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Escrever é uma transa e não um transe

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10:58

poesia[4].jpg

Descortinar um novo percurso até então oculto ao mundo, ao universo, ao tempo. Na máxima construção de uma nova estrada esculpida com nossos pés-mãos no chão do nosso próprio espaço interior exteriorizado. Escrever um novo verso, um novo capítulo da história jamais contada. A recriação descomunal e desproporcional de uma realidade que nem o escritor sabe ao certo medir, ver, sentir. Um furação perfurando o poço de infinidades de palavras reinterpretadas. Um plágio reflexo retorcido pela gramática e comprenssado entre os tones e as tintas não-poéticas das impressoras. 

O ato-poematizar nos reintroduz no vasto campo do desequilíbrio frente ao automatismo crônico da nossa época. Celulares e Tablets agradecem nossa imersão pelo desconhecido, paralelos ao zumbinismo unilateral da modernidade. Nossa pulsação, antes congelada pelas contas do mês e pela hora do almoço longínquo, agora é uma jj.jpgbailarina enfurecida nos campos minados da metafísica. O lápis, ou o digitar obliquo procurador de letras envelhecidas nas artérias no novo, reciclado. O esconderijo do prazer da carne-vírgula que comemos com ânsia pelo olhar do futuro na fome do leitor pálido canibalesco. A poesia é um gemido em nossa manifestação ousada, na leitura vespertina das cigarras, no canto verdejante de um animal acuado na esquina.

Voltamos suados e mais anorexos depois de cada período composto. Voltamos a nos reutilizar depois de olhar fixamente para os semáforos torcendo pelo momento exato da partida. Voltamos a nos inscrever na instituição página. Voltamos não-sei-de-onde jamais saímos de fato. As longas carícias dos dedos-vagalumes daquilo que queremos dizer, pensar, ou não, só queremos desabafar nossas cabeças pensantes, ou não, numa poça líquida que se presumem, renovadora. Olhamos para trás e um longo rastro de objetos-sílabas e outras formas de protestos transparentes, nos garante que a viagem foi rápida mas não menos infinita. Deixamos a história correr pelos solavancos dos outros, risos e desprezo certamente serão bem vindos. Viramos para o lado do equilíbrio numa tomada com uma câmera apenas e um sem-diálogo necessário. Nossos corpos derramados de palavras pretendem não só engravidar o tempo como faze-ló gerar pequenas crianças-asas que serão ainda poetizadas inevitavelmente,como tudo e a todos.

 

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Júlio Siqueira

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11:03

Jasmim

sou par, impar, sou infinito, posso datar ou quantificar, posso somar, multiplicar, dividir ou subtrair em letras posso ser eterno, se me permite apresenta-me, prazer, AMOR.

 

De: Jasmim

 

 

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Jasmim é uma poetisa da cidade de Marituba/Pará. Sua influência é a vida, o ensolarado percurso pelas esquinas da racionalidade. Tão sensível quanto uma flor de jasmim, tão bela quanto uma aurora. Sua poesia é colorida com paisagens familiares e densos sorrisos tímidos porém de sons cintilantes.

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A Permanência do Movimento

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20:55

 

sarau e caminhada poética

Acho que o erro está em querer ser poeta.

Poetizar-se? impossível rima absoluta.

Poetiza-se o ambiente com líquidos saídos das brechas do destino.

O mundo pouco se importa com os versos

ele quer na verdade seu licor desconhecido.

Antídoto para o esquecimento.

Provocando febre de palavras derretidas.

Ser poeta, ser escritor, ser autor, ser a mão que baila sem tinta.

O olhar dos outros se derrama sobre as páginas como ácido.

Os mesmo dedos que afagam o papel desdenham sua existência múltipla.

No meus poemas não existe rima existe a fantástica bagunça da realidade.

Essa realidade é tão real quanto a existência do tempo.

O tempo é tão real quanto Álvaro de Campos ou Bernardo Soares.

Ser poeta é dizer para si mesmo…

Eu existo.

 

 

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Júlio Siqueira | Poeta da cidade de Marituba/PA

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re-Palavra

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12:07

ByOMCgMIUAAm0ON

De repente descobri que não havia uma pedra no caminho. Ele estava vazio, solitário em sua frieza de viela esquecida. Não haviam rostos pendurados nas janelas das casas, não haviam crianças flutuando em balões mágicos anti-gravitacionais. Havia sim, sombras por trás das grades das portas do fundos. Havia celulares debatendo-se com medo das armas de fogo e outras manifestações atuais.  Havia senhoras e senhores escavando a volta para suas casas por debaixo do asfáltico pó da cidade. Havia também a certeza genitora de fantasmagorias impressas em páginas A4 de lamentações. Não só não havia uma pedra como ela jamais existiu, o impossível, o incontornável, ah saudades de Roberto Piva e Withimam, saudades de nossas conversas pelos jardins dos corredores do ônibus. Éramos tão ou mais jovens no interior de nossas mães, éramos mais poetas antes de escrever, éramos mil veze mais aquela palavra jamais inventada. Computadores e outras intervenções da modernidade não passam de ideias ultrapassadas por todos os poemas já escritos.

A loucura não é uma palavra e sim a palavra que é louca.

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By Cronie | ‘Alguém ainda lê poesia’ - Zine

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Não sou poeta, sou apenas verso

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23:55

piva_poema_submerso_iii

Quero ser poeta mas não passo de palavras.

Verso íntimo envernizando o tecido-tempo. Lúdica vitrine onde coloco as vísceras para serem expostas na passagem almeida.
A violência do mundo é uma masmorra aberta de frente para um abismo, longe, bem longe dos palcos principais e dos holofotes.

No meio termo entre o olhar do adolescente de cabelo grafitado e as bolsas-baús que guardam o invisível segredo das mulheres, resta apenas as febres das incertezas. Um vulcão sinfônico cospe em mim as páginas que jamais poderia escrever. Fotografo o momento distorcido e um vinho medonho escorre das portes de nariz empinado. Quero ser eletrocutado pelas verdades das crianças. Quero ser pisoteado pelos sorrisos mórbidos dos senadores e prefeitos e no final do dia atravessar as nuvens de asfalto a procura do abrigo.

Quero ser poeta mas não passo de palavras.

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A PERMANENCIA DA INALCANÇABILIDADE

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02:30





O vento que entra

deslocando a janela de sua passividade

afaga meu rosto como se fonte fosse,

de tristeza, mas também de flutuação gêmea.

Penetrando na pele aguda das paredes,

que em comunhão consigo mesma,

se abraça lamentando ser o espelho

que reflete as almas atrofiadas da manhã.



Uma inquietação pássara rasga o céu das lamentações,

paira sobre os pingos aleatórios da torneira do destino,

nos pelos deixados pelos felinos nos mantos da noite,

no telhado celestial que jorra a chuva do verbo elementar primeiro da não-palavra.

Num coral de poças refletindo a lua abocanhada,

na esquina onde homens roubam pedaços de objetos invisíveis

para sua contínua insatisfação jamais adormecida.


Na rua dimensional onde abordo meu interior com simplismo e pressa,

entre um anjo que brinca de nuvens sentado na calçada,

e moças de cabelos deformados que se arremessam além do visível;

vou-me, como um piano emudecido deixando um rastro no chão da cidade.


Preciso tocar na sombra de Deus pelo menos uma vez no dia.

Será ele esse vento que vem e colide com a janela?


Adormeço.


Minha voz é um ato de desequilíbrio.

A natureza das coisas me exclui dos seus planos.


Mas se estendo a mão para a poesia

o tempo vira uma correnteza calma

Onde poderei quem sabe chegar ao meu destino.













Cronie
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A infinita Fluidez

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10:04

Num primeiro ato, nascemos,
Nossos olhares ainda confusos contemplam o desconhecido,
pequenas ilusões disformes se formam
nossos passos são lentos e incalculados,
parecemos pequenas embarcações rumo a terras inexploradas.

Num segundo momento, caímos nas tribulações íntimas da carne, corremos em longos descampados destemidamente,
tropeçamos mas somos indomáveis como as águas e as nuvens,

Nos atolados em dívidas e dividendos cotidianos,
repensamos as conclusões da infância,nao vacilamos antes de chegar ao fim de nós mesmos,queremos um colo ou todos os colos.,carros, edifícios, trens, aparelhos e construções elevadas,queremos ainda o delírio, o conforto, a certeza e por ventura até deus...

num aleatório ato, nos consumimos com as razoes do tempo,
o destino parece certo como a chegada ao próximo ponto,
as músicas não envelheceram apenas suas lembranças,
as pessoas se vão e se tornam pequenas formas de saudade grisalha, as mãos já não seguram mais com tanta força as verdades da aurora, mesmo jovens ou antigos, mesmo saudáveis ou moribundos, o último ato vem...


Numa manhã cinzenta, com pétalas de chuva.
E como pequenos embarcações rumo a terras inexploradas


Como pequenas embarcações...

 

Cybernic

(Em mémoria ao Profº Ruivaldo – 24 de Janeiro de 2012)

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RESTOS DE PEQUENOS PERCURSOS

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10:18

 

Fecho os olhos perante a ausência do percurso desconhecido,
o dia abre-se em frascos repetidos,
a decisão precisa ser tomada em goles de sentidos,
deixo-me adormecer antes de adentrar nas locomotivas escaldantes, abandono as mãos num lugar visível e contemplo paisagens até então obvias.


Esse erro lamentável afasta-me da sensação vulcânica da existência, o dia na verdade é uma montanha que renasce em diversos lugares possíveis, escalamos até as altas horas, em tênue força matinal, ao som das embarcações do destino;
nas pedras pontiagudas do acaso.

Fecho os olhos perante a ausência do percurso desconhecido, o dia fecha-se e então:

Para que inventamos a palavra recomeço?

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Mensagem ao tempo antes do próximo percurso

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09:56

Nostalgia – Andrei Tarkovsky

 

Passados trinta e poucos anos,
um átomo de existência significante
restou nas palmas das mãos pássaras
daquilo que se formou nos confusos cotidianos,
Como um trailer de um filme turvo
lido em voz alta pelo poetas excessivos e abstratos.

Um redemoinho de razoes ameaça as pequenas casas de areia da poesia
um vendaval de sensações abraça a razão na cintura e geme de confortos múltiplos,

Na releitura do tempo,
descampados e pântanos parecem as avenidas principais,.
solares edificios e gélidos tratores restauram o caminho lúcido,
Na volta para a casa, um colo espontâneo reescreve a eternidade todos os dias.

quem na insana montagem das horas esqueceu a si mesmo como peça principal?

A resposta exigida pelo poeta
é tao desnecessária quanto a observação das horas.

No verdadeiro percurso literal, reinvidico a condição de ser, não apenas: humano, social, cordial, filho, marido, empregado, poeta...

 

 

 

 

Cybernic
17 de Janeiro 2012

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UNIVERSO DESPROPORCIONAL

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12:40

Vi o mundo em rara profundidade nos olhos de uma senhora, sob as correntes solares na rua 21 de abril. Suas lágrimas gritavam mais que sua voz e fui paralisado entre os entremeios das horas…

Eu, um ato de passividade anti-gravitacional que tende ao tombo nas próximas esquinas, eu, que tento escrever poemas além das razoes dos poetas.

O eco da senhora ressoou como sons de pássaros indefesos sendo esmagados pelas tardes sem gotas de água nem pão...Sua anatomia lembra as invisibilidade que escorrem nossos lábios apressados e onde pisoteamos os indefesos da matéria em nome de nossa alma...

Dias depois meu estado de espírito era de um alívio cadavérico…

entreabrindo os baús para escrever esses versos, fotografo o exato instante onde ser poeta é reger os sentimentos que tomados pelo tempo; nas cinzas, retornam em forma de versos para nos atormentar.

 

 

 

Cybernic

12-01-2012

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Esculpindo o limiar inexplorado

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10:53

 

Num profundo ato sobrehumano despenco da razão
e abraço a realidade múltipla.

Com dois pés de aço e gesso deixando pequenos escritos
que logo se apagarão nas fantasiosas relações da manhã,
me apego ao redemoinho na rua Claudio Barbosa
e elevo meu olhos ao gigante de braços abertos da inércia,
planejo ser espiritual até os ossos nas próximas horas,
quero desvendar os mecanismos do mundo,
nao aceito a insatisfação material
mas aceito pequenos goles de bondade.

Nas margens casais brigam nas bordas do tempo,
minha chefa faz cálculos que só terminarão em um milhão de anos,
os mesmo olhos que observam o poema
observam o fluxo cotidiano,
a leitura é a mesma,
só muda o posicionamento das palavras,
e em certo momento nem as palavras...

Ah poetas e loucos,
Escrever mais um poema é possuir a alma do tempo em plenitude.
O dialogo com o mundo é uma catástofre de inclusões,
uma bomba que precisa ser desarmada nas horas que não voltarão,
um nó que asfixiou as outras vidas possíveis do amanhã,
um ato profundo precisa ser vivido nas próximas páginas do poema que escreves a cada dia...

Um ato dentre intermináveis atos possíveis...

 

 

 

 

cYbernic
28-12-11

Ao som do disco “The Bends” (Radiohead – 1995)

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INTERMÉDIO

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11:42

 

Sem intermédios, o mundo caminha em múltipla desistência,
cansado, irremediável como crianças brincando no tempo-espaço.

Vermes televisivos e cifrões da inconsciência.

Se no passado estávamos em descaminho,
agora encontramos o precipício espiritual da carne:
shoppings Center e cartões oniscientes,
músicas feitas de blocos de gelo,
assoalhos que escondem metáforas...
Na cidade periférica, as avenidas levam ao sono,
num descampado com milhões de olhares famintos,
sou metade gente metade pássaro metade porções de açaí sintético
com fragmentos irreconhecíveis e líquidos,
mas na metrópole de gesso onde moro,
poetas trocam palavras por um gole de vinho qualquer.

 

 

 

 

 

 

cYBERNIC
27-12-11

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Palavra Líquida

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11:28

Na poesia, há qualquer coisas, humana, atemporalmente imaterial,
divina, perniciosa, olhares que agarram com as duas maos os braços do tempo e por alguns segundos, não solta, indomavelmente obsessivo em  sua marcha ao desconhecido, casa de todos os poetas.


Como o "Stalker" do filme de Tarkovsky, vivo intimamente pequenos desertos, grandes blocos de gelo, vulcões e descampados fazem parte do  ignóbil e as vezes febril momento. Ah, Cada palavra, carrega em si, um  universos sanguíneos de sobreposições e fundos inomináveis e cada poeta  parece disposto a desvendar os segredos do calculo...


tu que ler esse poema, pensas no tempo gasto com essa imediata leitura?  pensas o quanto foi labiríntico para o poeta escrever esse percurso pelo  qual tu apenas caminha sem preocupações? Sabes dizer-me o grau  irreparável de sentimento colocados nesse período - como setas indicado o  caminho à luz ou ao abismo? só pensas em terminar o percurso assim como  eu, e, só nesse sentido, caminhamos juntos.

Assim como a arte, a vida cria seus próprios versos e ao enveredarmos por ele, desda infância, encontramos a cada instante o desconhecido - assim como o poeta - e queremos no final a redenção... Queremos sempre no final o abrigo, o colo uterino da felicidade, a certeza de conforto e dimensão; a verdade máxima das religioes ou a fantasia mais inexoravelmente lúdica das crianças, queremos apenas sobreviver sempre ao percurso...

Ao olhar para os cavalos ou os sempre irremediáveis pássaros, posso admitir que todos os sistemas parecem imperfeitos...

A passividade da existência geme,
agressiva palidez das tardes geme,
nosso olhares falsamente preocupados geme,
nossas vozes risivelmente afinadas gemem,

Na poesia, há qualquer coisas, humana, atemporalmente imaterial,  divina, perniciosa, olhares que agarram com as duas mãos os braços do  tempo e por alguns segundos, não solta, indomavelmente obsessivo em  sua marcha ao desconhecido, casa de todos os poetas.

Cybernic
21 de Dezembro de 2011

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ACORDE

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13:39



Ao Léo

Há um resto de uma múltipla existencialidade nessa tarde,
frascos contínuos se decaindo,
- como gotas sobre um piano -
em indecentes posições poéticas inabitáveis,
na fragrância de um lapso,
na perplexa palidez da aparecia.
Á mil horas atrás um poeta que amava as cordas as usou
para seu último delírio, e nós, chocados com a música,
nos tornamos rádios ambulantes sintonizadas ao mesmo tempos,
com a freqüentes lembranças
ultra contínuas do amanhecer...
 
 
 
Por: João Leno Lima
05-12-2011
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VAGALUMEANDO

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13:58

Por: Júlio Siqueira

Num instante solitário entre montanhas e estradas desertas, vou me debatendo chamando isso de segundos.

Atravessando os longos e frios descampados, pelos túneis das tardes, onde pequenas gotas de memórias são capazes de mergulhar as mais ocultas palavras.

o ser humano suspira, agarra-se em invisíveis constelações, na matéria e no imaterial delírio, depois o declínio da perda, a dor de parto pela saída, não do feto mas da lastimante concentração de afeto com o que se perdeu.

No distante olhar superficial das coisas, apenas podemos lamentar, mas, no núcleo visceral onde provavelmente está a alma - intacta - há milhes de vulcões que se cuspissem todos os sentidos, sentiríamos por toda a eternidade - tudo – ao mesmo tempo.

POEMAS PARA O LIVRO

ONÍRICO PERCURSO POR DENTRO DO MOVIMENTO”

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Luz nas trevas

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14:09

 

 

 

 

 

Escrito por Paulo Metri

 

A partir de um olhar humano, nossa espécie caminha a passos imperceptíveis em direção a seu desenvolvimento humanístico, pois nosso tempo de vida é curto demais para testemunhar algum avanço significativo. Isto ocorre em contraste com o desenvolvimento tecnológico, cuja evolução é sensível até para quem vive somente uma idade abaixo da média da espécie. Inclusive, quanto à evolução humanística, há períodos em que claramente regredimos, por exemplo, durante as guerras.

A grande maioria da sociedade humana sempre esteve sendo explorada. A forma mais primitiva da exploração, que persiste até hoje, se dá pela força bruta. Grupos bárbaros e exércitos saqueavam aldeias e cidades, senhores feudais confiscavam parcelas da produção dos aldeões, reis arrebanhavam impostos dos súditos, piratas pilhavam navios e mercadores caçavam negros na África para serem escravos. Países europeus criaram colônias nas Américas, na África e na Ásia para as riquezas destes continentes serem exploradas por eles que tinham o poder das armas. E, se alguém nas colônias se rebelasse contra a exploração da "desenvolvida" Europa, era exemplarmente punido.

A História humana é impregnada de brutalidade, incompreensão com o semelhante, egoísmo e ganância. Existem também exemplos de fraternidade, amizade, compreensão, mas raramente entre países e classes. Nenhuma outra espécie viva matou tantos dos seus quanto à humana. Pode-se até dizer que a humanidade é desumana e causa estranheza se dizer que a falta de humanidade existe nos homens. Hipocritamente, houve "evolução" no ato de explorar, pois ele passou a ser mais dissimulado. Por exemplo, os cruzados foram ao Oriente para combater os infiéis mouros e os jesuítas se espalharam pelo mundo para catequizar os nativos impuros.

A História conseguiria, se bem descrita, expandir nosso horizonte de percepção e, assim, creio que seria possível afirmar que nos últimos 500 anos a nossa espécie teve alguns momentos de avanço humanístico e muitos de estagnação e recuos. Iremos pinçar os últimos 500 anos, porque o período imediatamente anterior corresponde à Idade Média, quando uma treva quase total escureceu o planeta.

Assim, nestes últimos 500 anos, existiram eventos que representaram, comparativamente, clarões de desenvolvimento humanístico, na escuridão em que vivia a espécie. Pode-se listar, por exemplo, o Renascimento, que nos empurrou para fora da Idade Média, com transformações na filosofia, artes, ciência, comportamento social, política e organização econômica. Durante esta fase de mudanças, que se iniciou antes da entrada no século XVI, surgiu o mercantilismo, com o término da economia feudal. Em época posterior, o capitalismo. Pode-se citar também, sem se estar hierarquizando por grau de importância, o término do poder absoluto da monarquia britânica por obra de Cromwell, cujo início da participação política deu-se em 1628.

O Iluminismo e a Revolução Francesa, esta começando em 1789, trazem esperança de liberdade, igualdade e fraternidade. O Manifesto Comunista de Marx, de 1848, e toda sua obra tentam difundir, além de outras esperanças, a socialização dos meios e benefícios da produção. Então, desde o século XVI, tem-se uma manifestação humanística forte, a cada século, menos no XX.

Entretanto, quando se pensou que o máximo do refinamento na arte de ludibriar havia sido atingido recentemente, a dissimulação conseguiu se suplantar, atingindo o ápice quando a exploração entre países e de classes dentro de um país não consegue ser identificada pelos próprios explorados. Criou-se todo um arrazoado teórico para justificar o capitalismo levado ao extremo. Quem ajudou a fundamentar a base teórica para tal, não importando a falta de análises sociais, políticas e estratégicas dos fundamentos, é guindado a ganhador de prêmio Nobel. A máquina internacional do capitalismo foi colocada nesta empreitada. Governos confiáveis a ele foram requisitados para darem e difundirem o exemplo, que é o momento em que surgem Thatcher e Reagan. De países satélites, é exigida a adoção incondicional do novo modelo. Esta tese é propalada como o remédio milagroso que trará sucesso para todos os subdesenvolvidos.

Contudo, os desenvolvidos não precisavam seguir à risca o mesmo receituário. É tolhido em diversos países um debate aberto em que o novo modelo pudesse ser contestado.

Entidades de representação internacional, como FMI, Banco Mundial e OMC, controladas por poucos países desenvolvidos, impõem a aceitação das teses neoliberais e da globalização de interesse do capital internacional. Grandes agências de notícias mundiais, que são controladas pelo capital, assim como muitos grupos de mídia em países do ocidente, difundem somente uma versão dos fatos, inclusive, em muitos casos, não verdadeira. Às agências classificadoras de risco é delegada a fiscalização da aplicação dos conceitos recém impostos, além do FMI e de outros órgãos internacionais. Com o neoliberalismo e a globalização desinteressante, foram retirados dos países, principalmente dos em desenvolvimento, graus de liberdade nas decisões, que foram entregues ao capital internacional.

Então, estabeleceu-se que: 1) não devem ser criados impedimentos nos países ao livre fluxo de capitais; 2) as economias devem ser desregulamentadas; 3) devem ser retiradas as barreiras alfandegárias de cada país, decretando o fim do protecionismo; 4) devem ser produzidos em cada um, somente, os produtos e serviços para os quais é "vocacionado"; 5) devem ser acabados os subsídios às produções nacionais; 6) deve ser adotado o Estado mínimo e, assim, empresas estatais devem ser privatizadas; 7) são criadas agências reguladoras de mercado, que, de maneira escamoteada, servem para garantir a máxima rentabilidade para os investidores; 8) não deve haver constrangimento à desnacionalização da economia.

Resta dizer que, dentre os países em desenvolvimento, os que se saíram melhor, no período neoliberal (aproximadamente, as décadas de 80, 90 e 2000), foram os que não seguiram esta receita. É triste constatar que os capitais nacionais preferiram ficar com as migalhas do projeto neoliberal alienista a fechar acordo com a sociedade brasileira para protegê-la - a si próprios também.

Chegou-se ao incrível ponto da exploração ser instituída na sociedade, através de constituições nacionais aprovadas pelos representantes do povo que mais pareciam ser seus carrascos. Muitas instituem a legalidade da transferência de renda entre classes da sociedade, assim como de riquezas pertencentes a todos para grupos representantes do capital. Freqüentemente, dentro de um país, a legislação permite a concentração de renda e riqueza e a transferência para o exterior de lucros e riquezas. Governantes e políticos sem compromissos com o povo ajudaram muito o sucesso deste processo de engodo, ao atuarem para beneficiar grupos menores, prejudicando o todo. O mais triste de tudo é que conseguiram incutir na sociedade que este processo era inexorável e o exército de desempregados que o novo modelo acarretou era por culpa do próprio trabalhador que não tinha habilidades suficientes. É como se alguém chegasse para um cego de nascença e dissesse que o culpado dele ser cego era ele próprio. Incutiram na sociedade também o absurdo que a miséria era conseqüência da inépcia e da preguiça dos mais pobres.

Depois, devido à ganância extremada de alguns, buscando incessantemente o acúmulo de riquezas, não importando as conseqüências dilacerantes nos menos alertados, a não transmissão de velhas experiências para novas gerações, a fadiga da sociedade na busca por um mundo melhor, sem conseguir avanços significativos, o sucesso da máquina de enganação que consiste a comunicação de massas e a proximidade pecaminosa de alguns intelectuais, políticos e lideranças diversas com os corruptores do capitalismo, que não são poucos, ocorreu uma deterioração tão arrasadora das conquistas anteriores que se pode dizer, hoje, que retornamos às trevas. No entanto, é uma Idade Média dissimulada, pois muitos de nós somos capazes de jurar que se está em um período de plena liberdade. Supomos que vivemos em liberdade, ilusão que só é conseguida graças à catequese da mídia que desinforma, em ato maquiavélico. O cidadão não tem nem consciência que está sendo manipulado e está tudo mal.

O liberalismo econômico não é atrelado ao liberalismo político, pois qualquer um pode existir com ou sem a existência do outro. Para verificação se há coincidência de conceitos, considero o liberalismo político altamente recomendável, enquanto o econômico extremamente reprovável. Pois bem, o liberalismo econômico foi ressuscitado das décadas de 20 e 30 do século passado, por inexpressiva minoria que se beneficia materialmente, acumulando mais riqueza, graças ao fato de deter os instrumentos de controle da opinião das massas. É interessante notar que os porta-vozes do capital nunca querem debater a democracia econômica. O acordo internacional AMI, cuja imposição foi tentada e sepultada somente por causa de desavenças entre os grandes, significaria a completa desregulamentação financeira dos países com garantias extremas para os investimentos do capital no mundo. Isto tudo fez parte da passagem para o novo período de escuridão.

Assim, o país mais poderoso do mundo, tanto militar como economicamente, decide quais ditaduras devem ser consideradas como agressoras dos direitos humanos. Então, a ditadura da Arábia Saudita não causa problema algum para os direitos humanos, enquanto Kadafi é um ditador sanguinário. Mubarak passou 29 anos sendo um ditador irrepreensível para os Estados Unidos e, quando não tinha mais sustentação política, virou um ditador mau. Ditaduras foram apoiadas pelos Estados Unidos na América Latina, nos anos 70, se não foram planejadas por este país, especificamente no Brasil, no Chile, no Uruguai e na Argentina.

A lição que se pode tirar de uma análise mais cuidadosa sobre o Oriente Médio e o Norte da África hoje é que, segundo a lógica do mais forte, países com grandes recursos petrolíferos, que querem maximizar seus ganhos nesta atividade, minimizando o lucro das empresas estrangeiras do setor, e não querem ofertar quantidades consideráveis de petróleo no comércio internacional, têm seus governos caracterizados como ditaduras. Entre as forças de Kadafi e as da OTAN, não opto por nenhuma delas e tenho profunda tristeza pelo sofrimento do povo líbio. Hoje, a OTAN são forças armadas auxiliares das forças norte-americanas e, assim, deseja-se que ela atue em qualquer país considerado rebelde, mesmo que não esteja no Atlântico Norte.

O discurso de pregação da democracia e a favor dos direitos humanos deve ser sempre utilizado em países sem ditaduras colaborativas, pois a vitória do capital na guerra da comunicação e das campanhas eleitorais é acachapante. Com a comunicação de massas dominada pelo capital e o marketing político, é fácil o mandatário, que será sufragado pelo povo, ser escolhido, previamente, pelos detentores de capital com interesses na região. Assim, eleição não pode nunca ser ganha pela escolha consciente do povo, e sim sempre pelo capital, que a vê como um investimento de altíssima rentabilidade.

A novidade, a luz nas trevas, consiste em que existem exceções a este padrão e elas estão se tornando mais numerosas na América do Sul, além existirem também em outros países do mundo em desenvolvimento. Outra novidade é o retorno lento, mas constante, ao mundo bipolarizado, estando em processo de finalização o período de país hegemônico dos Estados Unidos, sem querer negar a superpotência que são. As redes sociais começam a contestar a rede anti-social que é a mídia do capital. Entretanto, é preciso estar alerta porque mesmo as redes sociais sofrem influência do capital. WikiLeaks e outros furos e denúncias mostram o verdadeiro espírito das nações e as verdadeiras forças que dominam a política mundial. Apesar de muitos grupos, em especial no mundo árabe, estarem sendo manipulados pela CIA e outros órgãos espúrios de países amigos do capital, e estando a milhares de quilômetros de distância dos acontecimentos e abastecido com informações filtradas pelos controladores do mundo virtual, os povos do Oriente médio e do norte da África estão, aparentemente, mais conscientes. Haveria indícios de alguma melhoria na conscientização da população mundial. Estaríamos no meio do aparecimento de um novo clarão humanitário? Ou estou somente esperançoso?

 

 

 

Paulo Metri é engenheiro e conselheiro da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros.

MATÉRIA ENCONTRADA EM > correiocidadania

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SAMPLER

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10:31

De: Júlio Siqueira

 

Na contramão de cada percurso distingue-se devaneios e extremidades,como loucos procurando a saída num barco naufragado,mas com o mar a volta para lembrar do longo caminho; desejamos por ventura que não houvesse obstáculos mas, uma vida num deserto evitaria a presença movediça dos fantasmas?

Calo sobre o espiral do olhar dos outros, observo a estranha boca cheia de razões dos meus amigos,seus padrões de vidas anti-redomas,vitrines para longos modelos de invulnerabilidades prodigiosas.

Mas num vento contrário, que racha o leme e parte o remo do tratado do equilíbrio, acudimos o espelho com longas massagens que gemem em Lagrimas, tanto para o assassino como para o anjo, a paz é desejada sedentamente, a diferença é o grau da estrada passageira.

Recolho-me, e os pés da multidão desviam-se como água ao redor da rocha,quero apenas o afago intrometido da paisagem recriada,minha insatisfação abre uma fissura na gravidade me expando junto aos universos.

 

 

Poema para o livro

“Onírico Percurso por dentro do movimento” de Júlio Siqueira

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COLIDIR

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09:03

De: Júlio Siqueira

No absurdo momento deparo-me com a

verdade, sou um átomo.

Choca-me as dúvidas como punhais,

sangro no chão mais disfarço,

so há um caminho, um túnel que me levará a

ponte entre a vertigem e a lagrima.

Mas no absurdo momento, disparo-me

acidentalmente perto de uma criança

e diluo-me, e deixo apenas rastros pelas teclas dos

computadores, e deixo apenas vestígios pelos arredores das

esquinas, me esquivo de cada sombra,

percebo nos retrovisores, invulneráveis

deformações da manhã,

no absurdo momento,

adormeço num esconderijo entre a janela dos

onibus mágico e os movimentos bailarinos

dos gestos indefesos ao sentido das coisas.

sou um átomo vulnerável ao meu próprio

sentir.

.

 

Poemas para o livro

Onírico Percurso por dentro do Movimento” de Júlio Siqueira

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BREVIEDADE

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12:57

De: Júlio Siqueira

 

 

 Na respiração de todas as incertezas há um acúmulo ofegante de medo serpenteando cobrindo como um nevoeiro os pensamentos que passeiam nas orlas do meio dia.

Nenhum salmo afaga nesse momento nenhuma lança também transcreve o sague no chão febril da tarde.

O que sinto é uma imensidão capaz de dá voltas e voltas no mundo - aquecendo suas mais vulneráveis impaciências.

Ah meus amigos,

a plantação que nasce nos hemisférios

exteriores e dá vida aos campos

brota em mim mil quilômetros ao longe,

estendo os braços e toco dá cidade às verdes razões da natureza.

mas assim, como num truque da inconsciência, de Jung à ortodoxos pensamentos arbitrários, mesmo na incerteza, respiro através de uma fissura atômica aberta sem data, onde despejo minúsculos pergaminhamentos imateriais em forma de claves que só serão ouvidas pelos cometas em tempos em tempos.

 

POEMAS PARA O LIVRO

“ONÍRICO PERCURSO POR DENTRO DO MOVIMENTO” de Júlio Siqueira

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