DUAS ALUCINAÇÕES

1
09:29
Apenas quero te abraçar com palavras.
Lápis, canetas e sensações.
Um frio artificial almeja congelar os sonhos intocáveis.
Procuro o metodo-asa
Minha técnica de invisibilidade falha,
Não há olhares
Não há olhares
Longas nuvens tempestuosas tocando flauta na manhã.
A musica se dissolve nas engrenagens dos ônibus,
Onde estará escondido o violino da alma?
Guardo as sensações num pote-passagem secretas,
O café materializa-se em um anjo distorcido vulnerável,
Os passos confessam segredos para o chão das ruas.
"Não há violino tu és o próprio violino"
Calo-me...
...
Apenas queria te abraçar com palavras.

















João Leno Lima
06-05-09 Continue

LABIRINTICO

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21:33


Nos espaços íntimos há algo de nuvens.
Longos braços da vertiginosa rua íntima.
Por onde passeia crianças e adultos ocultos
Paredes presas nas poças recém nascidas....
As mãos desdenham-se
Há um longo colo-tunel
Corrimões de chuva
Tua voz lagrima-me
Não em vulnerabilidades descontinuas
Não em gemidos presos na imagem refletida
Poço-abrigo onde descansas a dor
A noite fotografa tudo em preto e branco
E depois rasga a fotografia-alma e a joga no espaço
Teu silencio procura a hora real
Tua angustia corta a própria garganta
O sangue escorre criando rios de segundos
A alma vira neblina
Não te enxergo
Te sinto
Te sinto?
Nuvens...






















João Leno Lima
05-05-09
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A SOMBRA DE UM MAR OCULTO

1
12:56


Alguém no fundo chora no desconhecido
Que se revela apenas para a sombra
Caminha estático em passos longos
Longos ventos que arranham a ausência de sentido

Alguém no fundo espatifa-se...
Calcula a volta para casa como uma matemática puída
Já não almeja o alcançável
Sua dor é um labirinto vivo sufocado

Alguém no fundo desaparecendo no fundo
Onde suas mãos só desejavam o abrigo de outras mãos
E seu rosto desmoronado pela chuva
Se dissolve lento, vira poça, afunda, afoga-se, fundo...






De João Leno Lima
Maio/09
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Infinitismo

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10:28


A poesia é o gole de vinho tomado pelos deuses do infinito.
Que espalha sua dor-ultragalatica nos seios mundanos do destino.
Esgotado, o mítico viajante sentimental.
Definha nos imensos colos do abismo invisível da memória
Como seres com corações desabrigados pela enchente da loucura do sentir!
Deus nessas horas parece ser a transgressão poética do avesso dos sonhos.
Na travessia intrépida das almas algumas sucumbem afogadas
Pelo fôlego úmido da noite.
Somos crianças acima de tudo;
Que se lambuzam de sensações magníficas.
Na poética do delírio, corrimões nos sobem.
E ruas andam sobre o poeta e não ao contrario,
Pegando estrelas com nossas bocas-verbos e dentes-metaforas
E engolimos universos ate o amago-utero da sua infinita essência,
O delírio é uma ambarcação com asas
Que sai da boca da poesia, como escarrada,
Navega no mar que sai da íris lacrimejante dos anjos
Para nos entorpecer com o ópio divino futurístico
Nas naus da eternidade onde adormeço nos colos das palavras não ditas.

Tens algo a dizer sobre o delírio?

Meus braços são longas escadarias
Por onde sobem a força motiz da transfiguração dos sentidos...
O verso é a tradição mais cósmica do universo.
Cada fagulha da tua consciência intriga-me.
Sou tentado a transar com tua metamorfose irreversível.
Es tu o rio onde não posso me banhar cotidianamente?

Esgotado, o jovem poeta senta-se na cadeira de balanço do absoluto intimo.
A chuva o escolhe para sua momentânea exuberância.
Seus versos estão repletos de cólera-poetica
Dentro de pequenos copos d agua-poças que alguém serve na manhã
Maldoror da gargalhadas debaixo dos seus poemas.
Suas traças ironicamente rimadas
Saboreiam as paginas-delirio e as palavras-cometa.
Debruço-me sobre a chuva-sufoco.

Ela debata-se e orgasmicamente e cada gota ensurdece-me

Tenho horror à não-poesia.
Quebro-me em restos de delírios
Há um doce ocultismo nos passos.

Os deuses da poesia, com seus longos sopros.
Descabelam a inspiração descomunal e desata os nós da inércia.
Sou a parte úmida dos desertos.
Sou as pequenas poças azuis esperando
a fúria dos vulcões selvagens da indiferença-espelho
As mãos esperando ser tocada
nem que seja pela sombra sublime das mãos da musa.
Sou os confusos cabelos da chuva.
Embriagados, os deuses espalham o vinho pelo céu da boca dos poetas.
E ele escorre nas essências num instante apenas visível para o sublime.

O que tens a dizer sobre esse instante?

A poética revele segredos indomáveis,
Como um fugitivo que é consolado por uma voz de abrigo.
Como aleatórios desconhecidos que se conhecem debaixo da chuva
Mas que jamais voltam a se ver.
A ligação telefonica-cometa que nos leva ao desconhecido de nós mesmos.
Como o amigo poeta que se sente incapaz
perante sua própria capacidade incalculável.
Como a mão que estende a mão para a outra e ambos dialogam
Na montanha mágica do silencioso vento.
Como os versos azuis da poetisa que arreganha o útero do infinito
A fim de encontrar a si mesma.
Como a criança que deixa de ser criança para o mundo,
mas não para os universos.

A poética tem algo de sonhos.
Manhã que passei de bicicleta sobre nossos pescoços.
Musica que violina a inevitável sensação da presença fundamental.
No lápis que aos poucos vai embora deixando a eternidade para o poeta.

-porque me dizes que não sentes a felicidade perto?
-meu coração é uma passagem secreta
que apenas os deuses do infinito conhecem
-por que queres me mutilar arrancando meu delírio?
-não sou nada já disse que não sou nada

Oh poetas e amantes de poetas e da poesia...
Não percebem que não passamos de corações que regem o tempo-espaço?
Mesmo que por alguns segundos acreditastes num jardim impossível
Aos olhos, mas não a alma?
Não percebes que o infinito é uma lei da natureza?

O perspicaz viajante quer engolir toda a paisagem quer for possível.
Se for possível quer engolir toda a tempestade
E vomita-la no peito do tempo implacável.
Essa tempestade saída da pulsação do viajante
É um mar revolto que quer emcobri-lo com seu manto impalpável
Mas deixo-o com o sol-palavra enradiando-se na pagina da existencia-verso.
O viajante dos sentidos é uma criança que jamais abandona sua alma essencial.
Os deuses do infinito são pequenos salmos
Que praticamos inconscientemente no cotidiano.

O viajante tenta sobrepor-se ao onírico consciente destino
E quebra-se, nascendo infinitudes que são sarais flutuantes.
E sangra asas pelos seus poros tranausentes
E soluça, soluça mil vezes.
Embriagado de vinho servido amigavelmente pelos deuses do infinito
Como o cão voador das sensações que não findam.
Ele não é mais o feto que chora no fundo
Debruçado em si mesmo
Ele é o mecanismo elevado por foguetes
Levando sua alma para as distancias que desintegram a matemática
Onde lá ela, a alma, sentirá a essencial liberdade.

Oh deuses do infinito
Ouso proclamar todas as almas
Deuses de seus próprios infinitos
Na comunhão primordial dos sentidos
Onde o pungente sublime dissolverá o medo
Em múltiplos múltiplos múltiplos múltiplos múltiplos

INFINITISMOS POETICOS























João Leno Lima
Abril-2009
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A PROCISSAO DOS MIL SENTIDOS

2
11:59




Não que alma esteja em constantes abismos,
Sou alma mais do que tudo em tudo.
Não que minhas asas invisíveis sejam
Realmente invisíveis para os anjos do absoluto.
Não que as salivas dos amantes do delírio não
Esteja nos copos de café dos instantes sublimes.
Esse alvoroço das praças, essas lentas armadilhas
Das Palpebrantes sufocações intimas.
Essa estranha intimidade com o cotidiano,
Essa indiferença que assola com cicatrizes a volta para casa do trabalho
Como vulcões que acordaram translúcidos e
Voltaram a dormir com medo de si mesmo.
Não que desejos não passem de profundidades desconhecidas até para
Os buracos negros, não que cada verso não seja uma via Láctea por si só,
Não que Deus realmente necessite estar só consigo mesmo.
Longe lá nos vastos campos ocultos a nós,
Como a musica que pergaminha nossos pensamentos magistrais,
Como os longos beijos da noite sob a benção da madrugada,
Como a lúdica sensação de estar de volta aos seios do destino,
Como um viajante que viaja nas caldas do acaso.
Não... Só há nesses olhares descabelados pelo sol uma alma vestida de
Mão que segura com a força do tempo-espaço os
Braços fugitivos do horizonte...
"Estais machucando o horizonte com tua própria ausência de si mesmo?"
"O solta” e "deixe-o"
Não que tu não sejas o próprio horizonte a si próprio machucar
Pegando nos braços,
Não que tua poesia se perca nos armários deteriorados pelo
Confuso materialismo abstrato do poeta,
Não que os pássaros realmente levem a serio nossos desejos de voar,
Não que a lua confessadamente não se sinta atraída pelos nossos
Olhares - paginas de poesia soltas no ar de um poente interno
Onde mergulhamos nosso mil sentidos.
Não que o teu destino não seja a eternidade.
Catapulto minha angustia para tua margem desbotada e
Toco tua sombra desavisada na procissão dos segundos.
Não que tu não sejas uma construção de mecanismos-verso.
Não que a tristeza dos meus amigos desamparados
Por suas musas não seja um aglomerado de estrelas transbordando
De pequenas chuvas por segundo.
Não que nossas febris impaciências sejam tão profundas quanto a
Impaciência dos nossos sonhos gigantes.
Eu, que tanto anseio pelo infinito.
E tu que tanto anseias pelo infinito.










João Leno Lima
24-04-09
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A Lei Poetica

0
11:55

Quero me esconder em algum universo barato.
Longe das confusas abstrações cotidianas,
Perto das ausências sempre tão serenas.
Pelos ambientes úmidos do universo paralelo,
Quero ascender um cigarro com o fogo dos cometas
Ou com os vulcões que saem do meu delírio,
Quero abandonar esse trabalho gélido e
Com as forças intrínsecas dos redemoinhos dos pensamentos
Sobrevoar paisagens ainda não desbravadas pela inconsciência.
Quero, quero me esconder em algum universo barato.
Com vinho que mancham as paginas da pura poesia embriagada de si mesma,
Em outras estações absolutas.
Quero me tornar a boca que devorará os
Verbos das cirustancias desequilibradas,
Os dentes que estraçalhará o véu poluído de imagens turvas,
Que as mãos dos ventos impulsionem minhas asas,
Que a cura esteja nos longos cabelos do destino,
Que o mar seja o liquido que sai dos olhares da criança,
Que o verdadeiro esconderijo seja o mais próximo dos anjos possíveis,
Que o invisível seja os braços maternos da poesia.
Sim, quero me esconder em algum universo barato.
Sem ter que amarrar fantasmas nos pés da cama,
Sem ter que sentir as dores pela queda na bolsa de valores,
Sem ter que me amargurar com estranhas razões dos ingratos ou
Os estranhos gestos do orgulhoso,
Quero me preocupar com o próximo poente e se vou estar nele ou
Até se vou sê-lo.
Meu deus! Quero ser esse blues que toca no fundo
Quero ser o fluido oculto que dá movimento ao poema,
Quero ser as partículas em forma de pergaminho trazendo
Os ensinamentos do sol conferencista da alma,
Quero desejar apenas estar perto da musa por toda a eternidade,
Quero que essa vulnerabilidade-sombra não passe de
Um vulto-cosmico do universo que não desejo,
Quero fazer companhia para os sublimes amantes da beleza sentimental,
Quero apenas escrever algumas cartas
Aconselhando Bernardo Soares e Werther a
Serem o que foram na simplicidade de uma colisão de galáxias.
Estou distante dentro do abismal mecanismo da insatisfação estrelar,
Não me basta mais planetas, eu quero universos inteiros só pra mim...
Quero inventar doces constelações de palavras,
Quero povoar os mundos inabitados com as razoes de uma criança,
O mundo da razão condena-me por ser abstrato
O mundo abstrato condena-me por ser racional,
Ambos estão errados!
Sou a comunhão espiritual de mundos fazendo sexo.
Sou a lama-anjo nos solos do viajante translúcido e a
Embarcação na lagrima no peito do jovem com o coração partido,
A dor invisível como uma bala que transpassa o peito do sonhador.


Como a fétida matemática das horas,
Os moribundos passos da inércia,
A ode a não-liberdade mágica,
Como uma espera-navalha que ameaça a garganta da alma,
Como uma sufocação silenciosa no centro da rua vinte e um de abril.
Quero... Me esconder em algum universo barato...
Perto da amada amiga para todas as vidas possíveis,
Perto do sussurro do olhar do coração poeta ao
Encontrar sua musa-cosmo desejada.
Perto das silhuetas dos abismos doces desvertiginosos,
Perto das mãos entrelaçadas dos seres recipocros,
Perto do ultimo fio de cabelo do infinito,
Perto da pulsação da mãe ao presentear o mundo,
Perto do soluço de quem dorme para anestesiar as feridas escancaradas,
Perto dos lábios de quem proclama a poesia saída do
Seu próprio âmago desconhecidamente ultrapoetico.
Perto das pálpebras do homem com medo de sentir
E da mulher com medo de não-sentir,
Perto das pontas dos dedos de deus,
Perto de alguma nuvem que traga o sono-calmaria,
Perto das batidas das asas dos pássaros apos a tempestade,
Perto da fronteira entre o sonho e o inalcançável,
No limiar entre eu e nada...
Quando impossível e possível apertam as mãos na consciência da poesia
Quando finalmente constato a mim mesmo
Decreto a todos e a mim
Poesias...























João Leno Lima
22-04-09
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O Concreto

0
11:52

De repente Deus mandou a chuva ensurdecer-me.
Como Uma legião de galáxias desabrigadas pelo meu delírio.
Um longo túnel que leva ao labirinto íntimo.
Meu amigo ao pintar seus sentidos pinta a todos nós num sonho.
A poesia mistura meus sentidos.
Desvio-me de cada fragmento da chuva que pretende estraçalhar-me.
Sou o tempo que se esgota a si mesmo.
Lá fora a umidade da madrugada aliada
A escuridão das ruas entrelaçadas com
A passagem dos seres translúcidos que
Voltam para casa trazendo pequenos mecanismo esgotados de
Si funde-me comigo que
Espero a beleza da lua invadir com
Seus trompetes luminosos meu fôlego de
Noite mal dormida em teias solitárias...
Depois da chuva o silencio volta a dialogar calmamente...
Como uma criança que cansou de chorar da espera interminável.
Como o amigo-mago do destino açoitado pela matéria.
Há um piano com teclas do mundo debaixo dos meus pés.
Sou o sussurro do poeta da música na
Comunhão com seus ouvintes-cometas
Meu corpo ascende um cigarro espiritual onde
Consumo lentamente o infinito.
Desloco-me em direções interruptas e
Esse poema é a fabricação atemporal da temporalidade das horas.
Depois de engolir Andrômeda com a
Boca enorme de uma estrelar a
Rua vinte de abril parece mais o braço de
Alguma constelação perdida num confim espectral..
Sim, sou o guardador de rebanhos da eternidade.
Mesmo assim sangro abstrações.
Sangro cavernas intimam escondidas debaixo das pálpebras,
Medos confessados apenas nos ouvidos das paredes do quarto-cosmo.
Fracassos como barcos afundados numa profundidade oceânica,
Sinto-me a porta irreal que leva ao outro lado impenetrável.
Sinto-me o vidro invisível que separa os corpos nas ruas alvoroçadas.
Sinto-me o lateja mento do amante lutando contra o passado numa arena lacrimejante
Ou alguém que não pode mais ouvir a musica que entes embalava as memórias...



Canso de mim as vezes...
Canso...
De mim...
As vezes;;
As vezes...
Canso
As vezes acredito na ilusão solitária das horas mas
Logo a alma paira novamente planando em galáxias em galáxias...
Quando dei por mim
Deus já havia mandado a chuva embora lentamente
e
Fiquei com o silencio concretos dos segundos.
























João Leno Lima
08-04-09
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Radiohead: Como desaparecer completamente

0
00:01


Aquele ali não sou eu. Eu vou aonde quero. Eu atravesso paredes. Eu flutuo pelo Canal do Mangue. Eu não estou aqui. Isso não está acontecendo. Eu não estou aqui. Antes de o Radiohead tocar “How to disappear completely”, diante dos meus olhos, nesta Praça da Apoteose, nesta sexta-feira 20 de março de 2009, os versos se materializam na cabeça. Eu não estou aqui.

Estou em outro lugar. Aonde só a grande música pode me levar.Entre efeitos de luz e alto-falantes no estado da arte, Thom Yorke, Ed O’Brien, Phil Selway, Jonny e Colin Greenwood atacam “The national anthem”. Atacam é verbo escolhido a dedo. As guitarras são sirenes que alertam para o bombardeio tocado pelo baixo e pela bateria. Não há abrigo possível. É uma das minhas favoritas. Parece “Whole lotta love”, do Led Zeppelin. Parece “Bullet the blue sky”, do U2. Só que melhor.

Nada havia me preparado para isso. Em “Kid A”, o álbum, “The national anthem” era mais intrincada, quase free jazz graças aos instrumentos de sopro. No palco, a energia do quinteto compensa a ausência dos metais. Nada havia me preparado para isso. Cheguei com um pé inteiro mais um calcanhar atrás, com medo de me decepcionar. Já aconteceu-me antes, por exemplo, aqui mesmo, na Apoteose, com um David Bowie de radinho de pilha.


Li que o show do Radiohead era “profissional”, no mau sentido, talvez até “frio”. Desde a primeira música, “15 step”, nota-se que é profissional, sim, no bom sentido. No nível do som, na definição do telão, nas estalactites de luz. Mas frio... “There there” logo prova que não. Percussão quase pura, O’Brien e Jonny batendo tambor com Selway. Claro, sempre haverá quem ache “chato”. Mas para quem tem dificuldade de se relacionar com a tristeza da vida sempre haverá as baianas pernudas e suas canções cheias de onomatopeias.Antes do Radiohead, a temperatura estava estranha para março. O Kraftwerk fez uma versão condensada do show de 2004 no TIM Festival, gélida, coisa de se esperar dos alemães.Antes ainda, Los Hermanos estavam meio fora de forma, mornos, coisa de se esperar de quem está parado há dois anos. Não o Radiohead.Descubro que ele consegue ser cabeça e quente, simultaneamente. Nada havia me preparado para isso, acho que já disse.


O Radiohead plana por “No surprises”, “Videotape”, “Paranoid android”... E comprova, aqui e agora, por que é a mais importante banda de música popular em atividade neste planeta.O termo “rock” só se aplica ao Radiohead como conceito vampiresco, expansionista, não como delimitação musical. Em transe estético, dou 10, nota 10, em todos os quesitos: aparato técnico, garra, repertório, dinâmica, inventividade. No palco como nos discos, as suas músicas nunca terminam do jeito que começam: elas se reinventam.

Na vã tentativa de me preparar para isso, eu tinha ouvido atentamente os dois únicos registros oficiais do Radiohead ao vivo. Primeiro, “I might be wrong: live recordings”, lançado em 2001. Um de seus pecados era ser curto demais, 40 minutos, oito músicas. Todas tiradas de “Kid A” e “Amnesiac”, álbuns siameses separados no estúdio, experimentais, geniais. Todas menos “True love waits”, linda. “O verdadeiro amor espera em sótãos assombrados”? Brrrrr. O outro pecado foi costurar retalhos de quatro shows, Oxford, Berlim, Oslo, Vaison La Romaine. Ficou sem a dinâmica da apresentação ao vivo.O segundo disco oficial do Radiohead ao vivo só veio à luz no ano passado, apenas na Holanda, pelo selo Immortal, mas foi registrado na mesma excursão em que “I might be wrong”. É um duplo chamado “Radiohead rocks Germany 2001”. A banda sacode a Alemanha na noite de 1ode junho, num festival em Nurburg. Traz 22 músicas e, embora às vezes a voz e o violão estejam um tanto à frente dos demais, soa de fato como um show, completo e íntegro. Abre com “The national anthem” e fecha, 108 minutos depois, com “How to disappear completely”. Chega mais perto deste êxtase no Catumbi.

Ainda assim, nada havia me preparado para isso. Até “Radiohead rocks Germany 2001” aparecer também em DVD, o Radiohead não tinha audiovisual oficial decente, a não ser por... Um show muito das antigas. “Live at the Astoria”, de 1994. Uma coletânea de velhos clipes. “7 television commercials”, de 1998. E um documentário enigmático, sem músicas completas ou entrevistas. “Meeting people is easy”, de 1999. Coerente com esse telão mesmerizador na Apoteose, que esconde mais do que revela os músicos em ação.


Seja como for, o DVD de um show sempre será uma fraude consentida. Um disco de áudio ao vivo é mais fiel a um show do que a sua filmagem. Permite-me viajar, imaginar o palco, recriar, participar. O DVD pode ter som Dolby 5.1, imagem HD, extras, o cacete, mas não me dá esse pancadão no meio dos peitos, não replica a magia da presença física dos caras ali adiante. Após tantos anos, tantas leituras e releituras na faculdade, agora que o Radiohead fecha o show com “Creep”, acho que afinal entendi o Walter Benjamin.Certas coisas não se reproduzem. Daí essa sensação de eu não estar aqui, de isso não estar acontecendo, de eu ter desaparecido completamente no meio de uma multidão de 20 mil devotos, de o momento já ter passado, bom demais para ser verdade. Então, aquele ali que não sou eu chora e tem aquela convulsão peculiar da cintura para cima, acompanhada de tremedeira no pé direito, um treco que ele chama de dança.

27/07/2009
O Globo/Segundo Caderno
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“This is really happening”

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10:08
Radiohead domina corações e mentes e incita nova era de shows no Brasil

anto no Rio quanto em São Paulo, foi em “Idioteque” que bateu. Por mais que já tivessem hipnotizado o público em “There There”, o cortejado de perto com “Karma Police” e “All I Need” e lhe arrebatado em “The National Anthem” e “Jigsaw Falling Into Place”, o Radiohead tornava-se real no terço final da primeira parte dos shows, quando, pela primeira vez em ambos shows, soltava nossos corações ou mentes, deixando-os finalmente livres para dançar. Os tubos acima do palco eram iluminados com pouca luz, com tonalidades entre o roxo e o azul escuro, o suficiente para dar o ar de pista de dança que a música de Kid A exigia. Os blips do início drenavam toda a ênfase de show de rock que vinha até ali – saía o piano, saía a dinâmica entre as guitarras, violão e teclados que dava a tônica da apresentação e a força do som era reduzida ao diálogo entre a ruídos eletrônicos disparados pelo guitarrista Jonny Greenwood e a bateria metronômica de Phil Selway. Ao lado do baterista, o baixista Colin Greenwood iniciava a seqüência de acordes gelados no teclado que identificavam a canção para as multidões, que saudaram o reconhecimento com o mesmo urro com que havia recebido os hits anteriores. Mas a ausência do miolo instrumental clássico da banda, reduzindo as canções a beats, ritmo e frios acordes de teclados (traçando aí o paralelo genético com o Kraftwerk que abriu os shows) enfatizou a presença solene de um público embasbacado. Ed O’Brien, ainda com seu instrumento em punho, preferiu grunhidos elétricos do que os solos e acordes clássicos que caracterizavam sua participação, enquanto Thom Yorke entregava seu vocal ao delírio robô dançado pela platéia.


“Isso está realmente acontecendo”, soltava-se Thom, baixinho, braços movendo-se para o lado entre saltos e olhos fechados, dança reprisada pelo público, balançando-se sem acreditar. Estava realmente acontecendo – o Radiohead estava finalmente fazendo um show no Brasil, doze anos depois de OK Computer, dois anos depois de In Rainbows, reprisando o disco mais importante da década na íntegra, enquanto repassava as principais faixas de um dos discos mais importantes da década anterior e costurava o resto do show com faixas tiradas dos três álbuns lançados entre estes e dois hits sacados de seus dois primeiros discos. Mas independentemente das músicas que foram escolhidas, eis um paradigma vencido. A vinda do Radiohead talvez tenha encerrada uma adolescência do Brasil em relação a shows, sejam internacionais ou brasileiros, iniciada com o primeiro Rock in Rio – mas depois eu falo mais disso.


O Radiohead é uma banda cujo carisma e apelo popular não está em gestos ou na comunicação com o público – e sim através das canções e na forma como estas foram dispostas nos shows. Sua apresentação não conta com um vocalista populista e sorridente, que veste a camisa da seleção brasileira e tenta balbuciar agrados em português. Seus dois heróis da guitarra são pouco usuais – embora Ed O’Brien esteja mais próximo do que se espera de um guitarrista clássico, ele sabe que seu papel é coadjuvante (é o principal cavaleiro de Sir Yorke, seu Lancelot) e secundário, enquanto o verdadeiro guitar hero da banda, Jonny, seja um magrelo tão chegado aos beats eletrônicos e efeitos de dub do que aos solos de guitarra. A cozinha formada por Colin e Phil é avessa aos holofotes e prefere olhar-se nos olhos em vez de encarar o resto da banda. Thom Yorke, por sua vez, seduz o público apenas com sua voz.


E que voz. Mais do que o palco aceso e colorido, a voz de Thom Yorke é o principal elemento no show da banda. Não é ela quem determina o tom das canções – este quase sempre é definido pelo conjunto musical, quase sempre em discussões entre os instrumentos de Colin, Phil e Jonny – mas é o vocal quem o dissemina sobre o público. O timbre de Yorke, como os diferentes acordos instrumentais propostos pela banda, não pertence a um único território. Ele pode balbuciar como um bêbado e soar como um anjo na mesma canção (“Exit Music (for a Film)”, por exemplo), deixar sua voz atingir picos melódicos virtuosos (“Reckoner” ou o final de “All I Need”), soltar grunhidos ininteligíveis (no meio de músicas mais pesadas, como “National Anthem” ou “Bodysnatchers”) ou escárnios cínicos – em especial em “You and Whose Army?”, talvez seu momento de interação mais direta com o público, através de uma webcam posicionada em frente ao piano, deixando-o à vontade para brincar com a imagem de seus olhos tortos. Quase sem falar com o público no show do Rio, só falou com os paulistas alguns “obrigado” ditos quase sem sotaque. A única exceção veio antes de “You and…”, quando anunciou a música “para os ianques” nos dois shows e antes de entrar na segunda vez em que “Creep” foi tocada no Brasil, em São Paulo, quando perguntou se o público sabia qual era a próxima. No Rio, o diálogo ficou por conta de Ed, em português mesmo, que apresentou a banda em “Airbag” (“nós somos Radiohead”) e mandou um “bom pra caralho!” que resumiu o espírito do show depois de “Reckoner”, fechando o segundo bis na Apoteose.

Guitar hero compenetrado, Ed é instrumentista de rock clássico, herdeiro de uma genealogia de seu instrumento que inclui Eric Clapton, Jeff Beck e David Gilmour, que sabe a hora em que deve ficar no centro da canção e quando é hora de deixar outro músico brilhar. Já Jonny é o típico guitarrista pós-punk, porém destemido frente à grandiosidade – ecoa tanto a guitarra de The Edge quanto à do Public Image Ltd, do Pere Ubu e dos Talking Heads. Sabe que a eletricidade pode comunicar com ou sem a guitarra, por isso dedica-se tanto às seis cordas quanto à manipulação de ruídos em sintetizadores analógicos e pedais de efeito, jogando transmissões de rádios brasileiras para dentro de “National Anthem” e, em São Paulo, tratando-as como dub em “Climbing Up the Walls”. Completos à perfeição, ambos guitarristas ladeavam Thom Yorke como se respondessem pelas duas personalidades do cantor – às vezes mais o doutor Jeckyll (Ed), outras senhor Hyde (Jonny) – ao mesmo tempo em que agem de forma semelhante. Basta ver como se comportam em momentos distintos, longe de seus instrumentos – quando assumem a percussão em “There There” ou quando dedicam-se apenas a manipular efeitos sintéticos e a gravação com a voz de Thom em “Everything In Its Right Place”.


Eis a estrutura básica da banda – Colin e Phil agem como um mesmo instrumento, uma cozinha clássica de banda de rock inglês que evoca tanto o Led Zeppelin quanto os Smiths ou o Clash. A dupla de guitarristas conversa com o piano, a guitarra ou o violão de Thom Yorke em progressões de acordes remanescentes de clássicos ingleses dos anos 70 como Abbey Road, Dark Side of the Moon, Arthur, Phisical Grafitti, A Night at the Opera e The Lamb Lies Down on Broadway. As canções ganham aspecto épico e tratamento rebuscado que fazem muitos menosprezarem a banda como intelectualizada demais – como foram menosprezados seus antecessores. Mas o Radiohead é uma banda que, por mais que componha álbuns conceituais e acene para a música eletrônica de vanguarda, sobrevive em suas canções, na forma como eles cristalizam determinadas emoções em seqüências de acordes, refrões memoráveis, letras que traduzem sentimentos contemporâneos e a reinvenção da dinâmica instrumental do rock entre os anos 60 e 70.


E ao vivo estas faixas mostram sua força – principalmente as de seus três grandes discos, OK Computer, Kid A e In Rainbows. O repertório dos dois shows foi muito parecido e seguiu a média da turnê do ano passado. Tocaram tanto o In Rainbows na íntegra quanto as mesmas faixas de Kid A (“Idioteque”, “National Anthem”, “Everything In Its Right Place”) e do Hail to the Thief (“There There” e “The Gloaming”), além de uma única música em comum do Amnesiac (“You and Whose Army?”). Do OK Computer, só “Paranoid Android” e “Karma Police” foi tocada nos dois shows – “Airbag” e “No Surprises” só foram ouvidas no Rio, “Exit Music”, “Lucky” e “Climbing Up the Walls” apenas em São Paulo. As duas apresentações ainda contaram com faixas do segundo disco da banda (“Just” e “Street Spirit” no Rio e “Fake Plastic Trees” em São Paulo) e com o encerramento por conta de “Creep”, encerrando por vez a discussão a respeito da canção mais popular do Radiohead no Brasil. Outras sutis diferenças puderam ser sentidas – enquanto “How to Disappear Completely” só tocou no Rio, “Pyramid Song” e “Talk Show Host” só foram ouvidas em São Paulo. Mas se você acompanha o Radiohead como um todo e não é fixado em apenas um álbum, assistir a apenas um show já deu um belo panorama da carreira do grupo. Várias faixas ficaram de fora (“Wolf at the Door”, “Knives Out”, “Let Down”, “2 + 2 = 5”, “Planet Telex”, “Morning Bell”, “High and Dry”, “Electioneering”), mas quem assistiu a apenas um dos dois shows teve um belo panorama da força da banda ao vivo e de como ela coloca suas canções em primeiro plano. O público respondeu à altura: no Rio, a massa continuou “Karma Police” sozinha, cantando “for a minute then/ I lost myself/ I lost myself” mesmo depois que a banda deixou de tocar, enquanto em São Paulo o público continuou “Paranoid Android” sem a banda com seus “rain down” sendo seguidos por Thom Yorke – que quase ameaçou tocar “True Love Awaits”, mas foi levado pela força das próprias canções.

Até o cenário favorecia às músicas. Ao contrário de outros medalhões que enchem suas apresentações com efeitos especiais, fantasias, dançarinos, criaturas infláveis ou estruturas gigantescas, o Radiohead preenche o próprio palco com um efeito simples e genial. A série de tubos dispostos na vertical sobre a banda funciona como um telão projetado sobre um candelabro, uma luz refletida em código de barras, que amplificava a iluminação como as caixas aumentavam a potência sonora da banda. A cada faixa, tons fortes tomavam conta da ribalta, vinculando cores (In Rainbows, afinal de contas) a andamentos musicais – laranja, vermelho e roxo brigam nos momentos mais intensos, o azul cai sobre as baladas mais sentimentais, o amarelo anuncia climas áridos e o verde vinha nas músicas mais rápidas.
Alternando as cores com claros e escuros e as próprias imagens em telões colocados atrás e nas laterais do palco (equipamento que falhou durante as cinco primeiras músicas do show de São Paulo), a iluminação da turnê In Rainbows servia apenas para destacar as qualidades musicais da banda, usando estrobos e luzes negras para enfatizar mudanças de andamento, solos instrumentais e efeitos eletrônicos. Triste para quem não foi ao show: as gravações em vídeo quase nunca fazem jus aos tons de cores usados ao vivo.


No centro de tudo, dominando milhares de corações e mentes em pouco mais de duas horas, o Radiohead é dessas bandas que funcionam melhor quando falam às multidões. Descendentes diretos do U2 dos anos 80, eles ecoam simultaneamente a fase mais católica do grupo irlandês quanto seu período europeu do início dos anos 90 – soando quase sempre dúbio e ambíguo, entre o desespero e o conforto, o doce e o amargo, e assim conectando-se com outra importante banda em sua formação, os Smiths. O quinteto consegue fazer os dois grupos soarem próximos em canções que também remetem às carreiras solo dos Beatles, ao momento em que o Who começou a soar opulento e ao Genesis antes da saída de Peter Gabriel. O som da banda então é revestido por duas camadas diferentes de contemporaneidade ao fim do século 20 – a redescoberta do refrão proporcionada pela conjunção grunge/britpop no início dos anos 90 e à lenta diluição das diferentes facetas da música eletrônica (desde a mais séria ao seu lado mais fútil) com a música pop. Difícil imaginar que o cenário pop atual florescesse e abrisse espaço para bandas como LCD Soundsystem, TV on the Radio, Killers, The National, Bloc Party, Sigur Rós, Interpol, Modest Mouse, Árcade Fire e Franz Ferdinand não fosse a importância e o pioneirismo do Radiohead nos anos 90.

E a vinda da banda ao Brasil no início de 2009 fechou não apenas o ciclo aberto com o certa vez mítico anúncio dos shows da banda no país como talvez uma adolescência longa demais no que diz respeito a apresentações internacionais por aqui. Desde que foi cogitado pela primeira vez, logo após o lançamento de Kid A, em outubro do ano 2000, o show do Radiohead no Brasil era algo que deixava de ser um mero boato e ganhava contornos de lenda. Nesse meio tempo, vieram para o Brasil artistas que pareciam ainda mais inatingíveis que o grupo liderado por Thom Yorke, além de quase todas as bandas e novidades internacionais que apareceram neste início de século.
Se existe uma coisa de que não podemos reclamar hoje em dia, é de shows internacionais no Brasil. Quando éramos a periferia da periferia do mundo – quando “Brasil” era quase sinônimo de “Acapulco” ou “Bahamas” –, grandes nomes do showbusiness mundial só pisavam aqui de férias. Entre as visitas de Brigitte Bardot a Búzios e dos Rolling Stones ao interior de São Paulo nos anos 60, o Brasil recebeu visitas esporádicas de grandes artistas que quase nunca vinham fazer shows, apenas espairecer ao sol tropical de nossas bucólicas e desertas praias do passado. Quando vinham fazer shows, artistas como Kiss, Alice Cooper, Police e Queen causaram comoção no inconsciente coletivo na década de 70 e início dos anos 80 – pode parecer estranho, mas houve um tempo em que toda a cultura relacionada ao rock era vista como algo alienígena no Brasil. Daí a importância da geração dos anos 80 – consagrada nacionalmente em um evento (o primeiro Rock in Rio) que trazia, numa só vinda, mais artistas estrangeiros para o país em uma semana do que todos os grandes shows internacionais desde o início daquela década (Sinatra no Maracanã incluso). O festival inaugurou a era que parece encerrar agora, em que grandes artistas são capazes de arrastar multidões para estádios e reviver épocas passadas em palcos do terceiro mundo.


Se hoje rimos da décima oitava vez que o Deep Purple se apresenta em uma cidade do interior de Minas ou quando pela enésima turnê em que três ou quatro bandas australianas passeiam pelo litoral do sul brasileiro, um dia estes mesmos eventos já foram recebidos como acontecimentos históricos. De 1985 para cá, assistimos a shows de todos os principais artistas da história da música moderna –os titãs do pop, os fundadores do jazz, a nata do rock alternativo, os maiores nomes da música eletrônica, os pais do rock’n’roll, os criadores da black music, grandes bandas de heavy metal, hardcore, reggae e disco music. Esta história da música moderna foi revista enquanto vários artistas novatos puderam visitar o Brasil em seus primeiros passos e quando o circuito de shows internacional passou a ser pulverizado. Tudo bem, são menos que dez empresas que ainda trazem os grandes espetáculos internacionais para cá (juntando aos nossos shows favoritos apresentações de espetáculos da Broadway ou do Cirque de Soleil). Mas hoje já há uma segunda divisão considerável de empresários e agentes de shows que buscam shows que não necessariamente pertençam ao ambiente de negócios que se tornaram as vindas de artistas estrangeiros para cá. Assim, ano passado pudemos assistir tanto aos shows de Bob Dylan, Justice, Madonna e Kanye West quanto aos de Will Oldham, Vaselines, Young Gods, Black Lips e Yelle, que passaram pelo Brasil em apresentações bem menores – e em cidades que não são apenas o Rio de Janeiro e São Paulo.

Resta saber o que vai acontecer a partir de agora. Afinal, são 25 anos que nos colocaram no circuito de shows do mundo, que viram nossas estruturas para este tipo de evento crescer (embora ainda estejamos bem distantes do ideal) e artistas brasileiros entrarem neste mesmo mercado de shows – seja o Sepultura, o DJ Marlboro ou o Cansei de Ser Sexy. A vinda do Radiohead ao Brasil parece encerrar uma era de ineditismo de grandes shows por aqui e vem junto com o fim do Tim Festival, que viu em sua edição passada a última oportunidade de se cobrar separadamente ingressos para artistas que vêm num mesmo evento (paradigma redefinido pelo festival Planeta Terra e seguido à risca pelo Just a Fest). O próprio nome “Just a Fest” entrega a vala comum que este tipo de evento acabou se tornando: traga um grande artista, empurre mais outros dois, um brasileiro e eis um festival.

É hora de repensar esse formato. Ao mesmo tempo em que os grandes nomes da indústria do disco vão se reduzindo a um mero punhado de veteranos, o conceito de festival parece fadado a entupir palcos com dezenas de bandas que contam com duas ou três músicas legais e que são mal vistas por multidões desinteressadas. Talvez fosse hora de investir em um novo padrão, em novas experiências de contato com o público. Por que não há um festival grande destes só com artistas nacionais? Cadê o South by Southwest ou o CMJ brasileiro? Por que a Virada Cultural de São Paulo não pode se tornar tão importante quanto o festival de Roskilde, na Dinamarca? Onde estão nossos shows ao ar livre, as discotecagens que acontecem de dia, apresentações na rua, em teatros, em escolas?




Quando acabarem todos os grandes shows, quais você vai ver?


Resenha Por Alexandre Matias
Site> Trabalho Sujo




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Radiohead em São Paulo

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16:53
Foto: joão Leno Lima

Assim que ouvi Ok computer pela primeira vez, acredito que por volta de agosto de 1997, tomei um susto tão grande que decidi dividir a experiência com meu padrasto. Fã de Kraftwerk e de Pink Floyd (cresci ouvindo sinos em volume máximo), provavelmente ele entenderia aquilo tudo melhor que eu. Lembro até hoje a reação desejeitada daquele homem grisalho, já turrão e (às vezes terrivelmente) cético: depois de um longo período de silêncio, o Mr. Sisudez se deu por satisfeito lá pela quinta ou sexta faixa. “É impressionante”, ele observou, quase cientificamente. “Se eu tivesse a sua idade, ouviria sem cansar.”

Ficamos nisso. Acredito que, depois daquela impressão animadora, meu padrasto nunca voltou a um disco do Radiohead. Como se, incapaz de acompanhar o galope de uma geração por ele desconhecida, preferisse manter distância das estranhas (e talvez maravilhosas) novidades cultuadas por meninos de 14 anos de idade. Como se dissesse: “ok, Tiago, agora você sabe o que sinto quando ouço The dark side of the moon.”

Duvido que me padrasto tenha assistido aos trechos do show de sábado em São Paulo, exibido na tevê por assinatura. Não o interessa. Posso dizer sem margem de erro: foi retrato de uma geração. A minha geração.

Provavelmente ele teria gostado do que vi (que, para mim, não vale menos que 10/10). A sensibilidade musical do meu padrasto, apesar de excessivamente seletiva (cinco ou seis bandas são o suficiente para mapear toda uma existência), foi moldada por um rock inventivo e atmosférico, ambicioso e monumental. Anos antes de Ok computer, mostrei a ele Nevermind e tudo o que recebi em troco foi um “tsc, o ser humano é um projeto que não deu certo”.

O show do Radiohead é ambicioso e monumental como eram os álbuns de rock progressivo dos anos 70. Mas também é catártico, emotivo e atormentado como o pós-punk do final daquela década. Há como identificar essa mão-dupla de referências em cada um dos álbuns da banda. Em Ok computer. Em Kid A (ainda que rarefeita). Em In rainbows (ainda que coberta por um bafo quente de soul music). Mas, no palco, essa equação se faz visível, reluzente, pulsando diante dos nossos olhos (deslumbrados, talvez cansados, talvez incomodados ou frustrados, mas hipnotizados).

É nosso reflexo. A imagem de quem viveu os anos 90 e seguiu se transformando até chegar aqui, no final da primeira década do século 21. Radiohead é, de certa forma, nossa história (minha e dos outros que o adotaram como trilha sonora para a adolescência). E, de outra forma, a história muito precisa de um período de transformações fundamentais para a música pop. Intencionalmente ou não, os ingleses refletiram o furor grunge (no hit Creep), a desilusão do fim de século (em Ok computer) e a fragmentação do pop via web (Kid A foi o primeiro grande filho do Napster) até antecipar a morte da indústria fonográfica (em In rainbows, distribuído de graça, independente de verdade).

A discografia do Radiohead pode sim ser encarada como um tratado para um mundo em transe. Você ouve Ok computer, por exemplo, e entende a crise econômica. Sério.

No palco, a banda tenta resumir essa ópera sem soar didática ou acomodada (a liberdade de criação é a bandeira que eles continuam levantando). Trata-se de um desafio e tanto. Dois dias antes, assisti a um show do Iron Maiden e tudo o que os velhos metaleiros conseguem (dignamente, para os padrões do metal; nada contra) é enfileirar canções conhecidas da forma mais plana possível, com um ou outro cenário engraçadinho - o que 90% das bandas praticam desde os anos 60. O show do Radiohead vai bastante além desse formato-padrão. É um espetáculo mais intrincado.

Assisti ao show com uma amiga que não conhecia nada além de In rainbows. No final da apresentação, virei-me para ela e disse: “Você acabou de ouvir tudo o que precisa saber sobre a banda. Isto é Radiohead.” Pouco depois, ouvi reclamações de fãs que queriam ter cantarolado hits de The bends. Mas faria algum sentido? A jornada do Radiohead não tem volta. Entendi muito bem que Creep, escondida lá no terceiro bis, era uma faixa bônus que, apesar de agradar aos fãs (e foi uma apoteose), destoa bastante da fase em que a banda se encontra.

A banda se jogou tão decididamente na própria aventura que muitos dos fãs ficaram pelo caminho. Natural. Conheço que deteste Kid A. Também sei dos que desprezam hits como High and dry. O show abraçou essas duas facetas, mas resgatadas a partir dos climas quase transcendentais de In rainbows (a iluminação é, por si só, obra-prima: engolida por tubos de luz, a banda toca literalmente dentro de um arco-íris). Uma banda na trilha do sublime.

Mais que isso: uma banda madura. Quem dera se toda maturidade soasse assim. O rigor técnico aliado à interpretação emotiva, a pompa de superprodução afinada à elegância do conceito (até as cores do telão, em meios-tons, impressionavam pelo detalhismo, pela finesse). Os sets que mudam a cada concerto, mas são sempre executados de forma impecável. Improvisos calculados, mas que soam vivos, doídos, frágeis. Thom Yorke é o Kurt Cobain que cresceu, entendeu os mecanismos da música pop e venceu o monstro sem desligar-se da angústia (e viver neste mundo continua difícil, com ou sem maturidade). Hoje, não há band leader que o supere.

O show de São Paulo oscilou do folk mais cru (a emocionante Faust arp, com dois violões e ponto final) à eletrônica mais cerebral (a geleira chamada Idioteque) - e cobriu uma série de etapas intermediárias entre um extremo e outro. As canções menos virulentas acabaram se destacando - com momentos arrasadores como Karma police, Fake plastic trees, Exit music (for a film) e Pyramid song -, interrompidas vez ou outra por espasmos de ruído (Bodysnatchers, The national anthem). Síntese do show e da carreira da banda, Paranoid android foi reconstituída com fidelidade absoluta - e agarrada pelo público, que fez coro, prolongou os versos, não quis soltar. Sete minutos que passaram como sete segundos.

No total, ficamos perplexos por cerca de 2h20. Pareceu pouco. Eu ficaria ali, de pé, apertado pela multidão, talvez de cabeça para baixo, por mais quatro horas (ouvir Lucky e Climbing up the walls assim, no susto, é de provocar parada respiratória). O golpe de misericórdia veio no final do segundo bis, com uma versão acelerada para Everything in its right place: as luzes vomitavam os versos da canção mais surrealista da banda, enquanto Thom Yorke ia desaparecendo lentamente.

Sabemos tudo o que precisamos saber sobre o Radiohead. O resto é mistério.


Resenha por: Tiago Superoito
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Radiohead: Agora é oficial

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11:24
Foto por: João Leno Lima


Agora é oficial. O século 21, musicalmente, começou e quem veio pra mostrar e comprovar foi uma banda inglesa, de Oxford, a melhor banda de rock do mundo, também conhecida como Radiohead

Um outro inglês, Eric Hobsbawn, já tinha nos informado que o século 20 foi meio preguiçoso e só resolveu começar já entrado na adolescência, em 1914, com a Primeira Guerra Mundial. Apesar de meio temporão, o século 20 também foi um apressado, e resolveu se terminar todo bem antes da hora marcada, lá por 1989, com o final do império soviético.

Já são vinte anos e a gente aqui, batendo o pezinho e perguntando a nós mesmos qual o sinal ou sinais de que o novo século 21 começou e quando. Eu, pelo menos, entendi a mensagem no último domingo, quando o messias apareceu na forma do Thom Yorke, um vocalista desse tamanhinho e muito atormentado, que cantou os novos tempos e nós, mais de trinta mil seguidores, fomos junto. Que momento, minha gente! Até esse insensível aqui se emocionou e isso não acontecia desde, quando mesmo?

Porque eu não vou a shows. Já que somos íntimos, meus milhares de leitores e eu, posso confessar vários dos meus muitos pecados, em especial os piores. Não gosto de brócolis, não gosto de teatro, ou ao menos de atores vivos na minha frente, e não vou a shows por motivos parecidos.

Adoro música, como todos os leitores e o senhor aqui ao lado. Mas não sinto um interesse especial por músicos, que falam uma língua que eu entendo quando escuto a musica que fazem, e várias linguas que eu não entendo se estamos no mesmo bar.

Não só por isso. Shows, concertos de rock em espaços grandes, fazem parte da minha visãozinha do inferno, que inclui encontros evangélicos, festivais de axé e festa do peão boiadeiro. Pagar muito dinheiro, achar uma forma de transporte que nos leve e traga, enfrentar o calor, ou a chuva, ou ambos e, muito pior, os banheiros químicos, para finalmente ver lá longe em um palco um grupo de músicos que eu escutaria melhor em casa, simplesmente não faz sentido pra esse neto inconformado da minha avó Jovita.

E tudo isso eu enfrentei nesse ultimo domingo.

Já comecei treinando no sábado, rompendo com a minha norma de não ir ao teatro ou a shows e indo ver uma algo que era ambos, o confuso espetáculo Homemusica do Michel Melamed. Devidamente aquecido, lá fui eu Francisco Morato abaixo, até a distante Chácara do Jockey, um lugar que reúne todos os ingredientes que listei acima e ainda um suave cheiro de estábulo, uma beleza.

E não foi apenas isso: para finalmente poder ver em ação a melhor banda de rock do mundo, eu precisei ver a pior, enfrentando a indigência musical da Los Hermanos. Uma banda carioca chamada Los Hermanos deveria se limitar a churrascarias, e essa resolveu ganhar o mundo. Azar nosso. O oposto de amor não é o ódio, mas a indiferença. O oposto de boa música não é música ruim, mas musica que não faz diferença.

Portanto, prezados leitores, tudo que eu odeio em shows de rock se fez presente nesse show e o sofrimento foi, sim, enorme. Eu me senti como um peregrino se dispondo a fazer o Caminho de Santiago, pagando pelos pecados e por não gostar de brócolis, esperando apenas que tudo isso me trouxesse, ao final, uma visão do Senhor e um tubo de Cataflan em spray.

A visão eu tive. A visão deslumbrante de um espetáculo de grande música, de um tipo incomum e que melhor se constrói ao vivo, em um grande espaço, diante de uma multidão a ser convertida, na melhor síntese do que possa ser um espetáculo de rock nesses tempos e do que ele pode proporcionar, quando se dispõe a isso.

A nossa época, no que ela tem de civilizado, oferece dois momentos para o encontro de grandes números de pessoas. Jogos de futebol e concertos de música. Os jogos substituem as batalhas e os concertos substituem as igrejas, acho, talvez essa seja a razão para a força de uma banda messiânica, como U2, ou pseudo-satânicas, como Rolling Stones e toda aquela cambada do metal. Nesses encontros, a música cede lugar para um sentimento místico e estar presente é mais importante do que ouvir, mais ou menos como uma missa, nos velhos tempos. Nesse sentido, iluminação, efeitos especiais, telões, todos compõe essa construção do ambiente de templo. Isso se fez particularmente presente no palco da Radiohead, mas deixou de ser um problema segundos após a abertura do concerto, quando tudo aquilo fez absoluto sentido, essa sendo a maior diferença entre decoração e arquitetura. O que a Radiohead fez foi construir o seu templo e oferecer o seu ritual, a todos, até mesmo aos fans do Los Hermanos, que devem estar sofrendo as sequelas psicológicas até agora.

E o ritual da Radiohead era centrado no ouvir! O que seduzia era a música e não a iluminação ou os fogos de artifício. Os telões mostravam não os músicos, mas a manufatura da música, ali, sendo construída diante dos nossos olhos e ouvidos e esse discurso fundamental mostra porque Radiohead é a banda que é, tão superior, musical e conceitualmente a tudo isso que está aí.

Desde a abertura, com 15 Steps, até o final, com a tradicional Creep, tudo que a banda fez foi apresentar o seu som único e manter uma multidão presa a ele. Não importava se a música era conhecida, se tinha feito sucesso nas rádios ou na web, não importava a complexidade e relativa atonalidade de algumas construções, contra tudo, contra o século 20 e suas promessas de facilidades das ultimas décadas, a Radiohead manteve todo mundo atento, comendo o que era oferecido em um banquete ritual dos mais raros, talvez o único que eu tenha presenciado, salvo um comício com o Lula dos velhos tempos.

talvez por isso eu tenha sentido o século 21 entrando por ali, por alguma fresta. Aquela música representa ao mesmo tempo a continuidade do rock - em sua capacidade única de traduzir essa época de transformações intensas, o seu presente constante e aceleração rumo a um futuro mais e mais imprevisível -, com a era pós-industrial, centrada na multiplicidade, onde o diverso e o fragmental são áreas escassamente separadas. A musica do Radiohead nega a fragmentação, afirma a complexidade e aponta o caminho da salvação, a capacidade que precisamos desenvolver de nos sustentarmos na multiplicidade, e não na unicidade, dos discursos. A música que a Radiohead nos apresentou é a alternativa mais elaborada, porque compreendida por todos, para o fundamentalismo, e nosso século implorava por algo assim, para finalmente poder começar.



Resenha por: Marcelo Carneiro da Cunha
site> terra magazine.
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Radiohead inesquecível - Creep

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11:47

Gravei Alguns segundos históricos do radiohead em sampa.

Show para uma vida!

Show da década

show pra contar pro filhos...

...

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O dia que não terminou

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09:12

Às dez e pouco do último domingo começaram os gritos e ruídos que anunciavam a entrada do Radiohead no palco da Chácara do Jóquei. A noite estava clara, a temperatura amena e a anunciada chuva não veio. Ao meu redor, todos estavam na ponta dos pés, de pescoços erguidos, como se assim ficassem mais próximos do palco. Os britânicos entraram em cena e começaram o show com 15 Step. Som perfeito, o público não se continha.


Por alguns instantes ouviu-se pouco a música que vinha do palco. Eu não sabia se me deixava levar pela canção ou se prestava atenção à apresentação - só depois de um tempo eu soube equilibrar as duas coisas. A primeira música indicou o que as 30 mil pessoas que lotavam o espaço poderiam esperar das próximas duas horas. Na sequência, vieram There there, do Hail to Thief e National Anthem, do Kid A, disco que deu início à fase mais experimental do grupo.


No palco, via-se um equilíbrio entre feeling e profissionalismo. Thom Yorke parece sentir profundamente cada palavra e acorde que toca. Johnny Greenwood cuida feito louco para que saia tudo bem com os apetrechos eletrônicos que acompanham a banda desde Kid A. Durante o show, os telões trouxeram imagens dos cinco músicos em enquadramentos inusitados.


Apesar de os trintões de Oxford não terem dito mais que uns poucos "obrigados" entre as músicas, a comunicação com o público não poderia ter sido melhor. O auge foi ao fim de Paranaiod Andriod, um dos hits da noite. A música terminou, mas a galera não parou de fazer o backing vocal. Com o violão em mãos, Yorke entrou no clima e, em coro com a platéia, continuou a primeira voz, estendendo o final da canção. Isso foi no primeiro bis. A banda ainda voltaria ao palco outras duas vezes.


Dramas contemporâneos


O set list da noite teve por base o último disco, In Rainbows, que foi disponibilizado para download pela própria banda. A apresentação deixou claro porquê o Radiohead é um dos nomes mais importantes do pop contemporâneo. Os ingleses estão antenados com o que se passa em seu tempo. Em todos os sentidos. Tanto no que diz respeito às tendências musicais quanto à compreensão dos dramas do século 21. As críticas acerca do show foram unânimes em dizer que a noite foi histórica.


As coisas, no entanto, ainda me são um pouco nebulosas, confusas. É como se o último domingo ainda não tivesse terminado. A distorção pesada antes do refrão de Creep, que encerrou o espetáculo, ainda paira na memória. Junto a ela, o monte de copos plásticos espalhados pelo local após a apresentação e o estacionamento surreal, que trazia à tona a realidade de São Paulo. O evento refletiu bem as contradições da vida contemporânea nas grandes cidades, regada a desigualdades, congestionamentos, gás carbônico e consciência ambiental. A noite não poderia ter sido mais Radiohead.





Resenha por: Diego Dacax
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O show da década

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17:14

Difícil escolher por onde começar ao falar sobre o show do Radiohead, no último domingo, na Chácara do Jockey, em São Paulo. A esta altura, o caro leitor já deve ter lido de tudo na extensa cobertura feita pela internet – até mesmo boas gravações piratas já podem ser baixadas na rede. Mas há coisas que merecem a tinta do papel para a posteridade, e a noite de domingo é uma delas. Se o Radiohead mudou os rumos da música pop com o disco Ok Computer (1997), podemos dizer que a turnê atual, do disco In Rainbows, é a continuação desta revolução nos palcos.

O Brasil recebeu o show de rock da década. Que me perdoe o U2 e sua pirotecnia, mas a banda de Thom Yorke mostrou que não são grandes telões que fazem o rock virar arte. A escolha do set list, completamente intuitiva – as músicas de São Paulo foram diferentes das do Rio, sem prejuízo para nenhum dos lados –, demonstra a diferenciada relação que o grupo mantém com sua música. “Vamos com o que estamos sentindo”, definiu Thom Yorke em entrevista a Edgar Piccoli, antes do show. Enquanto o pessoal do Rio conferiu Street Spirit, No Surprises e Just, o de São Paulo ganhou Exit Music, Lucky e Fake Plastic Trees. Quantas bandas no mundo podem se dar ao luxo de fazer dois set lists perfeitos e diferentes em uma mesma turnê?

A infraestrutura do palco fica na medida certa entre o espetacular e o econômico: várias câmeras – pelo menos três delas sobre Yorke – garantem uma edição instantânea e frenética nos telões. A fantástica iluminação, assinada por Andy Watson, que trabalha com a banda desde 1993, é ecologicamente correta, consumindo apenas 30% da energia de luzes convencionais. O resultado é exagerado – no bom sentido. As lâmpadas finas e compridas garantem luzes que parecem dançar com as músicas. Mas nenhum desses detalhes supera a essência do que foi o show: uma banda no seu auge do ponto de vista artístico – coisa rara de aparecer por aqui – e em completa sintonia com o público.

Dois momentos resumem bem a atmosfera de êxtase que envolveu a Chácara do Jockey. Em Exit Music, o silêncio entre as 30 mil pessoas era inacreditável – nada além da voz e do violão de Thom Yorke podiam ser ouvidos. Em Paranoid Android, a música já havia sido encerrada quando a multidão entoou novamente, sozinha, os versos “rain down, camon rain down”, obrigando a banda a retomar alguns acordes e acompanhar o público. Até mesmo quem já havia assistido ao mesmo show fora do país (meu caso e de outros jornalistas com quem conversei) não tem dúvida em dizer que o de São Paulo foi superior e único. Os descontos: a desnecessária e desentusiasmada reunião do Los Hermanos – que teve um inevitável cheiro de caça-níquel – e a péssima infraestrutura do festival. Nada que vá impedir este show de ser lembrado como o grande show de rock dos anos 2000 – o show de uma geração inteira.

*** Texto publicado no Segundo Caderno da Zero Hora de hoje.
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No pé do arco-iris, uma banda de ouro

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14:38

É fácil, quase clichê, dizer que o Radiohead é uma banda histórica, o nome mais importante da música nos anos 2000. Está tudo ali: da fase "patinho feio do britpop", no começo de carreira, passando pelas guinadas de OK Computer-Kid A-Amnesiac e chegando ao tapa na indústria de In Rainbows, oferecido em MP3 ao público a preço livre.

Mas essa impressão só ganha peso ao se ver o quinteto interagindo no palco, cada um com sua personalidade, funcionando como uma orquestra bem afinada. Ao centro, Thom Yorke parece suar para resumir em si as características dos colegas: a estranheza do guitarrista Johnny Greenwood e o porte do grandão Ed O'Brien, mais a técnica do baterista Phil Selway e até o jeito pimpão do baixista Colin Greenwood.

Yorke não é estranho à toa. E leva a sério o seu papel de anti-herói do pop. No primeiro gemido de "15 step", que abre In Rainbows e deu o pé na porta do show, o vocalista já tinha agarrado o público pela espinha. Nem precisou do "boa noche" a seguir, uma das suas raras frases.

Afinada e esperta, a sessão de descarrego dos ingleses também passa pelo palco e sua iluminação, com dezenas de grandes pilares refletores: as luzes seguem as cores do arco íris, esquentando e esfriando o espaço, e chegam a "chover" durante "Paranoid Android". A descrição soa cafona, mas é eficiente. Ao fundo, o telão com jeito de videoclipe é dividido com as câmeras individuais dos músicos, focalizando cada um de um ângulo diferente.

In Rainbows pautou as duas horas de show: a banda tocou o ótimo álbum na íntegra, levantando a noite com a forte "Reckoner", a linda "House of Cards" e "All I Need". Mas é nos seus outros hits que o Radiohead conquistou os fãs, que esperavam este show há mais de uma década.

Como a passagem por aqui era inédita, a banda fez questão de incluir faixas que não fazem mais parte do circuito de shows do lado de lá do Equador. Foi um resumão de tudo o que a gente perdeu nesse tempo todo.

Hail to the Thief apareceu pouco, mas deu o duelo de tambores abrindo "There There". Assim como Amnesiac que, além de "Pyramid song" (com Johnny Greenwood tocando sua guitarra com um arco de violino), gerou um dos pontos altos da noite, já no segundo bis: Yorke ao piano, tocando "You and Whose Army?" e encarando a platéia diretamente nos olhos (tortos) com uma câmera em close. E, claro, "Fake Plastic Trees", representando The Bends, o segundo álbum.

Os clássicos Kid A e OK Computer foram os mais lembrados. "Idioteque" levantou o coro, "Optmistic" foi o momento hipnose e "Climbing up the Walls" teve Yorke cantando de um jeito mais selvagem que nunca. Aqui e ali, o grupo se esforçava para surpreender e mudar os arranjos das faixas. Johnny, por exemplo, se divertia em usar um velho rádio para samplear emissoras locais durante algumas faixas, como "The National Anthem".


Depois do segundo bis (que acabou com "Everything in its Right Place"), a banda volta ao palco e Yorke oferece "Creep", o sucesso da sua outra encarnação, para acabar com a noite. Ele explode ao microfone, o público explode no coro e o palco explode em luz e interferência, como ainda não tinha acontecido
É como se tivessem guardado algumas surpresinhas para a platéia ainda virgem. E mostra que, mesmo demorando, a banda aportou por aqui no momento certo - se essa passagem única acontecesse há cinco anos ou daqui a cinco anos, não teria metade da relevância que teve agora.

Resenha por: Eduardo Viveiros

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Radiohead para fãs – espera recompensada

0
14:09
Se você está lendo esta resenha, é o tipo de pessoa que, de algum modo, vai saber responder à pergunta: “onde você estava quando o Radiohead tocou no Brasil?”. As respostas podem ser inúmeras: “Viajei de Recife para ver os dois shows”, “só fui no Rio”, “vi pela TV”, “fiquei do lado de fora negociando com cambistas”, “eu trabalhei”, “fiquei com raiva do preço (ou do tamanho do público, ou da distância do local do show) e resolvi passar o domingo em casa”.

Provavelmente deve ter alguma história sobre como conheceu a banda: comprou o CD importado do álbum “The bends” ou a edição nacional de “Ok computer” após ler alguma resenha, baixou por curiosidade o primeiro pirata de “Kid a”, ou fez download gratuito (e legal) de “In rainbows”. E deve ter aguardado ansiosamente, desde então, o dia em que a banda tocaria ao vivo no Brasil.

Mas como diria o quinteto inglês em uma de suas próprias canções, “true love waits” (“o amor verdadeiro espera”). E o Radiohead se esforçou em cada momento de seu show para fazer a espera valer. Começando pelo repertório: no primeiro bis, o set list inicialmente incluía “Wolf at the door”, mas a música foi trocada para “Fake Plastic trees”, um dos maiores hits do grupo no país.

Foi uma apresentação para fãs fiéis, daqueles que conhecem todas as músicas de “In rainbows” (o álbum de 2007 foi tocado na íntegra) ou a letra do lado b “Talk show host”, da trilha sonora do filme “Romeo + Juliet”. Em retorno, a banda sorria, pulava, dançava, olhava feliz e perplexa (como deve fazer noite após noite) para a plateia.

O Radiohead não é uma banda comum, e eles demonstram isso até na hora de fazer o público participar do show. Além das tradicionais palminhas e mãos para cima, a banda grava a própria plateia cantando e depois toca a gravação de volta, gerando momentos emocionantes como em “Karma police” e especialmente “Paranoid android”, quando a música virou um dueto entre o público e o vocalista Thom Yorke.

Arriscando uns “obrigado” e “boa noitchi”, Yorke foi o mestre de cerimônias tímido que o som do Radiohead promete e precisa. Sorri, canta de olhos fechados, faz gestos para o público, dança desajeitadamente, fala pouco. Em um dos momentos mais estranhos e intensos do show, para em frente da câmera (uma das inúmeras espalhadas pelo palco, mistos de webcam com vídeo de segurança) instalada no piano, olhando fixamente enquanto canta “You and whose army” – vai se aproximando, e a lente parece que vai perfurar seu olho.

Desde “Kid a”, o Radiohead vem ensinando como se fazer rock sem usar guitarras – isso faz com que Ed O’Brian e Jonny Greenwood transformem-se em muilti-instrumentistas, tocando percussão, teclados, samplers e o que mais vier pela frente. Por outro lado, exploram o potencial das próprias guitarras – assim como Jimmy Page do Led Zeppelin, Greenwood chega a usar um arco de violino para tocar “Pyramid song”.

Além do telão mostrando as imagens das câmeras fixas apontadas para a banda, o palco também é adornado por uma série de colunas luminosas, que vão mudando de cor a cada nova música.


Mas o principal personagem do show foi o próprio público, reagindo entusiasmado o tempo todo a um som nem sempre convidativo ou “fácil”, pulando, acendendo isqueiros, pedindo músicas, dizendo que “o mundo pode acabar agora”, chorando, ficando no mais absoluto silêncio. Foi para aquelas duas horas e vinte minutos de show que cada uma das trinta mil pessoas esperaram por muito tempo (uns doze anos, outros nove, outros dois). E o pacto informal entre banda e plateia foi cumprido à risca: todos ali fizeram valer a pena, até o fim.

Radiohead

Chácara do Jóquei, São Paulo,

Brasil22, Março, 2009

Resenha Por Amauri Stamboroski Jr.

para o portal G1]

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22 de março de 2009, Chácara de Jockey, São Paulo

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13:44

Depois de uma estréia histórica no Rio de Janeiro, a banda rumou para São Paulo e lá mudou o repertório, surpreendeu ainda mais quem já havia visto a banda no Rio ou fora do Brasil e não fez concessões comuns a bandas que se apresentam por aqui (camisa da seleção brasileira, bandeiras nos amplificadores, etc). Não deixou espaço para mais nada além de seu espetáculo.

E que espetáculo! Talvez seja um pouco cedo para definir como histórico o último fim de semana, mas ao mesmo tempo não dá pra escapar do clichê. O showbiz brasileiro já pode se dividir entre antes e depois da visita do Radiohead ao país (esperamos que seja a primeira de muitas). Perto deles, quase todos os outros shows viram brincadeira de criança e alguns soam até mesmo amadores (inclusive os dois que abriram o tal "Just a Fest": Los Hermanos e Kraftwerk). O leitor pode achar que este escriba está exagerando. Sou obrigado a me defender colocando na roda a pesquisa informal que fiz pela Chácara do Jockey.

O Instituto Datajames perguntou a alguns presentes o que haviam achado do show. As respostas não foram iguais, mas todas rumavam para a mesma direção: "histórico", "melhor show da minha vida", "incrível", "inacreditável". Não houve quem não gostasse. Zero porcento. O Radiohead conseguiu 100% de aprovação e não é difícil entender o porquê. Banda amada pelos indies, prometia uma visita ao país há mais de dez anos. Possui um séquito de fãs fiéis e influenciou gerações e gerações de músicos e amantes da boa música. Ainda assim você pode afirmar que isso tudo é exagero. Bem, então você não viu o show.

No palco, o Radiohead é ainda melhor. Cenário, iluminação, performance cênica e musical, setlist, tudo funciona! E tudo é perfeito. Por vezes chega a ser inacreditável que aquele som é produzido por apenas cinco pessoas. A diferença está exatamente na competência. Enquanto a elegância de Ed O Brien e a postura guitar hero de Jonny Greenwood constroem camadas e camadas de guitarras e climas, a cozinha absurda de Colin Greenwood e Phil Selway parece ser discreta e não se sobressai. Apenas parece. E Thom Yorke? O "ratinho" mais famoso da música mundial canta como poucos, é carismático, capaz de deixar a multidão sem fôlego, mas ao mesmo tempo é tímido de dar dó. Um contrasenso? Sim, mas o que seria da banda sem este delicioso contrasenso?


o que dizer do setlist do show? Diferente em uns 60% do show do Rio, a banda mostrou uma faceta um pouco mais indie, ao tirar da cartola pérolas como "Optimistic" e "Pyramid Song", mas sem se esquecer dos hits. Difícil mesmo é apontar destaques, mas talvez a comunhão público-banda na dobradinha "Paranoid Android/Fake Plastic Trees" e a versão de tirar o fôlego de "Exit Music (For a Film)" tenham sido os destaques.


Sim, teve "Creep" e um final apoteótico. Teve também todo o álbum "In Rainbows" e mais pérolas ("Climbing Up The Walls", "You and Whose Army"). E teve também uma mensagem de uma amiga hoje de manhã, que eu vou reproduzir na íntegra:


"James, to totalmente sequelada do show. Acordei hj e fui direto comprar um violão. Mais uma cantora de chuveiro que renasce das cinzas"


É este tipo de reação que um show do Radiohead causa nas pessoas. Ninguém fica indiferente. Em inglês, existe a expressão "of a lifetime". A tradução semi-literal seria "show para uma vida".


E foi mesmo.




SETLIST



15 Step (In Rainbows)


There There (Hail To The Thief)


The National Anthem (Kid A)


All I Need (In Rainbows)


Pyramid Song (Amnesiac)


Karma Police (Ok Computer)


Nude (In Rainbows)


Weird Fishes/Arpeggi (In Rainbows)


The Gloaming (Hail To The Thief)


Talk Show Host (B-side - Trilha Sonora do filme Romeu e Julieta)


Optimistic (Kid A)


Faust Arp (In Rainbows)


Jigsaw Falling Into Place (In Rainbows)


Idioteque (Kid A)


Climbing Up The Walls(Ok Computer)


Exit Music (For A Film) (Ok Computer)


Bodysnatchers (In Rainbows)


Encore 1


Videotape (In Rainbows)


Paranoid Android (Ok Computer)


Fake Plastic Trees (The Bends)


Lucky (Ok Computer)


Reckoner (In Rainbows)


Encore 2


House of Cards (In Rainbows)


You and Whose Army (Amnesiac)


True Love Waits (I Might Be Wrong)/Everything In Its Right Place (KidA)


Encore 3


Creep (Pablo Honey)


Resenha por: Rodrigo James

Site> programaaltofalante.uol.com.br

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RADIOHEAD: W E H O P E T H A T Y OU C H O K E

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13:27


A fase In Rainbows do quinteto inglês Radiohead é seu momento mais alegre, era de maior doçura desde que a banda inglesa assumiu a cabine da nau que leva o rock pelos mares profundos da experimentação eletrônica, eletroacústica e orquestral. Aportados na fama, a banda ganhou leva de fãs e apontou um novo modo de criar música pop. O show apresentado no Just a Fest foi a perna latinoamericana da turnê madura de uma banda que não quer ser a maior do mundo, apenas é naturalmente atual.



Tudo fluiu para que o grupo encantasse: o dub opiáceo no intervalo, o suntuoso palco dórico de som cristalino (sem logotipia), a psicodelia política das bandeiras do Tibete, os tubos acortinados que, como bits gigantes decorativos, podia ser um vela flutuante, um mármore caramelizado, ou o mais puro vermelho sanguinário e estróbico. Tudo no show deles soa novo ou simplesmente estupefato. Os holofotes eram paradoxalmente lindos, em forma de brilhantes, ao mesmo tempo que o telão exibia closes viscerais do rosto de Thom Yorke cantando. Ou gemendo, porque a musicalidade do quinteto é tanta e a resposta do público era tão proporcional, que ele só precisava balbuciar para assumir tons de um barítono púbero.



Foram 20 e poucas músicas, mais de duas horas, três bis e todas aquelas que milhares de fãs queriam ouvir. "Creep" foi redentora e encerrou com o palco fluorescente e cores epilépticas. A banda e seu "you're fucking special" subvertem a o american dream roqueiro de banda perfeita, carismática e bonita. E isso sem bater continência a qualquer outro engodo que, assim como os EUA, a Inglaterra pode criar. Num só riff e gemido de "Lucky", Ed'O Brien engole e vomita tudo que Pulp, Strokes, Oasis, Blur e o britpop criaram em anos. Eles são tímidos e reservados, mas não humildes - apenas objetivos. "The best you can is good enough" (em "Optimistic") resume bem as sempre pontuais intenções da banda, enquanto guitarras flamejantes empurravam a tensão até uma explosão de luzes de lava e epopéia rocker, a bateria posta estratégicamente lá atrás para exigir mais de Phil Selway.



Ali na muvuca do meio, não muito longe de Thom mas também não no gargarejo, as reações eram múltiplas: berros e saudações, canto espontâneo - palmas, muitas palmas - e um bingo de fã pedindo, decifrando ou adivinhando o nome de alguma canção, o que criava uma mistura de verbetes extranhos como "subterranean telex just, just! JUST! paranoid android"... Nessa confusão do som pós-moderno os hits, momentos tão humanos e identificáveis entre artista e público. "Paranoid Android" consumiu um bloco inteiro com seu refrão detentor de guitarra arisca e suja, o back2back entre o público na letra certa e Yorke cantando inverso, toda uma missa Radiohead com ápice na moribunda e acústica "Exit Music": o céu estrelado, notas flutuantes e assustadoras de Jonny Greenwood e público em silêncio cantando o vale das almas. "Breathe, keep breathing"...



Em "The Gloaming" (o crepúsculo), a dicotomia rock e eletrônica da banda teve seu ponto alto, com o verde cor de bit, a base dubstep achatada e Thom Yorke cantando mais melódico e delicado do que o que se ouve no disco (Hail to The Thief, 2003), quando no final alguém na mesa ou sei lá onde picota a saída do microfone em diferentes caixas e lugares no espaço. Mais intervenção na inserção de rádio local em "The National Anthem", que Yorke explica em sua única e boa entrevista ao Brasil; e também na gravação do barulho e das reações da platéia perto do fosso, utilizadas como interlúdios e camadas de um modo que não se entendia de onde vinha aquele som. É como um grande "live act", em que tudo é construído e orquestrado ali. Como quando alguma guitarra geme e os bumbos são golpeados em marcha por Ed e Jonny, Thom dançando esquisofrênico e bizonho, até que num pulo ele para tudo o que acontece, a música acaba e ele no mesmo instante vai até a lateral e conversa algo muito que precisamente com alguém da produção.

Como dito, In Rainbows é doce, quase pueril, mas quente - em "House of Cards", o infalível verso "I don't wanna be your friend / i just wanna be your lover". Sobre a doçura, "Weird Fishes/Arpeggi" e "Reckoner" são tão possíveis de associação com a infância quanto "Fake Plastic Trees", conhecida aqui por uma campanha de TV para crianças deficientes. Em "Videotape", o espamo de delicadeza de Thom (que ele comenta na entrevista do Edgard Piccoli) abre para um dos encerramentos, o arpeggio de "Everything in It's Right Place" e a acidez do limão matinal.

E o show é mesmo como um choque, que frita o cérebro e arregala os olhos alma adentro a serviço da expressão humana, algo muito além de rock'n'roll, música eletrônica, "coisa de depressivo" e uma ou duas canções famosas. Para os iniciados, Radiohead ao vivo é a entrada tridimensional para um mundo sonoro e visual de questões conflituosas e canções dançantes e assustadoras - o que importa é que elas são intensas.

Os não-iniciados puderam entender mais a banda nestes shows brasileiros, e fica a apresentação de uma epopéia sonora e confusa, mas fascinante como o brilho mais intenso de um diamante luminoso em forma de LED, ou o simples e contagiante solo de guitarra dançante. Mesmo que não tenha despertado o deslumbre, a incompreensão é prova da amplitude artística da banda.

Para muitos do que saíram da Chácara do Jockey, algo muito sério acabara de acontecer. Ficou a sensação abobada de ver o espetáculo musical mais significativo da nossa geração, com todos os superlativos que sua alma disconexa possa arranjar. Nós vimos o futuro, e ele estava logo ali.

Fotos: Julio Taubkin, Alisson Gothz, Marcos Hermes e Bianca Tatamiya

Resenha de: Jade Augusto Gola

Site>rraurl.uol.com.br

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O POETA SENTE O PESO DA ALMA DO ABSOLUTO

1
13:36
É sempre a alma a primeira e a ultima a sentir.
o corpo atravessa os eixos possíveis
mas a alma rasga-se pelos espaços interiores
e sangra não sangue mas sonhos.
como blocos de gelos deslizando pelos vulcões dos sentidos
eu desço em espiral na contra mão absoluta
dos meus próprios fantasmas flexíveis.
é sempre a alma a mergulhar-se completamente no
âmago depois do ultimo suspiro alcançável
como o grito que como um raio afunda o invisível
deixando uma cratera de angustia nos
mundos imaginários do sentir.
quando tu vais percorrer como um cometa circular
todas as direções que são permitidas
pelo teu instante presente sempre presente?...
como quadros abstratos abandonados nas ruas
vamos deixando nossos pensamentos essências se
arrastarem pelos becos das horas
como paralelas intimidades inanimadas.
eu, você e os mundos impossíveis promovemos
orgias nas bordas das nossas extremidades pessoais
como anjos feridos por seus próprios desejos de desejos.
espatifamos a nós mesmo mil vezes
jogamos os cacos nas goelas das memórias
e partimos para novos caminhos desasticuladores,
como se auroras e crepúsculos me oferecessem
taças inimagináveis repletas de estrelas
saídas das nossas próprias constelações gritantes
nos afogamos em túneis flutuantes emoldurados por imensidões
e cercado de horizontes cheios de versos perfeitos
e na alma a certeza que existe um absoluto universo a ser percorrido...
mesmo que em cada verso agora haja um vazio
corroendo-o pelas bordas tentando abrir uma fenda
e sufocá-lo com suas mãos de naufrágio
e lagrima-lanças transpassando o rosto sem máscara
e eu longe de engoli-los ou vencê-los às vezes entrego-me às incertezas
como uma ave solitária num céu tempestuoso,
como o olhar do meu amigo ajoelhado no centro de um libiirnto de
lajeamento criado por ele mesmo e que mata ele e todos ao redor
como o verso solitário guardado para um poema nunca escrito.
Mesmo assim a alma se dispara como uma luz indomável
Que surge como um verso no coração do poeta
Por que minha alma é um absoluto
dentro da alma do absoluto.







João Leno Lima Continue

18:30

0
13:58



Um certo universo se expande na minha alma.
É como mergulhar nas densas extremidades desconhecidas da atemporalidade.
no começo, fundiu-me com o passado e o presente nascendo gotas ensopadas
de horas cinzas dissonantes.
Chocou-se com o amargo dos mundos
apenas habitados pela memória e
enroscou-se nos pescoços do destino.
como o filho nos colos da natureza intima.
Sim, um certo universo se expande na minha alma.
Como mecanismos cheios
de conclusões antepassadas indivisíveis
Que se desconstroi em novas ciências abstratas.
Como a força inextrincável das leis divinas.
Está perto desse universo é o mesmo
que estar frente a frente com uma
poesia sendo escrito, cada verso tem a
imensidão de uma nuvem que traz a
sombra na hora exata,
rimas temporárias mesclam-se com café
tomado das salivas dos segundos
ah.. um certo universo se expande na minha alma.
Não ha tempo nem espaço nele,
há asas que crescem cada vez mais quanto mais
que me jogo a essa certeza sensitiva de eternidade colossal,
será que os anjos sentem o mesmo com a mesma reciprocidade entre si?
será que Andrômeda sente-se levemente enciumadas
com essa nova galáxia que reinventa o sublime?
Meu deus parece que conheço esse universo desde sempre
Por que nunca me dissertes?
"calma Poeta” ele me diz
e joga-me na certeza
abismal que passa por baixo das
tempestades, vaga entre as fechas dos
olhares tristes como se passasse por
baixo das portas da solidão deslizando
pelas paredes de vidro dos rostos
apreensivos por alguma ausência tão
abstrata quando real como se o
invisível fosse um grito calejando
os ouvidos do silencio.
Manhãs, tardes e noites, me ouçam...
Um certo universo se expande na minha alma.
Como um cometa psíquico que me leva para um longe inconsciente
como se houvessem pequenos portais em cada fragmento liquido da chuva,
sim, invoco as leis cósmicas para reger esse poema,
como carruagens comandadas por todos os sentidos,
invoco o sol, esse carteiro metafísico das sensações esperançosas,
invoco a matemática da natureza,
a linguagem sábia das crianças,
a dramaticidade translúcida dos poetas,
de Werther a Álvaro de Campos um certo universo se expande na minha alma..
poetas, cada lagrima revelou pequenas estrelas tristes
como feridas no coração da galáxia,
abracei esse universo com os braços calmos do meu pensamento
querendo transferir para mim essa dor intransferível
e deixá-lo apenas com as constelações.
fracassei? minha mão tocou tuas mãos invisivelmente
para evitar qualquer desolação...fracassei?
Meu deus, já é tarde nessa eternidade!
nessas teias tridimensionais
formado por seres humanos consolados pela companhia um do outro não há tempo.
não há relógio capaz de acompanhar essa forma de absoluto
arrisco dizer que no calendário da alma há um recomeço,
há um novo espaço, uma nova sensação possível,
um novo sorriso no impossível, novas musica embalando um redemoinho otimista,
novos ventos descabelando o horizonte descoberto.
Definitivamente...
Um certo universo se expande em nossas minha alma.

Joao Leno Lima
05-03-2009
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