
*** Texto publicado no Segundo Caderno da Zero Hora de hoje.




Afinada e esperta, a sessão de descarrego dos ingleses também passa pelo palco e sua iluminação, com dezenas de grandes pilares refletores: as luzes seguem as cores do arco íris, esquentando e esfriando o espaço, e chegam a "chover" durante "Paranoid Android". A descrição soa cafona, mas é eficiente. Ao fundo, o telão com jeito de videoclipe é dividido com as câmeras individuais dos músicos, focalizando cada um de um ângulo diferente.
In Rainbows pautou as duas horas de show: a banda tocou o ótimo álbum na íntegra, levantando a noite com a forte "Reckoner", a linda "House of Cards" e "All I Need". Mas é nos seus outros hits que o Radiohead conquistou os fãs, que esperavam este show há mais de uma década.
Depois do segundo bis (que acabou com "Everything in its Right Place"), a banda volta ao palco e Yorke oferece "Creep", o sucesso da sua outra encarnação, para acabar com a noite. Ele explode ao microfone, o público explode no coro e o palco explode em luz e interferência, como ainda não tinha acontecido
É como se tivessem guardado algumas surpresinhas para a platéia ainda virgem. E mostra que, mesmo demorando, a banda aportou por aqui no momento certo - se essa passagem única acontecesse há cinco anos ou daqui a cinco anos, não teria metade da relevância que teve agora. 

Foi uma apresentação para fãs fiéis, daqueles que conhecem todas as músicas de “In rainbows” (o álbum de 2007 foi tocado na íntegra) ou a letra do lado b “Talk show host”, da trilha sonora do filme “Romeo + Juliet”. Em retorno, a banda sorria, pulava, dançava, olhava feliz e perplexa (como deve fazer noite após noite) para a plateia.
O Radiohead não é uma banda comum, e eles demonstram isso até na hora de fazer o público participar do show. Além das tradicionais palminhas e mãos para cima, a banda grava a própria plateia cantando e depois toca a gravação de volta, gerando momentos emocionantes como em “Karma police” e especialmente “Paranoid android”, quando a música virou um dueto entre o público e o vocalista Thom Yorke.
Arriscando uns “obrigado” e “boa noitchi”, Yorke foi o mestre de cerimônias tímido que o som do Radiohead promete e precisa. Sorri, canta de olhos fechados, faz gestos para o público, dança desajeitadamente, fala pouco. Em um dos momentos mais estranhos e intensos do show, para em frente da câmera (uma das inúmeras espalhadas pelo palco, mistos de webcam com vídeo de segurança) instalada no piano, olhando fixamente enquanto canta “You and whose army” – vai se aproximando, e a lente parece que vai perfurar seu olho.
Desde “Kid a”, o Radiohead vem ensinando como se fazer rock sem usar guitarras – isso faz com que Ed O’Brian e Jonny Greenwood transformem-se em muilti-instrumentistas, tocando percussão, teclados, samplers e o que mais vier pela frente. Por outro lado, exploram o potencial das próprias guitarras – assim como Jimmy Page do Led Zeppelin, Greenwood chega a usar um arco de violino para tocar “Pyramid song”.
Além do telão mostrando as imagens das câmeras fixas apontadas para a banda, o palco também é adornado por uma série de colunas luminosas, que vão mudando de cor a cada nova música.

Mas o principal personagem do show foi o próprio público, reagindo entusiasmado o tempo todo a um som nem sempre convidativo ou “fácil”, pulando, acendendo isqueiros, pedindo músicas, dizendo que “o mundo pode acabar agora”, chorando, ficando no mais absoluto silêncio. Foi para aquelas duas horas e vinte minutos de show que cada uma das trinta mil pessoas esperaram por muito tempo (uns doze anos, outros nove, outros dois). E o pacto informal entre banda e plateia foi cumprido à risca: todos ali fizeram valer a pena, até o fim.
RadioheadChácara do Jóquei, São Paulo,
Brasil22, Março, 2009
Resenha Por Amauri Stamboroski Jr.
para o portal G1]

O Instituto Datajames perguntou a alguns presentes o que haviam achado do show. As respostas não foram iguais, mas todas rumavam para a mesma direção: "histórico", "melhor show da minha vida", "incrível", "inacreditável". Não houve quem não gostasse. Zero porcento. O Radiohead conseguiu 100% de aprovação e não é difícil entender o porquê. Banda amada pelos indies, prometia uma visita ao país há mais de dez anos. Possui um séquito de fãs fiéis e influenciou gerações e gerações de músicos e amantes da boa música. Ainda assim você pode afirmar que isso tudo é exagero. Bem, então você não viu o show.
o que dizer do setlist do show? Diferente em uns 60% do show do Rio, a banda mostrou uma faceta um pouco mais indie, ao tirar da cartola pérolas como "Optimistic" e "Pyramid Song", mas sem se esquecer dos hits. Difícil mesmo é apontar destaques, mas talvez a comunhão público-banda na dobradinha "Paranoid Android/Fake Plastic Trees" e a versão de tirar o fôlego de "Exit Music (For a Film)" tenham sido os destaques.
Sim, teve "Creep" e um final apoteótico. Teve também todo o álbum "In Rainbows" e mais pérolas ("Climbing Up The Walls", "You and Whose Army"). E teve também uma mensagem de uma amiga hoje de manhã, que eu vou reproduzir na íntegra:
"James, to totalmente sequelada do show. Acordei hj e fui direto comprar um violão. Mais uma cantora de chuveiro que renasce das cinzas"
É este tipo de reação que um show do Radiohead causa nas pessoas. Ninguém fica indiferente. Em inglês, existe a expressão "of a lifetime". A tradução semi-literal seria "show para uma vida".
E foi mesmo.

SETLIST
15 Step (In Rainbows)
There There (Hail To The Thief)
The National Anthem (Kid A)
All I Need (In Rainbows)
Pyramid Song (Amnesiac)
Karma Police (Ok Computer)
Nude (In Rainbows)
Weird Fishes/Arpeggi (In Rainbows)
The Gloaming (Hail To The Thief)
Talk Show Host (B-side - Trilha Sonora do filme Romeu e Julieta)
Optimistic (Kid A)
Faust Arp (In Rainbows)
Jigsaw Falling Into Place (In Rainbows)
Idioteque (Kid A)
Climbing Up The Walls(Ok Computer)
Exit Music (For A Film) (Ok Computer)
Bodysnatchers (In Rainbows)
Encore 1
Videotape (In Rainbows)
Paranoid Android (Ok Computer)
Fake Plastic Trees (The Bends)
Lucky (Ok Computer)
Reckoner (In Rainbows)
Encore 2
House of Cards (In Rainbows)
You and Whose Army (Amnesiac)
True Love Waits (I Might Be Wrong)/Everything In Its Right Place (KidA)
Encore 3
Creep (Pablo Honey)
Resenha por: Rodrigo James
Site> programaaltofalante.uol.com.br
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Tudo fluiu para que o grupo encantasse: o dub opiáceo no intervalo, o suntuoso palco dórico de som cristalino (sem logotipia), a psicodelia política das bandeiras do Tibete, os tubos acortinados que, como bits gigantes decorativos, podia ser um vela flutuante, um mármore caramelizado, ou o mais puro vermelho sanguinário e estróbico. Tudo no show deles soa novo ou simplesmente estupefato. Os holofotes eram paradoxalmente lindos, em forma de brilhantes, ao mesmo tempo que o telão exibia closes viscerais do rosto de Thom Yorke cantando. Ou gemendo, porque a musicalidade do quinteto é tanta e a resposta do público era tão proporcional, que ele só precisava balbuciar para assumir tons de um barítono púbero.
Foram 20 e poucas músicas, mais de duas horas, três bis e todas aquelas que milhares de fãs queriam ouvir. "Creep" foi redentora e encerrou com o palco fluorescente e cores epilépticas. A banda e seu "you're fucking special" subvertem a o american dream roqueiro de banda perfeita, carismática e bonita. E isso sem bater continência a qualquer outro engodo que, assim como os EUA, a Inglaterra pode criar. Num só riff e gemido de "Lucky", Ed'O Brien engole e vomita tudo que Pulp, Strokes, Oasis, Blur e o britpop criaram em anos. Eles são tímidos e reservados, mas não humildes - apenas objetivos. "The best you can is good enough" (em "Optimistic") resume bem as sempre pontuais intenções da banda, enquanto guitarras flamejantes empurravam a tensão até uma explosão de luzes de lava e epopéia rocker, a bateria posta estratégicamente lá atrás para exigir mais de Phil Selway.
Ali na muvuca do meio, não muito longe de Thom mas também não no gargarejo, as reações eram múltiplas: berros e saudações, canto espontâneo - palmas, muitas palmas - e um bingo de fã pedindo, decifrando ou adivinhando o nome de alguma canção, o que criava uma mistura de verbetes extranhos como "subterranean telex just, just! JUST! paranoid android"... Nessa confusão do som pós-moderno os hits, momentos tão humanos e identificáveis entre artista e público. "Paranoid Android" consumiu um bloco inteiro com seu refrão detentor de guitarra arisca e suja, o back2back entre o público na letra certa e Yorke cantando inverso, toda uma missa Radiohead com ápice na moribunda e acústica "Exit Music": o céu estrelado, notas flutuantes e assustadoras de Jonny Greenwood e público em silêncio cantando o vale das almas. "Breathe, keep breathing"...
Em "The Gloaming" (o crepúsculo), a dicotomia rock e eletrônica da banda teve seu ponto alto, com o verde cor de bit, a base dubstep achatada e Thom Yorke cantando mais melódico e delicado do que o que se ouve no disco (Hail to The Thief, 2003), quando no final alguém na mesa ou sei lá onde picota a saída do microfone em diferentes caixas e lugares no espaço. Mais intervenção na inserção de rádio local em "The National Anthem", que Yorke explica em sua única e boa entrevista ao Brasil; e também na gravação do barulho e das reações da platéia perto do fosso, utilizadas como interlúdios e camadas de um modo que não se entendia de onde vinha aquele som. É como um grande "live act", em que tudo é construído e orquestrado ali. Como quando alguma guitarra geme e os bumbos são golpeados em marcha por Ed e Jonny, Thom dançando esquisofrênico e bizonho, até que num pulo ele para tudo o que acontece, a música acaba e ele no mesmo instante vai até a lateral e conversa algo muito que precisamente com alguém da produção.

Como dito, In Rainbows é doce, quase pueril, mas quente - em "House of Cards", o infalível verso "I don't wanna be your friend / i just wanna be your lover". Sobre a doçura, "Weird Fishes/Arpeggi" e "Reckoner" são tão possíveis de associação com a infância quanto "Fake Plastic Trees", conhecida aqui por uma campanha de TV para crianças deficientes. Em "Videotape", o espamo de delicadeza de Thom (que ele comenta na entrevista do Edgard Piccoli) abre para um dos encerramentos, o arpeggio de "Everything in It's Right Place" e a acidez do limão matinal.
E o show é mesmo como um choque, que frita o cérebro e arregala os olhos alma adentro a serviço da expressão humana, algo muito além de rock'n'roll, música eletrônica, "coisa de depressivo" e uma ou duas canções famosas. Para os iniciados, Radiohead ao vivo é a entrada tridimensional para um mundo sonoro e visual de questões conflituosas e canções dançantes e assustadoras - o que importa é que elas são intensas.
Os não-iniciados puderam entender mais a banda nestes shows brasileiros, e fica a apresentação de uma epopéia sonora e confusa, mas fascinante como o brilho mais intenso de um diamante luminoso em forma de LED, ou o simples e contagiante solo de guitarra dançante. Mesmo que não tenha despertado o deslumbre, a incompreensão é prova da amplitude artística da banda.
Para muitos do que saíram da Chácara do Jockey, algo muito sério acabara de acontecer. Ficou a sensação abobada de ver o espetáculo musical mais significativo da nossa geração, com todos os superlativos que sua alma disconexa possa arranjar. Nós vimos o futuro, e ele estava logo ali.
Fotos: Julio Taubkin, Alisson Gothz, Marcos Hermes e Bianca Tatamiya
Resenha de: Jade Augusto Gola
Site>rraurl.uol.com.br
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É sempre a alma a primeira e a ultima a sentir.


Os responsáveis segundo a Enciclopédia Britânica pela “música mais magistral – e mais saturada de angústia – da era pós-moderna” estarão aqui no Brasil em 20 e 22 de Março de 2009.
Porém es que chega o que é uma das grandes obras de arte do rock moderno. Ok Computer (1997) mudaria a história da banda e cravaria com dois pés o seu nome na história da música. Falar de Ok Computer é falar de arte, é falar do mundo contemporâneo e sua irrevesível evolução tecnologica, falar das relações humanas e do distanciamento de um vida de harmonia espiritual para relações estruturadas nos prazeres do consumismo e uma vida afundada no vazio existencial. Ok Computer é a metáfora do ser humano como máquina a serviço de uma vida conforme as regras da pós-modernidade. O Homem fraco e incapaz de viver sua essência como ser humano sonhador dono de si mesmo é obrigado a anular-se para sobreviver e entre a passiva morbidez andrógina e o individualismo nas relações humanas Yorke vai de explosões cósmicas à calmarias transcedentes fundindo texturas de guitarras em tons futuristas com fragmentos eletrônicos em rupturas estruturais nascendo monumentos musicados com camadas entrelaçadas com cada textura sonora de cada palavra dramatizada por Yorke. Ok Computer é o atestado definitivo da genialidade dos Radiohead.
Depois de compor sua obra prima Thom Yorke, Jonny Greenwood e companhia estão sufocados justamente por tudo que refletiam como contradição no álbum anterior. Mergulhado no medo da contraditação e do paradoxo filosófico proposto no último disco a solução para os Radiohead foi compor um disco radicalmente diferente de Ok Computer, mas, profundamente mergulhado na continuação existencial de seu visionarismo e ao mesmo tempo uma obra prima moderna. Surge então Kid A (2000). O primeiro disco a "cair" na rede todo antes do lançamento oficial é um nó em que esperava um novo Ok Computer e uma prova que a banda era mesma uma banda de gênios. Kid A desconstroi o disco anterior e reiventa o Radiohead para além das fronteiras Pops. Aqui a banda acrescenta camadas de orquestrações psicodelicas com sintetizadores fantasmagóricos e pianos gélidos petrificando a melodia em profunda beleza angustiante. É nesse ambiente friamente melancolico que pulsa a voz quase despersonalizada de Thom Yorke, dramaticamente distante, vagando pelas profundas sutilezas da abstração sonoro como se apenas mais um instrumento fosse, Yorke rende-se a desolação existencial. Em Kid A o ser humano aos poucos deixa a sensibilidade desaparecer para então assumir o papel de um "Sub Humano", alguém que não pensa mais por si mesmo, alguém cuja a única razão de ser seria sua curta e sensata sobrevivência voltada para um vida de servidão passiva e auto anulação numa grade invisível onde ele se sentiria livre para escolher como melhor des-existir. Aqui o Radiohead produz quase uma literatura sonora que mergulhamos para nossas almas além, muito além...
Produzido nas mesmas sessões de Kid A surge então o esquizofrênico Amnesiac (2001). Para mim o disco mais pertubador dos Radiohead e um das obras mais inquietantas da música desse início de século. Nele a banda de Thom Yorke joga-se num abismo de rupturas eletrônicas, referências krautrokanas com fusões Jazzy, texturas de pianos descompassados com vozes sobrepostas e caustrofobica andróginia conceitual e letras inigmáticas sobre fugas, mergulhos oceânicos, paranóias e delírios existências moldam um Radiohead mergulhado no oceano de sua própria e absoluta genialidade. Amnesiac propõe uma volta as nossas raízes existências que abandonamos ou perdemos pelo caminhos durante a vida, mas, quais seriam essas raízes?.
e reflete sobre o mundo contemporâneo e a postura de seres humanos como meros braçais a serviço da ordem das coisas sob a ótica autoritária do capitalismo. Tendo Bush como metáfora do grande irmão e Thom Yorke como ser que não pensa apenas age, apenas cumpre ordens, apenas está no mundo para executar tarefas e não para sonhar, não que seguir ordens não seja algo comum sob a pespectiva do trabalho e uma vida baseada nos princípios da anarquina ou socialismo seja pregada mas, Yorke reflete sobre a postura de "manto" idelogico que se tornou o capitalismo, não mais uma mega corporação, não mais um país ditando regras mas um aglomerado de pensamentos, tendências, propagandas, mídia, sistemas completos que te regem desdo nascimento e cercam como um aceano em volta de uma ilha não deixando o ser respirar suas próprias motivações existências como um monstro que agora pode ler nossos mais sinceros pensamentos.
Em 10 de Outubro de 2007 a indústria fonográfica sentiu um abalo iniqualável, não sucumbiu, mas está com marcas e sequelas que ainda serão devidamente sentidas como uma nova maneira de pensar.

E.Monet, in Soleil Levant






*pouca vezes vi tamanha expressão visual no cinema como nessa obra de arte.
"Asas do Desejo" é um espetaculo visual e poético indescritivel.
é poesia levada ao âmago do absoluto.
“Quando começa o tempo e onde acaba o espaço?”
Dessenterro-mo mil vezes nas
Densas camadas vulcânicas do quarto.
Certezas indesejáveis consomem meu pulmão jovial.
Restos de paredes balbuciam meu horizonte.
Então por que eu não sou um cometa?
Desintegro-me mil vezes e caminho.
Sinto que não há lugar, nem lugar comum
Nem lugar nenhum para descansar minhas memórias.
Estou entre o vácuo da desordem perfeita do labirinto intimo
E o choro invisível de criança ensurdecendo os desejos.
Por que eu não sou uma nuvem?
Viveria entre o céu e as palavras vazias onde já esperei versos,
Sentiria a dor da partida
Mas sentiria também o frio atravessar meu corpo
Com a chegada aos cabelos dos sonhadores.
Sufoco-me mil vezes e ainda corro.
Dasabo-me no espiral de sensações repetidas
Cavernas saídas de dentro dos meus passos
E esconderijos de cabeça para baixo das reflexões.
Possuirei o corpo da musa como
quem possuiria um universo completo.
Tomarei café da manha com meu medo
E serei aconselhado pelo anjos indivisíveis
A quilometro de distancia das lagrimas.
Quero partir em caravelas ou balões vindos de todos os possíveis.
Espero encontrar com meus amigos na esquina da eternidade.
Por que eu não sou um raio?
Atingiria as camadas mais profundas das verdades
Qual das verdades?
Falo baixo comigo mesmo para não acordar o grito silencioso,
Caio no abismo mil vezes e continuo o flutuar nas previsibilidades.
Atravesso as portas abafadas,
Desço as escadas com rosto rarefeito,
Poluo o ar com olhares calmos desesperados por mar,
Mulheres e homens passando de uma seta a outra procurando
Os melhores ângulos de si mesmos,
No duelo particular com a criança eu sou o inimigo de mim mesmo
e reconheço que perdi a mim para um nada.
assim a intensa desordem permanece,
Calculo meus antídotos que não posso tomar e
As pílulas de sorrisos passageiros,
Chega a hora derradeira e eu preciso voltar aos
Braços de um uivo murmurante de pensamentos.
Por que eu não sou vento?
Afogo-me mil vezes mais continuo descendo
As profundezas desconhecidas.
Minha mãe, irmã e conhecidos planejam ser eles mesmo
Nos próximos segundos
Mas eu planejo ser alguma estrela.
Não, não quero brilhar,
Só quero o silencio das galáxias por algumas horas
E observar os passos quebradiços dos meus amados de longe...
Descendo e demonstrando coragem na dor.
Eu procuro nas incertezas alguma certeza metafísica e
Não quero mais sentir o absoluto através das ausências translúcidas,
Sou meu próprio exílio e tranco-me a mim mesmo por fora e
Quando desaba a chuva permaneço sentado engolindo a tempestade.
Só há uma certeza na tempestade,
Que ele passará levando uma parte de mim, mas não o todo...
Por que não sou o que sempre penso que sou
Mais que só dura alguns segundos
E nesse segundo é possível abrigar-me tudo que sou?
Se a pergunta for de uma criança sou o feto agarrado aos joelhos do universo,
Deus diz: "larga-me!”.
E me solta como uma folha solta num céu incerto monstruosamente enorme
Quantas vidas ainda?
Quantos pormenores? Quantos fazeres cotidianos imperfeitos?
Quantos copos de café na madrugada?
Quantas passagens de ônibus acumuladas na manha?
Quantas pedaladas por segundos na temporalidade da matéria?
Quantos sorrisos numa só estrofe de dialogo?
Quantos amores apenas contemplativos?
Quantos amores vividos até explodir o coração em
Constelações incompreensíveis?
Quantas mentiras insuperáveis? Quantas verdades que deixaram ser absolutas?
Quantos goles de
Tempo-
Espaço-
Eu-
Tudo-
E nada-
Ninguém-
Alguém-
E tudo-
Eu - nós...
João Leno Lima
30 de Dezembro de 2008
O primeiro verso do poema foi tirado do genial filme de
Wim Wenders “Asas do Desejo”





Por favor, não tente definir o absoluto.
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