Versibilidade

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08:53


Entranhada entre o silencio
E o grito nebuloso das tempestades
É onde esta minha alma.
Parto do principio que ainda não foi da ultima vez
Que alcancei meu ser por absoluto,
Minha memória rasga-se nascendo pequenas poças de momentos,
Quem eu sou é um vento que passeia no crepúsculo,
Quem eu fui começou a definhar na aurora,
Mesmo assim me embriago
Todos os dias de tempo e espaço,
Ah o tempo e o espaço não cabe
Dentro do meu rosto feito de invisível,
Parece que estou correndo de mim mesmo o todo o tempo,
Transformei meu ambiente de trabalho
Num universo paralelo
Que sobe pelas paredes e se refugia
Nos tubos de ventilação do acaso,
As possibilidades que se destroçam,
O vinho que evapora levando meu destino,
Cansei de cair de andares fabricados por minha própria ilusão
Se for para despencar
Que eu desça finalmente todos os abismo
E escreva lá intermináveis poesias,
Lá exatamente lá
Onde se misturam todos os elementos e todos os sentidos,
A poesia é um estado elevado de consciência,
Às vezes é uma queda elevada que espatifa e deixa irreversível,
Somos obrigados a ser a pagina em branco do nosso próprio recomeço,
E assim nasce de novo e de novo uma forma de horizonte,
E assim como num dialogo de sensações
Despeço-me do mundo dentro dele mesmo,
E assim sendo rei do meu próprio mundo
Invento a lei sub-infinita...
É proibido não haver poesia.
Na verdade é insuportável não haver poesia,
Sem poesia somos insuportáveis,
Não quero mais escrever
Quero soprar as palavras com a força de mil tornados
E fazer teu ser
Ser levado pelos confins para encontrar-se
Com todos os infinitos no mesmo segundo,
Ah nesse segundo meu corpo incapaz de ter asas
Vê minha alma sobrevoar as extremidades
Dos sonhos que a consome,
Ser consumido pelo sonho
É estar sobrevivente ao verso que te engole e te mata,
Eu perco o caminho de volta todo o tempo,
Meus passos para ir ao trabalho
E meus passos para voltar para casa
Fazem exatamente o mesmo percurso
Com a precisão calculada pelo vazio,
O vazio não é um personagem
É um órgão que se alojou em mim
E devora minha alma por dentro,
Mesmo assim leio em voz alta
A poesia que esta em mim mesmo e isso o ensurdece,
Preciso que alguém escreva um poema para mim,
Com poucas palavras, mas com versos que medem um infinito,
A culpa é da solidão,
Ela tem forma de noite inconsolável
E madrugada que congela as veias da lagrima,
Forma de horas que não se esgotam
E forma de verso escrito no cotidiano de uma intimidade,
A culpa é minha,
Escrevo versos e esse é meu ultimo refugio.
Então mergulho na tempestade
Para depois renascer oceano,
Nadando pelas extremidades
Eu encontro o destino final dos segundos,
Espalho-me pelos poros do mundo,
Não sou mais o vírus da minha própria alma,
Sou uma doença crepuscular
Que ainda assola a aurora transcendente,
Meu infinito se desprende de mim
E foge pela respiração das horas
Eu pretendo alcança-lo
Com minhas mãos cheias de poesias
Prontas para serem inesgotavelmente sentidas,
É por isso que escrevo versos
Para cada palavra virar um horizonte dentro do coração do mundo,
Desço pelas goelas e adormeço no tempo-espaço,
E permaneço lá nos hemisférios dos meus sentidos,
Apesar da desordem ainda sou um abismo de infinitudes,
Meu coração é um lugar escondido
Rodeado de nuvens que se transformaram em poemas,
Estou sendo sulgado para fora de mim,
Na madrugada escondida na extremidade do meu ser
Eu disse coisas que estavam escondidas nas profundezas da alma
E assim reencontrei a mim mesmo
Como ultima forma de sonho possível,
Quantas formas de sonhos são possíveis nas mãos
Tudo que resume um ser?
Respiro auroras e sopro crepúsculos,
Engulo as ruas e vomito longos percursos pelos universos,
Só o invisível consegue explicar-me,
E se de repente o invisível desprende-se de ti
E revelasse tua partícula intima de verdade?
Planejo sempre milhões de recomeços,
E faço planos com o mundo e com outros mundos
Mas só meu próprio infinito consegue revelar meu ser
Alem dos olhos do possível.
O meu coração é um vulcão que extrai do centro da minha alma
Os sonhos mais irreversíveis.
Só a poesia consegue me fazer sentir.


By João Leno Lima Continue

Manifesto Nômade

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08:42

Tom-B


Liberte-se do átomo. Não tenho muita certeza quanto ao Negroponte, mas uma ele deu dentro: entre o átomo e o bit, fique com o bit. Trabalhe com a mente, não com a mão, e que o fruto do seu trabalho seja digital. Liberte-se da corporação. ''Patrão'' e ''empregado'' são palavras que não têm mais sentido, assim como ''senhor'' e ''escravo''. Trate as corporações de igual pra igual, com cuidado! - pois são feras poderosas. Dê a elas uma dose do seu próprio veneno: a oferta e a procura. Cobre sem dó. Liberte-se do tempo e do espaço. Pra que acordar de manhã e bocejar em uníssono com o resto da cidade? Pra que enfrentar congestionamentos só para se deslocar até um cubículo odioso cuja única função é te colocar sob a vigilância de bedéis e babás? Faça o seu trabalho fluir através dos fios. Trabalhe nu. Arranje ferramentas para o seu cérebro. Outro paradigma: esqueça caixotes estacionários, pense em portáteis baratos e versáteis enfiados numa mochila. Se tiverem a aparência de uma bolha colorida e translúcida, melhor. Se a velha-guarda der risada, deixe. Lembre-se que caixotinhos bege combinam com isórias bege, carpetes cinza, luzes fluorescentes e almoço das 12:00 às 12:30. Você pode escolher: é por isso que dreadlocks serão o símbolo de status do futuro. Por enquanto você ainda vai estar preso: a fios de telefone e ethernet; à área de cobertura do seu celular. Mas fique esperto: daqui a vinte minutos o céu vai se coalhar de satélites e você vai poder sair correndo pra praia. Arme-se! Os monolitos do poder não verão com bons olhos esses bandos de freaks correndo por aí, vivendo de produção intelectual pura, cagando pras regras do passado industrial. Fique ligado em criptografia, em redes de contatos e nos caminhos da economia. A época é de transformação. Caos e oportunidade. É a nova fronteira - laptops estão para os anos 00 assim como os clássicos Colts de 6 tiros estão para o Velho Oeste.



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Manhã

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08:38


Não é verdade que uma vez vivi urna juventude amável, heróica,
fabulosa, digna de gravar-se em páginas de ouro? Incomparável
ventura! Por que crime, por que erro, vim a ser castigado com a
fraqueza de hoje? Vós que pretendeis que os animais solucem de
dor, que os doentes desesperem, que os próprios mortos sofram
pesadelos, procurai aclarar os motivos da minha queda e do meu
sonho. Quanto a mim, não posso melhor explicar-me do que um
mendigo com seus monótonos Pater e Ave Maria. Eu não sei mais
falar.
Todavia, agora, creio ter encerrado o relato de meu inferno. Era, não
há negar, o inferno; o antigo, aquele cujas portas o filho do homem
descerrou. Do mesmo deserto, na mesma noite, meus olhos sempre
cansados se voltam para a estrela de prata, sempre, sem que os Reis
da vida, se comovam, os três magos, o coração, a alma, o espírito.
Quando iremos enfim, para além das praias e das montanhas, saudar
o nascimento do trabalho novo, da sabedoria nova, a fuga dos
tiranos e dos demônios, o desaparecimento da superstição; quando
iremos adorar - os primeiros! - a Natividade sobre a terra?
O canto dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.


By Artur Rimbaud
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Imperio dos Sonhos

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14:00

“Eu não sei o que veio antes ou depois. Não consigo distinguir o ontem do amanhã e isso está fodendo com a minha cabeça.” Essa fala da personagem de Laura Dern, que acontece por volta das duas horas do total de três do longa-metragem, surge como um bem-vindo perdão ao espectador completamente desnorteado pelos saltos no tempo, no espaço, na história e nas personalidades da protagonista, que se empilham por minuto. É também tudo o que o espectador não deveria ouvir: quando a impossibilidade de resolução é reconhecida, o espectador perde por completo a rede de segurança. Aqui temos o diretor assumindo ao público que o barco está desgovernado e insinuando que tanto o criador quanto o receptor encontram-se igualmente reféns de um universo sombrio, vivo e independente. Não haverá ninguém para nos resgatar. Hollywood precisa fabricar passado e futuro no presente para realizar obras que ficam suspensas no tempo. Uma vez pronto, o filme é uma entidade que passa a existir na dimensão cinematográfica, onde nunca mais envelhece, nunca mais morre, mas de vez em quando é esquecido. E quando isso acontece, remakes são providenciados. Diferentes das montagens teatrais (uma vez que o teatro é sempre acontecimento real, nunca é ilusão), o remake cinematográfico, uma vez realizado, é lançado para a mesma dimensão que o seu original. Remakes são justificados de várias formas: podem ser atualizações de clássicos muito bem amados para gerações deslumbradas com os astros da contemporaneidade, ou apresentarem evoluções técnicas que trariam o filme muito mais perto da visão originalmente concebida pelo diretor. Crise de identidade, auto-questionamento, o filme original se defronta com seu remake e se questiona o motivo de ter sido substituído: não era bom o bastante? Era mal feito? Foi ultrapassado? Filmes são as fundações sobre a qual Hollywood se sustenta e remakes não são uma mera reforma, mas a substituição completa do esqueleto estrutural da indústria cinematográfica em questão. Nesse constante reinventar, temos o risco da perda de referência, uma esfera definida por um estado de esquizofrenia galopante (afinal, sua realidade é a fabricação de ilusões) que se auto-sustenta, que se auto-consome, regida por leis e gramática próprias, na qual o tema dos filmes deixa de ser a vida, mas os próprios filmes. A fantasia deixou de ser as aventuras na tela, mas todo o universo além-tela: o indivíduo idealiza-se celebridade, estar não na ação fantasiada e sim no processo de fabricação da ação. Não por acaso, "INLAND EMPIRE" começa com uma imagem familiar: uma imagem chuviscada de uma televisão fora de sintonia, a mesma forma que o diretor abre "Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer". De dentro dessa imagem, surge uma transmissão de "Rabbits", sitcom de Lynch anteriormente só disponível na Internet (e a sobreposição do cenário da sitcom com a habitação primeira da personagem de Dern já indica o intercâmbio sem barreiras alfandegárias entre real e perturbação mental). Os bastidores da boate de burlesque são cobertos por cortinas vermelhas tal qual a famosa sala dos sonhos do Agente Cooper no seriado televisivo. Até os créditos finais, personagens de outros filmes poderão reaparecer aqui. Remake. Referência. Reaproveitamento. Nenhuma das obras de Lynch é encerrada, mas permanece viva na cabeça de seu autor como um sonho ainda a ser decifrado e sonhos subseqüentes que pegam emprestados momentos dos anteriores, auxiliando na sua compreensão ou transformando o seu sentido por completo. Artífices presos dentro do turbilhão, David Lynch e Laura Dern encontraram numa Sony PD-150 (uma câmera digital de nível profissional, mas de preço acessível ao consumidor, daí o termo "prosumer") o escafandro para o mergulho mais profundo no subconsciente em toda obra cinematográfica de ambos. "INLAND EMPIRE" é um jogo de associações regido pela maior liberdade tanto na sua fabricação quanto na sua recepção, ao que, sem uma linha clara, Lynch e os atores decidiam casualmente que cenas filmariam juntos meros minutos antes de ligarem as câmeras. O resultado final é um exercício exasperante e perturbador, igualmente irritante e hipnotizante, mas em nenhum momento irresponsável: cada cena se liga com as anteriores numa teia complexa demais para ser concebida propositalmente, como ordenadas por uma lógica indescritível. Se Lynch revela que ele não é tão refém assim das maquinações independentes da mente (há uma reviravolta "acordada" demais em seus minutos finais e que revela um tecido narrativo pré-concebido – isso não é uma negação direta do que afirmo no final do primeiro parágrafo, mas coloca a possibilidade de interpretação proposta em cheque), ele parece menos um auteur malicioso e mais solidário com a angústia do espectador ao tentar ele mesmo aplicar uma interpretação possível a toda enxurrada de imagens assombrosas (e nunca Lynch chegou tão perto de fazer um filme de horror assumido como aqui; uma das cenas finais que envolve um confronto armado entre Laura Dern e seu marido polonês no corredor azulado de uma espécie de hotel parece impressa diretamente de um pesadelo febril - e o longa está repleto de idéias visuais de fazer a pele formigar). Não seria a primeira vez. Se "INLAND EMPIRE" alonga-se por 3 horas, isso é reflexo da liberdade técnica e artística que o formato digital lhe permitiu. David Lynch constantemente foi obrigado a terminar suas obras com finais artificiais, enganadores, talvez até improvisados, abruptos: falo do final criado para a versão VHS do piloto de "Twin Peaks" que sugeria um assassino próprio e fechava-se enquanto um longa-metragem independente do seriado televisivo, falo do final de “Mulholland Drive" (do qual "INLAND EMPIRE" pode ser considerado obra-irmã, já a partir mesmo de sua referência titular a Los Angeles: o título refere-se à área ao sudeste de Los Angeles que apreende as cidades mais antigas da região), anexado a um piloto de um seriado não-aprovado e também transformado em longa-metragem, assim recebendo um destino muito mais generoso do que o ostracismo reservado a tantos projetos como esse. O que era apenas um projeto casual - iniciado a partir da cena entre Dern e seu sombrio psiquiatra mudo - se revelou um projeto de fascínio para o diretor que continuou explorando o significado da trama através da filmagem de mais cenas, inicialmente instintivas e sem relação obrigatória com um todo. As 3 horas são o produto final de dois anos e meio de pesquisa cinematográfica em sua melhor forma: a filmagem. Lynch é capaz de explorar o pesadelo com pesquisa de campo. Um filme inacabado é também o desafio da personagem de Dern, uma atriz caída no ostracismo que consegue um papel no longa enigmaticamente intitulado “On High In Blue Tomorrows”, ao lado do galã interpretado por Justin Theroux. Ao longo das filmagens, eles descobrem estar trabalhando num remake... ou quase: o roteiro, baseado numa fábula cigana e originalmente intitulado em alemão “Vier Sieben” (47), que seriam números malditos, já teria inspirado um filme que nunca foi acabado, uma vez que a atriz enlouquecera durante a produção. A própria história do filme não terminado – vivida repetidas vezes por Lynch durante sua carreira, como já falamos – é um dos folclores mais populares na indústria cinematográfica norte-americana: podemos citar como exemplos “Four Men On A Raft” de Orson Welles, “Dark Blood” de George Sluizer (interrompido pela morte de River Phoenix), ou até mesmo “The Brave”, roteiro considerado maldito pelos produtores (o ator principal teria morrido de conseqüências misteriosas) e por isso mesmo escolhido por Johnny Depp para ser seu primeiro (e curioso) filme enquanto diretor. Um filme inacabado lança uma aura maléfica em cima de todos os envolvidos, como se abrisse um portal para uma outra dimensão ou que fundisse as esferas do real e do imaginário/fabricado. Ou pelo menos, coloca suas carreiras em suspenso. A Hollywood construída na primeira parte de “INLAND EMPIRE” é uma impossível de ser real, uma vez que concentra a maioria dos cameos célebres em aparições de pequena importância, como se insinuasse um universo onde o anunciante de programa de TV não poderia ser ninguém outro do que William H. Macy. Ou a apresentadora trash de programa de entretenimento não poderia ser nenhuma outra do que Diane Ladd (retornando à companhia de Lynch e sua filha Dern após “Coração Selvagem” – sinto-me tentado a relembrar a insubordinação de Ladd, quando sua filha foi parar no blockbuster “O Parque dos Dinossauros”, aceitando o papel de cientista no oportunista “Carnossauro” de Roger Corman, dispondo-se a pôr um ovo gigante em cena, mesmo embora essa anedota nada acrescente à análise). Tal mundo contrastará diretamente com aquele povoado por imigrantes poloneses, prostitutas fantasmagóricas, casas de subúrbio e nenhum glamour, contraste tamanho que virá a negar por completo a existência dos personagens – que podem ser ou não idealizações de protagonistas invisíveis. “INLAND EMPIRE” rompe o complexo projeção-identificação enfiando-lhe ao meio um espelho deformador, separando-o em duas realidades nada ideais, odiosas, aterrorizantes. Lynch encontra em Dern o “cavalo” ideal para submeter às suas manipulações e poucas vezes se viu um ator se permitir afetar-se tão profundamente pelo subconsciente de terceiros. A gradual demolição do universo de fantasia do filme está imediatamente representado na forma como o rosto de Dern parece se derreter na tela. Não surpreende a feiúra estética de grande parte dos momentos de “INLAND EMPIRE”, fazendo a produção aparentar os valores de um filme de terror tipo Z feito no quintal de casa por um bando de adolescentes (afinal, esta é uma produção que a StudioCanal resolveu bancar mesmo com o diretor admitindo que não sabia o que estava fazendo e tendo como equipe estagiários e universitários recém-graduados), mais do que ela é encorajadora, contrastando com os planos-assinatura de Lynch – sempre envolvendo luzes vibrando por um mau contato que pode ser elétrico ou espiritual. O efeito, pela textura do novo meio, é diferenciado: o vídeo digital tenta simular o efeito cinematográfico não através do “flickering” da projeção 24fps, mas com a suavidade das linhas nos movimentos. Película e Vídeo Digital têm diretrizes diferentes para induzir o efeito hipnótico no espectador e é necessário dizer que o segundo ainda não o alcançou com sucesso. “INLAND EMPIRE” é um filme mais assustador do que “Mulholland Drive” pela aspereza e imediatismo na sua textura que traz aquele universo sombrio para o nível do real, ao que o filme anterior, até nos seus momentos mais aterradores, preservava aquela artificialidade tão idealizada pelo cinema em sua encarnação clássica, permitindo ao espectador um afastamento saudável, mas que o mantinha numa esfera segura. Se o diretor declarou publicamente que jamais voltará a produzir filmes em película novamente (mesmo embora eu pessoalmente acredite que é possível que ele retire o que disse em algum momento futuro e retorne aos “velhos métodos”; para falar a verdade, eu até espero que isso aconteça), imagino que seja tanto pelas facilidades e liberdades que o Vídeo Digital lhe permite, como também pelo efeito final se aproximar muito mais do que ele almejava: mais delírio do que devaneio. Tudo é auxiliado por um design de som cujos graves vibram caixa afora, como se as placas tectônicas da Califórnia estivessem finalmente se acomodando para o grande choque que a separará do continente. Talvez o grande terremoto seja a expressão psicossomática da artificialidade hollywoodiana do estado, uma dimensão paralela não apenas dos EUA, mas de todo o planeta. David Lynch acredita na maldição e não se permitirá ser afetado por ela. No que parece um grande exorcismo, Lynch termina “INLAND EMPIRE” com o maior final capaz de conceber, uma despedida em grande escala do redemoinho (ao que tudo indica, uma interpretação bastante peculiar de “Alice no País das Maravilhas”, tocas de coelhos e tudo o mais), ao que seus créditos finais envolvem dança contemporânea, Ben Harper (marido de Laura Dern), um orangotango de circo e um lenhador, todos dentro de uma mansão ao som de “Sinner Man” na voz de Nina Simone. Num universo cinematográfico reinado pela caretice de pontos finais, David Lynch escolhe deixar o espectador mais atônito ainda ao colocar em exposição sua habilidade sobrenatural de transformar pontos de interrogação em uma única e gigantesca exclamação. Joseph Mankiewicz disse: “A única diferença entre um filme e a vida real é a que o filme tem que fazer sentido.” Assim sendo, “INLAND EMPIRE” é inegavelmente vida pura, bruta, terrível. “INLAND EMPIRE” EUA/França/Polônia, 2006. 180min. Direção: David Lynch. Estrelando: Laura Dern, Justin Theroux, Jeremy Irons, Peter J. Lucas, Julia Ormond, Gracie Zabrinski, Harry Dean Stanton. Distribuidora: StudioCanal/Absurda/Ryko Entertainment (DVD).Site oficial: http://www.inlandempirecinema.com/



Fonte: Zeta Filmes
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Elliot Smith

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11:33

Em 21 de Outubro de 2003 o mundo da música perderia um dos seus grandes compositores contemporâneo, enfiando uma faca no peito um viajante solitário com seu violão dilacerante capaz de nos arrebatar com suas melodias lagrimejantes partiria não só a si mesmo mas nós como um todo. Steven Paul Smith, ou melhor, Elliot Smith, o "Bob Dylan da década de 90". O Americano de Portland lançaria em 1994 o seu primeiro disco “Roman Candle” e deixou cinco belos álbuns recheados de texturas melancolicamente poéticas baseada em sua voz inconfundivelmente frágil e seu violão sussurrante.
Em 1997 lançaria uma de suas grandes obras prima o soturno Either Or e no mesmo ano concorreria ao Oscar como melhor canção incluída no filme Gênio Indomável com a musica Mss Misery, Either Or possui toda a gama de texturizaçoes folks de Elliot, um álbum minimalista onde Elliot mostra que precisa de pouco para emocionar, como Speed Trids que adentra-nos com seu violão constante e Elliot cantando em tom sublimemente grave quase como se fosse um grande segredo que poucos podem saber ele confessa "estou correndo distancias permanecendo parado, correndo distancias permanecendo parado" em Alameda ouvimos ao longe uma pequena vocalização uivante e Elliot falando sobre alguém que através dos seus erros partiu o seu próprio coração, a beleza dos dedilhados mistura-se ao ambiente entrecortante da voz de Elliot "ninguém partiu o teu coração você o próprio partiu" já em Between The Bars um violão saído do limbo mais assustador de algum poeta arrebata-nos pela carga de melancolia delicadamente bem dosada e Elliot nos convidando "Beba comigo agora e esqueça toda a pressão do dia" síntese de toda a sinceridade melódica Elliot ainda confessa "beba mais uma vez e eu vou te fazer minha e a manterei profundamente no meu coração" uma das grandes perolas de toda a sua discografia. Either Or vai avançando e Elliot canta dispersamente dentro de profundidades agonizantes em No Name #5 o violão indiscuitivalmente Elliotiano rasga-se de tristezas e memórias dilacerantes e como diz o poeta "tive um segundo só com a chance que deixei passar e no fim tudo se foi..." certo equilíbrio intimo é momentaneamente restaurado em Rose Parade, as frases de violão são cúmplices de um Elliot que machuca pela sinceridade visceral de sua voz, cordas e versos "...e quando limparem as ruas eu serei o único lixo deixado para trás" Angeles é sem duvida uma das grandes canções da década de 90, os dedilhados de violão paracem sair do âmago de toda a profundidade do mundo e Elliot canta confessionalmente sobre o anjo que tentamos encontrar em cada uma de nossas vidas como consolo para nossa alma Either Or vai encerrando sua jornada como um álbum perfeito para instantes intropesctivamente frágeis, detalhes sendo consumidos e corações sendo escavados e corações rasgados como feridas expostas pela noite, memórias como "Rachaduras ocultas que não se revelam mas que constantemente se alargam" em Say Yes, Elliot tossi e guarda certo silencio e com calma vai nos entregado sua ultima pérola entre um violão apaixonante e uma melodia feita de nuvens embaladas pela voz que hoje deve estar ao lado de Jeff Buckley, Nick Drak e Renato Russo num lugar sublime assim como sua musica, "Fui mandado embora e nunca mais retornarei " só em nossas almas como que "Procurando pelos braços de alguém para mandar para longe as feridas do passado" esse foi e é o eterno Elliot Smith “Anjos, me respondam, Vocês estarão por perto se a chuva cair?”
Por: João Leno Lima
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O IRREPARÁVEL

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09:04



Não sinto a alma mas sossego
Mesmo assim sinto que o verso impossível
é o único verso inalcançável no poema da minha alma.
Mesmo assim sinto que minha alma
tem o mesmo peso do irreparável
Sobre não sentir,
Afirmo que no âmago dos meus sentidos,esta o infinito,
O derradeiro tentáculo da transcendência,
Não sinto a alma mas sossego.
Agora respiro as sombras das tempestades
Que encobrem meu pequeníssimo horizonte.
Dizem que já não sinto,
Insisto no verso como para insistir em mim mesmo,
Atiro-me na insistência transcendente de desejar o irrecuperável,
Desfiguro-me sendo quem em sou,
Enésima parte vazia do cosmo,
Animal cuspidor do vulcão inocente que esta na criança-tempestades
Que abriga a criança transparente Que sou eu,
a molécula liberta.
Que cai como uma chuva de pensamentos indomáveis.
Mas ainda sou a união de trovoes
Que ainda não tiveram chance.
Não sinto a alma mas sossego
Perco a respiração quando vejo tua forma de nuvem
Que é a forma de um poema escrito no inesgotável.
Repito-me sempre, assim como a noite
E descubro nisso palavras que disse
A séculos atrás antes de mim mesmo.
Portanto, sou a construção milimetrica.
De inconscientes que se atraem.
Não sinto a alma mas sossego
Busco a musica que ira alegrar meus calcanhares.
Encontro nos rostos cotidianos
A expressão intima do abismo.
Esse poema nasceu dentro do útero
Do grito de toda a humanidade.
E nesse momento sinto uma dor
Que pega o corredor do meu corpo
E se mistura com os universos do vazio
que me usa como escudo de sensações
Que não podem se realizar,
E o oceano quer engolir outro oceano que sou eu,
Por que ele quer ensopar o mundo com tanta lagrima?
Não sinto a alma mas sossego
Nos hemisférios do verso impossível
Os sonhos que por eternidades
Deixaram de ser sonhos
Ressurgem me engolido
Como se eu fosse
Vulcões, mares, desertos, crepúsculos e universos inteiros,
Tudo isso eu mastigo
E vomito na pagina
Faço-me reviver por uma eternidade passageira
O que é ser;
união espacial;
todos os mundos juntos convergindo...
hora absoluta.
Não sinto a alma mas sossego
Por que qualquer espaço vazio momentâneo
Deixa-me inconsolável?
Nos primeiros raios da manhã
Sou o vento capturado pela cápsula da loucura,
No primeiro passo começo a descer
todas as escadas dentro de mim,
Começo a subir os grandes degraus crepusculares,
Começo a escalar os segundos da hora morta,
Começo a ruir em partes simétricas,
No final da tarde chuvosa
Não sou mais tempo-espaço
Sou apenas tempo
às vezes espaço
Ou precipício,
onde a solidão se joga de braços abertos
Trazendo o mundo consigo.
Meu ser torna-se a rua vinte e um de abril
Onde a tristeza passeia de bicicleta num nevoeiro invisível,
Destruo esse pensamento
E começo a ser o consolador irremediável
Da minha pequena partícula de universo intimo.
Não sinto a alma mas sossego
Por isso estou partindo em todos os instantes,
O longe demais é o mais perto que suporta meu ser
Com minha força na ponta dos dedos do poema...
Eu Não sinto a alma mas sossego
O que não traz angustia traz-me solidão verossímil,
Movo-me através de abismos,
Mas sempre caio
No deserto de mim mesmo,
Já estou no chão da hora desgovernada,
Não sinto a alma mas sossego.
Transfiguro-me.
Sou aquela sensação de morte que desce pela goela do grito,
Às vezes no vinho, o gosto tem sabor de memória naufragada,
Não sinto a alma mas sossego.
Quero flutuar para sempre no meu próprio sonho
Como será ser a nuvem do seu próprio sonho?
O verso que me acalma esta na tua alma
Onde esta tua alma nesse exato infinito instante?
Onde esta teu rosto irreversível ao controle do tempo?
Não sinto a alma mas sossego.
Cuspo-me na extremidade,
Quero compartilhar com minha amiga seu cigarro eterno
Para eu finalmente provar a saliva do mundo.
Cansei de tropeçar em invisibilidades,
Deito no colo dos pensamentos e espero a asas,
E se elas não existirem?
O que me move para fora do percurso
Do meu próprio universo?
Cravo meu dentes na rotina cotidiana e percebo...
Não fui...
Nunca fui parte do todo
Nem quando desejei ser,
Sou parte do vazio mesmo sendo também
Parte da angustia mesmo sendo parte da lágrima
Mesmo sendo algo que definha com as coisas que definham
Mesmo sendo o infinito inclinado para um caos absoluto,
Bebo as bordas e abocanho pequenos sonhos irremediáveis,
Mas ainda tenho que bater o ponto no meu trabalho invisível.
A fragilidade não esta no meu rosto,
Sou transparente perante o crepúsculo
Na aurora uso a máscara cheia de poemas,
Respiro o ar das multidões e adoeço de inconsolável,
Só me quebro nas pequenas quedas,
As pequenas coisas para mim são pequenos oceanos
Mergulho-me...
O mundo lança sua rede inominável,
Sou aqueles pequenos objetos perdidos e mudos de versos,
Retorno à tona no confim de mim mesmo
E sinto meu chão de deserto e não sinto meu chão de galáxias,
Todos no congresso devem estar achando
Que sou apenas parte dos segundos,
Todos a minha volta devem estar preocupados
Com seus dejetos fabricados na hora escura do relógio,
Todos que não me conhecem
Devem estar mergulhados nos seus próprios livros íntimos
Achando que isso não passa
De uma autoconsolação de mim para o nada,
Responderei a todas as almas quando sentir a minha,
Escreverei o verso ainda não lido quando encontrá-lo em mim,
Lerei a carta redigida pelo silencio para meu choro de criança oca,
Mas... ainda
Não sinto a alma mas sossego.
Mesmo assim quero engolir todas as tempestades
Não sinto a alma mas sossego
Digo
Todas as tempestades
Não sinto a alma mas sossego
E implodir de eus
Não sinto a alma mas sossego
Na ultima eternidade da alma
De todas as poesias.



De: João Leno Lima
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LONGÍNQUO

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08:57






Aceito a infinitude das tempestades
Mas não aceito a finitude das sensações.
Quero a marítima sensação
De se afogar nos universos da existência,
Quero que o mar de lágrima que me acompanha
Esqueça de mim por alguns segundos,
O meu coração abriga pequenos cinemas mudos de desejos,
Subo a escada que vem por fora das ausências,
Dou contornos no teu silencio,
Sinto o descaso de mim para mim
Quando olho-me pela frecha da noite desoladora,
Caminho ate o horizonte
Só para confirma sua inexistência,
Reencontrei a canção que me alegra
Mas ela me entristeceu de mundos distantes,
Às vezes o inalcançável é querer morrer
Nos braços da solidão
Numa nebulosidade que dura alguns minutos
Mas parece toda a eternidade consumida ate o ultimo suspiro,
O longínquo é meu sexto sentido.
Toco no rosto dos poemas para sentir alguma realidade,
Adormeço no firmamento dos poentes das lamentações,
Escrevo livros e ouço a pagina em branco
me dá conselhos dispersos,
Mas não me iludo
Despenco na hora de despencar
O quanto mais cedo esquecer-me, mas cedo anularei a dor
Que dentro de mim é uma tarde interna que chove
Quase interminavelmente...
Mastigo essa nuvem sem razão de ser
E fantasio um outro mundo,
Onde estrelas são espelhos onde podemos ver a extremidade de tudo,
Onde as ruas são goles de vinhos
Que bebemos para transcender alem dos muros cotidianos,
Sim
Aceito a infinitude das tempestades
Não aceito a finitude das sensações.
De: João Leno Lima
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CAOS

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O Caos nunca morreu. Bloco intacto & primordial, único monstro digno de adoração, inerte & espontâneo, mais ultravioleta do que qualquer mitologia (como as sombras à Babilônia), a original & indiferenciada unidade-do-ser ainda resplandece, imperturbável como as flâmulas negras frenética & perpetuamente embriagada dos Assassinos1. O caos é anterior a todos os princípios de ordem & entropia, não é nem um deus nem uma larva, seu desejos primais englobam & definem todas coreografia possível, todos éteres & flogísticos sem sentido algum: suas máscaras, como nuvens, são cristalizações da sua própria ausência de rosto. Tudo na natureza, inclusive a consciência, é perfeitamente real: não há absolutamente nada com o que se preocupar. As correntes da Lei não foram apenas quebradas, elas nunca existiram. Demônios nunca vigiaram as estrales, o Império nunca começou, Eros nunca deixou a barba crescer. Não. Ouça, foi isso que aconteceu: eles mentiram, venderam-lhe idéias de bem & mal, infundiram-lhe a desconfiança de seu próprio corpo & a vergonha pela sua condição de profeta do caos, inventaram palavras de nojo para seu amor molecular, hipnotizaram-no com a falta de atenção, entediaram-no com a civilização & todas as suas emoções mesquinhas. Não há transformação, revolução, luta, caminho. Você já é o monarca de sua própria pele – sua liberdade inviolável espera ser completa apenas pelo amor de outros monarcas: uma política se sonho, urgente como o azul do céu. Para lograr abrir mão de todos os acentos & hesitações ilusória da história, é preciso evocar a economia de uma Idade da Pedra lendária – xamâs & não padres, bardos & não senhores, caçadores & não policiais, coletores paleoliticamente preguiçosos, gentis como sangue, que ficam nus para simbolizar algo ou se pintam como pássaros, equilibrados sobre a onda da presença explícita, o agora-sempre atemporal. Agentes do caos lançam olhares ardentes a qualquer coisa ou pessoa capaz de suportar ser testemunha de sua condição, sua febre por lux et voluptas. Estou desperto apenas no que amo & até o limite do terror – todo o resto é apenas mobília coberta, anestesia diária, merda para cérebros, tédio sub-réptil de regimes totalitários, censura banal & dor desnecessária. Avatares do caos agem com espiões, sabotadores, criminosos do amor louco, nem generosos nem generosos nem egoístas, acessíveis como crianças, semelhantes a bárbaros, perseguidos por obsessões, desempregados, sexualmente perturbados, anjos terríveis, espelhos para a contemplação, olhos que lembram flores, piratas de todos os signos & sentidos. Aqui estamos, engatinhando pelas frestas entres as paredes da Igreja, do Estado, da Escola & da Empresa, todos os monolitos paranóicos. Arrancados da tribo pela nostalgia selvagem, escavamos em busca de mundos perdidos, bombas imaginárias. A última proeza possível é aquela que define a própria percepção, um invisível cordão de ouro que nos conecta: dança ilegal pelos corredores do tribunal. Seu eu fosse beijar você aqui, chamariam isso de um ato de terrorismo – então vamos levar nossos revólveres para a cama & acordar a cidade à meia-noite como bandidos bêbados celebrando a mensagem do sabor do caos com um tiroteio.



bY Hakim Bey
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A REVOLUÇÃO SURREALISTA ANTES E SEMPRE

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Pintura de Rene Magritte
texto de Eclair Antonio Almeida Filho



Aquilo que pode nos ter separado é muito menos importante do que aquilo que nos reuniu.André Breton
Desde suas primeiras experiências coletivas, o Surrealismo foi marcado tanto por experimentações das variadas nos campos da linguagem, quanto por encontros, crises, rupturas e adesões. Neste artigo, veremos o percurso do Surrealismo desde as suas primeiras práticas e manifestações até a crise de 1929, com os ataques recíprocos entre André Breton e ex-membros, expostos no Segundo Manifesto do Surrealismo e no panfleto “Un cadavre” contra Breton.
Vale lembrar que, em 1916, André Breton havia conhecido Jacques Vaché, um surrealista antes mesmo de o termo “surrealismo” ser criado. Em 1919, aos 23 anos, Vaché se suicida depois de tomar uma dose excessiva de ópio, deixando como legado literário suas Cartas de Guerra , publicadas em Littérature , as quais deram a Breton a noção corrosiva e subversiva do “Umour” (Humour, humor, grafado sem H).
De 1919 a 1924, depois de cinco anos de atividades intensas e sem interrupção, eis algumas das ações surrealistas: a publicação de relatos de sonhos, poemas, manifestos na Revista Littérature (1919-1924), a instituição de um tribunal para julgar o escritor Maurice Barrès sob a acusação de traição, além das sempre conturbadas manifestações públicas. Em 1920, Breton e Philippe Soupault publicam Les Champs magnétiques , com as experiências textuais que revelariam, mais tarde, para Breton o funcionamento da escritura automática.
Em 1923, Robert Desnos junta-se a Breton e sua turma, recém rompidos com o Dadaísmo, e demonstra desde já uma grande facilidade para “pegar no sono” a fim de ditar o discurso do inconsciente. Nesse mesmo ano, Desnos publica em Littérature seus relatos de sonho e, com Marcel Duchamp, os textos de Rose Sélavy , que se parecem, antes, com uma série de jogos de palavras extremamente trabalhados num laboratório verbal do que com livres manifestações do inconsciente.
Foi, em 1922, ao romper com Tristan Tzara e o Dadaísmo que André Breton, Philippe Soupault, Paul Éluard e Louis Aragon começaram a criar as bases para o surrealismo, expostas no Primeiro Manifesto Surrealista (1924). Conforme Breton, em suas entrevistas publicadas em 1960, marcam, essencialmente, tais experiências a escritura automática e as induções ao sono por meio de hipnose:
Quand paraît le premier manifeste, soit en 1924, il a derrière lui cinq années d'activité expérimentale ininterrompue entraînant un nombre et une variété appréciables de participants. Il faut dire que, même à distance, ces deux champs de prospection, l'écriture automatique et les apports du sommeil hypnotique sont aussi difficiles à circonscrire l'un que l'autre; (BRETON, 1960, p. 77)
No Primeiro Manifesto , tais experiências se apresentam nos relatos de sonhos, na busca pelo maravilhoso. Os surrealistas mergulham no mais profundo do inconsciente, do sonho e da imaginação livre para lá verem “o funcionamento real do pensamento”. Breton, este sonhador definitivo, propõe, como nos diz Maurice Blanchot, a exploração do não-manifesto, ou seja, do maravilhoso num mergulho entre “La vie éveillée” (a vida acordada) e “la vie de rêve” (a vida de sonho).
Para o autor de Nadja , a busca pelo maravilhoso é uma violenta reação contra o empobrecimento e a esterilidade dos modos de pensar resultantes de séculos de racionalismo. No Primeiro Manifesto , Breton aproxima o maravilhoso do belo: “Le merveilleux est toujours beau, n'importe quel merveilleux est beau, il n'y a même le merveilleux qui soit beau.”(BRETON, 1960, p. 80). É na surrealidade ( surréalité ) que André Breton e seus companheiros procuram o ponto onde todas as contradições e oposições deixam de existir. De acordo com Gaëton Picon, a surrealidade é “réalité et rêve, esprit et monde: au delà de toutes les antinomies et de toutes les séparations, il est totalité parce qu'il est surrationalité” (In Picon, 1954, p. 227). Para se atingir a surrealidade, deve-se, segundo Breton, “reescrever os direitos do homem”, buscar “a liberação total do homem”, a qual pressupõe um desregramento de todos os sentidos (“déréglèment total des sens”).
No fim de 1924, por ocasião das homenagens, na França, a Anatole France, récem-falecido, Breton institui, dessa feita, um tribunal para julgá-lo, pois os surrealistas o consideravam como um defensor da burguesia e de idéias como as de Família, Propriedade, Religião e Estado. Além do julgamento, Breton publica um panfleto contra Anatole France: “Un cadavre”. Nele, Breton participa com o texto “Refus de inhumer” (Recusa de sepultar, inumar ou enterrar), cujo título mostra que os surrealistas recusam-se a participar dos funerais de Anatole France.
Além de France, Breton dirige seus ataques contra Pierre Loti e Maurice Barrès:
(Pierre) Loti, (Maurice) Barrès, (Anatole) France, marquons tout de même d'un beau signe blanc l'année qui coucha ces trois bonhommes: l'idiot, le traître, le policier. Ayons, je ne m'y oppose pas, pour le troisième un mot de mépris particulier. Avec France, c'est un peu de la servilité humaine qui s'en va. (In Courrière, 1999, p. 107).
Os signatários do panfleto se despedem de seus leitores alertando que estariam de volta no próximo cadáver nacional: “À la prochaine occasion il y aura un nouveau cadavre” (In Courrière, 1999, p. 107).
A partir de 1925, com o lançamento da Revista La Révolution Surréaliste , os surrealistas passam a se interessar por questões políticas e filosóficas ligadas ao Marxismo e ao Partido Comunista. Intensificam-se suas atividades políticas. Cria-se o “Bureau des recherches surréalistes”. O surrealismo passa a unir poesia e ação revolucionária para “transformer le monde” e “changer la vie”, aliás proposições respectivamente retomadas de Karl Marx e Arthur Rimbaud.
Ao ser questionado por André Parinaud sobre se as dificuldades que teria encontrado, entre 1926 e 1929, ao tentar levar à frente ao mesmo tempo a atividade interior (surrealista) e a atividade exterior (política) não teriam de certa maneira paralisado os meios surrealistas de expressão, André Breton responde que, ao contrário, esse foi um dos períodos mais produtivos do Surrealismo tanto no plano da linguagem verbal quanto no plano plástico. Para confirmar sua afirmação, Breton enumera as importantes obras surrealistas escritas nesse período:
Aragon publie le Paysan de Paris et Traité du Style, Artaud le Pèse-nerfs, Crevel L'Esprit contre la raison, Desnos Deuil pour Deuil et La liberté où l'amour, Éluard Capitale de la douleur et L'amour la Poésie, Ernst La femme 100 têtes, Péret Le grand jeu, moi même Nadja, et Le surréalisme et la peinture. (BRETON, 1960, p. 134)
Em relação ao plano plástico, Breton observa a contribuição no campo da invenção que artistas como Arp, Ernst, Masson, Miró, Man Ray, Tanguy, - e de seu lado Picasso operaram. (BRETON, 1952, p. 134)
Para se formar uma literatura crítica do Surrealismo, que aliasse poesia e ação, além dos lançamentos do Primeiro Manifesto e da Revista Révolution Surréaliste , de acordo com Breton, outras 5 (cinco) etapas contribuíram decisivamente para tal, a saber:
- a publicação do trato “La révolution surréaliste d'abord et toujours” (1925), que serviu de prelúdio para a tentativa de formação de um intergrupo com a participação do grupo surrealista, dos membros mais ativos da Revista Clarté , do folheto belga Correspondance e da revista Philosophies , de maneira a unificar tanto quanto possível seu vocabulário;
- a tentativa “abortada” de se criar, para esse intergrupo, uma revista, a qual se chamaria La guerre civile ;
- a publicação de Légitime défense (1926), de André Breton;
- a publicação em 1927 de Au grand jour , uma coletânea de cartas endereçadas por André Breton, Louis Aragon, Paul Éluard, Pierre Unik e Benjamin Péret tanto aos comunistas quanto a membros do Surrealismo;
- e a assinatura, em 1929, por André Breton e Louis Aragon, do texto “À suivre, petite contribution au dossier de certains intellectuels à tendance révolutionnaire”, que seria como uma obra que desataria as questões levantadas nos quatro textos supra-relacionados. (Breton, 1960, p.120-121)
Embora as atividades do grupo desenvolvam-se, nesse período de 1926 a 1929, de maneira muito intensa e produtiva para uma união entre poesia e ação revolucionária, já começavam a se esboçar os fatores que levariam o grupo à sua mais grave crise, a de 1929, exposta por Breton no seu Segundo Manifesto do Surrealismo , publicado no último número da Révolution Surréaliste , em novembro de 1929. Em 1929, o movimento fora sacudido por uma crise, provocada por desarcordos sobre o sentido de sua adesão ao marxismo, questão levantada desde 1926, a pedido de Pierre Naville, e resolvida através de suas vicissitudes.
Insatisfeito com membros que não queriam tomar partido na ação revolucionária nem se preocupavam com problemas concretos, Breton expulsa do grupo fundadores do movimento como Philippe Soupault, por causa de sua orientação excessivamente literária; Robert Desnos, que havia ido para o Jornalismo e só se interessava pela escritura automática; Antonin Artaud, que, além de protestar contra as preocupações políticas do Surrealismo, em À la grande nuit (1927), queria, nas palavras de Breton, “par ostentation faire répresenter devant l'Ambassade de Suède, Le Songe , de Strindberg”. (Duplessis, 1953, p. 16) Em 1928, Pierre Naville deixa a direção da Revista Révolution Surréaliste , que passa para as mãos de Breton.
Entre outras causas da crise, cite-se a não-aceitação por parte de Breton da entrada no surrealismo do grupo da revista Grand Jeu , que encara o Surrealismo, na via aberta por Rimbaud, sob seu “aspect ésotérique et mystique”. Argumenta Breton que não se trata mais de “s'évader dans un monde supra-terrestre”, mas sim de fazer “faire oeuvre positive ici-bas” (In Duplessis, 1953, p. 17). Nessa época, os “puros representantes do Surrealismo” seriam, além de Breton, Louis Aragon, Paul Éluard e Pierre Unik.
Em 1929, no último número da Révolution Surréaliste , André Breton publica o Second manifeste du Surréalisme , no qual denuncia e ataca ferozmente dissidentes do Surrealismo e apresenta sua posição política favorável ao materialismo histórico. Se, no Primeiro Manifesto , Breton invoca a Psicanálise para buscar a liberação total do homem através de experiências como o sono induzido, o relato de sonhos, a escritura automática, no momento em que escreve o Segundo Manifesto , ele recorre ao materialismo dialético a fim de fazer a Revolução. Leitor de Hegel, Breton procura um ponto onde as contradições cessem de existir, num fenômeno de suspensão, expresso pelo conceito hegeliano de Aufhebung. Assim, conforme Breton,
Tout porte à croire qu'il existe un certain point de l'esprit d'où la vie et la mort, le réel et l'imaginaire, le passé et le futur, le communicable et l'incommunicable, le haut et le bas cessent d'être perçus contradictoirement. Or, c'est en vain qu'on chercherait à l'activité surréaliste un autre mobile que l'espoir de détermination de ce point. (Breton, 1996, p. 72-73)
Para atingir esse ponto, os surrealistas deveriam partir, com suas próprias armas, adquiridas em seus anos de prática e de experiências, para a revolta e a Revolução, fazendo dogma da insubmissão total. Deve-se “ruiner les idées de famille, de patrie, de religion” (Breton, 1996, p. 77). Assim, Breton prega que não se deve mais adorar aqueles escritores e artistas “ancestrais”, aliás citados como surréalistas no Primeiro manifesto . Diz que “en matière de révolte aucun de nous ne doit avoir besoin d'ancêtres” (Breton, 1996, p. 76). Compreensivelmente, em seu ataque aos ancestrais, no qual Breton se dirige “contre Sade, Rimbaud, Lenine, Baudelaire, Poe ( Crachons sur Poe)”, o líder do surrealismo excetua Lautréamont (Breton, 1996, p. 76). Tal atitude se justifica pelo fato de que, além da manifesta revolta contra a sociedade que Lautréamont empreende em seus Cantos de Maldoror, é extremamente surpreendente a semelhança de estilos de ataques pessoais entre o texto “Gémissements poétiques”, de Lautréamont, e o Segundo Manifesto .
Além dos ancestrais, entram na lista do ajuste de contas de Breton ex-membros do surrealismo, como Pierre Naville, Phillippe Soupault, Antonin Artaud, Roger Vitrac, Robert Desnos, Georges Ribemont-Dessaignes, os membros da revista Grand jeu , e um escritor que não fazia parte do Surrealismo: Georges Bataille. Ex-membros como Jacques Prévert e Raymond Queneau não são mencionados.
Em 15 de janeiro de 1930, a resposta a Breton dos dissidentes atacados no Segundo Manifesto vem sob a forma do panfleto “Un cadavre”, que retoma o título e o formato do “Cadavre” contra Anatole France em 1924. No alto da imensa fotografia representando Breton de olhos fechados, uma lágrima de sangue no canto das pálpebras, a fronte cingida por uma coroa de espinhos. Tal idéia de representar Breton como Jesus Crucificado teria partido de Desnos, que a justifica com termos místicos: no momento em que se lança o panfleto, Breton ainda tem 33 (trinta e três) anos, idade em que Cristo foi morto e crucificado. Como epígrafe, o panfleto traz a conclusão do outro “cadavre”: “il ne faut pas que cet homme fasse de la poussière”.
12 (doze) são seus signatários: Jacques Prévert, Raymond Queneau, Georges Ribemont–Dessaignes, Roger Vitrac, Michel Leiris, Georges Limbour, J. –A. Boiffard, Robert Desnos, Max Morise, Georges Bataille, Jacques Baron, Alejo Carpentier. No entanto, Pierre Naville, que havia saído em 1928 do movimento, deixando para Breton a direção da revista Révolution Surréaliste , embora convidado, julgou inoportuno aliar-se aos opositores. De acordo com Maurice Nadeau, os participantes do “cadavre” de 1930 pertencem a diversas correntes:
um ex-dadaísta, Ribemont-Dessaignes; um ex-surrealista, Vitrac, expulso há muito tempo, Limbour, afastado dos escândalos e da agitação surrealista, graças a seu temperamento, Morise, ex-fiel seguidor e executor de Breton, Jacques Baron, Michel Leiris, Raymond Queneau, J.–A. Boiffard, Robert Desnos, Jacques Prévert, e um homem que jamais pertencera ao grupo mas que fora particularmente maltratado por Breton, Georges Bataille . (Nadeau, 197, p. 125)
De certa maneira, os signatários de “Un cadavre” não atacam o movimento surrealista; elegem como alvo exclusivo Breton, já denominado de “papa do surrealismo”. Flic (tira, policial) e curé (cura, pároco) são os adjetivos mais freqüentes, os quais visam a relacionar Breton com instituições que ele próprio declarara combater em seus Manifestos. Ainda, acusam-no “d'hypocrisie, d'esprit dictatorial et religieux, de radicalisme de salon, etc” (In Queneau, 2002, p. 66) e de traidor de seus amigos e de seus ideais. A seguir, citamos alguns desses ataques:
“Cura: “O irmão Breton que prepara o padre ao molho de mostarda só fala de cátedra” (Ribemont-Dessaignes); “Tive um amigo sincero” (supostamente é Breton quem fala), Robert Desnos. “Eu o enganei, menti-lhe, dei-lhe falsamente minha palavra de honra” (Robert Desnos): “Ele trapaceou, em larga escala, com a amizade”(Vitrac). […] (In Nadeau, 1985, p. 125).
No texto DÉDÉ, de Raymond Queneau, repetem-se 4 (quatro) vezes o verso “Le doigt dans le trou du cul” (o dedo no buraco do cu), finalizando com uma espécie de moralidade a fim de lembrar a moralidade de Breton, e que, onde há regras, constrangimentos, não há humor (o “umor” que Breton dizia ter herdado de Jacques Vaché):
MORALITÉ
Non ! Non ! la poésie n'est pas morte !
Les chants désespérés sont toujours les plus
Beaux et ousqu'y a de la gêne y a pas d'humour
Pour les petits oiseaux . (In Queneau, 2002, p. 67)
Em “Mort d'un Monsieur”, de Jacques Prévert, num estilo e no humor que caracterizarão seus poemas, Prévert começa lamentando o desaparecimento daquele que o fazia rir: “Hélas, je ne reverrai plus l'illustre Palotin du Monde Occidental, celui qui me faisait rire!. (Prévert, 1996, p. 444). Depois, Prévert ataca os relatos de sonhos de Breton, dizendo que um dia num sonho, após se olhar seriamente (ou seja, sem humor) no espelho, ele se achou belo. Para Prévert, foi o fim de Breton, que passou a confundir “le désespoir et le mal de foie, la Bible et les Chants de Maldoror, Dieu et Dieu, l'encre et le foutre, [. . .] la Révolution Russe et la Révolution Surréaliste. (Encore....et toujours la plus scandaleuse du monde) (Prévert, 1996, p. 443).
Afirma Prévert que, às vezes, Breton colocava sua toga de juiz e praticava a Moral e a Crítica de Arte, sem, no entanto, conseguir esconder as cicatrizes que o bigodudo das finanças (Dali) havia lhe deixado: “il mettait parfois sa toque de juge par-dessus son képi, et faisait de la Morale ou de la critique d'art, mais il cachait difficilement les cicatrices que lui avait laissées le croc à phynances de la peinture moderne.” (Prévert, 1996, p. 444)
Por fim, Prévert se lamenta novamente pela morte do controlador do Palácio das Miragens, o furador de bilhetes, o grande Inquisitor, o Deroulède do Sonho: “Hélas, le contrôleur du Palais des Mirages, le perceur de tickets, le gros Inquisiteur, le Déroulède du Rêve n'est plus”, pedindo que não se fale dele: “n'en parlons plus”. (Prévert, 1996, p. 444)
Como contra-ataque aos signatários de “Un cadavre”, Louis Aragon diz que a entrada de novos elementos (René Char, Salvador Dali, Luis Buñuel) no Surrealismo compensou muito bem a saída de “tant de velléitaires confus et de littérateurs décidés.” (Ségalat, 1968, p. 124)
No Paris-Midi , Pierre Lazareff, ao evocar o escândalo entre os surrealistas e os signatários de “Un cadavre”, chega a pressupor que o surrealismo, como escola filosófica e literária, teria acabado:
Déjà les bibliofiles s'arrachent Un cadavre... C'est la fin d'une école littéraire et philosophique qui, quoi qu'on en ait dit, a eu un retentissement profond dans la jeunesse intellectuelle. Depuis plus de deux mois, on savait que le nouveau groupement, connu sous le nom d'école des Deux-Magots, préparait une offensive contre André Breton . (In Queneau, 1997, p. 66)
No entanto, não se formou nenhuma escola dissidente. O conflito não marca o fim do Surrealismo, mas assinala o início de um outro período. Da parte de Breton e seus colegas, cite-se a mudança do título do órgão oficial do movimento, a revista Révolution Surréaliste , para Le Surréalisme au service de la Révolution , a qual dura de 1930 a 1933, mantendo-se independente de qualquer intervenção do Partido Comunista Francês. Segundo Sarane Alexandrian, esta nova revista “não tocou no problema da acção social, a não ser nas suas relações com a expressão ideal das paixões” (Alexandrian, 1973, p. 99).
Da parte dos dissidentes, diga-se que todos eles resolveram “faire route à part”, mas sem nunca abandonar ideais essencialmente surrealistas, como o Amor, a Ooesia, a Revolução, o Humor, a Experimentação e o Sonho. Ou seja, deixaram, por questões pessoais, a instituição “movimento surrealista”, mas não o Surrealismo.
Personagens desse conflito, como André Breton e Jacques Prévert, os quais se reconciliaram em 1937, consideraram, anos depois, que o momento que viviam justificava os ataques recíprocos. Quando perguntado por Madeleine Chapsal sobre a republicação dos manifestos em 1962 sem qualquer revisão, Breton responde:
Concordo que muitos desses ataques são de uma virulência deplorável e, aliás, largamente ultrapassados. Fiz justiça no prefácio à reedição do Segundo Manifesto, em 1946, que é retomado na reedição atual. Não me foram poupados ataques da mesma ordem. Contam-se entre os exageros que já não me cabe apagar. Aqueles que foram alvo deles sabem que resultam do clima passional em que se desenvolveu o surrealismo. (Chapsal, 1986, p. 189-190)
Por sua vez, Jacques Prévert afirma em seu livro–entrevista Hebdromadaires (1972) que, embora tenha dito coisas desagradáveis a Breton, acha que elas foram necessárias naquele momento:
Moi, une fois, j'ai dit ou plutôt j'ai écrit des choses très désagréables pour lui. Ces choses, je les trouvais vraies. Je les disais en riant, peut-être, d'un rire qui n'était sans doute pas marrant pour lui à ce moment-là. Mais en y repensant, je n'en enlève rien. Par la suite, on s'est revus, on a beaucoup ri. Malgré tout, nous étions et nous sommes encore, aujourd'hui qu'il est mort comme on dit, des amis. (Prévert, 1996, p. 915)
No último poema de Paroles (1946), “Lanterne magique de Picasso”, Prévert demonstra que, embora tenha desaprovado as críticas de Breton no Segundo Manifesto , sua obra também procura a surrealidade num mundo que seria, como escreveu Lautréamont, belo como tudo:
Les idées pétrifiées devant la merveilleuse indifférence
d'un monde passioné
d'un monde retrouvé
d'un monde indiscutable et inexpliqué
d'un monde sans savoir-vivre mais plein de joie de vivre
d'un monde sobre et ivre
d'un monde triste et gai
tendre et cruel
réel et surréel
terrifiant et marrant
nocturne et diurne
solite et insolite
beau comme tout . (Prévert, 1992, I, p. 157)
Assim, a busca pela surrealidade, apesar dos conflitos que ela possa causar, continua a ser o ponto de contato entre aqueles que querem, através da união entre o Amor, da Poesia, do Sonho, do Humor e da Revolução, transformar o mundo e mudar a vida. Termino citando Prévert: “Graças aos surrealistas, esta vida real, como os sonhos deles, continuam”.
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1- 8 E MEIO de FEDERICO FELLINI
2- AS HORAS
3- O PODEROSO CHEFAO de FRANCIS FORD COPOLLA
4- LAWRENCE DA ARABIA de DAVID LEAN
5- CIDADAO KANE de ORSON WELLES
6- AMACORD de FELLINI
7- A LISTA DE SHINDLER de STIVEN SPIELBERG
8- HANNA E SUAS IRMAES de WOODY ALLEN
9- TEMPOS MODERNOS de CHARLIM CHAPLIN
10- INLAND EMPIRE de DAVID LINCH
11- APOCALIPSE NOW de COPOLLA
12- O PODEROSO CHEFAO II de FRANSCIS FORD COPOLLA
13- DOUTOR JIVAGO de DAVID LEAN
14- JE VUS SALE MARIE de JEAN LUC GODAD
15- ROCCO E SEUS IRMAOS de LUCIANO VISCONTHI
16- RASHOMON de AKIRA KUROWAUA
17- CANTANDO NA CHUVA de GENE KELLY
18- AMADEUS DE milos FORMAM
19- MAMLCOM X de SPIKE LEE
20- 21 GRAMAS DE ALERRANDRO
21- OS BONS COMPANHEIROS de MARTINS SCORSESE
22- CASA BLANCA de MICHEL CUTIZ
23- LADRAO DE BICICLETA DE VOTORIA DE SICA
24- RAN de AKIRA KUROWAUA
25- BEM HUR de WILLEY WILLER
26- ACONTECEU NAQUELA NOITE de FRANK CAPRA
27- SPARTACUS de STANLEY KUBRIK
28- E O VENTO LEVOU de VICTO FLEMING
29- QUANTO MAIS QUENTE MELHOR de BILLY WILDER
30- UM BONDE CHAMADO DESEJO de ELIA KAZAN
31- MEU ESQUEDO de JIM HERIDAN
32- O PROCESSO DE ORSON WELLES
33- FOREST GUMP de ROBERT ZEMECKS
34- CONDUZINDO MISS DEISY de
35- UM SONHO DE LIBERDADE DE FAKN DARANBONT
36- HAMLET DE LAWRENCE OLIVIER
37- LUZES DA CIDADE de CHARLIM CHAPLIM
38- CIDADE DE DEUS de FERNADO MEIRELLES
39- DEZU UZALA de AKIRA KUROWAUA
40- J.F.K de OLIVER STONE
41- TRONO MANCHADO DE SANGUE de AKIRA KUROWAUA
42- TOURO INDOMAVEL de MARTINS SCORSESE
43- NOIVO NEUROTICO NOIVA NERVOSA de WOODY ALLEM
44- BLUDE RUNNER de RIDLEY SCOTT
45- O FANTASMA DA LIBERDADE de LUIS BUNUEL
46- O GAROTO de CHAPLIM
47- O ENCOURAÇADO PORTEKIN de EASENTAIAN
48- MORTE EM VENEZA DE VISCONTHI
49- OS INTOCAVEIS de BRIAN DE PALMA
50- REN MAN DE BARRY LERVISON
51- DESPEDIDA EM LAS VEGAS
52- CLOSERS
53- ALPHAVILLE de JEAN LUC GODAD
54- CLUBE DA LUTA de DAVID FINCHER
55- O PODEROSO CHEFAO III
56- LARANJA MECANICA DE STANLEY KUBRIK
57- TAXI DRIVE DE MARTIN SCORSESE
58- ACOSSADO DE JEAN LUC GODAD
59- BASTHY CASYDI
60- SINFONIA DE PARIS DE VICENTE MINELLI
61- O FRANCO ATIRADOR DE MICHEL CIMINO
62- ERA UMA VEZ NA AMERICA DE SERGIO LEONE
63- O DISCRETO CHARME DA BURGUESIA DE LOUIS BUNUEL
64- A ULTIMA TENTAÇAO DE CRISTO de MARTIN SCORSESE
65- OPERAÇAO FRANÇA
66- A DAMA DE SHANGAI DE ORSON WELLES
67- GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE
68- NEW YORQUE,NEM YORQUE DE MARTIN SCORSESE
69- MORANGO SISVESTRE DE IGMAM BERGMAM
70- O REVERSO DA FORTUNA
71- O SILENCIO DOS INOCENTES de JONATHAM DAME
72- BARRY LINDON de STANLEY KUBRIK
73- O PACIENTE INGLES de ANTHONI MIGUELLA
74- IMPERIO DO SOL de STIVEN SPIELBERG
75- SHANIATWAIN
76- LOS ANGELS CIDADE PROIBIDA
77- 1900 de BARNARDO BERTOLUCCI
78- VELUDO AZUL de DAVID LINCH
79- JANELA INDICRESTA de ALFRED H
80- OS IMPERDOAVEIS de CLINT WAESTOWOOD
81- O RESGATE DO SOLDADO RYAN de STIVEN SPELBRG
82- OS SETE SAMURAIS de AKIRA KUROWAUA
83- CRIMES E PECADOS de WOODY ALLEM
84- GANDHY
85- SEVEN de DAVID FINCHER
86- RETORNO A RWASHEND de JAMES IVORY
87- PERDIDOS NA NOITE
88- E LA NAVE VÁ de FEDERICO FELLINI
89- TODOS DIZEM, EU TE AMO de WOODY ALLEM
90- A CONVERSAÇAO de FRANCIS COPOLLA
91- 2001 UMA ODISSEIA NO ESPAÇO de STALLEY KUBRYK
92- CIDADE DOS SONHOS de DAVID LINCH
93- O ULTIMO TANGO EM PARIS de BARNARDO BERTOLUCCI
94- TWIN PEANKS de DAVID LINCH
95- CASSINO de MARTIN SCORSESE
96- CELEBRIDADES de WOODY ALLEM
97- BILLY ELIOT de STHEPEN DALDRY
98- SONHOS de AKIRA KUROWAUA
99- PROCURANDO AMY
100-O ULTIMO IMPERADOR DE BERNARDO BERTOLUCCI Continue

Afinal

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08:56

Fernando Pessoa é para mim simplesmente o maior poeta de todos os tempos.

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito,

Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!
Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande,
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam

Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos
Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.
Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso.
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,

Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.

Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis
Num rito anterior a todas as significações,
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso
A tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!

Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino!
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima
Volteia serpenteando, ficando como um anel
Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,
Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre,

Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.

Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.

Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.

Sou uma grande máquina movida por grandes correias
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,
E nunca parece chegar ao tambor donde parte ...

Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito
Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,
Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.

Dentro de mim estão presos e atados ao chão
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e dos átomos,
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,

A chuva com pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!



By ALVARO DE CAMPOS
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Morte à orelha de Van Gogh!

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08:32

O Autor de um dos poemas mais importantes do século XX, o UIVO, Allen Ginsberg foi e é um dos maiores simbolos da poesia universal, bandeira fundamental da revolução cultural-poetico americana, o movimento beat e um dos Sercerdotes da arte em todos os tempos.



O Poeta é Sacerdote
O dinheiro contabilizou a alma da América
O Congresso desabou no precipício da Eternidade
O Presidente construiu uma máquina de guerra que vomitará e varrerá a Rússia para fora do Kansas
O Século Americano foi traído por um Senado louco que não dorme mais com sua mulher
Franco assassinou Lorca o filho queridinho de Whitman
assim como Maiakovski se suicidou para evitar a Rússia
Hart Crane Platônico insigne se suicidou para soterrar a América errada
assim como milhões de toneladas de cereal humano foram queimadas em porões secretos sob a Casa Branca
enquanto a Índia morria de fome e gritava e comia cachorros loucos encharcados de chuva
e montões de ovos eram reduzidos a pó branco nos corredores do Congresso
nenhum homem temente a Deus andará de novo por lá por causa do fedor dos ovos podres da América
e os índios de Chiapas continuam a mastigar suas tortillas sem vitaminas
aborígenes da Austrália talvez resmunguem na selva sem ovos
e raramente eu tenho um ovo para o café da Manhã embora meu trabalho precise de infinitos ovos para renascer na Eternidade
ovos deviam ser comidos ou então devolvidos a suas mães
e o desespero das incontáveis galinhas da América se expressa pela gritaria dos seus comediantes no rádio
Detroit fabricou um milhão de automóveis de seringueiras e fantasmas
mas eu caminho, eu caminho e o Oriente caminha comigo e toda a África caminha
e mais cedo ou mais tarde a América do Norte também caminhará
pois assim como expulsamos o Anjo Chinês da nossa porta, ele também nos expulsará da Porta Dourada do futuro
nós não mostramos piedade para Tanganica
Einstein em vida recebeu zombarias por sua política celestial
Bertrand Russel expulso de Nova York por trepar
e o imortal Chaplin foi expulso das nossas praias com a rosa entre os dentes
uma conspiração secreta da Igreja Católica nos mictórios do Congresso negou anticoncepcionais às incessantes massas da Índia
Ninguém publica uma palavra que não seja o delírio covarde de um robô com mentalidade depravada
o dia da publicação da verdadeira literatura do corpo americano será o dia da Revolução
a revolução do cordeiro sexual
a única revolução incruenta que distribuirá cereais
o pobre Genet iluminará os que trabalham nas colheitas de Ohio
Maconha é um narcótico benigno mas J. Edgar Hoover prefere seu mortífero scotch
E a heroína de Lao-Tsé & do Sexto Patriarca é punida com a cadeira elétrica
porém os pobres drogados não têm onde pousar suas cabeças
canalhas em nosso governo inventaram um tratamento torturante para o vício tão obsoleto quanto o Sistema de Defesa de Alarme pelo Radar
eu sou o sistema de defesa de alarme pelo radar
Não vejo nada a não ser bombas
não estou interessado em impedir que a Ásia seja Ásia
e os governos da Rússia e da Ásia se erguerão e cairão mas a Ásia e a Rússia não cairão
o governo da América também cairá mas como pode a América cair
duvido que mais alguém venha a cair alguma vez a não ser os governos
felizmente todos os governos cairão
os únicos que não cairão serão os bons
e os bons governos ainda não existem
Mas eles precisam começar a existir eles existem nos meus poemas
eles existem na morte dos governos da Rússia e da América
eles existem nas mortes de Hart Crane e de Maiakovski
Esta é a hora da profecia sem morte como conseqüência
o universo acabará por desaparecer
Hollywood apodrecerá nos moinhos de vento da Eternidade
Hollywood cujos filmes estão atravessados na garganta de Deus
Sim Hollywood receberá o que merece
Tempo
Infiltração ou gás paralisante pelo rádio
A História tomará profético este poema e sua horrível estupidez será uma hedionda música espiritual
Eu tenho o arrulhar das pombas e a pluma do êxtase
O Homem não pode agüentar mais a fome da abstração canibal
A guerra é abstrata
o mundo será destruído
mas eu só morrerei pela poesia que salvará o mundo
Monumento a Sacco e Vanzetti ainda não patrocinado para dignificar Boston
nativos do Quênia atormentados pelos imbecis criminosos da Inglaterra
a África do Sul nas garras do branco alucinado
Vachel Lindsay Ministro do Interior
Poe Ministro da Imaginação
Pound Ministro da Fazenda
e Kra pertence a Kra e Pucti a Pucti
cruzamento de Blok e Artaud
a Orelha de Van Gogh estampada no dinheiro
chega de propaganda de monstros
e os poetas devem ficar fora da política ou se tornarão monstros
eu me tornei monstruoso por causa da política
o poeta russo indiscutivelmente monstruoso em seu diário íntimo
o Tibete deve ser deixado em paz
Estas são profecias óbvias
A América será destruída
os poetas russos lutarão contra a Rússia
Whitman preveniu contra essa "maldita fábula das nações"
Onde estava Theodore Roosevelt quando ele mandou ultimatos do seu castelo em Camden
Onde estava a Câmara dos Deputados quando Crane leu em voz alta seus livros proféticos
Onde estava tramando Wall Street quando Lindsay anunciou o destino final do Dinheiro
Estariam escutando meus delírios nos vestiários do Departamento de Pessoal de Bickford’s?
Deram ouvidos aos gemidos da minha alma enquanto eu lutava
com estatísticas de pesquisas de mercado no Fórum de Roma?
Não eles estavam brigando em reluzentes escritórios, sobre carpetes de parada cardíaca, berrando e negociando com
o Destino
brigando com o Esqueleto com sabres, mosquetões, dentes arreganhados, indigestão, bombas de roubo, prostituição, foguetes, pederastia,
de costas para a parede por causa das suas mulheres, apartamentos, gramados, subúrbios, contos de fada,
Porto-riquenhos amontoados para o massacre por causa de uma geladeira de imitação chinesa-moderna
Elefantes da misericórdia trucidados por causa de uma gaiola elizabetana de pássaros
milhões de fanáticos agitados no hospício por causa do estridente soprano da indústria
O canto de dinheiro das saboneteiras - macacos de pasta de dente nos televisores - desodorantes em cadeiras hipnóticas -
atravessadores de petróleo no Texas - aviões a jato riscando as nuvens -
escritores do céu mentirosos diante da Divindade - açougueiros de afiados dentes com chapéus e sapatos, todos Proprietários! Proprietários! Proprietários! com obsessão de propriedade e Ego evanescente!
e seus longos editoriais tratando friamente do caso do negro que berra atacado por formigas pulando para fora da primeira página!
Maquinaria de um sonho elétrico das massas! A Prostituta da Babilônia criadora de guerras vociferando com Capitólios e Academias!
Dinheiro! Dinheiro! Dinheiro! dinheiro celestial da ilusão berrando loucamente! Dinheiro feito de nada, fome, suicídio! Dinheiro do fracasso! Dinheiro da morte!
Dinheiro contra a Eternidade! e os fortes moinhos da eternidade trituram o imenso papel da ilusão!


By Allen Ginsberg Continue

Roberto Piva

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14:41

um dos mestres da poesia marginal brasileira, o paulistano Roberto Piva foi uma das bandeiras beats na decada de 60 e hoje é um dos grandes pensadores da poesia urbana-existencial dos tempos atuais.

essa poema foi tirado da sua grande obra prima "Paranóia" de 1963.

Visão de São Paulo à noite
Poema Antropófago sob Narcótico

Na esquina da rua São Luís uma procissão de mil pessoas
acende velas no meu crânio
há místicos falando bobagens ao coração das viúvas
e um silêncio de estrela partindo em vagão de luxo
fogo azul de gim e tapete colorindo a noite, amantes
chupando-se como raízes
Maldoror em taças de maré alta
na rua São Luís o meu coração mastiga um trecho da minha vida
a cidade com chaminés crescendo, anjos engraxates com sua gíria
feroz na plena alegria das praças, meninas esfarrapadas
definitivamente fantásticas
há uma floresta de cobras verdes nos olhos do meu amigo
a lua não se apóia em nada
eu não me apóio em nada
sou ponte de granito sobre rodas de garagens subalternas
teorias simples fervem minha mente enlouquecida
há bancos verdes aplicados no corpo das praças
há um sino que não toca
há anjos de Rilke dando o cú nos mictórios
reino-vertigem glorificado
espectros vibrando espasmos
beijos ecoando numa abóbada de reflexos
torneiras tossindo, locomotivas uivando, adolescentes roucos
enlouquecidos na primeira infância
os malandros jogam ioiô na porta do Abismo
eu vejo Brama sentado em flor de lótus
Cristo roubando a caixa dos milagres
Chet Baker ganindo na vitrola
eu sinto o choque de todos os fios saindo pelas portas
partidas do meu cérebro
eu vejo putos putas patacos torres chumbo chapas chopes
vitrinas homens mulheres pederastas e crianças cruzam-se e
abrem-se em mim como lua gás rua árvores lua medrosos repuxos
colisão na ponte cego dormindo na vitrina do horror
disparo-me como uma tômbola
a cabeça afundando-me na garganta
chove sobre mim a minha vida inteira, sufoco ardo flutuo-me
nas tripas, meu amor, eu carrego teu grito como um tesouro afundado
quisera derramar sobre ti todo meu epiciclo de centopéias libertas
ânsia fúria de janelas olhos bocas abertas, torvelins de vergonha,
correias de maconha em piqueniques flutuantes
vespas passeando em voltas das minhas ânsias
meninos abandonados nus nas esquinas
angélicos vagabundos gritando entre as lojas e os templos
entre a solidão e o sangue, entre as colisões, o parto
e o Estrondo

Paranóia (1963) Continue

Cinema e Revolução

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13:11

correspondente do Festival de Cinema de Berlim, J. P. Picaper, ficou atemorizado pelo fato de “em Le Gai Savoir, co-produção da O.R.T.F. e da Rádio-Stuttgart - proibida na França -, Godard ter pronunciado sua admirável auto-crítica ao ponto de projetar seqüências com a tela escura ou mesmo deixando o espectador durante um período quase insuportável de tempo diante de uma tela branca” (Le Monde, 8 de julho de 1969). Sem considerar o que representou mais precisamente “um período quase insuportável de tempo” para este crítico, podemos ver Godard, como sempre seguindo a moda do momento, adotando um estilo destrutivo da mesma maneira tardia, plagiadora e obtusa como todo o restante de sua obra, foi esta negação, expressa no cinema antes dele, que deu início a longas séries de pretenciosas pseudo-inovacões que despertaram tanto entusiasmo entre as audiências estudantis no período anterior(1). O mesmo jornalista informa que Godard, por um dos personagens do seu curta L’Amour, confessa que a “revolução não pode ser colocada em imagens” porque “o cinema é a arte da mentira”. O cinema não tem sido mais “arte da mentira” do que as demais artes, que estão mortas em sua totalidade bem antes de Godard, que nem mesmo pode ser considerado como um artista moderno, quer dizer, ele não foi capaz de revelar qualquer vestígio de originalidade pessoal. Este maoísta mentiroso com seu blefe retorcido tentou despertar admiração para sua brilhante descoberta de um cinema não-cinema, denunciando a espécie de inevitável falsidade na qual ele participou, mas não mais do que tantos outros. Godard foi na realidade imediatamente ultrapassado pela revolta de maio de 1968, que fez com que fosse reconhecido como um espetacular fabricante de uma arte superficial, pseudocritica, cooptativa digna das latas de lixo do passado (veja Le rôle de Godard na Internationale Situationniste #10). Naquele momento a carreira de Godard como cineasta foi essencialmente encerrada, e em várias ocasiões ele foi pessoalmente insultado e ridicularizado por revolucionários que eventualmente cruzavam seu caminho.


O cinema enquanto meio de comunicação revolucionário não é inerentemente mentiroso apenas porque Godard ou Jacopetti o tocaram, basta que seus autores sejam stalinistas para que toda análise política seja condenada pela fraude. Vários novos diretores em vários países estão tentando atualmente utilizar filmes como meio de crítica revolucionária, e alguns deles terão sucesso parcial nesta empreitada. Porém, as limitações tanto em suas concepções estéticas como também em sua compreensão da natureza da presente revolução vão, em nossa opinião, impedir-lhes durante algum tempo de ir até onde é necessário. Nós acreditamos que no momento apenas as posições e métodos situacionistas, conforme formulados por René Viénet em nosso tema anterior (Os Situacionistas e as Novas Formas de Ação Contra a Arte e os Políticos), são adequadas para um uso diretamente revolucionário do cinema — entretanto, as condições políticas e econômicas ainda se apresentam como óbvios obstáculos à realização de tais filmes.



Sabe-se que Eisenstein quis fazer um filme do Capital. Considerando suas concepções formais e submissão política, dificilmente tal filme seria fiel ao texto de Marx. Mas de nossa parte, somos confiantes que podemos fazer melhor. Por exemplo, assim que se possível o próprio Guy Debord fará uma adaptação cinematográfica de A Sociedade do Espetáculo que certamente em nada ficará devendo ao seu livro.


Fonte: Projeto Periferia (www.geocities.com/projetoperiferia/). Continue

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

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13:05

INSTRUÇÕES DE USO PARA O ATIVISTA AMADOR
Gérson(ou Jersson) de Oliveira

1. Não acredite em nada do que lhe dizem. Na real, quase noventa por cento do que você aprendeu até hoje não é verdade. Você sabia que uma laranja é azul? Pois saiba que sim. Mesmo as cores que vemos são pura ilusão. De ótica.


2. Tvs, jornais, meios de comunicação, tudo é programado. Há sempre uma razão para escolherem que informação dar.


3. Se você acha que o que está sendo falado aqui é bobagem, pare agora de ler. Se preferir continuar, é por sua conta e risco...


4. Vamos supor que você já percebeu que vivemos condicionados a todo momento. Nossa programação mental, nossos gostos, nossa crença, ego, diversão, etc.


5.Tudo o que vemos é relativo. A física quântica já provou que a posição de uma partícula pode ser variável e múltipla simultâneamente. Robert Anton Wilson, um dos precursores da conspirologia, afirma que vivemos em “túneis de realidade”.


6.Iniciar programa de descondicionamento? Muito bem, só teclar o enter e pronto. Ok? Simples assim? Não, ninguém aqui está propondo uma nova lavagem cerebral.


7. É agora que entra a teoria da conspiração. Lançando hipóteses e conectando dados nem sempre confiáveis, a conspirologia é uma ferramenta para o ativista justamente por gerar dúvidas. Verdade ou boato, o fato é que conspirações sempre trazem um questionamento polêmico e fértil por trás.


8. Sejam frangos trangênicos do MC Donalds ou a verdade sobre Ovnis, não há como negar que conspirações estão profundamente enraizadas no inconsciente coletivo.


9. Conspirações são armas políticas. Conspirações estavam por trás da Revolução Francesa, do Watergate, e até do Golpe de 64 no Brasil.


10.Especulações éticas ou disseminadoras de memes, o fato é que conspirações não são brincadeira. Nem paranóia. Ou podem ser uma coisa ou outra. Ou ambas.


11. A internet é o lugar por excelência para a disseminação de conspirações. Como os memes, toda conspiração espalha novos memes por aí, na velocidade de um e-mail.


12. A utilidade de uma conspiração? Depende do seu objetivo. Curiosidade? A verdade por trás do Vaticano ou da Rede Globo? Quer começar uma revolução? Desmascarar uma seita? Revelar experimentos científicos proibidos? Conectar o narcotráfico com a indústria do cinema? Amigo, o campo é vasto e os caminhos os mais variados. Mas não avancemos muito, se você chegou até aqui, você não é nenhuma criancinha.


13. Conclusão? Nenhuma. A dúvida é o cerne de toda conspiração. Mas atenção. Não acredite em tudo que lê. Nem mesmo no que está escrito aqui... Continue

POEMA ENTRE O TEMPO E O ESPAÇO

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11:36


a união de intermináveis vazios assola minha alma,
fragilidade que percorre as artérias e sai pela boca consumida,
detritos que rasgam a pança de um confim que cansou de ser imaginário,
ah como é infindável esse deserto
era como se eu percorresse todas as almas solitárias dos poetas
com pés sepultados na minha própria sombra
e descesse pelas paredes de vidros dos sonhos envidraçados,
a fumaça dos carros no caminho para o trabalho me elucina
e me perco na contramão de mim
lambendo o infinito com uma língua cheia de espinhos translúcidos,
vazo pelos pesadelos dos ecos pisoteando
o invisível visivelmente meteórico,
minha lança poética e cotidiana atravessa o coração da aurora
e leva meu sonho ate altas montanhas imaginarias
que flutuam pela calçada do meu sentido,
ah o sexto dos meus cinco sentidos é o primeiro ato
da peça abismal da minha fuga invariável,
preciso respirar.
léguas de memórias afundando.
estendo a mão em neblina que trago de volta a lagrima inerte,
respirar hoje em dia é o penso logo existo da nossa época
tantos silêncios ensurdecedores,
camadas cósmicas desprezadas por passos sintéticos
saídos de bloco de gelo que deslizam nas paradas de ônibus,
pelos portes em forma de farol crepuscular
pelos bancos lotados de fantasmagóricos futuros,
onde minha cabeça rola entre os corredores
e é esmagada pelos talões de cheques
e palavras precisas que perfuram meu cérebro
como parafusos surrealistas atrofiando meu fim sepultado no tempo,
me sinto lagrimejante e fragilmente sonhador,
me sinto a bússola perdida de uma navegador
num mar abstrato insuportavelmente consciente dentro de mim,
para tudo que for suportável
para tudo que me lançar num chão banhado de angústias,
para tudo que descabelar meu universo com outros universos
engolidores do fogo vulcânico que sai da minha pulsação enorme,
para tudo que for ilimitado como as dores na alma e o amor inconsciente e incontrolável,
para tudo que me faz voltar a mim mesmo
abismando minha sombra que como nuvem esfria meu silencio,
para todos os poemas que se fundem na minha saliva
virando mãos que me sufocam quando a insônia
é uma pequena grande tempestade que para por cima da minha noite desolada,
poderia dizer que as horas se derretem mas
na verdade elas acidam meus segundos decompostos
com vômitos inconseqüentes que apenas meu olhar produz nas vaginas da manhã,
evaporando a nuvem que faz minha memória
lembrar de si mesmo por ser diluída em fragmentações,
mesmo que para isso eu tenho que enterrar meus desejos de voar
nos altos de mim mesmo e respirar o ar melancólico das sensações inrenascidas,
vácuo ha um longo vácuo que vaguei insano a mim,
corro mais uma vez
pés-tempo
maos-segundos
corpo-eternidade
alma-infinito de todos os infinitos,
desdenho as formas simétricas
e calabouços falsos da palavra,
desdenho a conjunção dos astros ao meu redor,
desdenho poemas nunca escritos por um medo latejante,
desdenho os poetas que sobem nas cadeiras
deixando seus poemas no chão para que sua voz seja ouvida
nos quatro cantos menos a voz dos seus próprios versos inanimados,
desdenho um punhado de delírios porque a alma é o próprio delírio convexo,
desdenho-me por não sei onipresente mesmo que seja flexível,
desdenho-me por ter sido nada enquanto
que a vida é tudo inrrespondivelmente transcendendo,
ah almas obsoletas desdenho os olhares que só olham suas próprias pegadas,
os balcuciadores de verdades vindas de seus próprios vícios por si mesmo,
minha alma mergulha novamente
nas estradas oceânicas dos anseios febril por espaço e tempo,
trêfego entre auroras e crepúsculos
e jamais encontro o infinito ultimo das sensações humanas,
por isso persisto como a poesia que persiste em reviver
a cada nova leitura e estraçalha o passado onisciente,
persiste em mergulhos e mergulhos imperceptíveis,
por que nenhum grito e nenhum silencio intimo
é tão imperceptível quanto meu infinito único,
nunca entendi o que significa ser realmente poeta
por que a poesia é para ser sentida como a soma
de todos os universos interiores inteiros,
por que ser poeta é esta dentro de todos os universos
e não fazer parte de nenhum
sendo todos ao mesmo tempo,
ser cada letra,
cada verso,
cada palavras
ser cada ser
em minúsculos sentimentos inesgotáveis,
minúsculos eus se proliferando na porta do futuro,
minúsculos corpos burlando as câmaras de segurança do mundo,
minúsculos dedos tocando a íris da desmemoria,
minúsculas libertações dos cadeados momentâneos do meio dia,
minúsculas chuvas despencando na minha pálpebra almatica,
me afogando como quem afoga um fugitivo num mar despedaçado
no lagrimejante dia que contamina o outro e o outro e outro
para desaguar na falta de respiração trasncedente,
pequena morte de cada instante,
pequeno baile fúnebre de nao-eternidade,
a grande utopia da existência humana
é não querer existir existindo
é estar sobrevivente num mundo onde só o existir
é ser poeta e ser poeta é ser a própria utopia e ser livre...
Continue

LAST FLOWERS

0
10:29


meu corpo cansado,
refém do infinito da minha alma
Deixa-me inconsolável,
fragilidade de inserto sendo engolido pela memória,
mulheres e homens estão com suas cabeças a baixo da terra
que treme de angustias calmas,
a profundidade é maior quando cai uma lágrima
criando uma enorme onda que afogará o infinito de nós,
sinto um pequeno oceano,
persisto no impossível,
o absoluto é um fracasso nesse instante.
e o instante é uma escavação crepuscular,
segundos perfuram minha inconsciência,
letras de musicas inesgotáveis embalam a boca da noite,
às vezes eu acho que ninguém ao meu redor esta bem...
todos têm uma angustia inesgotável,
todos têm memórias que viram nuvens e atravessam a manhã,
todos os rostos dos meus amigos parecem se
contorcer de submersas infinitudes
como vulcões que rasgam as galáxias e devastam a transcendência,
sinto que meu presente horizonte submerso
é uma carta futurista que se repete,
fui seduzido pelo tempo-espaço mas
não me entreguei completamente,
nossas imagens, nossas almas, nosso infinitos se confundem,
a persistência em respirar se confunde
com a persistência de um poema,
e quando persiste um poema é
quando a alma não desiste de si mesma,
preciso de um poente,
nesse instante preciso de um poente,
preciso de um poente nesse poema,
preciso de um poente nessa manhã monitorada
pelos satélites frios que balbuciam ordens,
preciso de um poente antes de preparar
as portarias milionárias no meu trabalho,
preciso de um poente antes que gesticular sem sentido
na borda do abismo da aurora e
caminhar dentro de um meteoro
rumo ao mar das ausências reprimidas,
não afundo quando mergulho em mim mesmo
eu afundo quando submerjo do meu próprio interior,
uma angustia que vem fora engoela minha lembrança
como um tubarão que almeja engolir o oceano inteiro,
abandonei minha respiração
agora sinto o inalcançável
quero me apaixonar por essas horas solitárias
olhando-a no rosto,
minha febre cotidiana perece um trem a todo o vapor
que percorre os umbigos do vazio
quando eu descarrilo a noite,
vivo dois universos paralelos,
eu e o cotidiano somos parceiros
antes do crepúsculo
e depois somos um com a noite,
fabrico meu mundo sempre...
fabrico a bomba de ventos e nuvem perfeitos,
fabrico meu próprio poente
fabrico meu próprio crepúsculo e auroras
fabrico a eternidade,
fabrico meu ser para ele ser
o sexto dos cinco sentidos do mundo,
fabricos universos inteiros
mas não encontro nenhum deles agora,
então saio de mim,
tomo um ar num confim solitário,
nesses instantes escuros e frios
sinto uma solidão medonha que me abocanha,
amarro meus quatro cantos
nos quatro cantos desse poema e
ele leva-me para longe.


De: João Leno Lima Continue

A máquina planetária do trabalho

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O nome do monstro que deixamos crescer e que mantém nosso planeta em suas garras é: Máquina Planetária do Trabalho. Se queremos que a nossa espaçonave volte a ser um lugar agradável, temos que desmantelar essa Máquina, consertar os estragos e fazer certos acordos básicos para um novo começo. Então, nossa primeira pergunta deve ser: como faz a Máquina Planetária do Trabalho para nos controlar? Como é organizada? Quais são seus mecanismos e como podem ser destruídos?
A Máquina é planetária: come na África, digere na Ásia e caga na Europa. É planejada e regida por companhias internacionais, sistemas bancários, circuitos de combustível, produtos não-manufaturados e outros bens. Existem montes de ilusões quanto a nações, Estados, blocos, Primeiro, Segundo, Terceiro e Quarto Mundos – mas estas são só subdivisões menores, partes da mesma maquinaria. Claro que diferentes engrenagens exercem pressões, tensões e fricções entre si. A Máquina é feita de suas próprias contradições: operários/capital; capital privado/capital do Estado (capitalismo/socialismo); desenvolvimento/subdesenvolvimento; miséria/desperdício; guerra/paz; mulheres/homens, etc. A Máquina não é uma estrutura homogênea; ela usa suas contradições internas para expandir seu controle e sofisticar seus instrumentos. Diferente dos sistemas fascistas ou teocráticos, ou como no 1984 de Orwell, a Máquina do Trabalho permite um nível "sadio" de resistência, inquietação, provocação e revolta. Ela digere sindicatos, partidos radicais, movimentos de protesto, manifestações e mudanças democráticas de regime. Se a democracia não funciona, ela usa a ditadura. Se a sua legitimidade entra em crise, ela tem prisões, tortura e campos de concentração de reserva. Nenhuma dessas modalidades é essencial para entender a função da Máquina.
O princípio que governa todas as atividades da Máquina é a economia. Mas o que é economia? É uma troca impessoal e indireta de tempo de vida cristalizado. Você gasta seu tempo para produzir uma peça que é usada por alguém que você não conhece para montar uma bugiganga que é comprada por outro desconhecido para fins que você ignora. O circuito dessa sucata de vida é regulado de acordo com o tempo de trabalho que foi investido no material bruto, na sua manufatura e em você. A medida é o dinheiro. Os que produzem e trocam não têm controle sobre seu produto comum, então pode acontecer que trabalhadores revoltados sejam mortos exatamente com os revólveres que ajudaram a produzir. Cada peça de comércio é uma arma contra nós, cada supermercado um arsenal, toda fábrica um campo de batalha. Este é o mecanismo da Máquina do Trabalho: retalhar a sociedade em indivíduos isolados, chantageá-los separadamente com salários ou violência, usar seu tempo de trabalho de acordo com os planos. Economia quer dizer: expansão do controle da Máquina sobre suas partes, tornando essas partes cada vez mais dependentes da própria Máquina.
Todos somos partes da Máquina Planetária do Trabalho – nós somos a Máquina. Representamos a Máquina uns contra os outros. Desenvolvidos ou não, assalariados ou não, autônomos ou empregados, servimos à proposta dela. Onde não há indústria, "produzimos" trabalhadores virtuais e exportamos para zonas industriais. A África produziu escravos para as Américas, a Turquia produz trabalhadores para a Alemanha, o Paquistão para o Kuwait, Ghana para a Nigéria, o Marrocos para a França, o México para os Estados Unidos. Áreas virgens podem ser usadas como cenário para os negócios turísticos internacionais: índios em suas reservas, polinésios, balis, aborígenes. Os que tentam sair da Máquina preenchem as funções de pitorescos marginais (hippies, yogues, etc.). Enquanto a Máquina existir, estaremos dentro dela. Ela destruiu ou mutilou quase todas as sociedades tradicionais ou as levou a desmoralizantes situações defensivas. Se você tenta se retirar para um vale deserto e viver sossegadamente de uma agricultura de subsistência, pode crer que vai ser encontrado por um coletor de impostos, um funcionário do planejamento ou um policial. Com seus tentáculos, a Máquina pode alcançar virtualmente todos os lugares deste planeta em questão de horas. Nem nas partes mais remotas do deserto de Gobi você pode dar uma cagadinha sem ser notado.


Fragemento de Bolo'bolo Continue