que aqueles grupos econômicos, o que deixa a sociedade desprotegida diante da voracidade daqueles que podem (?) esmagar divergências simplesmente ignorando-as.
É nesse ponto que jornalistas e seus patrões contraem uma união estável com facções políticas e ideológicas que não passam de braços dos interesses da iniciativa privada, dos grandes capitais nacionais e transnacionais, do topo da pirâmide social. E a maioria da sociedade fica órfã, indefesa diante do poder dos de cima de alardearem seus pontos de vista como se falassem em nome de todos.
Agora mesmo, na crise que vive o Senado Federal, vemos os meios de comunicação alardearem uma suposta "indignação nacional" com o presidente daquela Casa. Esses meios dizem que essa indignação é "da opinião pública", apesar de que a maioria dos brasileiros certamente está pouco se lixando para a queda de braço entre o presidente do Congresso e a mídia. Nesse processo, a "indignação" de meia dúzia de barões da mídia é apresentada como se fosse a "da opinião pública".
O poder que a mídia tem - ou pensa que tem - é tão grande, que ela ousa insultar a ampla maioria dos brasileiros, maioria que elegeu o atual governo. A mídia insulta a maioria dizendo que esta tomou a decisão eleitoral que tomou porque é composta por "ignorantes" que se vendem por "bolsas-esmola". Retoma, assim, os fundamentos do voto censitário, que vigeu no alvorecer da República, quando, para votar, o cidadão precisava ter um determinado nível de renda e de instrução. E o pior, é que a teoria midiática para explicar por que a maioria da sociedade não acompanhou a decisão eleitoral dos barões da mídia, esconde a existência de cidadãos como estes que aqui estão, que não pertencem a partidos, não recebem "bolsas-esmola" e que, assim mesmo, não aceitam que a mídia tente paralisar um governo eleito por maioria tão expressiva criando crises depois de crises.
É óbvio que a mídia sempre dirá que suas tendências e pontos de vista coincidem com o melhor interesse do conjunto da sociedade. Dirá isso através da confortável premissa (para os beneficiários preferenciais do status quo vigente) de que as dores que a prevalência dos interesses dos estratos superiores da pirâmide social causa aos estratos inferiores, permitirão a estes, algum dia, ingressarem no jardim das delícias daqueles. É a boa e velha teoria do “bolo” que precisa primeiro crescer para depois ser dividido.
Os meios de comunicação sempre tomaram partido nos embates políticos. Demonizam políticos e partidos que grupos de interesses políticos e econômicos desaprovam e, quando não endeusam, protegem os políticos que aqueles grupos aprovam. Isso está acontecendo hoje em relação ao governo federal e à sua base de apoio parlamentar, por um lado, e em relação à oposição a esse governo e a seus governos estaduais e municipais, por outro. Resumindo: a mídia ataca o governo central em benefício de seus opositores.
Os meios de comunicação se defendem dizendo que atacam o governo central também porque ele nada faz de diferente - ou de melhor - do que fazia a facção política que governava antes, e diz, ainda por cima, que o atual governo produz "mais corrupção". Alguns veículos, mais ousados, acrescentam que os que hoje governam favorecem mais o capital do que seus antecessores. Outros veículos, mais dissimulados, ainda adotam um discurso quase socialista ao criticarem os lucros dos bancos e o cumprimento dos contratos que o governo garante. A mídia chega a fazer crer que apoiaria esse governo se ele fizesse despencar a lucratividade do sistema bancário e se rompesse contratos. Faz isso em contraposição ao que dizia dos políticos que agora estão no poder, porém no tempo em que estavam na oposição, ou seja, dizia que não poderiam chegar ao poder porque, lá chegando, descumpririam contratos e prejudicariam o sistema bancário...
A mídia brasileira garante que é “isenta”, que não é pautada por ideologias ou por interesses privados, e que trata os atuais governantes do país como tratou os anteriores. Não é verdade. Bastaria que nos debruçássemos sobre os jornais da época em que os que hoje se opõem ao governo federal estavam no poder e comparássemos aqueles jornais com os de hoje. Veríamos, então, como é enorme a diferença de tratamento. Nunca a oposição ao governo federal foi tão criticada pela mídia quanto na época em que os que hoje estão no governo, estavam na oposição; nunca o governo foi tão defendido pela mídia quanto era na época em que os que hoje estão na oposição, estavam no governo.
Não é preciso recorrer a registros históricos para comprovar como os pesos e medidas da mídia diferem de acordo com a facção política que ocupa o poder. Basta, por exemplo, comparar a forma como os jornais paulistas cobrem o governo do Estado de São Paulo com a forma como cobrem o governo do país.
A mesma facção política governa São Paulo há mais de uma década. Nesse período, o Estado foi tomado pelo crime organizado. A Saúde pública permanece - ou se consolida - como um verdadeiro caos, apesar das novas tecnologias e da enorme quantidade de recursos que transitam por São Paulo. A Educação pública permanece como uma das piores do país a despeito da pujança econômica paulista. Assim, começaram a eclodir desastres nunca vistos na locomotiva do Brasil que é São Paulo.
Ano passado, uma organização criminosa aterrorizou este Estado. Essa organização nasceu e se fortaleceu dentro dos presídios controlados pelo governo paulista. A Febem, destinada a recuperar jovens criminosos, consolidou-se como escola de crimes, e as prisões para adultos alcançaram o status de faculdades do crime. No início deste ano, uma rua inteira ruiu por causa de uma obra da linha quatro do metrô paulistano, administrado pelo governo paulista. Várias pessoas morreram. Foi apenas mais um entre muitos outros acidentes que ocorreram nas obras do metrô de São Paulo e a mídia não noticia nada disso, o que lhe deixa escandalosamente óbvio o intuito de proteger o grupo político que governa o Estado mais rico da Federação e que se opõe ferozmente ao governo federal.
A mídia exige CPIs para cada suspeita que a oposição levanta sobre o governo federal, mas não diz uma palavra de todos os escândalos envolvendo o governo de São Paulo. Omite-se quanto à violação dos direitos das minorias parlamentares na Assembléia Legislativa paulista, violação perpetrada pelas maiorias governistas, maiorias que nos últimos anos enterraram dezenas de pedidos de investigação do governo paulista, controlado por políticos que estão entre os que mais exigem investigações sobre o governo federal.
Seria possível passar dias escrevendo sobre tudo o que a imprensa paulista deveria cobrar do governo do Estado de São Paulo, mas não cobra. Ler um jornal impresso em São Paulo ou assistir a um telejornal produzido aqui só serve para tomar conhecimento do que faz de ruim - ou do que a mídia diz que faz de ruim - o governo federal. Dificilmente se encontra informações sobre o governo paulista, e críticas, muito menos. O desastre causado pela obra da linha quatro do metrô paulistano, por exemplo, foi coberto pela mídia, mas por pouco tempo - questão de dias. Depois, o assunto desapareceu do noticiário e nunca mais voltou. Dali em diante, a mídia passou a esconder e a impedir qualquer aprofundamento no caso, fazendo com que a sociedade permaneça sem satisfação quase nove meses depois da tragédia. Mas o "caos aéreo" não sai da mídia um só dia já há quase um ano.
Assim é com tudo que diga respeito a políticos e partidos dos quais a imprensa paulista gosta. E o mesmo se reproduz pelo país inteiro. A mídia carioca, a mídia baiana, a mídia gaúcha, as mídias de todas as partes do país fazem o mesmo que a paulista, pois todas são uma só, obedecem aos mesmos interesses, controladas que são por um número ridiculamente pequeno de famílias "tradicionais", por uma oligarquia que domina a comunicação no Brasil desde sempre.
O lado mais perverso desse processo é o de a mídia calar divergências. Cidadãos como estes que assinam este manifesto são tratados pelos grandes meios de comunicação como se não existissem. São os sem-mídia, somos nós que ora manifestamos nosso inconformismo. Muito dificilmente é dado espaço pela mídia para que quem pensa como nós possa criticar o seletivo moralismo midiático ou as facções políticas amigas dos barões da mídia. A quase totalidade dos espaços midiáticos é reservada àqueles que concordam com os grandes meios de comunicação. Jornalistas que ousam discordar, são postos na "geladeira". A mídia impõe uma censura branca ao país. Isso tem que parar.
Claro precisa ficar que os cidadãos que assinam este manifesto não pretendem, de forma alguma, calar a mídia. Os que qualificam qualquer crítica a ela como tentativa de calá-la, agem com má-fé. É o contrário, o que nos move. O que pedimos é que a mídia fale ou escreva muito mais, pois queremos que fale ou escreva tudo o que interessa a todos e não só aquilo que lhe interessa particularmente e àqueles que estão ao seu lado, pois a mídia tem lado, sim, apesar de dizer que não tem, e esse lado não é o de todos e nem, muito menos, o da maioria.
Mais do que um direito, fiscalizar governos, difundir idéias e ideologias, é obrigação da mídia. Assim sendo, os signatários deste manifesto em nada se opõem a que essa mesma mídia critique governo nenhum, facção política nenhuma, ideologia de qualquer espécie. O que nos indigna, o que nos causa engulhos, o que nos afronta a consciência, o que nos usurpa o direito de cidadãos, é a seletividade do moralismo político midiático, é o sufocamento da divergência, é o soterramento ideológico de corações e mentes.
Por tudo isso, os signatários deste manifesto, fartos de uma conduta dos meios de comunicação que viola o próprio Estado de Direito, vieram até a frente desse jornal dizer o que ele e seus congêneres teimam em ignorar. Viemos dizer que existimos, que todos têm direito de ter espaço para seus pontos de vista, pois a mídia privada também se alimenta de recursos públicos, da publicidade oficial, e, assim sendo, tem obrigação de não usar os amplos espaços de que dispõe como se deles proprietária fosse. Seu papel, seu dever é o de reproduzir os diversos matizes políticos e ideológicos, de forma que o conjunto da sociedade possa tomar suas decisões de posse de todos os fatos e matizes opinativos.
Em prol desse objetivo, hoje está sendo fundado o Movimento dos Sem-Mídia. Trata-se de um movimento que não está cansado de nada, pois mal começou a lutar pelo direito humano à informação correta, fiel, honesta e plural. Aqui, hoje, começamos a lutar pelo direito de todos os segmentos da sociedade de terem como expor suas razões, opiniões e anseios e de receberem informações em lugar desse monstrengo híbrido - gerado pela promiscuidade entre a notícia e a opinião - que a mídia afirma ser "jornalismo".
São Paulo, 15 de setembro de 2007
INVENTAR NOVOS GESTOS
Yomango Barcelona
Trata-se de inventar novos gestos
Que, em sua repetição, abram
Novos mundos nos quais habitar
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A situação atual leva-nos a grande parte da sociedade, cada dia mais excluída, cada dia mais perseguida, cada dia mais pobre, a viver precariamente em cada vez mais aspectos de nossa vida. Já não somos precários só em nosso trabalho, toda nossa vida se rodeia dessa sensação de precariedade. É um circulo vicioso no qual vemos cada dia mais pessoas fadadas a cair; precariedade no trabalho; aumento do preço da moradia, só com fins especulativos; cada dia mais necessidades criadas pelo mercado que te oferece algum objeto novo e necessário sem o qual nos sentiremos mais excluídos. Uma situação que dá para poucas alegrias. E será que não as merecemos?
O controle estabelecido pela UE, como um manto pesado que nos cobre, a guerra global proclamada aos quatro ventos - que nos converte, além de pobres e precários, em suspeitos de tudo, mais ainda se somos migrantes - nos deixa imóveis com nosso fardo cotidiano. Uma situação que dá para poucas respostas. Ou talvez a solução seja mais fácil do que parece?
A desobediência é uma das melhores maneiras das que dispomos para liberar-nos do pesado manto do controle. Desobedecer é legitimar nossa existência, legitimar nossa vida e fazer-nos responsáveis por ela e nossos atos. Mas é uma ferramenta a que temos que dar forma entre todos e todas, criar os mecanismos que façam da desobediência algo cotidiano em nossa vida. Uma ferramenta que nos constitua como corpos desobedientes, para que nossos gestos cotidianos configurem uma força criadora e nova.
Mas nós não podemos ficar só dizendo: "desobedeçamos". Temos que criar, entre todos, formas cotidianas de fazê-lo, ferramentas cotidianas, fáceis de usar, que nos alegrem a vida e provoquem aos que nos provocam.
YOMANGO é um projeto de desobediência cotidiana. "Manguemos" (1) nessas grandes cadeias/redes de lojas que nos encarceram, que especulam na bolsa, que traficam com armas e com vidas, e que nos obrigam a comprar-lhes a preço de ouro o fruto do esforço de mãos escravas, de corpos sensíveis e mentes inteligentes. Manguemos para fazer a compra diária, manguemos a roupa que nós gostamos e nos faz sentir belos - ou será que não podemos nos sentir belos? -, manguemos esses objetos que nos alegram um pouco mais a vida, façamos isso sozinhos ou em companhia, com público ou reservadamente, acostumemo-nos a utilizar esses gestos cotidianos que abram novos mundos nos quais habitar.
YOMANGO é um projeto de livre circulação de pessoas e dos objetos que elas queiram utilizar, compartilhar, presentear, ou simplesmente mangar. A felicidade é difícil de definir, sobretudo quando se é pobre. Os espaços públicos cada dia mais se vêem reduzidos a ruas comerciais ou grandes shoppings, assépticos, onde a uniformização da sociedade por cânones marcados pela moda e pelo consumo fazem que seja muito mais visível nossa condição de precariedade, de migrante. Centro comerciais que concentram em seu interior o consumo e espaços de lazer e cultura; cadeias/redes de livrarias, cadeias/redes de cinemas, restaurantes. YOMANGO abre uma possibilidade de utilização diferente destes espaços. No momento em que entra num shopping com uma intenção diferente da de comprar, você se torna um alegre ator que interpreta um personagem de comprador, a visão do espaço muda totalmente, e portanto sua utilização. Isto pode chegar a liberar totalmente o espaço, utilizando-o para o que queira, sobretudo se sua atividade se desenvolve em grupo. Liberar os espaços públicos, reclamando sua gratuidade, sua utilização como espaço público num sentido real, sentir a liberdade de criar novos usos, novos mundos.
O roubo em shoppings não é algo novo, assim como o aspecto final de YOMANGO não o é. Se YOMANGO fosse só uma campanha de roubo em grandes áreas seria um conceito supérfluo. A diferença se baseia no fato de que YOMANGO cumpre e desenvolve várias funções: é uma proposta com sua argumentação teórico-política de confrontação, de desobediência aos esquemas impostos pelo consumo, nos reapropriando dos logos e da cultura que as grandes redes difundem para gerir nossas necessidades e desejos. Como marca comercial, YOMANGO tem seus catálogos, seus anúncios publicitários, suas campanhas de temporada, mas não vende nada de nada. Não produz nenhum objeto. YOMANGO sugere uma forma de vida, está desenhado para que qualquer pessoa ou grupo se reaproprie dele, como queira, onde queira, transformando-o, plagiando-o, ampliando-o. Trata-se de uma livre circulação de idéias que em sua evolução cotidiana nos fará mais livres.
YOMANGO
No shopping mais próximo de você.
Nota:
1. Manguemos: roubemos, furtemos (Nota do Tradutor).
Tradução de g. e Gérson de Oliveira
(ARQUIVO RIZOMA)
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Leve-me espectro.
Vitrines sem reflexo,
Cadeiras vazias,
Salas cheia de esquecimento,
Ar condicionado orando em mantra,
homens de óculos dialogando com o invisível,
Moças pequenas acelerando os passos,
bruscas quedas de energia,
motim de alucinações realistas,
procuro a razão na bolsa da chefa indefesa,
Mesas de jantar esperam a comunhão fantasma,
a boca enorme sintética é desdentada por versos,
grades disfarçadas nos corredores e escadarias que levam ao tropeço da saída,
lá fora um a chuva colorida é como um colírios para meus passos,
antes, bebo o chão,
e como uma câmera man febril
Observando o delinqüente vai e vem dos pés escaldados dos peregrinos urbanos
da pequena cidade suja,
Um ônibus - como uma lança – rasga o pano e leva-me
como uma cavalo mecânico até os lugares
onde serei uma turva lembrança momentânea do caminho.
João Leno Lima
Set/2010
ContinueDescaverno-me.
imitar de incertezas,
germes favoritos caçando,
suor da tempestade,
atrevo-me a olhar as nuvens.
Atalho para o final do estabelecido, rumando nos litorais da embriaguez.
Fragrância poluída, bálsamo que corta o asfalto da esfera do caminho,
como um leme irreversível mutilando o vento,
pouco me importa o espaço,
chama-me de atencioso com as gaiolas das palavras,
alimenta-me de chão,
beija-me primeiro na alma.
Um tenebroso vírus infesta o lápis,
Tento acudir as palavras,
Boca a boca verbal e sacudo a desesinspiração,
Balbuciando algo,
a respiração-alga afunda-me por entre as colunas das casas,
Socorro o pálido momento com a ternura que alcança lá no âmago
da cratera do desmoronamento
o corpo do incompreensível sentimento que corre corre corre...
João Leno Lima
Set/2010
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_ Votar é um direito, não deveria ser considerado um dever. Diferentemente do que acontece nos países democráticos, no Brasil o voto é obrigatório – algumas pessoas são inclusive, sem que hajam cometido crime algum, condenadas a um dia de trabalhos gratuitos para o Tribunal Eleitoral. Dizem alguns que “a penalidade ao descumprimento é leve...” Não há pena leve ao objetor de consciência! Desde quando deixar de exercer um direito civil (como casar-se, ter ou deixar de ter uma religião) implica em receber uma multa, pouco importa de que tamanho, e outras sanções do Estado?
_ A vasta maioria, de bom-grado ficaria em casa no dia das votações, particularmente por não se interessar no teatrinho que muda alguns nomes mas mantém o cerne das questão, o encaminhamento econômico da Nação, exatamente como está.
_ A decisão final para o cargo majoritário (a Presidência da República), portanto de todos os subalternos, de “situação” e “oposição”, acerca do encaminhamento da política econômica nacional já está tomada. Caberá ao eleitor decidir, se para o encaminhamento da economia brasileira a favor do Mercado (sobretudo “de capitais”), portanto contra os interesses do povo brasileiro deverá ser eleito o/a candidato/a A, B ou C.
_ As campanhas centradas na Propaganda esvaziam o espaço público, transformam o cidadão em consumidor e o candidato em mercadoria. Está fora da pauta dos debates políticos durante a campanha o cerne de todas as questões: a economia continuará a ser dirigida pelo grande capital financeiro ou o povo brasileiro se unirá contra essa tirania?
_ Durante a campanha eleitoral se debate quase tudo e todos os candidatos manifestam opiniões concordantes com aquelas da maioria de seu eleitorado. Já o exercício da função para a qual se elegem não tem absolutamente nada a ver com o que disse (ou prometeu, ou mesmo “registrou em cartório”) durante a campanha. Assim, digam os candidatos o que disserem durante a campanha, já não é mais desculpável sequer fingirmos acreditar. Mas o Estado Nacional Brasileiro nos obriga a votar! Contra o voto obrigatório exercemos o nosso protesto através do VOTO NULO.
_ A Urna Eletrônica como única forma de votar só existe no Brasil e no Paraguai. Sem que a população esteja informada em profundidade acerca de como é feito o processamento de dados, durante o dia de votações sempre se reportam inúmeros
casos de falhas, defeitos e fraudes. Ainda assim, o resultado é anunciado antes mesmo que todos os eleitores tenham sufragado a sua vontade.
_ Esclarecendo que o voto em Branco, no Brasil, é computado para o candidato ou partido que é majoritário, portanto deve ser evitado. Para votar nulo, deve-se digitar um número de candidato inexistente (“00000” ou “999999”) e a tecla “Confirma”. O Estado Nacional Brasileiro, se faz presente junto ao Eleitor na Urna, através de sua própria propaganda avisando com caracteres e ruídos diferentes que, assim fazendo, estaremos “votando errado”.
Como se não bastasse nos obrigarem a sair de casa, entrar em filas e nos dirigirmos às máquinas de votação, ao anular o voto, o Estado Nacional Brasileiro se intromete na intimidade do momento do voto e afirma “assim fazendo, você está errando”. Supere a repugnância e confirme! Com um número significativo de votos nulos forçaremos o Estado Nacional Brasileiro a suprimir esta obrigatoriedade espúria que nos oprime.
Campanha pelo Voto Nulo – 2010 – Distribua livremente, participe e, sobretudo, mantenha-se informado acerca dos meandros da política brasileira. É nauseante, mas fundamental!
Amo o cheiro das ilusões.
como um bálsamo feito de panos úmidos cobrindo
os olhos mas nem por isso deixamos de enxergar.
É como andar dentro do abismo
e sentir os lábios frios do medo.
ah... amo o cheiro das ilusões.
Acreditamos no que não nos parece exatos
e os calafrios das incertezas passa a ser a certeza
que podamos pela manhã.
A metamorfose das ilusões é
capaz de brotar em nós
ciclones que bagunçam a tola
normalidade do dia.
Por alguns instantes não
observamos as pedras no
caminho que na verdade se
revelam espelhos onde as
células-vidraças se diluíram
nas taças da hora que corre.
Sim, amo o cheiro das ilusões.
Poetas riem e loucos debatem-se com cigarros-poemas
cheio de colicas.
Não há meio termo
dentro da poesia mas
sentiremos suas garras em
momentos diferentes.
Assim é a ilusão.
nascimento do que
foi desejado.
tragédia desacontecida, ilhas de aço
nas longínquas memórias,
Promessas de para quedas e
e seguros pisos que não estremecem.
A ilusão causa mais estrago
que a colisão de um cometa
sobre a superfície.
Flores deixam de brotar em solos
antes verdejantes e crianças
desviam do caminhos antes
prezeroso, o olhar pesa mas
não se petrifica e as mãos
passam a dormir no relento
como orfãs dos raios do sol.
Amo o cheiro das ilusões.
Seu balaio e sedutor
percurso que trasforma os
poros em portais-precipicios
e os sentidos; um viajante
que resolveu seguir os
pássaros que acabavam de aprender a voar;abrindo mão
das pegadas que o garatiam a volta para casa.
Rastro de encontro nunca acontecido.
Rastro de vendaval na palma da Mao.
Rastro de percurso pela metade do esboço de ser lugar algum
Rastro de sorriso rabiscado no lápis.
Rastro de razão cheia de paredes.
Rastro materno de preservação interior.
Rastro de contos infantis e inquietação juvenil
com estrelas úmidas debaixo da cama do olhar.
saio do poema seguindo a mão oculta
que guia até as extremidades...
o mundo grita do outro lado da rua
"acorda!!! poeta!"
ah...amo o cheiro das ilusões.
João Leno Lima
Set/2010
Continue
Ela continua lá
ouvindo o tic tac das ondas
inundar as profundezas dos seus sonhos.
Ela continua lá.
Indefesa como as nuvens
gigante como os poemas.
Sua lágrima faz transbordar o oceano e ensopar os pátios do deus.
Ela continua lá,
arranhando as costas da areia
seu socorro tem a melodia dos poetas solitários de palavras
suas duvidas sao sobrepostas a nova duvidas úmidas
Se morrer é a passagem, o litoral estende a mão,
não há canto exato
coloco a mão no rosto para não ver sua alma misturar-se ao mar.
Ah...se pudesse a movia com meu olhar e a colocaria num poema,
ela beberia versos e nadaria entre as metáforas
e o litoral de mim mesmo seria seu refugio.
Meu deus... As embarcações passam longinquamente,
paixes grandes e pequenos se abraçam
meu canto é um grito lançado dentro das garrafas das páginas,
nunca estive tão perto do rosto da desolação.
João Leno Lima
ContinueDas incertezas que possuo
uma é como um frasco
tomado antes das extremidade;
Onde nasce o vento?
Disparo em direção ao desconhecido
sob a olhar atento de um Ícaro - momento
sempre rodopiando nas altas horas íntimas de frio.
A distância entre o que somos e nosso essencial ser
tem a dimensão oculta adentrada na janela da alma das crianças.
Sábios e loucos pisoteiam a si mesmo no final da tarde.
Por alguns segundos podemos segurar o sol na palma das mãos
antes da escuridão das horas
quando vagamos entre luzes artificiais
e planetas que chamamos casas, ruas e outros fragmentos
que brilham
-que vistos pela lupa de deus nos confins-
Pulsam imensidões verdadeiras.
João Leno Lima
Setembro/2010
Queria ser uma harpa
e ser tocado pelos semi deuses imateriais.
Resoaria nos quatro cantos da atemporalidade
e me submeteria ao canto dos pássaros.
Ser harpa faria eu ser desejado pelas almas
dos elementos da natureza
e seria eu traduzido por mil línguas desconhecidas,
seria tocado pelas dedos das musas
e lagrimaria pelos litorais de mim como se oceano me tornasse.
eu na condição de harpa,
queria estar presente celebrando o nascimento de uma estrela
ou saida sublime do feto na hora suprema.
sendo harpa, até os ventos me roçariam com sua sabedoria
e eu sentiria doces calafrios por meus poros sonoros.
na madrugada ao descansar,
sonharia com canções assoviadas pelos solitários trovadores
ou no exato momento da inspiração,
serei parte íntima do artista gigantes de mãos invulneráveis.
Submetido aos cuidados da delicadeza,
eu como harpa me espalharia
e seguraria uma nuvem na palma das minhas Mao
e materalizado,
choraria nos ombros de deus.
João Leno Lima
Continue
Hoje me sinto uma rua.
Sentindo como as teclas do piano ao ser tocado
pelo pianista mágico os passos montanhosos dos seres irreversíveis.
O balsamo frio que envolve as sombras.
Os minúsculos pés das crianças e sua estranha liberdade.
Os diálogos de cabeça para baixo dos amantes na esquina.
O toque pontiagudo dos cães indefesos
e o cheiro de vapor que se desprende
como fantasmas grisalhos das tardes pós chuva.
Sinto o toque prematuro das carruagens futurísticas da manhã.
A correria pálida das horas horizontais.
Ser uma rua é a perpetuação suprema do sentido que não existia;
O rumo inerte a mim mais presente a todos,
ser essa rua que desconheço-me agride e conforma-te,
converso com outras ruas e percebo suas aflições,
elas queriam não ter fim
mas as consolo acreditando que somos eternas ruas
que levam a extremidade onde os seres encontram novos sentidos
que os deixaram esperançosos,
confio que a rua que sou
é fundamental para as realizações mais perspicazes do dia.
Mesmo no cansaço do meio dia,
onde o sol impiedoso lembra-me
que a chuva virá para pentear meus cabelos asfalticos
e me perderei em sonhos que me levam a ruas inigualáveis
que terminaram de frente para o mar...
Mas agora, eu rua, adormeço...
Tantos sonhos passaram por mim,
tantos anseios,
tantas embarcações invisíveis
que dobraram a esquina e jamais voltei a sentir,
tantas tuneis e portas foram desbravadas
até que os seres passarem por mim,
eles que pouco se comunicam entre si
e tão pouco me percebem,
mas os sinto, desejo a eles sempre a melhor passagem,
consola-me saber quem me tocarão novamente
e serei importante como as coisas importantes despercebidas,
eu, uma rua, ouço os passos dos solitários no limiar da aurora
E adormeço no chão de mim.
João Leno Lima
Continue
Um dia essa história acaba. Assim espero.
O caso do Radiohead é estranho. A banda lançou em 2007 o ótimo “In Rainbows” via Internet, naquele esquemão pague-quanto-puder-ou-quiser. A Lily Allen logo estrilou, dizendo que a banda só podia fazer isso porque era o Radiohead, mas que o ato era um tiro no pé da indústria e dos artistas.
Passados três anos, o assunto volta à tona, dessa vez “oficialmente”. A RIAA (Record Industry Association of America), aquela associação cheio de velhos, engravatados e donos de gravadoras, que vêem o montante mensal diminuir a cada dia que passa, mandou avisar um monte de blogues que era para eles tirarem os links e conteúdo do “In Rainbows” do ar.
Eu acho tarde demais. Quem quisesse ter o “In Raibowns” já o tem, certo? Mas a questão não é esse ou aquele disco, claro. O problema é maior: a associação quer acabar acabar com os downloads ilegais, de qualquer maneira. Porém, basta um cidadão colocar as músicas no ar e pronto, já era, amigo, perdeu. Como controlar todo mundo?
No caso do Radiohead, é pior, afinal a própria banda deu de graça seu disco. Outras bandas fazem o mesmo (“vazam” o disco de propósito, sem dizer que foram elas). É propaganda gratuita, é melhor e mais barato e menos humilhante do que jabá pra rádio.
Outro dia, Lobão deu a seguinte entrevista à Billboard brasileira, dizendo que estamos todos errados (inclusive ele, quando lançava discos em banca de jornal, com a Revista Outracoisa). Um dos trechos:
Pergunta: E como você situa a figura do músico na atualidade, em um cenário marcado pela divulgação online e uma suposta queda da indústria fonográfica?
Resposta: Não é nada disso, esse que é o grande problema. Não existe queda nenhuma da indústria fonográfica, isso é um absurdo, é uma falácia. Eles nunca ganharam tanto dinheiro. O (produtor) Marcos Maynard, que é uma raposa velha, já está com um tal de Restart… E tem uma outra coisa: quem detém o monopólio das rádios continua vendendo disco. Essa coisa de achar que você bota no seu MySpace e está feito com 20 mil amigos, isso é um grande erro. A internet não vai salvar ninguém! O caminho que a gente abriu no final dos anos 70 e começo dos 80 era de fazer música pop para tocar no rádio, “vamos invadir o Chacrinha”. A mesma coisa tem que ser feita novamente. As pessoas não podem achar que não podem fazer (Domingão do) Faustão. Que merda é essa? Tá no Brasil ou tá aonde? Você acha que lá fora o cara não vai ao programa da (apresentadora americana de TV) Oprah? É o circuito, tem que fazer. Tem que fazer, sim! Agora, para poder alterar esse circuito, você tem que entrar nele. De fora, você não vai conseguir nada.
Leia o trecho gratuito da entrevista aqui. Lobão é porra-louca, mas tá perto de ser gênio – ou apenas um tresloucado.
Alex Kapranos, vocalista do Franz Ferdinand, em entrevista recente à BBC 6Music, da Inglaterra, conta uma história de como reagiu ao vazamento de um disco seu.
“Fizemos um show com o Arcade Fire, e filmamos”, explica. “Distribuímos cópias do CD para os caras que trabalharam no show com a gente. Foi um cameraman que vazou o álbum. Nós conseguimos rastreá-lo com facilidade porque havia uma marca naqueles discos”.
O vocalista disse que então foi tirar uma satisfação com o cidadão: “nós demos pra você o disco, confiamos em você, você estava trabalhando com a gente, pensávamos que estávamos fazendo algo de bom aqui. Aí o cara se virou e disse ‘eu não acredito no capitalismo’. Você não acredita no capitalismo? Bem, eu não vou te pagara as 20 mil libras por filmar o show pra gente, seu merda. As pessoas que fazem isso não dão a mínima. Querem ser o ‘cara que que vazou o disco do Arctic Monkeys’”.
A animosidade de Kapranos mostra que os próprios artistas andam divididos nessa questão. Muita gente, principalmente os novos, por não conseguir acesso às grandes gravadoras, como Lobão prega, apelam para a Internet. O acesso às músicas é livre, mas não é garantido: como fazer para as pessoas saberem que sua banda tem aquelas músicas e que elas são legais? É só mais uma forma de divulgação, que não garante nada.
Grande bandas, por outro lado, sofrem com isso. Vazar o disco com antecedência, antes do lançamento oficial, frustra qualquer estratégia de divulgação – mas vai esperar o que dos fãs, que eles fiquem parados, passivos, esperando o novo material? Eles são fãs e, por isso, são ansiosos.
A preocupação deveria ser apenas os grandes “vazadores”, os piratas mesmo, esses que vendem os discos nas barracas de rua, a preços ridículos, que não pagam um centavo aos artistas, para pessoas que não têm dinheiro para ir aos shows.
Mas, como a história de Kapranos mostra, basta um cidadão colocar o disco na Internet e já era. Não precisa esse cara ser pirata profissional. Aí, as gravadoras e artistas vão fazer o quê? Vão fechar e proibir a Internet?
É irreversível, portanto, meus amigos. Grande ou pequena, a banda tem que se acostumar com isso e buscar outras formas de ganhar dinheiro com sua música. É um triste desafio pros artistas, eu sei. Não é fácil ver seu trabalho ser afanado por todo canto. Ninguém gostaria disso.
Infelizmente, lutar contra isso é gastar energia na batalha errada. Qual seria a saída honrosa e novamente lucrativa nesse cenário?
Link> Botequimdeideias
Continue– WikiLeaks divulga 75 mil relatórios militares secretos dos EUA
por Wiki Leaks
O sítio web WikiLeaks divulgou hoje mais de 75 mil relatórios militares secretos cobrindo a guerra no Afeganistão.
O Diário da guerra afegã é um extraordinário compêndio secreto com mais de 91 mil relatórios que cobrem a guerra no Afeganistão de 2004 a 2010. Os relatórios descrevem a maioria das acções militares letais envolvendo os militares dos Estados Unidos. Eles incluem o número de pessoas declaradas internamente a serem mortas, feridas ou detidas durante cada acção, junto com a localização geográfica precisa de cada evento e as unidades militares envolvidas e principais sistemas de armas utilizados.
O Diário da guerra afegã é o mais significativo arquivo da realidade da guerra a ter alguma vez sido divulgado durante o decorrer de uma guerra. As mortes de dezenas de milhares são normalmente apenas uma estatística mas o arquivo revela as localizações e os eventos chave por trás da maior parte destas mortes. Esperamos que a sua divulgação conduzirá a um entendimento abrangente da guerra no Afeganistão e proporcione os ingredientes primários que são necessários para mudar o seu curso.
A maior parte das entradas foi escrito por soldados e oficiais de inteligência que ouviam relatórios transmitidos pelo rádio de posições nas linhas de frente. Contudo, os relatórios também contém informação relacionada a partir da inteligência dos Fuzileiros Navais (Marines), de Embaixadas dos EUA e de relatórios acerca de corrupção e actividades em desenvolvimento por todo o Afeganistão.
Cada relatório contém o tempo e a localização geográfica precisa de um evento que o Exército dos EUA considera significativo. Eles incluem vários campos adicionais padronizados: O tipo genérico do evento (combate, não combate, propaganda, etc); a categoria do evento conforme classificação das Forças estado-unidenses, quantos foram detidos, feridos e mortos entre civis, aliados, nação hospedeira e forças inimigas: o nome da unidade que relata e um certo número de outros campos, o mais significativo dos quais é o sumário – uma descrição em inglês dos eventos cobertos no relatório.
O Diário está disponível na web e pode ser visionado em ordem cronológica e por mais de 100 categorias assinaladas pelas Forças dos EUA, tais como: "escalada de força", "fogo amigo", "reunião de desenvolvimento", etc. Os relatórios também podem ser visionados pela nossa medida de "severidade" – o número total de pessoas mortas, feridas ou detidas. Todos os incidentes foram colocados num mapa do Afeganistão e podem ser visionados no Google Earth limitado a um espaço de tempo ou de lugar particular. Por este meio pode-se ver o desdobramento da guerra ao longo dos últimos seis anos.
O material mostra que os encobrimentos começam no terreno. Quando relatam as suas próprias actividades as Unidades dos EUA são inclinadas a classificar mortes civis como mortes insurgentes, minimizar o número de pessoas mortas ou então arranjar desculpas para si próprias. Os relatórios, quando efectuados acerca de outras unidades militares dos EUA são mais prováveis serem verdadeiros, mas ainda reduzem o criticismo. Inversamente, quando relatam sobre acções de forças não-EUA na ISAF os relatórios tendem a ser francos ou críticas e quando relatam acerca do Taliban ou outros grupos rebeldes ou mau comportamento é descrito com amplos pormenores. O comportamento do Exército Afegão e das autoridades afegãs frequentemente também são descritos.
Os relatórios provém do Exército dos EUA com excepção da maior parte das actividades das Forças Especiais. Os relatórios geralmente não cobrem operações top-secret ou operações europeias e de outras forças ISAF. Contudo, quando ocorre uma operação combinada envolvendo unidades regulares do Exército, pormenores dos parceiros do Exército são muitas vezes revelados. Exemplo: um certo número de operações sangrentas executadas pela Task Force 373, uma unidade secreta de assassínios das Forças Especiais dos EUA, são reveladas no Diário – incluindo um raid que levou à morte de sete crianças.
Este arquivo mostra o vasto conjunto de pequenas tragédias que quase nunca são relatadas pela imprensa mas que representam a esmagadora maioria das mortes e ferimentos.
Atrasámos a divulgação de cerca de 15 mil relatórios do arquivo total com parte de um processo de minimização de danos pedido pela nossa fonte. Após nova revisão, estes relatórios serão divulgados, com redacções ocasionais e, finalmente, em pleno, quando a situação de segurança no Afeganistão o permita.
Informação adicional dos nossos parceiros nos media:
Der Spiegel: http://www.spiegel.de/international/world/0,1518,708314,00.html
The Guardian: http://www.guardian.co.uk/world/series/afghanistan-the-war-logs
The New York Times: http://www.nytimes.com/interactive/world/war-logs.html
Diário da guerra afegã – Guia de leitura
O Diário da guerra afegã (Afghn War Diary, AWD como abreviação) consiste de mensagens de vários importantes sistemas de comunicações militares dos EUA. Os sistemas de mensagens têm mudado ao longo do tempo; assim como padrões de relatório e formatos de mensagem também mudaram. Este guia de leitura tenta proporcionar algumas pistas úteis sobre a interpretação e o entendimento das mensagens contidas no AWD.
A maior parte das mensagens segue uma estrutura pré-estabelecida que é destinada a tornar mais fácil o processamento automático dos conteúdos. É melhor pensar acerca das mensagens em termos de um diário de registos (logbook) colectivo geral da guerra afegã. O AWD contém os eventos relevantes, ocorrências e experiências de inteligência dos militares, partilhada entre muitos receptores.
A ideia básica é que todas as mensagens tomadas em conjunto deveriam proporcionar um quadro completo dos eventos importantes do dia, da inteligência, advertências e outras estatísticas. Cada unidade, posto avançado, comboio ou outra acção militar gera relatório acerca de eventos diários relevantes. O conjunto de tópico é vasto: Dispositivos Improvisados de Explosivos encontrados, operações ofensivas, tomada de fogo inimigo, confrontos com possíveis forças hostis, conversas com aldeões idosos, número de feridos, mortos e detido, sequestros, informação genérica de inteligência e advertências de ameaças explícitas de radio-comunicações interceptadas, de informadores locais ou da polícia afegã. Também inclui queixas do dia a dia acerca de falta de equipamento e abastecimentos.
A descrição dos eventos nas mensagens é frequentemente concisa e seca. Para apanhar o estilo do relatar, é útil entender as condições sob as quais as mensagens são compostas e enviadas. Muitas vezes elas vêm de unidades de campo que estiveram sob fogo ou sob condições de stress o dia inteiro e encaram o relatório escrito como papelada aborrecida, que precisa ser preenchida aparentemente com pouco benefício a esperar. Assim os relatos são mantidos com o mínimo necessário, com tão pouca teclagem quanto possível. As unidades de campo também precisam aguardar perguntas dos escalões mais altos ou medidas disciplinares por eventos registados nas mensagens, de modo que tenderão a encobrir violações de regras de confronto e outros comportamentos problemáticos; muitas vezes os relatórios são pormenorizados quando discutem acções ou interacções com forças inimigas. Desde que se esteja nas mensagens AWD, faz-se parte oficialmente do registo – está-se sujeito a análises e exames. A veracidade e completude, especialmente de descrições de eventos, devem sempre ser cuidadosamente consideradas. Circunstâncias que mudam completamente o significado de um evento relatado podem ter sido omitidas.
Os relatórios precisam responder a questões críticas: Quem, O que, Onde, O que, Com quem, o que Significa e Por que. As mensagens AWD não são dirigidas a indivíduos mas a grupos de receptores que estão a cumprir certas funções, tais como oficiais de serviço numa certa região. Os sistemas onde as mensagens têm origem efectuam a distribuição com base em critérios como região, nível de classificação e outra informação. O objectivo da distribuição é proporcionar àqueles com acesso e necessidade de saber toda a informação que é relevante para os seus deveres. Na prática, isto parece estar a trabalhar imperfeitamente. As mensagens contêm informação de geo-localização nas formas de latitude-longitude, grelha de coordenadas militares e região.
As mensagens contém um grande número de abreviaturas que são essenciais para o entendimento dos seus conteúdos. Ao folhear através das mensagens, abreviações sublinhadas surgem pop ups com pequenas explicações, quando o rato está a passar sobre eles. Os significados e utilizações de algumas abreviaturas mudou ao longo do tempo, outras por vezes são ambíguas ou têm vários significados que são utilizados conforme o contexto, região ou unidade que relata. Se descobrir o significado de um acrónimo ou abreviatura até então não resolvido, ou se tiver correcções, é favor submetê-las a wl-office@sunshinepress.org .
Uma referência especialmente útil a nomes de unidade militares e de forças-tarefa e suas respectivas responsabilidades pode ser encontrada em http://www.globalsecurity.org/military/ops/enduring-freedom.htm
O sítio também contém uma lista de bases e aeródromos: http://www.globalsecurity.org/military/facility/afghanistan.htm
Os seus nomes de localização também são frequentemente abreviados com acrónimos de três caractéres.
As mensagens podem conter informação da data e do tempo. As datas são apresentadas principalmente ou na forma numérica dos EUA (Ano-Mês-Dia, ex. 2009-09-04) ou várias abreviaturas de estilo europeu (Dia-Mês-Ano, ex. 2 Jan 04 ou 02-Jan-04 ou 2jan04, etc).
Os tempos são frequentemente anotados com um identificados de fuso horário por trás do tempo, ex. "09:32Z". Os mais comuns são Z (Zulu Time, também conhecido como fuso horário UTC). D (Delta Time, também conhecido como UTC+4 horas) e B (Bravo Time, também conhecido como UTC + 2 horas). Uma lista completa de fusos horários pode ser encontrada aqui: http://www.timeanddate.com/library/abbreviations/timezones/military/
Outros tempos são anotadas sem qualquer identificador de fuso horário. O fusão do Afeganistão é AFT (UTC + 4:30), o que pode complicar as coisas se estiver a olhar mensagens baseadas no tempo local.
Descobrir mensagens que relatem acontecimentos conhecidos pode ser complicado pela data e mudança de fuso horário: se o evento for à noite ou de manhã cedo, isto pode fazer com que o relatório seja mal arquivado. É aconselhável sempre para qualquer evento olhar registos de mensagens antes e após.
David Leigh, editor de investigações do Guardian, explica as ferramentas on line que criaram para ajudá-lo a entender os ficheiros militares secretos dos EUA sobre a guerra no Afeganistão: www.guardian.co.uk/world/datablog/video/2010/jul/25/...
Compreender a estrutura do relatório
26/Julho 2010
O original encontra-se em Wardiary.wikileaks.org







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