Radiohead e seu arco-íris de genialidades

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Os Radiohead, há de se falar, são um dos grandes artistas da música moderna, do imaculado Ok Computer passando pelo Irretocável Kid A (primeiro disco da historia da música a vazar todo na grande rede) o jazz esquizofrênico com camadas eletrônicas e existencialidade a flor da pele de Amnesiac ao politizadamente atemporal Hail To The Thief que estão entre sua obras de arte, a banda vem transformando o efemero mundo da música Pop num universo de possibilidades na arte com debates profundos sobre o homem moderno e a engrenagem ideologica do capital. considerados gênios e revolucionários por sua linguagem conceitual entrelaçado com suas melodias carregadas de angustia, Jazz space, Eletrônica experimental minimalista e ambientes neo-progressivos acoplados em psicodelias de vangurda, o grupo chocou o mundo em 2007 com o seu In Rainbows (7º trabalho de estudio), disco que questiona o valor da música dos tempos febris do capitalismo ideologicamente selvagem e abre espaço para um nova relação entre artista e público e dessa obra prima veio House Of Cards, uma das pérolas desse disco que fez a industria da música ruir. A banda britânica gravou o videoclip do single “House of Cards” sem utilizar câmaras ou luzes, recorrendo apenas a lasers e dados. As imagens a três dimensões de Thom Yorke e dos actores foram capturadas com recurso a 64 lasers e a luz estruturada.
No vídeo, os lasers rodam e filmam a 360 graus, 900 vezes por minuto, para produzir as cenas de exteriores. Os Radiohead voltam a criar uma grande interactividade com os fãs, pois os dados resultantes dessas imagens podem ser descarregados e utilizados livremente pelos cibernautas. Isto depois de a banda ter lançado partes do single “Nude” para os fãs remisturarem livremente a música, que faz parte do alinhamento do último álbum, “In Rainbows”.
O vocalista Thom Yorke explicou porque a banda escolheu não usar câmaras na gravação do videoclip de “House of Cards”. “Sempre gostei da ideia de usar tecnologia de uma forma que não é suposto, da luta para levar a tua mente a fazer algo com isso. Gostei da ideia de fazer um vídeo de seres humanos, da vida real e do tempo sem usar câmaras; existem apenas pontos matemáticos - e acabou por se tornar tão estranhamente emocional”, afirmou o líder dos Radiohead.

esse é o "tão estranhamente emocional mundo dos Radiohead"

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PRIMEIRO MANIFESTO DADÁ

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Hugo Ball



Dadá é uma nova tendência da arte. Percebe-se que o é porque, sendo até agora desconhecido, amanhã toda a Zurique vai falar dele. Dadá vem do dicionário. É bestialmente simples. Em francês quer dizer "cavalo de pau" . Em alemão: "Não me chateies, faz favor, adeus, até à próxima!" Em romeno: "Certamente, claro, tem toda a razão, assim é. Sim, senhor, realmente. Já tratamos disso." E assim por diante.Uma palavra internacional. Apenas uma palavra e uma palavra como movimento. É simplesmente bestial. Ao fazer dela uma tendência da arte, é claro que vamos arranjar complicações. Psicologia Dadá, literatura Dadá, burguesia Dadá e vós, excelentíssimo poeta, que sempre poetastes com palavras, mas nunca a palavra propriamente dita. Guerra mundial Dadá que nunca mais acaba, revolução Dadá que nunca mais começa. Dadá, vós, amigos e Também poetas, queridíssimos Evangelistas. Dadá Tzara, Dadá Huelsenbeck, Dadá m'Dadá, Dadá mhm'Dadá, Dadá Hue, Dadá Tza.Como conquistar a eterna bemaventurança? Dizendo Dadá. Como ser célebre? Dizendo Dadá. Com nobre gesto e maneiras finas. Até à loucura, até perder a consciência. Como desfazer-nos de tudo o que é enguia e dia-a-dia, de tudo o que é simpático e linfático, de tudo o que é moralizado, animalizado, enfeitado? Dizendo Dadá. Dadá é a alma-do-mundo, Dadá é o Coiso, Dadá é o melhor sabão-de-leite-de-lírio do mundo. Dadá Senhor Rubiner, Dadá Senhor Korrodi, Dadá Senhor Anastasius Lilienstein.Quer dizer, em alemão: a hospitalidade da Suíça é incomparável, e em estética tudo depende da norma.Leio versos que não pretendem menos que isto: dispensar a linguagem. Dadá Johann Fuchsgang Goethe. Dadá Stendhal. Dadá Buda, Dalai Lama, Dadá m'Dadá, Dadá m'Dadá, Dadá mhm'Dadá. Tudo depende da ligação e de esta ser um pouco interrompida. Não quero nenhuma palavra que tenha sido descoberta por outrem. Todas as palavras foram descobertas pelos outros. Quero a minha própria asneira, e vogais e consoantes também que lhe correspondam. Se uma vibração mede sete centímetros, quero palavras que meçam precisamente sete centímetros. As palavras do senhor Silva só medem dois centímetros e meio.Assim podemos ver perfeitamente como surge a linguagem articulada. Pura e simplesmente deixo cair os sons. Surgem palavras, ombros de palavras; pernas, braços, mãos de palavras. Au, oi, u. Não devemos deixar surgir muitas palavras. Um verso é a oportunidade de dispensarmos palavras e linguagem. Essa maldita linguagem à qual se cola a porcaria como à mão do traficante que as moedas gastaram. A palavra, quero-a quando acaba e quando começa.Cada coisa tem a sua palavra; pois a palavra própria transformou-se em coisa. Porque é que a árvore não há-de chamar-se plupluch e pluplubach depois da chuva? E porque é que raio há-de chamar-se seja o que for? Havemos de pendurar a boca nisso? A palavra, a palavra, a dor precisamente aí, a palavra, meus senhores, é uma questão pública de suprema importância.



Zurique, 14 de Julho de 1916
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Onde estivestes de noite

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A noite era uma possibilidade excepcional. Em plena noite fechada de um verão escaldante um galo soltou seu grito fora de hora e uma só vez para alertar o início da subida pela montanha. A multidão embaixo aguardava em silêncio.
Ele-ela já estava presente no alto da montanha, e ela estava personalizada no ele e o ele estava personalizado no ela. A mistura andrógina criava um ser tão terrivelmente belo, tão horrorosamente estupefaciente que os participantes não poderiam olhá-lo de uma só vez: assim como uma pessoa vai pouco a pouco se habituando ao escuro e aos poucos enxergando. Aos poucos enxergavam o Ela-ele e quando o Ele-ela lhes aparecia com uma claridade que emanava dela-dele, eles paralisados pelo que é Belo diriam: "Ah, Ah". Era uma exclamação que era permitida no silêncio da noite. Olhavam a assustadora beleza e seu perigo. Mas eles haviam vindo exatamente para sofrer o perigo.
Os pântanos se exalavam. Uma estrela de enorme densidade guiava-os. Eles eram o avesso do Bem. Subiam a montanha misturando homens, mulheres, gnomos e anões - como deuses extintos. O sino de ouro dobrava pelos suicidas. Fora da estrela graúda, nenhuma estrela. E não havia mar. O que havia no alto da montanha era escuridão. Soprava um vento noroeste. Ele-ela era um farol? A adoração dos malditos ia se processar.
Os homens coleavam no chão como grossos e moles vermes: subiam. Arriscavam tudo, já que fatalmente um dia iam morrer, talvez dentro de dois meses, talvez sete anos - fora isto que Ele-ela pensava dentro deles.
Olha o gato. Olha o que o gato viu. Olha o que o gato pensou. Olha o que era. Enfim, enfim, não havia símbolo, a "coisa" era! a coisa orgíaca. Os que subiam estavam à beira da verdade. Nabucodonosor. Eles pareciam 20 nabucodonosores. E na noite se desquitavam. Eles estão nos esperando. Era uma ausência - a viagem fora do tempo.
Um cão dava gargalhadas no escuro. "Tenho medo", disse a criança. "Medo de quê?", perguntava a mãe. "De meu cão". "Mas você não tem cão". "Tenho sim." Mas depois a criancinha também gargalhou chorando, misturando lágrimas de riso e de espanto.
Afinal chegaram, os malditos. E olharam aquela sempiterna Viúva, a grande Solitária que fascinava todos, e os homens e mulheres não podia resistir e queriam aproximar-se dela para amá-la morrendo mas ela com um gesto mantinha todos à distância. Eles queriam amá-la de um amor estranho que vibra em morte. Não se incomodavam de amá-la morrendo. O manto de Ela-ele era de sofrida cor roxa. Mas as mercenárias do sexo em festim procuravam imitá-la em vão.
Que horas seria? ninguém podia viver no tempo, o tempo era indireto e por sua própria natureza sempre inalcançável. Eles já estavam com as articulações inchadas, os estragos roncanvam nos estômagos cheios de terra, os lábios túmidos e no entanto rachados - eles subiam a encosta. As trevas eram de um som baixo e escuro como a nota mais escura de um violoncelo. Chegaram. O Mal-Aventurado, o Ele-ela, diante da adoração de reis e vassalos, refulgia como uma iluminada águia gigantesca. O silêncio pululava de respirações ofegantes. A visão era de bocas entreabertas pela sensualidade que quase os paralisava de tão grossa. Eles se sentiam salvos do Grande Tédio.
O morro era de sucata. Quando a Ela-ele parava um instante, homens e mulheres, entregues a eles próprios por um instante, diziam-se assustados: eu não sei pensar. Mas o Ele-ela pensava dentro deles.
Um arauto mudo de clarineta anunciava a notícia. Que notícia? a da bestialidade? Talvez no entanto fosse o seguinte: a partir do arauto cada um deles começou a "se sentir", a sentir a si próprio. E não havia repressão: livres!
Aí eles começaram a balbuciar mas para dentro porque a Ela-ele era cáustica quanto a não disturbarem uns aos outros na sua lenta metamorfose. "Sou Jesus! sou judeu!", gritava em silêncio o judeu pobre. Os anais da astronomia nunca registraram nada como este espetacular cometa, recentemente descoberto - sua cauda vaporosa se arrastará por milhões de quilômetros no espaço. Sem falar no tempo.
Um anão corcunda dava pulinhos como um sapo, de uma encruzilhada a outra - o lugar era de encruzilhadas. De repente as estrelas apareceram e eram brilhantes e diamantes no céu escuro. E o corcunda-anão dava pulos, os mais altos que conseguia para alcançar os brilhantes que sua cobiça despertava. Cristais! Cristais! gritou ele em pensamentos que eram saltitantes como os pulos.
A latência pulsava leve, ritmada, ininterrupta. Todos eram tudo em latência. "Não há crime que não tenhamos cometido em pensamento": Goethe. Uma nova e não autêntica história brasileira era escrita no estrangeiro. Além disso, os pesquisadores nacionais se queixavam de falta de recursos para o trabalho.
A montanha era de origem vulcânica. E de repente, o mar: a revolta rebentação do Atlântico lhes enchia os ouvidos. E o cheiro salgado do mar fecundava-os e triplificava-os em monstrinhos.
O corpo humano pode voar? A levitação. Santa Tereza D´Ávila: "Parecia que uma grande força me erguia no ar. Isso me provocava um grande medo." O anão levitava por segundos mas gostava e não tinha medo.
- Como é que você se chama, disse mudo o rapaz, para eu chamar você a vida inteira. Eu gritarei seu nome.
- Eu não tenho nome lá embaixo. Aqui tenho o nome de Xantipa.
- Ah, quero gritar Xantipa! Xantipa! Olhe, eu estou gritando para dentro. E qual é o seu nome durante o dia?
- Acho que é... é... parece que é Maria Luísa.
E estremeceu como um cavalo se eriça. Caiu exangue no chão. Ninguém assassinava ninguém porque já eram assassinados. Ninguém queria morrer e não morria mesmo.
Enquanto isso - delicada, delicada - o Ele-ela usava um timbre. A cor do timbre. Porque eu quero viver em abundância e trairia o meu melhor amigo em troca de mais vida do que se pode ter. Essa procura, essa ambição. Eu desprezava os preceitos dos sábios que aconselham a moderação e a pobreza de alma - a simplificação da alma, segundo minha própria experiência, era a santa inocência. Mas eu lutava contra a tentação.
Sim. Sim: cair até a abjeção. Eis a ambição deles. O som era o arauto do silêncio. Porque nenhum poderia se deixar possuir por Aquele-aquela-sem-nome.
Eles queriam fruir o proibido. Queriam elogiar a vida e não queriam a dor que é necessária para se viver, para se sentir e para amar. Eles queriam sentir a imortalidade terrífica. Pois o proibido é sempre o melhor. Eles ao mesmo tempo não se incomodavam de talvez cair no enorme buraco da morte. E a vida só lhes era preciosa quando gritavam e gemiam. Sentir a força do ódio era o que eles melhor queriam. Eu me chamo povo, pensavam.
- Que é que eu faço para ser herói? Porque nos templos só entram heróis.
E o silêncio de repente o seu grito uivado que não se sabia se de amor ou dor mortal, o herói cheirando mirra, incenso e benjoim.
Ele-ela cobria a sua nudez com um manto lindo mas como uma mortalha, mortalha púrpura, agora vermelho-catedral. Em noites sem lua Ela-ele virava coruja. Comerás teu irmão, disse ela no pensamento dos outros, e na hora selvagem haverá um eclipse do sol.
Para não se traírem eles ignoravam que hoje era ontem e haveria amanhã. Soprava no ar uma transparência como igual homem nenhum havia respirado antes. Mas eles espargiam pimenta em pó nos próprios órgãos genitais e se contorciam de ardor. E de repente o ódio. Eles não matavam uns aos outros mas sentiam tão implacável ódio que era como um dardo lançado num corpo. E se rejubilavam danados pelo que sentiam. O ódio era um vómito que os livrava do vómito maior, o vómito da alma.
Ele-ela com as sete notas musicais conseguia o uivo. Assim como com as mesmas sete notas podia criar música sacra. Ouviram eles dentro deles o dó-ré-mi-fá-sol-lá-si, o "si" macio e agudíssimo. Eles eram independentes e soberanos, apesar de guiados pelo Ele-ela. Rugindo a morte nos porões escuros. Fogo, grito, cor, vício, cruz. Estou vigilante no mundo? de noite vivo e de dia durmo, esquivo. Eu, com faro de cão, orgiático.
Quanto a eles, cumpriam rituais que os fiéis executam sem entender-lhes os mistérios. O cerimonial. Com um gesto leve Ela-ele tocou numa criança fulminando-a e todos disseram: amém. A mãe deu um uivo de lobo: ela toda morta, ela, também.
Mas era para ter supersensações que para ali se subia. E era sensação tão secreta e tão profunda que o júbilo faiscava no ar. Eles queriam a força superior que reina no mundo através dos séculos. Tinham medo? Tinham. Nada substituía a riqueza do silencioso pavor. Ter medo era a amaldiçoada glória da escuridão, silente como uma lua.
Aos poucos se habituavam ao escuro e a Lua, antes escondida, toda redonda e pálida, tinha lhes abrandado a subida. Eram trevas quando um por um subira "a montanha", como chamavam o planalto um pouco mais elevado. Tinham se apoiado no chão para não cair, pisando em árvores secas e ásperas, pisando em cactus espinhoso. Era um medo irresistivelmente atraente, eles prefeririam morrer que abandoná-lo. O Ele-ela era-lhes como a Amante. Mas se algum ousasse por ambição tocá-la era congelado na posição em que estivesse.
Ele-ela contou-lhes dentro de seus cérebros - e todos ouviram-na dentro de si - o que acontecia a uma pessoa quando esta não atendia ao chamado da noite: acontecia que na cegueira da luz do dia a pessoa vivia na carne aberta e nos olhos ofuscados pelo pecado da luz - a pessoa vivia sem anestesia o horror de se estar vivo. Não há nada a temer, quando não se tem medo. Era a véspera do apocalipse. Quem era o rei da Terra? Se você abusa do poder que você conquistou, os mestres o castigarão. Cheios do terror de uma feroz alegria eles se abaixavam e às gargalhadas comiam ervas daninhas do chão e as gargalhadas reboavam de escuridões a escuridões com seus ecos. Um cheiro sufocante de rosas enchia de peso o ar, rosas malditas na sua força de natureza doida, a mesma natureza que inventava as cobras e os ratos e pérolas e crianças - a natureza doida que ora era noite em trevas, ora o dia de luz. Esta carne que se move apenas porque tem espírito.
Das bocas escorria saliva grossa, amarga e untuosa, e eles se urinavam sem sentir. As mulheres que haviam parido recentemente apertavam com violência os próprios seios e dos bicos um grosso leite preto esguichava. Uma mulher cuspiu com força na cara de um homem e o cuspe áspero escorreu-lhe da face até a boca - avidamente ele lambeu os lábios.
Estavam todos soltos. A alegria também era frenética. Eles eram o harém do Ele-ela. Tinham caído finalmente no impossível. O misticismo era a mais alta forma de superstição. O milionário gritava: quero o poder! poder! quero que até os objetos obedeçam as minhas ordens! E direi: move-te, objeto! e ele por si só se moverá.
A mulher velha e desgrenhada disse para o milionário: quer ver como você não é milionário? Pois vou te dizer: você não é dono do próximo segundo de vida, você pode morrer sem saber. A morte te humilhará. O milionário: Eu quero a verdade, a verdade pura!
A jornalista fazendo uma reportagem magnifica da vida crua. Vou ganhar fama internacional como a autora de "O Exorcista" que não li para não me influenciar. Estou vendo direto a vida crua, eu a estou vivendo.
Eu sou solitário, se disse o masturbador.
Estou em espera, espera, nada jamais me aconteceu, já desisti de esperar. Eles bebiam o amargo licor das ervas ásperas.
- Eu sou um profeta! eu vejo o além! se gritava um rapaz.
Padre Joaquim Jesus Jacinto - tudo com jota porque a mãe dele gostava da letra jota.Era dia trinta e um de dezembro de 1973. O horário astronômico seria aferido pelos relógios atômicos, cujo atraso é de apenas um segundo a cada três mil e trezentos anos. A outra deu para espirrar, um espirro atrás do outro, sem parar. Mas ela gostava. A outra se chamava J.B.
- Minha vida é um verdadeiro romance! gritava a escritora falida.
O êxtase era reservado para o Ele-ela. Que de repente sofreu a exaltação do corpo, longamente. Ela-ele disse: parem! Porque ela se endemoniava por sentir o gozo do Mal. Eles todos através dela gozavam: era a celebração da Grande Lei. Os eunucos faziam uma coisa que era proibido olhar. Os outros, através de Ela-ele, recebiam frementes as ondas do orgasmo - mas só ondas porque não tinham força de, sem se destruírem, receber tudo. As mulheres pintavam a boca de roxo como se fosse fruta esmagada pelso afiados dentes.O Ela-ele contou-lhes o que acontecia quando não se iniciava na profetização da noite. Estado de choque. Por exemplo: a moça era ruiva e como se não bastasse era vermelha por dentro e além disso daltônica. Tanto que no seu pequeno apartamento havia uma cruz verde sobre fundo vermelho: ela confundia as duas cores. Como é que começara o seu terror? Ouvindo um disco ou o silêncio reinante ou passos no andar de cima - e ei-la aterrorizada. Com medo do espelho que a refletia. Defronte tinha um armário e a impressão era que as roupas se mexiam dentro dele. Aos poucos ia restringindo o apartamento. Tinha medo até de sair da cama. A impressão de que iam agarrar o seu pé embaixo da cama. Era magríssima. O seu nome era Psiu, nome vermelho. Tinha medo de acender a luz no escuro e encontrar a fria lagartixa que morava com ela. Sentia com aflição os dedinhos gelados e brancos da lagartixa. Procurava avidamente no jornal as páginas policiais, notícias do que estava acontecendo. Sempre aconteciam coisas apavorantes para as pessoas, como ela, que viviam só e eram assaltadas de noite. Tinha na parede um quadro que era o de um homem que a fixava bem nos olhos, vigiando-a. Essa figura ela imaginava que a seguia por todos os cantos da casa. Tinha medo pânico de ratos. Preferia morrer a entrar em contato com eles. No entanto ouvia os guinchos deles. Chegava a sentir-lhes as mordidas nos pés. Acordava sempre sobressaltada, suando frio. Ela era um bicho acuado. Normalmente dialogava consigo mesma. Dava prós e contras e sempre quem perdia era ela. Sua vida era uma constante substração de si mesma. Tudo isso porque não atendeu ao chamado da sirene.
O Ele-ela só deixava mostrar o rosto de andrógina. E dele se irradiava tal cego esplendor de doido que os outros fruíam a própria loucura. Ela era o vaticínio e a dissolução e já nascera tatuada. O ar todo cheirava agora a fatal jasmim e era tão forte que alguns vomitavam as próprias entranhas. A Lua estava plena no céu. Quinze mil adolescentes esperavam que espécie de homem e mulher eles iriam ser.
Então Ela-ele disse:
- Comerei o teu irmão e haverá um eclipse total e o fim do mundo.
De vez em quando ouvia-se um longo relincho e não se via cavalo nenhum. Sabia-se apenas que com sete notas musicais fazem-se todas as músicas que existem e que existiam e que existirão. Da ela-ele emanava-se forte cheiro de jasmim esmagado porque era noite de Lua cheia. O catimbó ou a feitiçaria. Max Ernst quando criança foi confundido com o Menino Jesus numa procissão. Depois provocava escândalos artísticos. Tinha uma paixão ilimitada pelos homens e uma imensa e poética liberdade. Mas por que estou falando nisso? Não sei. "Não sei" é uma resposta ótima.
O que fazia Thomas Edison, tão inventor e livre, no meio deles que eram comandados por Ele-ela?
Gregotins, pensou o estudante perfeito, era a palavra mais difícil da língua.
Escutai! os anjos anunciadores cantam!
O judeu pobre gritava mudo e ninguém o ouviu, o mundo inteiro não o ouvia. Ele disse assim: tenho sede, suor e lágrimas! e para saciar a minha sede bebo meu suor e minhas próprias lágrimas salgadas. Eu não como porco! sigo a Torah! mas dai-me alívio, Jeová, que se parece demais comigo!
Jubileu de Almeida ouvia o rádio de pilha, sempre. "O mingau mais gostoso é feito com Cremogema". E depois anunciava, de Strauss, uma valsa que por incrível que parecesse chamava-se "O pensador livre". É verdade, existe mesmo, eu ouvi. Jubileu era dono do "Ao Bandolim de Ouro", loja de instrumentos musicais quase falida, e era tarado por valsas de Strauss. Era viúvo, ele, quer dizer, Jubileu. Seu rival era "O Clarim", concorrente na rua Gomes Freire ou Frei Caneca. Jubileu era também afiador de pianos.
Todos ali estavam prestes a se apaixonar. Sexo. Puro sexo. Eles se freavam. A Rumânia era um país perigoso: ciganos.
Faltava petróleo no mundo. E, sem petróleo, faltava comida. Carne, sobretudo. E sem carne eles se tornavam terrivelmente carnívoros.
"Aqui, Senhor, encomendo a minha alma", dissera Cristóvão Colombo ao morrer, vestido com o hábito franciscano. Ele não comia carne. Se santificava, Cristóvão Colombo, o descobridor das ondas, o que descobriu S. Francisco de Assis. Hélas! ele morrera. Onde está agora? onde? pelo amor de Deus, responde!
De repente e bem de leve - fiat lux.
Houve uma debandada assustadiça como de pardais.
Tudo tão rápido que mais parecia terem se esvanecido.
Na mesma hora estavam ora deitados na cama a dormir, ora já despertos. O que existira era silêncio. Eles não sabiam de nada. Os anjos da guarda - que tinham tirado um descanso já que todos estavam na cama sossegados - despertavam frescos, bocejando ainda, mas já protegendo os seus pupilos.
Madrugada: o ovo vinha rodopiando bem lento do horizonte para o espaço. Era de manhã: uma moça loura, casada com rapaz rico, dá à luz um bebê preto. Filho do demônio da noite? Não se sabe. Apuros, vergonha.
Jubileu de Almeida acordou como pão dormido: chocho. Desde pequeno fora murcho assim. Ligou o rádio e ouviu: "Sapataria Morena onde é proibido vender caro". Iria lá, estava precisando de sapatos. Jubileu era albino, negro aço com cílios amarelos quase brancos. Ele estalou um ovo na frigideira. E pensou: se eu pudesse algum dia ouvir "O pensador livre", de Strauss, eu seria recompensado na minha solidão. Só ouvira essa valsa uma única vez, não se lembrava quando.
O poderoso queria no seu breakfast comer caviar dinamarquês às colheradas, estalando com os dentes agudos as bolinhas. Ele era do Rotary Club e da Maçonaria e do Diners Club. Tinha o requinte de não comer caviar russo: era um modo de derrotar a poderosa Rússia.
O judeu pobre acorda e bebe água da bica sofregamente. Era a única água que tinha nos fundos da pensão baratíssima onde morava: uma vez veio uma barata nadando no feijão ralo. As prostitutas que lá moravam nem reclamavam.
O estudante perfeito, que não desconfiava que era um chato, pensou: qual era a palavra mais difícil que existia? Qual era? Uma que significava adornos, enfeites, atavios? Ah, sim, gregotins. Decorou a palavra para escrevê-la na próxima prova.
Quando começou a raiar o dia todos estavam na cama sem parar de bocejar. Quando acordavam, um era sapateiro, um estava preso por estupro, uma era dona-de-casa, dando ordens à cozinheira, que nunca chegava atrasada, outro era banqueiro, outro era secretário, etc. Acordavam, pois, um pouco cansados, satisfeitos pela noite tão profunda de sono. O sábado tinha passado e hoje era domingo. E muitos foram à missa celebrada por padre Jacinto que era o padre da moda: mas nenhum se confessou, já que não tinham nada a confessar.
A escritora falida abriu o seu diário encadernado de couro vermelho e começou a anotar assim: "7 de julho de 1974. Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu! Nesta bela manhã de um sol de domingo, depois de ter dormido muito mal, eu, apesar de tudo, aprecio as belezas maravilhosas da Natureza-mãe. Não vou à praia porque sou gorda demais e esta é uma infelicidade para quem aprecia tanto as ondas verdezitas do Mar! Eu me revolto! Mas não consigo fazer regime: morro de fome. Gosto de viver perigosamente. Tua língua viperina será cortada pela tesoura da complacência".
De manhã: agnus dei. Bezerro de ouro? Urubu.
O judeu pobre: livrai-me do orgulho de ser judeu!
A jornalista de manhã bem cedo telefona para sua amiga:
- Claudia, me desculpe telefonar num domingo a esta hora! Mas acordei com uma inspiração fabulosa: vou escrever um livro sobre Magia Negra! Não, não li o tal do Exorcista, porque me disseram que é má literatura e não quero que pensem que estou indo na onda dele. Você já pensou bem? o ser humano sempre tentou se comunicar com o sobrenatural desde o antigo Egito com o segredo das Pirâmides, passando pela Grécia com seus deuses, passando por Shakespeare no Hamlet. Pois eu também vou entrar nessa. E, por Deus, vou ganhar essa parada!
Havia em muitas casas do Rio o cheiro de café. Era domingo. E o rapaz ainda na cama, cheio de torpor, ainda mal-acordado, se disse: mais um domingo de tédio. Com o que havia sonhado, mesmo? Sei lá, respondeu-se, se sonhei, sonhei com mulher.
Enfim, o ar clareia. E o dia de sempre começa. O dia bruto. A luz era maléfica: instaurava-se o mal-assombrado dia diário. Uma religião se fazia necessária: uma religião que não tivesse medo do amanhã. Eu quero ser invejado. Eu quero o estupro, o roubo, o infanticídio, e o desafio meu é forte. Queria ouro e fama, desprezava até o sexo: amava depressa e não sabia o que era amor. Quero o ouro mau. Profanação. Vou ao meu extremo. Depois da festa - que festa? noturna? - depois da festa, desolação.
Havia o observador que escreveu assim no caderno de notas: "O progresso e todos os fenômenos que o cercam parece participar intimamente dessa lei de aceleração geral, cósmica e centrífuga que arrasta a civilização ao "progresso máximo", a fim de que em seguida venha a queda. Uma queda ininterrupta ou uma queda rapidamente contida? Aí está o problema: não podemos saber se esta sociedade se destruirá completamente ou se conhecerá apenas uma interrupção brusca e depois a retomada de sua marcha". E depois: "O Sol diminuiria seus efeitos sobre a Terra e provocaria o início de um novo período glacial que poderia durar no mínimo dez mil anos". Dez mil anos era muito e assustava. Eis o que acontece quando alguém escolhe, por medo da noite escura, viver a superficial luz do dia. É que o sobrenatural, divino ou demoníaco, é uma tentação desde o Egito, passando pela Idade Média até os romances baratos de mistério.
O açougueiro, que nesse dia só trabalhava das oito às onze horas, abriu o açougue: e parou embriagado de prazer ao cheiro de carnes e carnes cruas, cruas e sangrentas. Era o único que de dia continuava a noite.
Padre Jacinto estava na moda porque ninguém como ele erguia tão limpidamente a taça e bebia com sagrada unção e pureza, salvando a todos, o sangue de Jesus que era o Bem. Com delicadeza as mãos pálidas num gesto de oferenda.
O padeiro como sempre acordou às quatro horas e começou a fazer a massa de pão. De noite amassar ao Diabo?
Um anjo pintado por Fra Angélico, século XV, voejava pelos ares: era a clarineta anunciadora da manhã. Os postes de luz elétrica não tinham ainda sido apagados e lustravam-se empalidecidos. Postes. A velocidade come os postes quando se está correndo de carro.
O masturbador de manhã: meu único amigo fiel é meu cão. Ele não confiava em ninguém, sobretudo em mulher.
A que bocejara a noite toda e dissera: "t'isconjuro, mãe de santo!" começou a coçar e a bocejar. Diabo, disse ela.
O poderoso - que cuidava de orquídeas, catléias, lélias e oncídios - apertou impaciente a campainha para chamar o mordomo que lhe trouxesse o já atrasado breakfast. O mordomo adivinhara-lhe os pensamentos e sabia quando lhe trazer os galgos dinamarqueses para serem rapidamente acariciados.
Aquela que de noite gritava "estou em espera, em espera", de manhã, toda desgrenhada disse para o leite na leiteira que estava no fogo:
- Eu te pego, seu porcaria! Quer ver se tu te mancas e ferves na minha cara, minha vida é esperar. É sabido que se eu desviar um instante o olhar do leite, esse desgraçado vai aproveitar para ferver e entornar. Como a morte que vem quando não se espera.
Ela esperou, esperou e o leite não fervia. Então, desligou o gás.
No céu o mais leve arco-íris: era o anúncio. A manhã como uma ovelha branca. Pomba branca era a profecia. Manjedoura. Segredo. A manhã preestabelecida. Ave-Maria, gratia plena, dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus et benedictum frutus ventri tui Jesus. Sancta Maria Mater Dei ora pro nobis pecatoribus. Nunca et ora nostrae morte Amem.Padre Jacinto ergueu com as duas mãos a taça de cristal que contém o sangue escarlate de Cristo. Eta, vinho bom. E uma flor nasceu. Um flor leve, rósea, com perfume de Deus. Ele-ela há muito sumira do ar. A manhã estava límpida como coisa recém-lavada.
AMÉMOs fiéis distraídos fizeram o sinal da Cruz.AMÉMDEUS
FIM
Epílogo:
Tudo o que escrevi é verdade e existe. Existe uma mente universal que me guiou. Onde estivestes de noite? Ninguém sabe. Não tentes responder - pelo amor de Deus. Não quero saber da resposta. Adeus. A-Deus.
in "Onde estivestes de noite" - 7ª Ed. - Ed. Francisco Alves - Rio de Janeiro - 1994



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ESTADOS ALTERADOS DE CONSCIÊNCIA (SEM DROGAS!)

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De: J. R. R. Abrahão


Desde as experiências psíquicas com o uso de drogas psicodélicas levadas adiante por personalidades como Aldous Huxley, Timothy Leary, entre outros, ocorreu urna explosão no uso desse tipo de substância por parte de quem busca "expandir os horizontes de sua mente". Na verdade, esse tipo de "estado alterado de consciência" é conhecido desde tempos imemoriais, sendo que inúmeras são as drogas capazes de provocar essas alterações na mente - mas também várias são as técnicas para se obter essa "mudança na mente sem o uso de droga alguma. Todas as civilizações primitivas conheciam e faziam uso regular de substâncias alteradoras psíquicas. Até hoje, povos primitivos de todos os continentes se utilizam liturgicamente de plantas de poder e outras substâncias mágicas de forte efeito sobre a mente. Drogas de uso entre povos nativos da América do Sul, como o Tabaco (Nicotiana tabacum), cuja folha era seca e fumada ritualisticamente - por ser um poderoso estimulante psíquico, e a Coca (Erythroxylum coca), cujas folhas, se verdes, eram mascadas, e caso secas, maceradas e misturadas com Cinzas de folhas de Bananeira (Musa spp., com numerosas variações), tendo essa mistura o nome indígena de Ypadu - usada para aliviar a fadiga, manter os níveis de açúcar do sangue, além de favorecer a permanência da mente em "estado de alerta", sem contar que era usada igualmente para facilitar as longas jornadas em altas altitudes sem comida nem descanso. Ignorando os riscos envolvidos no consumo desenfreado dessas substâncias, a ciência moderna trouxe ao seio da sociedade o Tabaco - na forma de fumo para cachimbos, charutos, cigarrilhas e cigarros - para ser fumado como forma de lazer, e o Cloridrato de Cocaína (conhecido popularmente como Cocaína), inicialmente reconhecida, além de poderoso anestésico, como droga estimulante e anti-depressiva milagrosa. Que ambas tem, ainda hoje, utilidade, é óbvio (o Tabaco tem utilidade na elaboração de inseticidas, e a Cocaína é usada como anestésico em cirurgias de ouvido, nariz e garganta, além de ter uso no tratamento de dores em pacientes acometidos de canceres em estado terminal). Mas óbvio é, também, que essas drogas, consumidas regularmente de maneira recreacional, podem causar graves enfermidades do corpo (o Tabaco, pela ação tóxica do veneno Nicotina, um de seus princípios ativos, causa vaso-constrição no sistema circulatório, provocando infartos do coração e derrames cerebrais, além de doenças do trato respiratório - sem falar de câncer em todas as áreas de contato com a fumaça, como a boca, o nariz, a garganta e os pulmões; a Cocaína, destrói o olfato, causa rinite - se aspirada -, danifica as vias aéreas - se fumada -, tira definitivamente a sensibilidade clitoriana, vaginal e anal durante o ato sexual - se espalhada na mucosa dessas regiões -, pela ação corrosiva sobre as mucosas, provoca infarto do miocárdio - pela sobrecarga imprimida ao sistema cárdio-respiratório -, e pode desencadear doenças mentais latentes, além de provocar um incontável número de suicídios, pois, após estimular, deprime, por vezes de forma insuportável). Entre as drogas psicodélicas mais conhecidas, contam-se: - LSD - Dietilamida do Ácido Lisérgico (alucinógeno semi-sintético); - Hydroxyethylamida do Ácido Lisérgico (principio ativo do Ololiuqui); - ISO-LSD (composto semi-sintético); - Amido do Ácido Lisérgico (princípio ativo do Ololiuqui); - Mescalina (princípio alucinogênico - causador de "Visões" - do Peyote) - Psilocybína (principio alucinogênico do Teonanacatil). Interessante notar, porém, que os modelos moleculares das drogas acima são muito próximos de substâncias de ocorrência espontânea no cérebro (hormônios, ou seja, agentes fisiológicos que tem papel importante na bioquímica das funções mentais). Por exemplo: - O principio ativo no cacto Peyote é o alcalóide Mescalina, muito próximo, em termos de arranjo molecular, do hormônio neurotransmissor Norepinephrina (Noradrenalina), pertencente ao grupo de substâncias que provocam a transmissão de impulsos entre os neurônios (células nervosas); quimicamente, Mescalina e Norepinephrina possuem a mesma estrutura. Ambas as substâncias são derivadas da substância conhecida em química como Phenylethylamina. Outro derivado da Phenylethylamina é o aminoácido essencial Phenylalanina (Fenilalanina), amplamente distribuída pelo organismo humano, além de presença importante em todas as bebidas dietéticas. - Psilocybina e Psilocina, os princípios ativos do cogumelo alucinógeno mexicano Teonanacatl, derivam-se do mesmo composto básico de que se deriva o hormônio cerebral Serotonina: Triptamina. A Triptamina também é o composto básico de um aminoácido essencial - o Triptophano. Mas ninguém precisa, realmente, saber nada dessas confusas e complexas nomenclaturas técnicas para constatar a realidade dos fatos aqui descritos. O fato de importantes substâncias alucinógenas e hormônios cerebrais possuírem a mesma estrutura básica não é uma simples coincidência. Essa surpreendente relação pode explicar a potência psicotrópica desses alucinogênicos. Possuindo a mesma estrutura básica, esses alucinógenos podem agir nos mesmos pontos do sistema nervoso nos quais atuam os hormônios acima, como se fossem chaves similares encaixando-se nas mesmas fechaduras. Como resultado, as funções psicofisiológicas associadas com esses pontos cerebrais são alteradas, suprimidas, estimuladas ou de alguma outra forma modificadas. Vendo-se, por exemplo, a similaridade existente entre o LSD e os hormônios citados, pode-se compreender o fenômeno conhecido como flashback: não é o improvável resíduo do LSD que provoca tal "viagem de volta ao passado", mas simplesmente o próprio cérebro cria esse fenômeno, por meio de uma produção excessiva (quiçá descontrolada) de seus hormônios neurotransmissores - identicamente aos efeitos do LSD no organismo. Fica fácil, então, concluir que utilizando-se de técnicas adequadas, não é necessário o uso de droga alguma para obter-se "estados alterados de consciência". Basta fazer uso de algumas das técnicas iniciáticas, consagradas pelo tempo, como a Respiração Consciente, a Meditação Transcendental, ou técnicas científicas modernas como a Respiração Holotrópica, criada por Stanislav Grof, cientista com larga experiência no emprego psicoterápico do LSD, conforme relatado em suas diversas obras. Além delas, o sexo pode ser uma porta para a "expansão da mente", posto as alterações bioquímicas que ocorrem durante uma relação sexual realmente intensa (não obrigatória, nem forçada), são realmente potentes. No outro extremo do eixo Eros-Thanatos (os deuses do amor e da morte, na mitologia grega), existem os esportes radicais: caça, alpinismo, vôo livre, pára-quedismo, canoagem. Todos eles provocam uma tal descarga de Adrenalina no organismo que os seus praticantes experimentam, sem dúvida, "estados alterados de consciência". E importante ter em mente que não são as drogas em si que são perigosas, mas a relação de cada indivíduo com elas. Como dissemos anteriormente, os povos indígenas faziam - e fazem - uso de substâncias psicotrópicas poderosas, potencialmente perigosas, além de capazes de levar à dependência química. E veja-se que não há, em sua vida tribal, silvícolas viciados em nenhuma substância tóxica, embora usem-nas ocasionalmente. Corriqueiro tornou-se, porém, nos depararmos com índios que, urna vez integrados na sociedade do branco, tornaram-se alcoólatras. Mais um caso de mau relacionamento com uma droga. E é esse o ponto de alto risco, Quando se consome uma droga, por mais poderosa que seja, num contexto ritual ou litúrgico, os riscos minimizam-se; já o consumo recreacional de qualquer droga maximiza os riscos - quase sempre graves. Por isso resolvemos revelar algumas técnicas de produzir-se "estados alterados de consciência' sem ter que recorrer ao consumo de droga alguma. Basicamente, daremos aos leitores as informações para a prática de exercícios poderosos, capazes de levar a mente a alterações semelhantes às obtidas com o consumo de doses psicoativas de drogas potentes como LSD, DMT, Mescalina, Psílocybina, Bufotenina, entre outras. Há, é claro, exercícios mais "leves", capazes de deixar a mente em estados alterados como os obtidos com outras drogas: Exercícios físicos de alto-impacto fazem o corpo produzir Endorfinas, um tipo de Morfina de ocorrência natural e espontânea no organismo humano. Daí se dizer que "esporte vicia". - Pode ser verdade! Práticas de Yoga física e Meditação Transcendental alteram a mente da mesma forma que o consumo de Maconha, Haxixe, Bhang, Charas, Skunk e Óleo-de-THC fazem. Esportes de luta e combate provocam estimulação psíquica extrema, parecida com a obtida com drogas como a Cocaína e o Tabaco. O sexo, liberado e adulto, desinibe como o álcool, e provoca sensações de liberdade e prazer mais fortes que as conseguidas com a Heroína - sem destruir o "usuário"! Mas sexo pode viciar, já se sabe - mais uma prova dos fatos aqui citados Estimulo psíquico pode, também, vir da leitura de livros que despertem o interesse e prendam a atenção do leitor de forma que esse não consiga deixar a leitura até que o fim chegue. Diversas pessoas disseram-me que ao ler meu livro 0 Quarto Segredo(1) experimentaram tal sensação - um impulso irresistível de ler o livro até o final, de um fôlego só, num único dia. Várias delas afirmaram terem ficado tão estimuladas que não conseguiram dormir, precisando conversar com alguém! E não houve a menor intenção, de minha parte, em provocar essa reação! ALGUMAS TÉCNICAS DE EXPANSÃO DA MENTE: Imaginemos que alguém deseje "alterações mentais", de molde a obter "insights" além dos possíveis com a mente "normal". A opção pela "Gnose-Química" não é a única disponível. EXERCÍCIOS: A) Este exercício provoca, na mente, alterações semelhantes às produzidas pelo consumo de derivados potentes da Maconha (Canabinóides como o Skunk, Haxixe, Bhang, Charas, Tintura de THC, etc.). Para realizar este exercício, as técnicas empregadas são simples. Bastará sentar-se numa poltrona bastante confortável, num ambiente pouco iluminado e longe de ruídos ou distrações. Aromas agradáveis, como os emanados da queima de incensos, são favoráveis ao momento. As roupas usadas devem ser leves e soltas, e a pessoa precisa sentir-se confortável, não passando frio nem calor. Uma música ambiente, de preferência instrumental, poderá contribuir positivamente. Primeira prática: A pessoa deverá iniciar uma respiração ritmada da seguinte forma: 1) Inspirar, pelo nariz, profundamente, mas sem esforço, contando, mentalmente, até quatro, enquanto enche os pulmões de ar; 2) Manter os pulmões repletos de ar, sem forçar, enquanto conta, mentalmente, até quatro; 3) Expirar, pela boca, todo o ar dos pulmões, enquanto conta até quatro; 4) Manter os pulmões vazios, enquanto conta até quatro; 5) Repetir todo o procedimento por pelo menos vinte vezes; 6) Nesse momento, a pessoa já deverá estar com seus horizontes mentais bastante alterados e expandidos; 7) Tendo passado algum tempo (cerca de uma hora), a pessoa já deverá estar voltando "ao normal", podendo, então, reassumir sua "mente comum". Este exercício é tão poderoso que só deve ser realizado estando seu praticante sentado, sob risco de a pessoa perder o equilíbrio e cair, caso esteja em pé. Também não deve ser realizado deitado, pois deve-se evitar adormecer no curso de sua execução. B) Este exercício produz, na mente, alterações semelhantes às provocadas pelo uso de Drogas Psicodélicas (ou Alucinógenas) como o LSD, o DMT, a Psilocibina (dos Cogumelos Psilocíbicos), a Psilocina (dos mesmos Cogumelos), a Mescalina (dos Feijões de Mescal e do Cacto Peyote), a Muscarina (dos Cogumelos 'Amanita muscaria" ou "Fly Agaric"), o TMA-2 (da Raiz do Cálamo) e as Anfetaminas Psicodélicas (ICE, CAT, MET, MDA, MDMA - o "Ecstasy"), entre outras. Este exercício chama-se, muito apropriadamente, "deixar cair". E sabem o que cai? Você! Isso mesmo! Primeiramente, você deve colocar um colchão de casal no chão. Deve forrá-lo, lateralmente, com travesseiros ou almofadas. Precisará, também, da ajuda de dois ou três amigos. Como é realizado: 1) Coloque-se em pé e de costas para o colchão; 2) Peça aos seus amigos que postem-se na parte externa do colchão, mas de forma a poderem ampará-lo antes que você atinja o solo - no caso, o colchão; 3) Procure não pensar em nada, nem sentir medo - afinal, mesmo que seus companheiros não consigam ampará-lo, você só atingirá o colchão; 4) Feche os olhos, e mantenha-os assim; 5) Coloque a ponta de sua língua no palato (céu-da-boca), o que conectará os hemisférios frontal e traseiro de seu corpo, além de fazer com que você conecte-se com sua Pituitária, localizada acima do palato, e onde se situa o centro de seu Ser; 6) Faça uma respiração ritmada inspirando e contando até 7 (sete), mantendo o ar retido nos pulmões enquanto conta 1 (um) tempo, solta o ar contando até 7 (sete), mantendo os pulmões vazios contando 1 (um) compasso. Essa respiração de poder recebe simplesmente o nome de "7-1-7-1". Outra alternativa igualmente viável é outra respiração idêntica, só que noutro compasso: "6-3-6-3", ou seja, inspirar contando até 6 (seis), reter o ar contando até 3 (três), soltar o ar contando até 6 (seis), daí mantendo os pulmões vazios contando até 3 (três); 7) Realizar uma das respirações escolhidas por, pelo menos, cinco vezes; 8) Agora é a hora de "deixar cair", ou seja, deixar-se cair para trás; 9) Seus assistentes só deverão sustentá-lo quando faltar menos de dois palmos para que você atinja o solo (o colchão), permitindo-lhe uma queda livre relativamente grande; 10) Repita o exercício por, no mínimo, três vezes, mas não mais de vinte vezes. C) Este exercício provoca alterações, na mente, semelhantes às produzidas quando se usa Afrodisíacos poderosos, como o Yohimbé, o Kala-Kiji, o Yuhba-Gold, para citar alguns. Trata-se de uma prática Tântrica, ou seja, uma fusão de sexualidade e espiritualidade. É segredo guardado zelosamente nos secretos círculos do poder oculto o fato que qualquer pensamento ou desejo mantido na mente durante o orgasmo se concretizará. Ou seja, mantendo-se na mente determinado desejo, durante a prática sexual (seja heterossexual, homossexual ou masturbatória), essa "forma pensamento" encarnará, por assim dizer, na energia do orgasmo, tendo como missão de sua existência a realização do desejo que o originou. Mas, o que poucos sabem, é que existe outra técnica sexual, de idênticos poderes mágicos, que permite, além dessa realização dos desejos, uma extraordinária expansão da mente, atido ao mesmo tempo. Trata-se da técnica conhecida como "karezza", que consiste em, repetidamente, praticar a masturbação até bem próximo do momento do orgasmo, quando então suspende-se a estimulação. Isso é feito cinco, dez vezes, até que o corpo desista de atingir o orgasmo. E é exatamente nesse momento que a mente se expande para dimensões além da imaginação... D) Este exercício altera a mente nos moldes dos efeitos provocados pelo consumo do Estramônio (ou Trombeta, Datura, Lírio Roxo), do Acônito, da Mandrágora, da Losna (ou Absinto) e da Beladona, entre outros perigosos Delirantes. Esta técnica recebe o nome, muito apropriadamente, de "postura da morte". Se você tem qualquer problema psíquico, respiratório ou circulatório, não faça, jamais, uso desta técnica. Ela consiste em, estando num lugar onde se possa cair sem ferir-se (como estando sentado numa cama, ou no chão, mas cercado de almofadas, por exemplo), manter-se a mente vazia e, ao mesmo tempo, prender a respiração. Enquanto se prende a respiração, tampa-se, com as duas mãos, a boca e as narinas, de modo a realmente sentir-se impedido de respirar. Prende-se a respiração até não poder mais, e então... prende-se mais um pouco! Manter-se assim até sentir mal, mas mal mesmo, e então... prende-se ainda mais! Quando sentir-se estar a ponto de, literalmente, morrer sufocado, libera-se a respiração, ao mesmo tempo em que solta o corpo, deixando-se cair. ** Estes exercícios, que mais parecem brincadeiras de malucos, são capazes de abrir a faculdade paranormal chamada de clarividência, ou seja, a capacidade de ver, com os olhos da mente, seres, imagens e paragens de outros planos e variadas dimensões. Duvida? Como pode algo tão simples funcionar da forma que alardeio? Simplesmente, ninguém precisa acreditar em minhas afirmações. Basta colocar os ensinamentos em prática e observar os resultados. O que tentei mostrar aqui foi que os chamados "estados alterados da mente" são apenas "estados diferentes da mente", pois as alterações psíquicas provocadas pela ingestão de qualquer fármaco alucinogênico podem ser conseguidas por simples alterações de conduta!



Fonte: Rizoma.net
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O AMANTE INVISIVEL DA INFINITUDE

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09:16
Fotografia de Rodney Smith



Tu me propões o universo?
Arrancas de mim a sublime angustia
Despedaça o inalcançável
Alvoroça todas as infinitudes
Fragmenta-me com ilusões possíveis
Fazer-me vê o impossível ao longe,
Faz-me despencar de mim mesmo
Num precipício inabitável,
Dinamita as memórias fotograficamente tênuas,
Faz-me respirar os mecanismos da natureza,
Provar as amargas galáxias distantes,
Tira-me a desolação de mim para mim,
Promete alcançar-me num abismo de relatividades,
Viajar comigo a procura de outros universos,
Olhar-me como uma criança com febre de si mesma,
Traduzir os significados do acaso,
Soltar minha mão na extremidade do absoluto,
Sou tua inconsciência consciente,
Sou aquele ausente que te faz companhia,
Quero desvendar contigo os símbolos imateriais,
Quero estar contigo quando morreres
No alem de mim e voltares para me buscar alem de ti,
Como o inserto salvo pelo gigante-poeta num pequeno oceano,
Assim como o verso que vê a luz através do sublime sentir,
Quero sentir a profundidade da tua alma e da minha
Escrevendo uma poesia.
Ao mergulhar no tempo-espaço eu mergulho em ti,
E desvendo o sentido intimo das coisas,
Os mistérios oceânicos inexplicáveis
As leis da natureza
E das divinas comedias transcendentais,
Tubarões e meteoros se entrelaçam quando te escavo
Trens me levam para o outro lado do mundo e
Chocam-se com tuas asas semi recolhidas,
Carros astrais flutuando acima do meu ombro
Atropelam tuas caldas roubadas dos cometas,
Os eus de Fernando Pessoa me pisoteando,
A inesgotável matemática da poesia
O meu impossível respirando teu soluço lagrimejante,
E Todos os universos numa só alma
E toda a poesia numa só linguagem
Rendo-me ao teu inesgotável universo infinito.


By João Leno Lima
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Amor Louco (AL)

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19:55
Fotografia de Rodney Smith


O amor louco não é uma social-democracia, não é um parlamentarismo a dois. As atas de suas reuniões secretas lidam com significados amplos, mas precisos demais para a prosa. Nem isso, nem aquilo - seu Livro de Emblemas treme em suas mãos.
Naturalmente, ele caga para os professores e para a polícia. Mas também despreza os liberais e os ideólogos - não é um quarto limpo e bem iluminado. Um topógrafo embusteiro projetou seus corredores e e seus parques abandonados, criou sua decoração de emboscada feita de tons pretos lustrosos e vermelhos maníacos membranosos.
Cada um de nós possui metade do mapa - como dois potentados renascentistas, definimos uma nova cultura com a nossa excomungada união de corpos, fusão de líquidos - as fronteiras imaginárias da nossa cidade-Estado se borram com o nosso suor.
O anarquismo antológico nunca retornou de sua última viagem de pecas. Conquanto ninguém nos denuncie para o FBI, o Caos não se importa nem um pouco com o futuro da civilização. O amor louco procria apenas por acidente - seu objetivo principal é engolir a Galáxia. Uma conspiração de transmutação.
Seu único interesse pela Família está na possibilidade de incesto (``Amplie o seu Eu'', ``Toda pessoas é um Faraó'') - Ó, mais sincero dos leitores, semelhante meu, meu irmão/irmã - e na masturbação de uma criança ele encontra, oculta (como uma caixa-surpresa japonesa com flores de papel), a imagem do esfarelamento do Estado.
As palavras pertencem àqueles que as usam apenas até alguém as roube de volta. Os surrealistas se desgraçaram ao vender o amor louco para a máquina de sombras do Abstracionismo - a única coisa que procuraram em sua inconsciência foi o poder sobre os outros, e nisso foram seguidores de Sade (que queria ``liberdade'' apenas para que homens brancos e adultos pudessem estripar mulheres e crianças).
O amor louco é saturado de sua própria estética, enche-se até as bordas com a trajetória de seus próprios gestos, vive pelo relógio dos anjos, não é um destino adequado para comissários ou lojistas. Seu ego evapora-se com a mutabilidade do desejo, seu espírito comunal murcha em contato com o egoísmo da obsessão.
O amor louco pede uma sexualidade incomum. O mundo anglo-saxão pós-protestante canaliza toda sua sensualidade reprimida para a publicidade e divide-se entre multidões conflitantes: caretas histéricos versus clones promíscuos e ex-ex-solterios. O AL não quer se alistar no exército de ninguém, não toma partido na Guerra dos Sexos, entedia-se com os argumentos a favor de iguais oportunidades de trabalho (na verdade, recusa-se a trabalhar para ganhar a vida), não reclama, não explica, nunca vota e nunca paga impostos.
O AL gostaria de ver todo bastardo (``filho natural'') chagar ao fim de sua gestão e nascer - o AL vive de aparelhos antientrópicos - o AL adora ser molestado por crianças - o AL é melhor que sensimilla1.3 - o AL leva para onde for sua próprias palmeiras e sua própria lua. O AL admira o tropicalismo, a sabotagem, a break dance, Layla e Majnun1.4, o cheiro de pólvora e de esperma.
O AL é sempre ilegal, não importa se disfarçado de casamento ou de um grupo de escoteiros - sempre embriagados do vinho de suas próprias secreções ou do fumo de suas virtudes polimorfas. Não é a deterioração dos sentidos, mas sim sua apoteose - não é o resultados da liberdade, mas seu pré-requisito. Lux et voluptas.



By Hakim Bey
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O Exasperante

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11:05
Fotografia de Rodney Smith


as almas se movimentam ao redor do infinito,
passeiam pelas extremidades do vomito do mundo,
correm para o longínquo das horas distantes
de si mesmo dentro de si mesmo,
o movimento dos passos em febre pelo impossível,
a solidão de uma criança abandonada
é a solidão dos poetas sem a poesia,
os muros do mundo rasgam-se
ao canto universal dos sonhos,
o vasto campo onde nada nasce
é cama para os desabrigados de si mesmos,
alguns passam todos os segundos de sua existência
a espera do cometa que irá levá-los para a eternidade,
algumas memórias são feitas de quartos escuros
com paredes incomunicáveis,
alguns procuram a porta no invisível,
o mundo dança no poema
dos universos de uma criança,
o claro escuro me tem por louco,
quero que o congresso seja absudizo
para o mundo exterior,
quero que os lixos deixados
nas margens perfeitamente verdes
soterrem os rostos da humanidade
e a sufoquem com sua própria ausência de si mesmo,
passeio à noite pela cidade decadente
para passear pela minha própria decadência,
encontro amigos que estão cientes
que não podem salvar o mundo
mas apenas a si mesmos,
volto para casa com toneladas de distancias nas costas,
carros e rostos viram paisagens abstratas
e a noite é uma tempestade
num deserto flutuantemente fincado no mundo,
ainda restam desejo pelo inadmissível,
crianças turvas com rostos turvos
brincando com cigarros
pelos corredores da praça
não podem se tornar irreparáveis,
a ausência de revolução
dos meus colegas de vinho
sangrando o tempo não pode se tornar irremediável,
quero ser o precipício das horas e não o contrario,
pego restos de poema
que ainda existem em mim e fabrico-me,
depois das lagrimas invulneráveis
os instantes me esperam com gigantes guardas chuvas
para me lavar ate meus sonhos abandonados,
sigo esse horizonte como quem segue um poema
em suas profundidades sublimes onde habita cada um de nós.


By João Leno Lima
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TRANSINQUIETAÇÃO

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09:58
Fotografia de Rodney Smith



alcanço o impossível com minha alma,
ate ela esgota-se de infinitos.
nunca fui mais do que a poça de lama que afunda o mundo,
a memória persiste em dezenas de pequenas gotas de chuva,
meu corpo começa a fabricar pequenas alucinações de cólera,
na praça, meus amigos com bocas enormes
abocanham pequenas formas de universo e
preparam uma bomba dentro do útero da realidade,
persiste minha memória
o raio de luz que atravessa meus tímpanos
ensurdece meus poemas na noite gélida,
persiste minha memória
a palavra nunca dita é a palavra mais decorrente no dialogo,
existe um assombro em cada intervalo de pálpebra,
existe na contra mão de um segundo
um instante de sonho realizado,
por que eu preciso mergulhar no oceano
para ser levado pelas nuvens?
a estrada perdida só esta perdida fora de si mesmo,
destroço o inconsciente.
persiste minha memória
aqui permaneço?
flutuando sobre a pagina a procura da palavra?
a melhor maneira de lutar contra as asas da
inércia inevitável é se vestido de inalcasabilidade,
meus sonhos viram nuvem nesse momento
ha um pequeno universo paralelo
nos olhares mais tristes da manhã e
isso é um grito gritado para dentro.
quantas almas gritam ao mesmo tempo dentro de uma poema?
quantas doses de acido onírico e
cometas são preciso para ser tão racional como meu chefe?
quantos versos precisarei construir
para chegar ao infinito?
fabrico a matéria prima e
os poemas a devoram inesgotavelmente,
depois descubro que na verdade não passei de
uma chuva sobre a pagina em branco
rasguei-a e só.
persiste minha memória.
afundo como uma lança no coração impossível,
desço as paredes do cosmo apenas com minha saliva.
adormeço sobre a calçada do inalcançável
para tremer de frio como a madrugada,
me enrolo no cobertores do acaso
para acreditar nas escolhas mais profundas,

frio na alma e no coração,
certeza absoluta da irrealidade,
preciso alucinar minha sombra para ela fazer sombra
ao meu poema e abrigar meu rosto apagado,
preciso reescrever os versos da minha alma todos os segundos,
navego por oceanos invisíveis
onde só vejo a mim mesmo e nem sempre,
ando pelos desertos da subsconciecia
transsurreal e nada encontro.
procuro seres imaginarias nas
tuas palavras mais verdadeiras,
procuro pequenas mortes no teu silencio,
os versos mais solitários são os versos mais longos,
combato a inconsciência antes de mergulhar
nos arquivos metafísicos de onde trabalho,
planejo evitar minha queda ha mais de um século de segundos
em todos os instantes e sempre fracasso,
quantos fracassos são possíveis a um poeta?
quantas memórias eu preciso juntar para morrer em paz?
quantos amigos preciso possuir para não sentir mais irreal?
de quantos poemas preciso para montar uma arca flutuante
e engravidar Deus por baixo?
ah persiste minha memória
ha muito tempo não leio os poemas de um grande amigo e
juntando com outras ausências forma uma ausência verdadeira,
corro oposto a mim mesmo e paro entre os mundos.
às vezes as palavras esticam pela distancia próxima entre as almas e
elas esticam para alcançar as mãos frágeis do destino,
ah quantas vezes preciso alcançar a mim mesmo
para ter certeza da min ha própria transcendência?



By João Leno Lima
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Fria Inalcansabilidade

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09:50
Fotografia de Rodney Smith


neva sobre a pulsação do mundo.
redemoinho de paranóias que gritam sem ar.
insolúvel soluço que vira nuvem,
ponte entra a minha consciência e a desordem,
fracasso ao encontrar a palavra perfeita,
qual será o melhor momento para iniciar um verso?
me chamam de dramático por
lagrimar sobre os colos do infinito e
sentir quando um olhar é mais dilacerante que
uma lança arremessada pelo acaso,
quero escrever os versos da minha alma
usado tua alma como inspiração,
como eu poderia?
na tarde cheia de amarras eu corro contra o tempo
enquanto meus conhecidos lêem
seus próprios silêncios ao ar livre,
a dança da inexistência é a dança essencial do meu ser,
mesmo assim procuro escavar meus sonhos no
mais profundo âmago do mundo,
mesmo assim declamo poemas
que se dissolvem na boca dos outros,
mesmo assim lanço meu olhar para o horizonte
como se ele fosse entender minha angustia,
mesmo assim sou apenas o cometa que
atravessa o mundo indivisível
como um eco universal de poeta,
às vezes a paixão por existir
transforma meu coração no cérebro da minha alma,
às vezes eu aponto do dedo na minha cara
antes de entrar pela porta de vidro do meu trabalho e
dizer bom dia onde na verdade era para ser um grito ensurdecedor
que quebraria os vidros da manhã calma,
às vezes eu penso que não há nenhum lugar
para eu descansar meu silencio,
essa frieza de neve assola meus cinco sentidos
deixando eles se rastejarem pelos joelhos das horas,
onde será que esta Deus, a não ser dentro de mim mesmo
para eu vomitá-lo assim como todo o lixo do meu corpo
assim me sentirei purificado de mim mesmo e
pronto para beber o vinho tremulo
com meus amigos tridimensionalmente poetas,
ah minha manhã lembra uma
embarcação desconhecida num mar conhecido,
quase sempre quero afundar e afundo
quase nunca não deixo de me afogar
quase jamais fui tão irreal quanto essa embarcação,
quase por alguns instantes
não sofri do delírio simples das coisas simples,
do meu dialogo continuo com as invisibilidades cotidianas...
sempre nasce o inalcançável.


By João Leno Lima Continue

Tentando o Possível

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10:24

1. Recicle o vidro. Calcula-se que a reciclagem de 1 tonelada de vidro poupa 65% da energia necessária à produção da mesma quantidade. Aproveite as embalagens de vidro para conservar alimento no frigorífico, na geladeira ou no freezer.


2. Uma só pilha contamina o solo durante 50 anos. As pilhas incorporam metais pesados tóxicos.


3. Prefira eletrodomésticos recentes e de qualidade, pois gastam menos energia.


4. Regue as plantas de manhã cedo ou ao cair da noite. Quando o sol está alto e forte, grande parte da água perde-se por evaporação.


5. Uma torneira a pingar significa 190 litros de água por dia que vão pelo cano abaixo.


6. Desligue o fogão elétrico, antes de terminado o cozimento, a placa mantém-se quente por muito tempo.


7. Desligue o ferro um pouco antes de acabar de passar a roupa - ele vai se manter quente durante o tempo necessário para acabar a tarefa.


8. Seja econômico: poupe papel, usando o outro lado para tomar notas ou fazer rascunhos; os pratos e copos de papel são ótimos para piqueniques.


9. Em vez de reciclar, tente preciclar (evitar o consumo de materiais nocivos e o desperdício).


10. Um terço do consumo de papel destina-se a embalagens. E alguns têm um período de uso inferior a 30 segundos. Contribua para a redução do consumo dos recursos naturais.


11. Regule o seu carro e poupará combustível. Use gasolina sem chumbo.


12. Sempre que possível, reduza o uso do carro. Para pequenas distâncias, vá a pé. Partilhe o carro com outras pessoas. Sempre que puder opte pelos transportes coletivos.


13. Prefira lâmpadas fluorescentes compactas para as salas cujo índice de ocupação é maior - são mais eficazes se estiverem acesas durante algumas horas. Embora mais caras, duram mais e gastam um quarto da energia consumida pelas lâmpadas incandescentes. Você vai evitar que meia tonelada de dióxido de carbono seja expelida para a atmosfera.


14. Os transportes públicos consomem 1/13 da energia necessária para transportar o mesmo número de passageiros por carro. Implemente uma política de transportes para os empregados.


15. As fotocopiadoras e as impressoras a laser utilizam cassetes de toner de plástico, que freqüentemente têm de ser substituídas. Contate uma empresa que recicle esse plástico ou que o use novamente.


16. Um estudo desenvolvido pela NASA mostra que as plantas conseguem remover 87% dos elementos tóxicos do ambiente de uma casa no espaço de 24 horas. Distribua plantas profusamente por todas as instalações. Recomenda-se, pelo menos, uma planta de 1,2 a 1,5 metros por cerca de 10 metros quadrados. Escolha espécies de plantas que se dêem bem com pouca luz natural.


17. Instale lâmpadas fluorescentes. Substituir-se uma lâmpada tradicional por uma fluorescente evita o consumo de energia equivalente a cerca de um barril de petróleo ou 317 quilogramas de carvão, que produziria 1 tonelada de dióxido de carbono (o maior gás de estufa) e 6 quilogramas de dióxido de enxofre, que contribui para a chuva ácida. As lâmpadas fluorescentes, além disso, duram em média, 13 vezes mais do que uma lâmpada incandescente. São bons motivos para escolher.


18. Desligue as luzes e os equipamentos (computadores fotocopiadoras, etc.) quando sair do escritório. Está provado que, se durante um ano desligarem-se dez computadores pessoais, à noite e durante os fins-de-semana, vai se poupar em energia o equivalente ao preço do computador. Instale sensores de presença que desliguem as luzes sempre que a sala fique vazia.


19. Antes de decidir comprar equipamentos para o escritório, saiba que as impressoras a jato de tinta usam 99% menos energia que as impressoras a laser, durante a impressão, e 87% menos quando inativas; os computadores portáteis consomem 1% da energia de um computador de escritório. Se for possível, opte por esses equipamentos.


20. Calcula-se que um em cada quatro documentos enviados por FAX são posteriormente fotocopiados porque o original tende a perder visibilidade. Desta forma gasta-se não só o papel de FAX (normalmente não reciclável porque é revestido com produtos químicos que são aquecidos para a impressão) mas também o de fotocópia. Compre um aparelho de fax que use papel normal. Funcionam como fotocopiadoras ou impressoras em papel vulgar.


21. Roupas usadas podem ser dadas a outras pessoas ou a bazares de caridade.


22. Brinquedos velhos, livros e jogos que você não quer mais podem ser aproveitados por outros; portanto, não os jogue fora.


23. Descubra se há locais apropriados para o recolhimento de papel velho. Normalmente, esses locais são organizados pelas autoridades locais ou instituições de caridade.


Reduzir, Reutilizar e Reciclar são as palavras da hora.


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A ARTE DE ROUBAR

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08:38

Para os proprietários de centros comerciais e seus agentes de segurança, eles são uns simples ladrões. Para eles mesmos, são um grupo artístico que intervém na realidade mediante a promoção e aplicação de técnicas de roubo. Chamam-se Yomango. Garotos que garantem não incitar ninguém a encher a geladeira na cara lisa, mas sim dar conteúdo político e artístico a atos dispersos que ocorrem diariamente neste grande centro comercial em que se converteu nossa vida.
Eles estão a caminho de se converterem no inimigo número um dos seguranças de lojas mas, reunidos em uma confortável mesa na varanda do apartamento de um dos membros, Yomango parece mais um foro de debates universitário que um grupo de delinqüentes.
Espírito iconoclasta, formação artística, consciência política e muito senso de humor parecem ser seus pontos de apoio. “Não fazemos apologia do roubo – afirma Jordi, um dos líderes do grupo -, o que fazemos é investigar e divulgar um estado de coisas. Há informações curiosas, como a que oferece uma das grandes marcas de dispositivos de segurança, que diz que 30 por cento dos roubos em supermercados ocorrem por parte dos próprios empregados, uns 24 por cento por parte dos clientes e o resto por distribuidores e perdas. Isto foge do típico malandro ladrão, que parece ser, no final das contas, o que menos rouba”. Eles definem suas ações como uma provocação artística. Sua origem está no desencanto que sentem pela luta anti-globalização, à qual criticam por que para combater problemas no século XXI recorrem a esquemas do XIX. “Yomango surge depois da ressaca das grandes concentrações anti-globalização de Gênova ou Praga – comenta Daniel -. Nos perguntamos o que acontece depois de tudo isto. Mudamos de direção e, em vez de basear nossa estratégia em grandes manifestações, decidimos nos voltar para um resposta cotidiana, uma desobediência civil mais próxima e muito mais prática que ir a uma capital européia na qual te chutem o traseiro. Daí surgiu a idéia do dinheiro grátis, e claro, dinheiro grátis é roubar, “mangar” (1); que é uma prática constante e que muita gente tende a fazer em supermercados. De um ideário tão particular vem o nome do grupo: Yomango.
Estes jovens têm como ponto de conexão sua cumplicidade com o centro okupado Laboratório 3, no bairro madrileno de Lavapiés, ainda ativo hoje mas na expectativa de um iminente despejo. Em seu projeto utilizam iconografia maoísta e a misturam com conhecidos slogans publicitários ou personagens contemporâneos como a atriz Winona Ryder, “mangante” ilustre (e convicta) em lojas de luxo de Beverly Hills. “Alguns de nós vêm da arte política – continua Jordi -, e estamos fartos de inventar coisas e ver que duas semanas depois a publicidade se apropria delas. Desenhamos alguns trajes para ir a uma manifestação para batalhar com a polícia, chamados Pret Art Revolter, e em duas semanas a bienal de Turim nos chamou para mostrá-los em uma passarela. É uma loucura. Dissemos a eles que iríamos apresentar algo nessa linha, mas mais cotidiano, e disseram para irmos em frente, e nos puseram na sede central do recinto. Mas quando se deram conta de que era Yomango o que apresentávamos, nos expulsaram a pontapés. Percebemos que havíamos encontrado algo que nem sequer o mundo da arte, que é um grande deglutidor de diferenças, havia podido engolir”.
Estilo de vida
Eles definem como um dos acertos de Yomango incorporar as técnicas do capitalismo à sua luta, mas evitando sua reciclagem pelas grandes corporações. “O passo seguinte foi criar uma anti-marca, que é Yomango, e depois associa-la a um estilo de vida, como fazem as marcas de verdade. Por que está claro que fumar uma determinada marca de cigarro já não significa apenas isso, mas algo parecido com calvagar numa pradaria”. O estilo de vida Yomango se baseia em descobrir “que qualquer ação política, se você deseja que seja constante, deve ser gozosa, porque o capitalismo já amarga bastante a nossa vida para que tenhamos que amarga-la por nossa conta”. Daí que também tenham apadrinhado a iniciativa da SCCPP, sigla de Sabotage Contra el Capital Pasándoselo Pipa (algo como “Sabotagem Contra o Capital se Divertindo Pacas”).
Nessa linha provocativa, criaram também um manual de cabeceira, O Livro Vermelho de Yomango (El Libro Rojo de Yomango), que reúne suas técnicas de furto artístico. Também criaram uma linha de roupas com bolsos ocultos em que os yomango possam esconder o que roubam em magazines e lojas de departamentos. Para ampliar seu leque de estratégias, o coletivo se reuniu com diversas pessoas para trocar informações. “Apareceu gente de todo tipo, os militantes de sempre, mães na luta contra as drogas, rappers...e depois deixávamos fichas onde podiam contar suas receitas para roubar. Uma de que me recordo com carinho consiste em reutilizar os cinzeiros dos estabelecimentos de fast food para envolver os alarmes dos produtos que se vendem em grandes lojas e evitar que soem na saída. È como uma metáfora: os resíduos de uma corporação servem para sabotar a outra”, conta Jordi. Com estas técnicas de roubo, e algumas maiôs conhecidas, como o truque da grávida, elaboraram O Livro Vermelho de Yomango. O manual, uma ironia do maoísmo, explica detalhadamente algumas das performances levadas a cabo por esses ativistas, como o “Yopito”, que consiste em fazer soar os alarmes das lojas de propósito.
“Esta ação, reciclando os alarmes de loja, quer mostrar até que ponto os grandes centros comerciais são superfícies amigáveis e dispostas ao diálogo com os clientes. Porque se você passa por um caixa e apita o alarme, neste instante o centro comercial se revela um grande dispositivo de isolamento e repressão, e ocorre um monte de coisas interessantíssimas e muito intensas, e, claro, se isso lhe acontece levando um salmão e dois queijos debaixo do casaco, é problema, mas se isso ocorre quando não está levando nada e ainda por cima por sua própria decisão, é muito legal. É uma maneira a mais de conhecer e desfrutar de seu entorno comercial”, ironiza Daniel.
Uma de suas ruidosas intervenções na realidade se deu no natal passado no Carrefour do bairro madrileno de Aluche. Ali eles se dedicaram a repartir entre si um total de até 300 preservativos com alarmes que paralisaram os caixas e deixaram o pessoal da segurança afundados no caos durante algumas horas. Porta-vozes dos agentes de segurança desse supermercado madrileno informam que o assunto está nos tribunais e evitam qualquer outro comentário. Yomango responde: “Sabíamos que isso ia chegar aos tribunais como desobediência civil, como ocorreu no caso da objeção de consciência (2).” Isto, que pode parecer mais próximo da gambiarra que do discurso político sério, chama a atenção de instituições tanto dentro como fora da Espanha.



Reconhecidos


“Tentamos socializar os recursos que o mundo da arte proporciona e o fazemos enfiando a cara e utilizando o dinheiro que nos dão para aumentar a difusão de nosso trabalho. Fomos curadores no MACBA, demos conferências no MIT de Boston, e nos convidam para bienais”. O cineasta underground Manuel Romo fez um documentário em vídeo sobre as atividades do Yomango e uma pré-montagem deste trabalho serviu de aperitivo na exposição Deluxe, que se pode ver em Madri, Miami e Valladolid. “As instituições de arte e as universidades tem de reconhecer que o que propomos faz parte da tradição acadêmica e artística. A arte política desde os anos 60 se envolve no contexto em que nasce. Já não se trata de fazer uma obra representando a guerra, mas dos artistas mergulharem na realidade”.
Mas o que diferencia Yomango é que ele ataca a base do capitalismo, o consumo, pondo em evidência as técnicas de persuasão que as empresas usam para vender seus produtos. “Quando se entra em movimentos políticos, costuma-se ter por alvo o Estado ou as forças e corpos de segurança, mas poucas pessoas se fixam na política das empresas para obter lucros, isto é, se concentrar em supermercados, baratear os empregos, e, definitivamente, gerar uma miséria que permite aplicar o Yomango”. Grupos parecidos, como o coletivo norte-americano Adbusters (http://www.adbusters.org/) também refletem sobre a super-exposição de estímulos comerciais a que nos submetem todo dia. “Não podemos confirmar nada, mas continuaremos em ação”, conclui Jordi.


Fonte: SCCPP – Sabotage Contra el Capital Pasándoselo Pipa (www.sindominio.net/fiambrera/sccpp/).
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SOM INEXPLICITO DO VUNERAVEL

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10:38

Pelo menos cada instante
Foi vivido como se fosse o ultimo.
Fui da poça de lama
Ao interior do tempo-espaço,
Cavei as soturnas nuvens solitárias
E penetrei nos sonhos
construídos com colunas De versos
Entre a persistência intima
E o abandono de si mesmo
Só ha uma reparação,
Sinto-me menos sonhador,
Mais desenfreidamente temporal
Mais atemporalmente melancólico,
Um resto de qualquer coisa
Que sonha infinitos
Destruidor de silêncios
Poente ausente de si mesmo,
Rua vinte de abril
Virando ponte para algum confim
Alem das coisas cotidianas,
Dois pés no centro de destino,
Querer fugir o tempo todo é querer resistir,
Pego o livro de Allen Ginsberg
Que esta ao alcance como metáfora do inalcançável,
No meu tumulo quero
Poemas de Fernando Pessoa em vez de flores
Para eu poder respirar-me,
As lembranças do meu ser impossível às 3 da manhã,
Meu coração enorme
Que já não cabe na minha alma,
O canto do mundo à noite
Aperta minha boca contra suas paredes,
As coisas que eu nunca vou viver
Desmoronam sobre mim,
Eu desmorono sobre mim,
Fazer um poema
É o que ainda me faz respirar
Ah fúnebre crepúsculo dos ausentes,
Quero ser o amante invisível
De todos os infinitos,
Meu rosto não passa
De um amontoado de ilhas solitárias,
De Manaus aos firmamentos do universo
Um mudo olhar
Tossi instantes abandonados,
Esse poema é um fragmento solitário num oceano de instantes,
Inevitavelmente ele corre para o precipício intimo
Onde no vazio já não há mais
Desespero.



By João Leno Lima
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Canto Ausente

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10:09

Enormes colunas se erguem contra minha ausência,
O silencio é um coração gigante asfixiando
Vulneráveis paredes com asas intimas,
Ninguém conseguiu evitar as ausências de si mesmo,
O enorme olhar que ha em cada instante
Sente o cisco da minha lagrima cheia mãos frágeis,
Rabisco oceanos que querem me afogar
Puxando-me pelos braços,
E vou com eles
Como quem volta ao útero
Do seu próprio precipício,
Abrigo-me na palma da mão da vulnerabilidade,
Esmagado ainda respiro trêmulos invernos
Apenas para permanecer
Sem sentido
Apenas para permanecer
Aqui
com todos os sentidos esculpindo
Meu rosto nas paisagens que nunca aconteceram.




By João Leno Lima
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Tentando o possivel

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14:33

Curitiba foi a 1ª cidade a implantar o Sistema de Coleta de Lixo Seletivo no Brasil, foi no ano de 1989 que tudo começou. Hoje o programa atinge 100% da cidade, que tem uma produção de 2,2 toneladas de lixo seco por dia. Deste total, 550 toneladas são separadas, o equivalente a 70% da população curitibana contribui com a coleta seletiva.A questão dos resíduos sólidos da cidade desperta muitos interesses e é vista como modelo por todo o país. Os resíduos são recolhidos por caminhões conhecidos como "Lixo que não é Lixo" e também por um exército de trabalhadores informais, que ganham a vida com a coleta do material que não teria nem uma importância para a maioria das pessoas.O lixo reciclável é coletado em todos os bairros da capital paranaense e diariamente enchem 42 caminhões, mas essa quantia não representa a totalidade do material que é separado nas casas, comércio e empresas, pois na cidade existem muitos catadores de lixo reciclável e através de acordo com lojas e condomínios arrecadam o material. No Paraná, dos 399 municípios, 124 ainda despejam os resíduos em lixões a céu aberto. O site do Instituto Akatu revela que 88% dos municípios brasileiros não têm aterro sanitário. Enquanto os municípios que têm gastam R$ 4,6 bilhões para manter esses locais. Para tentar reduzir o número de lixões, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente lançou no Paraná o programa “Desperdício Zero”, e pretende reduzir em 30% o volume de lixo gerado. Segundo a secretaria, já foram investidos R$ 6,5 milhões na construção de aterros sanitários em 57 municípios. A reciclagem de lixo é uma das grandes questões da humanidade porque atua em duas vertentes do processo de consumo, evita o desgaste de recursos naturais e, também, o abandono do material no meio ambiente.Além da coleta seletiva, a capital paranaense faz uma coleta específica para lixo tóxico domiciliar, como pilhas, baterias e remédios. O lixo comum é destinado ao aterro sanitário, que também recebe os resíduos de mais 14 municípios da região metropolitana. Muitos anos após a implantação do sistema, Curitiba tem o maior índice de aproveitamento de lixo reciclável entre as cidades do Brasil, vamos levar essa iniciativa a todo o território nacional. Juntos podemos fazer a diferença em um MUNDO MUITO MELHOR. Tempo de Decomposiçãodo lixo
Papel
3 meses
Palito de fósforo
6 meses
Ponta de cigarro
1 a 2 anos
Goma de mascar
5 anos
Lata
10 anos
Sacos plásticos
30 a 40 anos
Garrafa pet
Mais de 100 anos
Fraldas descartáveis
600 anos
Latinha de Cerveja
200 anos
Tecido
100 a 400 anos
Vidro
Mais de 4000 anos
O que pode reciclar
O que não pode
Papel
Papel carbono
Papelão
Celofane
Caixas
Papel Vegetal
Jornais
Papel encerado
Revistas
Papel higiênico
Livros
Guardanapos
Cadernos
Fotografias
Cartolinas
Fitas
Embalagens longa-vida
Etiquetas adesivas
Sacos plásticos
Plásticos metalizados (salgadinhos)
CDs
Isopor
Disquetes
Espelhos
Embalagens Plásticas
Cristais
Garrafas PET e vidro
Cerâmica
Canos
Porcelana
Plástico em geral
Computadores
Frascos em geral
Clips
Copos
Grampos
Vidros em geral
Esponja de aço
Latas de alumínio
Pregos
Latas de Produtos Alimentícios
Canos
Embalagens metálicas de congelados
Termofax
Tampas de garrafas
Lenços de Papel
Você sabia?Uma pessoa produz todos os dias uma média de 1,2 kg de lixo;O Brasil produz cerca de 115 mil toneladas de lixo por dia;30% do lixo produzido é composto de materiais recicláveis como papel, vidro, plástico e latas. O Brasil recicla menos de 5% do lixo urbano que produz;Pelo menos 35% do lixo que produzimos poderiam ser reciclados ou reutilizados, e outros 35%, serem transformados em adubo orgânico; Para a produção de uma tonelada de papel são derrubados vinte eucaliptos, que demoram sete anos para crescer;Cada lata de alumínio reciclada economiza energia elétrica equivalente a manter uma lâmpada de 60 watts acesa por quatro horas. Uma torneira que pingue durante todo o dia representa 190 litros de água jogados fora. A reciclagem de 100 toneladas de plástico evita o uso de 1 tonelada de petróleo.Hoje, no Brasil, milhares de famílias se favorecem dos resíduos sólidos que são fabricados todos os dias. Separá-los evita que pessoas precisem revirar sacos de lixo. Redação: Raquel Susin
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Redor

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09:56

Pintura de Rene Magritte



Acredito nos oceanos ao meu redor
Acredito nas nuvens repletas de versos
Acredito ate no abismo que flutua por cima do meu
Rosto como um horizonte constante
Mas não me acredito.
Acredito nas formas sublimes de sonhos irremediáveis
Acredito no corredor que alcança seu objetivo Mágico
Acredito que as noites contem os mais profundos segredos
Acredito ate que uma troca de olhares ja contem um
Poema absoluto
Mas não me acredito.
Acredito nos desertos como desolações intimas
Acredito no mais intenso âmago da tristeza
Acredito que o tempo - espaço tem a pele de uma alma
Mas ainda assim não me acredito.
Aquele grito que transpassa o corpo atirado no seu
Próprio cárcere e que atinje-me parece acreditar em Mim,
Aquele braço que me impede de ser fugitivo e que faz
Voltar-me ao centro gravitacional dos meus
Companheiros poéticos parecem acreditar em mim,
As crianças abandonadas pelo acaso que pousam no
Na palma da minha mão
Pedindo uma ajuda silenciosa parecem
Acreditar em mim,
A musica que entorpece todos os mecanismos do
Meu movimento parece acreditar em mim,
O descompasso dos coraçoes em troca mutua de
Universos inabaláveis parecem acreditar em mim,
Mas não me acredito
Sinto que a morte lentamente esculpida no canto da
Minha lagrima também me acredita,
Sinto que todas as angustias numa conversão
De angustias inquebraveis também me acredita,
Sinto que a chuva que planeja me afogar de
Memórias crepusculares também me acredita,
Sinto que o piano tocado em notas longas de
Desespero trilhando a melodia do uivo
Desenperançoso também me acredita,
Sinto que a solidão que vem como um anjo
Destemido que me acompanha pelos quatro cantos
De todas as poesias também confessa que
Acredita-me,
Eu que pensei que a aurora voraz que machuca meu
Coração com cotidianos asfixiadores, ela acredita-me,
Eu que pensei que meu destino havia se perdido por
Caminhos tortuosos de fracassos e inalcansabilidade,
Ele acredita-me,
Eu que pensei que meu futuro fosse apenas mais uma
Gota no mar infinitésimo mar do mundo, ele acredita-me,
Eu que pensei que o amor não passasse do limite
Frágil limite do impossível, ele acredita-me.
Ate as pegadas do que deixei para traz
Sentindo e não sentindo mais, acredita-me.
Ate o verso que escrevo
Acredita que o verso que virá em seguida
Virá para completá-lo em absoluto,
Ate o poema que escrevo
Acredita que ao ser lido ira consolar o ser desconsolado
Mesmo que momentaneamente,
Ate os lábios invisíveis da mulher amada
Acredita que será tocado
Pelos lábios invisíveis do meu pensamento,
Ate o vento indomável
Acredita na minha companhia imprencidivel ao seu lado
No meu sonho impenetrável de poeta,
Ate os cometas e as estrelas tremulas
Do sussurro do universo
Acreditam que passei por elas vertiginosamente,
Ao surgir entrelaçado
Nas mais profundas leis da natureza
O existir acreditou-me,
Ao surgir nos seios de pais e estranhos do mundo
Eles acreditaram-me,
Antes dos primeiros passos
Das primeiras palavras do primeiro sentido
Do primeiro silencio e da primeira lagrima
Todos eles acreditaram-me,
Inesgotavelmente
Cada infinito
E cada eternidade
De cada coisa
Acredita-me
Inesgotavelmente.



By João Leno Lima
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Mapa

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09:06



A Jorge Burlamaqui


Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado.
Estou limitado ao norte pelos sentidos,
ao sul pelo medo,
a leste pelo apóstolo São Paulo,
a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluidso,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chama pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo , vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei o que é o bem
nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações...
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,
o mundo vai mudar a cara,
a morte vai revelar o sentido verdadeiro das coisas.
Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artitas doentes, dos revolucionários...
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor ,outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,
vibrarei nos canjêres do mar, abraçarei as almas no ar,
me insinuarei nos outros cantos do mundo.
Almas desesperadas eu vos amo. Almas insastifeitas, ardente.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens "práticos"...
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
e os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os dois bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito...
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.



By Murilo Mendes
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ODE A VIOLENCIA CONTRA OS SENTIDOS

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09:02
Pintura de Rene Magritte

Parto do principio que a arte é a valorização mais profunda da razão humana.
Substancia que deve permanecer atrelada profundamente em nossas mentes
Desde primeiros acordes da nossa infância,
A poesia como conseqüência transforma todo o átomo de palavra na revolução eternamente renascida de todos os sentidos expressados
Com todos os dizeres visíveis ou invisíveis de nossa alma.
A humanidade perdeu-se em algum caminho qualquer
Da própria consciência inconsciente
Engolida por suas razoes matematicamente idealistas
Engoliu os sonhos mais utópicos de existência
Dando espaço progressivamente para o individualismo capitalista e neoliberal e nos impondo com suas ideologias selvagens e entropofagicas a sua lei mutante que se materializa num cão devorador de sentidos,
Inventar novas saídas para a própria sobrevivência mágica do individuo e ou reiventar-se a cada metro quadrado enquanto se alastra o que nos destrói profundamente,
A arte para algumas almas é seu extinto de sobrevivência sua garantia
De respiração momentânea seu ar puxador como desesperadora
Atitude humana seu grito indivisível e mesmo invisível engole o visível
E o próprio invisível,
Em todos os quatro cantos essa profusão cataclismatica
É a união da matéria viva com sua subconsciência arrebatadora ela jamais deixara de fluir nos corações trasbordantes que mesmo que seu espaço
Sensorial e físico não seja dado,
Ela infilutra-se pelos azulejos da câmara dos deputados, debaixo da porta das secretarias de cultura pelos tubos de ventilação do senado pela frechas imperceptíveis dos mictorios da prefeitura pelos corredores que fedem a fracasso politicamente correto e estupidez inanimada que assalta os cofres públicos de nossos sonhos mais sublimes, ela envolve num nó inconseqüente e renasce num ambiente mais transcendente, como numa praça publica mesmo desarticulada, nas casas de vidro que apenas habitam seres envidraçados morrendo de fome, nas panelas de pressão que evaporam o absoluto, nos pratos de comida.
Se tornando o impossível cotidiano,
A poesia invade todos esses portais que banqueteiam o futuro o presente o inalcançável passado, mostrando que a humanidade não veio apenas para respirar seu próprio eco asfixiado ou para amamentar seus filhos pelos porões dos corredores dos hospitais cheios de filas que vão ate o outro lado do mundo ou param serem mortas com armas de fogo trazidas das goelas dos que também sofrem uma dor paralisante transformada em violência que vagueia pelas artérias poluídas de chumbo e ácido vulcânico de inércias ou para comprar ternos importados dos mundos exteriores tirados dos bolsos paralíticos da multidão,
Que a humanidade não veio para servir de curral apocalíptico de fantasmas da própria mascara, não veio para transformar seus sonhos mil vezes sonhados em mero devaneio de quem não pode trabalhar no comercio.
A humanidade é a união de todos os sentimentos entrelaçados com toda a metafísica e transcendência inesgotável em camadas e camadas de desejos inexploráveis, não pode ser apenas dizer “sim” e “não” em seus olhos funebrimente futuristas e deitarem suas cabeças latejantes nos seus travesseiros puídos de tristeza e conformismo petrificado,
Faz-se poesia se faz arte se faz seres que se fazem inadequados marginais do mundo dos que apenas vieram para serem conquistados se faz poetas e loucos sonhadores que passeia pelas extremidades de si mesmo como exemplo que qualquer um de nós pode passear pala extremidade de si mesmo, mesmo se for colocado uma corda metálica no pescoço mesmo que se for colocado uma camisa de força de leis e ordens e censuras disfarçadas e senso comum vindos de algum lugar menos das nossas próprias visões existenciais, mesmo que seja imposta em nossa conduta pequenos hologramas explicando que não podemos ser nós mesmos para não afetar a ordem das coisas, pequenas cartas escritas na televisão nos explicando como o mundo é e tem que ser, e que mesmo se fizermos barulhos e sinfonias de bolso apenas estaremos delirando como piratas num mar desconhecido porem a arte veio para salvar o mundo mesmo que ele despreze da sua ajuda incansável a arte veio para engolir os seres escondidos em si mesmo que de braços cruzados vem a criança brincar na borda do abismo de sua sensibilidade sonhadora,
E se tornar a deformação catatônica da falta de identidade consigo mesmo e se sues anseios ancestrais e intermináveis
A poesia mesmo amordaçada renasce eternamente e seus vastos campos têm a força de mil gritos se multiplicando tem a força da união de todas as asas tem a força da união de todas as mãos tem a força dos cinco sentidos visionários e sua decretada morte é apenas o único sonho que jamais verá a luz.








Uivo
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