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Governo brasileiro curva-se ao imperialismo

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23:29

 

 

por PCB [*]

A vinda de Obama ao Brasil foi um gesto forte que marcou, para o Brasil e o mundo, um claro movimento de estreitamento das relações entre os governos brasileiro e norte-americano. O governo Dilma aponta para a continuidade, em nova fase, das ações de defesa dos interesses do capitalismo brasileiro no exterior.

 
A agenda midiática da visita sinaliza claramente um realinhamento do Brasil ao imperialismo norte-americano. Obama, por decisão do novo governo, foi o primeiro estadista estrangeiro a visitar o Brasil após a posse de Dilma. Mas não foi uma visita qualquer.


O governo brasileiro montou um palanque de honra e um potente amplificador para Obama falar ao mundo, em especial à América Latina, para ajudar os EUA a recuperarem sua influência política e reduzir o justo sentimento antiamericano que nutre a maioria dos povos. Nem na ditadura militar, um presidente estadunidense teve uma recepção tão espalhafatosa como a que Dilma lhe ofereceu.
Os meios de comunicação burgueses do mundo todo anunciam hoje em suas manchetes "o carinho do povo brasileiro com Obama" e a "amizade Brasil/Estados Unidos". Caiu a máscara de uma falsa esquerda que proclama a política externa brasileira como "antiimperialista".


Em verdade, o Brasil esteve três dias sob intervenção do governo ianque, que decidiu tudo, desde os acordos bilaterais a serem assinados à agenda, à segurança, à repressão a manifestações, ao itinerário, ao alojamento, às visitas e até ao cardápio de Obama. No Rio de Janeiro, a diplomacia americana e a CIA destituíram o governador e o prefeito, que queriam surfar na visita ilustre, decidindo tudo a respeito da presença de Obama na capital do Estado. Até a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, que fica na Cinelândia, foi obrigada a suspender suas atividades na sexta-feira. Foi ocupada por agentes norte-americanos e militares brasileiros para os preparativos do comício de domingo, que seria na praça em frente.


No caso da América Latina, foi um gesto de solidariedade aos EUA em sua luta contra os processos de mudança, sobretudo na Venezuela, Bolívia e no Equador e uma vista grossa ao bloqueio a Cuba Socialista e à prisão dos Cinco Heróis cubanos.
A moeda de troca para abrirmos mão de nossa soberania foi um mero aceno de apoio norte-americano à pretensão obsessiva do Estado burguês brasileiro de ocupar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, um símbolo para elevar o Brasil à categoria de potência capitalista mundial. Tudo para expandir os negócios dos grandes grupos brasileiros no mercado norte-americano e mundial.


Enganam-se os que pensam que existe contradição entre a política externa do governo Lula e a de Dilma, ambas fundamentalmente a serviço do capital. Trata-se agora de uma inflexão pragmática. Após uma fase em que o Brasil expandiu e consolidou os interesses de seus capitalistas por novos "mercados" como América Latina, África, Ásia e Oriente Médio, a tarefa principal agora é dar mais atenção aos maiores mercados do mundo, para cuja disputa segmentos da burguesia brasileira se sentem mais preparados.
Vai no mesmo sentido a vergonhosa atitude de Dilma lavar as mãos para facilitar a extradição de Cesare Battisti ao governo italiano, dirigido pelo degenerado cafetão Berlusconi, entregando um militante de esquerda na bandeja do imperialismo europeu, no exato momento em que cresce na região a resistência dos trabalhadores.


O governo brasileiro, durante os três dias em que Obama presidiu o Brasil, não fez qualquer gesto ou apelo aos EUA, sequer de caráter humanitário, pelo fim do bloqueio a Cuba, o desmonte do centro de tortura em Guantánamo, a criação do Estado Palestino, o fim da intervenção militar no Iraque e no Afeganistão.


Debochando da soberania brasileira e da nossa Constituição – que define nosso país como amante da paz mundial e da autodeterminação dos povos –, Obama ordenou os ataques militares contra a Líbia a partir do território brasileiro, exatamente em Brasília, próximo à Praça dos Três Poderes, que se ajoelharam todos diante desta humilhação ao povo brasileiro. Não se deu ao trabalho de ir à Embaixada americana, para de lá ordenar a agressão militar. Fê-lo em meio a compromissos com seus vassalos, entre os quais ministros de Estado brasileiros que se deixaram passar pelo vexame de serem revistados por agentes da CIA.


O principal objetivo da vinda de Obama ao Brasil foi lançar uma ofensiva sobre as reservas petrolíferas brasileiras do pré-sal, uma das razões da reativação da IV frota naval americana nos mares da América Latina. No caso de alguns países, o imperialismo precisa invadi-los militarmente para se apoderar de seus recursos naturais. No Brasil, bastam três dias de passagem do garoto propaganda do estado terrorista norte-americano, espalhando afagos cínicos e discursos demagógicos.


Outro objetivo importante da visita tem a ver com a licitação para a compra de aviões militares, suspensa por Dilma no início do ano, justamente para recolocar no páreo os aviões norte-americanos. Além disso, os EUA garantiram outros bons negócios na agricultura, no setor de serviços, na maior abertura do mercado brasileiro e latino-americano em geral.


Obama só foi embora fisicamente. Mas deixou aqui fincada a bandeira de seu país, no coração do governo Dilma. Cada vez fica mais claro que, no caso brasileiro, o imperialismo não é apenas um inimigo externo a combater, mas um inimigo também interno, que se entrelaçou com os setores hegemônicos da burguesia brasileira. O pacto Obama/Dilma reforça o papel do Brasil como ator coadjuvante e sócio minoritário dos interesses do imperialismo norte-americano na América Latina, como tristemente já indicava a vergonhosa liderança brasileira das tropas militares de intervenção no Haiti.


O PCB, que participou ativamente das manifestações contra a presença de Obama no Brasil, denuncia o inaudito aparato repressivo no centro do Rio de Janeiro. Repudia a repressão exercida contra ativistas políticos e se solidariza de forma militante com os companheiros presos.


Desde a época da ditadura, nunca houve tamanha repressão e restrição à liberdade de expressão e ao direito de ir e vir. No domingo, o centro do Rio de Janeiro foi cercado por tropas e equipamentos militares. Uma passeata pacífica foi encurralada por centenas de militares armados, agentes à paisana, cavalaria e tropa de choque. Nunca houve tamanho aparato militar, mobilizado pelas três esferas de governo – Federal, Estadual e Municipal –, sob o comando da CIA e do Pentágono, em clara e desavergonhada submissão ao imperialismo.


A resistência do movimento popular teve uma vitória importante: a pressão exercida levou à suspensão de um comício de Obama em praça pública, na Cinelândia, local que simboliza as lutas democráticas e da esquerda brasileira. Obama fugiu do povo e falou em local fechado para convidados escolhidos a dedo, pelo consulado americano, a nata da burguesia carioca: falsos intelectuais, empresários associados, jornalistas de aluguel, artistas globais, políticos oportunistas, deslumbrados e emergentes, enfim, uma legião de puxa-sacos que se comportaram como claque de programa de auditório de mau gosto para o chefe dos seus chefes.


Partido Comunista Brasileiro
Comitê Central – 20 de março de 2011


Esta Nota Política encontra-se em http://resistir.info/ .

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Obama representa a velha política imperialista dos EUA

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23:48

 

 

O presidente Barack Obama inicia no Brasil uma visita a três países da América Latina, e vem anunciar uma “nova etapa” nas relações dos Estados Unidos da América (EUA) com o nosso continente. Para o PCdoB, o imperialismo estadunidense não muda essencialmente a sua política com o governo Obama. As iniciativas concretas do governo estadunidense vão em sentido contrário à sua retórica e aos seus discursos.


A visita de Barack Obama é motivada por vários interesses dos EUA, mas os principais são: tentar neutralizar o Brasil e o papel recente de sua política externa independente, progressista; aumentar a assimetria, que já é grande, nas relações bilaterais nas áreas econômica, comercial e de defesa, e estimular contradições entre o Brasil e outros países como a China, na área econômica e comercial; assegurar fornecimento de energia, especialmente de petróleo da camada pré-sal; e atuar para "limpar a imagem" do imperialismo, usando o carisma de Obama e a diplomacia do "soft power" para lançar a suposta "nova política” para o Brasil e a América Latina, com discursos demagógicos no Brasil, no Chile e em El Salvador.
É compreensível e normal que governos como o da presidente Dilma Rousseff, que conta com o apoio e a participação do PCdoB, tenham relações diplomáticas com os demais países soberanos, entre eles os EUA. O presidente Lula, por duas vezes, recebeu o presidente Bush no Brasil. No entanto, os comunistas brasileiros não têm ilusões sobre o que o presidente Obama representa. Trata-se do chefe de estado e de governo da principal potência imperialista, inimiga principal dos povos de todo o mundo.


Desde a eleição de Barack Obama para a presidência, os EUA anunciaram uma “nova política” que na realidade não existe. O que há é uma nova formulação para o objetivo de tentar recuperar e ampliar a hegemonia mundial dos EUA. O que existe é uma retórica diferente, gestos simbólicos, amplificados por uma eficiente publicidade, e uma tática diferenciada em relação aos períodos dos governos de Bush pai e Bush filho, que trata de neutralizar oponentes, e envolver aliados, especialmente da Otan, para manter a liderança dos EUA mesmo diante de sua própria dificuldade para fazer frente a diversos conflitos de forma simultânea.


Não combina com a prática os discursos de Obama em defesa da paz, da democracia e dos direitos humanos. Também não há “valores em comum” que unem o povo brasileiro e o governo da presidente Dilma à política do imperialismo ianque. Por que a tortura continua na base de Guantánamo? Quantas guerras de ocupação e agressões aos povos os EUA promoveram nas últimas décadas e promovem neste exato momento? Quantas ditaduras e golpes foram e são financiados e apoiados pelos EUA, por exemplo os atuais regimes monárquicos despóticos da Arábia Saudita e do Barein, protegidos por Washington?


As novas estratégias militar e de segurança nacional dos EUA do presidente Barack Obama retoricamente prometem cooperação e multilateralismo. Na prática, todavia, mantêm o rumo de impor seus interesses pela força e pela guerra.


Os fatos contradizem a retórica. Depois de mais de dois anos de governo Obama, fica cada vez mais claro que os interesses de potência imperialista falaram mais alto que os discursos de campanha. Os EUA investirão em suas forças armadas em 2011, mesmo com os cortes recentemente anunciados, o maior orçamento desde o final da 2ª Guerra, maior que os gastos militares somados de todos os demais países do mundo.


Os EUA insistem em manter centenas de bases militares por todo o globo terrestre. Em conjunto com seus aliados europeus, alteraram o caráter da Otan, que passa agora a atuar em todos os continentes e mares.


Há uma forte presença militar estadunidense na Europa, no Oriente Médio, na Ásia e na América Latina. Os EUA e seus aliados da Otan continuam no Afeganistão e no Paquistão, prolongando uma guerra que já é mais longa que a agressão contra o Vietnã, e prorrogam a ocupação militar no Iraque. Mesmo assim não conseguem vencer a resistência nacional e popular nesses países.


Neste momento os EUA e países membros da Otan se preparam para uma intervenção militar na Líbia, após imporem no Conselho de Segurança da ONU uma resolução que torna “multilateral” a ação agressiva contra a soberania da Líbia. É preciso que as forças revolucionárias e progressistas de todos os continentes condenem toda e qualquer intervenção ou agressão militar estrangeira na Líbia, que não vai resolver o conflito, e só fará agravá-lo. No caso da guerra civil em curso na Líbia, é necessária uma solução política e pacífica para o conflito, que respeite a independência e a integridade territorial do país.


A política de Obama é contrária aos interesses do Brasil e da América Latina


Ao passo em que ascende uma tendencia geral democrática e progressista na América Latina, acentua-se o declínio da influência da hegemonia estadunidense na região. Apesar de os EUA possuirem ainda uma grande influência, esta vive um descenso diante da nova realidade política da América Latina.
Os EUA, em cada país da região, apoiam as forças de direita que defendem posições pró-imperialistas e opõem-se aos projetos de integração sul e latino-americana e aos governos democráticos, progressistas e de esquerda.


Na América Latina, os EUA recrudescem as campanhas midiáticas e as pressões contra a Revolução Cubana e as ameaças à Venezuela, considerada pelos centros de inteligência de Washington “a principal ameaça” contra os EUA nas Américas. Enquanto isso o governo colombiano segue a linha traçada pelos EUA de tornar o país uma Israel da América Latina e do Caribe, patrocina o assassinato de lideranças populares e mantém milhares de presos políticos. As correspondências diplomáticas da embaixada dos EUA no Brasil reveladas pelo site Wikileaks explicitaram o que todos já sabiam, que os EUA não desejavam a vitória da presidenta Dilma e que o candidato da direita José Serra comprometeu-se em realinhar a política externa brasileira aos interesses estadunidenses.
Entretanto, o povo brasileiro decidiu nas eleições de outubro passado que o Brasil deve seguir avançando e mantendo a sua política externa independente e soberana, latino-americanista, em defesa da paz e do direito dos povos ao desenvolvimento.


O imperialismo não está disposto a ceder poder sem opor resistência. Os EUA, surpresos com o êxito do acordo Brasil-Irã-Turquia acerca do programa nuclear iraniano, e contrariados pela política externa do governo Lula em diversos temas como na resistência aos golpistas de Honduras, fizeram de tudo para isolar o Brasil. Hillary Clinton, chanceler de Obama, comandou uma dura reação diplomática contra o Brasil.


As ações em política externa do governo Obama visam a manutenção do atual sistema de poder mundial, caracterizado pela hegemonia dos EUA, e sufocar as tendências à multipolaridade e os novos papéis internacionais que podem ter países como o Brasil.
Não se podem julgar líderes políticos como Barack Obama pela sua personalidade ou estilo, e sim pelo que representam objetivamente. Obama é o atual representante da velha e conhecida política imperialista dos EUA, que sempre foi e sempre será combatida pelos comunistas e pelos democratas, patriotas e internacionalistas no Brasil.


Renato Rabelo – Presidente Nacional do PCdoB
Ricardo Alemão Abreu – Secretário de Relações Internacionais do PCdoB

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imperialismo

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23:27

 

Mobilizemo-nos contra a guerra da NATO na Líbia

por Andrea Catone [*]

Doze anos depois da "guerra humanitária" da NATO, que em Março de 1999 começou o bombardeamento da Sérvia durante a Primavera para retrocedê-la meio século, como declarou o general Wesley Clark, as potências imperialistas fazem o mesmo com a Líbia – cem anos após a invasão italiana.


Sob o pretexto de salvar populações civis e com o selo branco de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU (10 votos, com cinco abstenções: Brasil, China, Rússia, Índia, Alemanha), fazem-se aquecer os motores dos caças Tornado. Na primeira linha, desta vez, encontram-se a França, a Inglaterra e os Estados Unidos, com Hillary Clinton prestes a igualar e a ultrapassar o empreendimento do seu esposo que bombardeou a Sérvia, apoiado pela dama de ferro Madeleine Albright.


Tal como em 1999, é também colocada em marcha a máquina infernal das mentiras mediáticas e da diabolização do "ditador" do momento para justificar a agressão militar contra um país rico em petróleo e porta para a África Central (o continente onde desde há muito as grandes potências entendem-se para uma repartição neo-colonial). Os mesmos que apregoam a urgência da guerra humanitária contra a Líbia, que dizem ser impossível adiar para amanhã, nem sequer levantaram a voz para deplorar a violência que Israel desencadeou entre Dezembro/2008 e Janeiro/2009 contra a população de Gaza, prisão a céu aberto para os palestinos, e que causou milhares de vítimas. Tão pouco preocuparam-se com a violência mortífera dos governos do Bahrein e do Iémen, ou da Arábia Saudita (um Estado que ostenta o nome de uma dinastia!) quando intervém com as suas tropas contra manifestantes. São estas mesmas petro-monarquias – dos emirados à Arábia – de mãos com os Estados Unidos, que enviam armas e tropas aos insurrectos contra Kadafi. Os quais – seja qual for a sua consciência subjectiva (dentre eles encontramos antigos ministros e altos funcionários da Jamahiriya) – são o instrumento de que se servem as forças imperialistas para por a pata sobre o país, não só pelos seus importantes recursos energéticos como também pela sua posição geográfica para o Mediterrâneo e para a África.


Nas condições concretas da Líbia, a imposição de uma "zona de exclusão aérea" implica um bombardeamento militar de grande amplitude. Como concordam numerosos peritos, o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea na Líbia deveria começar por um ataque, "neste sentido – explica o antigo chefe do Estado Maior da Aeronáutica, Leonardo Tricarico – há que neutralizar os meios anti-aéreos inimigos, ou seja, destruir os radares e os postos de mísseis. Nós temos esta capacidade dita SDAI, ou seja, 'supressão das defesas aéreas inimigas' e ela é constituída por caças Tornado, nós a utilizámos no Kosovo com os alemães e em três dias já não voava qualquer avião sérvio".


A Itália poderá por à disposição estes meios aéreos, eventualmente com os caças F-16 e Eurofither, aptos para a patrulha e a vigilância, além dos aviões Av8, de que está equipado o porta-aviões Cavour. Foi dada por adquirida a colocação à disposição das bases aéreas, em particular as do centro-sul, tanto para a redisposição dos aviões dos outros países como para a assistência logística. Os aviões-radar Awacs, por exemplo, poderiam ser dispostos em Trapan, que está equipada especialmente para este tipo de aeronaves, mas todas as bases estão aptas a acolher caças: de Grazzanise a Gioia del Colle. Poder-se-ia recorrer, em caso de necessidade, mesmo a Lampeduza ou Pantelleria. Há a seguir uma outra capacidade fundamental, lembra ainda o general Tricarico, "que tem a ver com as informações e de que a Itália está dotada: trata-se da constelação de satélites Cosmo-Skymed que está completamente operacional e que regista desempenhos superiores aos de qualquer outro sistema existente. Graças a estes satélites, pode-se ter uma representação fotográfica regular com uma definição muito alta, o que há de melhor hoje no mercado". Para estes fins, podem igualmente ser utilizados os aviões sem piloto (drones) "Predator", dotados de uma grande autonomia e que poderiam ser pilotos a partir da sua base de Amendola, nos Pouilles.


A Itália – as regiões meridionais em particular – está directamente implicada. O governo põe à disposição homens e meios, sistemas de radar e bases militares. O ministro da guerra Larussa recorda-se da estrofe "Tripoli, bela terra de mor... Tripoli será italiana ao som do canhão!" e põe à disposição sete bases militares "sem nenhum limite restritivo de intervenção". Trata-se de Amendola, Gioia del Colle, Sigonella, Aviano, Trapani, Decimomannu e Pantelleria: algumas, diz ainda Larussa, já foram pedidas pelos ingleses e pelos americanos. "Temos uma forte capacidade para neutralizar os radares hipotéticos adversários e poderíamos estar na iniciativa disso: podemos intervir de todos os modos possíveis". (La Repubblica)


Salvo algumas defecções de um lado e do outro (Liga do Norte e Itália dos Valores), todo o parlamento, governo e oposição "democrata", põe o capacete de guerra.
Bersani, secretário do Partido Democrata, põe mais lenha na fogueira: depois de ter quase corrigido a ONU por ter atrasado a decisão por alguns dias, declara que ele e seu partido estão "prontos a apoiar o papel activo da Itália. O governo sabe da nossa disponibilidade, pedimos apenas que nestas horas não haja declarações improvisadas e contraditórias. É preciso falar com os outros países disponíveis e com a NATO. Que ninguém faça de estratega, isso é grave".


O presidente Napolitano não fica atrás. Ele que deveria defender a Constituição (artigo 11: A Itália repudia a guerra como instrumento de ofensa à liberdade dos outros povos e como meio de resolução das controvérsias internacionais; consente, na condição de paridade com os demais Estados, nas limitações de soberania necessárias para regras que assegurem a paz e a justiça entre as nações; promove e apoia as organizações internacionais que tendem a este objectivo). Na sua intervenção no Teatro Regio de Turim no quadro das celebrações do 150º aniversário da Unidade da Itália – ocasião solene – ele disse: "Nas próximas horas, a Itália deverá tomar decisões difíceis, que a comprometerão na situação que se criou na Líbia.

Mas se pensarmos no que foi o Risorgimento, como grande movimento liberal e libertador, não podemos ficar indiferentes à repressão sistemática das liberdades fundamentais e dos direitos humanos em qualquer país que seja. Não podemos deixar serem destruídas, espezinhadas, as esperanças que nasceram de um Risorgimento igualmente no mundo árabe, uma coisa decisiva para o futuro do mundo... Espero que as decisões a tomar sejam portanto rodeadas do máximo consenso possível e da consciência dos valores que encarna a Itália unida e que devemos preservar por toda a parte".


Em 1911 havia decorrido meio século desde o Risorgimento. Este entrou na dança para a guerra na Líbia, com a retórica pascoliana [1] da "grande proletária que se pôs à deriva". Hoje faz-se intervencionismo – ou melhor, imperialismo – democrático e "guerra humanitária".


Ninguém menciona a única proposta internacional séria, a do presidente venezuelano Chavez e dos países progressistas latino-americanos, para uma mediação entre as partes em conflito. A paz não serve às potências que, em concorrência entre si, querem retomar "seu lugar ao sol". Esta guerra interna na Líbia foi alimentada pelas potência que hoje dizem querer trazer a paz e a democracia: aos insurrectos de Benghazi chegam armas, equipamentos e conselheiros militares das potências ocidentais. Alimenta-se a guerra civil para justificar a agressão externa. Velha história...


Contra a participação na guerra à Líbia exprimiram-se o secretário do PdCI, Oliviero Diliberto, e o do PRC, Paolo Ferrero.
Começam a mobilizar-se em diversas cidades as redes militantes contra a guerra.

20/Março/2011

(1) Referência ao poeta italiano Giovanni Pascoli (1855-1912)
[*] Director da revista italiana L'Ernesto.


O original encontra-se em solidarite-internationale-pcf.over-blog.net/...


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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Não à agressão contra a Líbia!

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13:20

libia_latuff

 

por CPPC [*]

Sob o pretexto e disfarce de "intervenção humanitária", estamos perante mais uma guerra de agressão e conquista por parte dos EUA e seus aliados da NATO e da região, com o aval do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Como nos exemplos recentes dos Balcãs, do Iraque e do Afeganistão, mais uma vez, o verdadeiro móbil desta intervenção é o controlo dos recursos naturais e o domínio militar e político da região.


Numa região marcada positivamente por importantes movimentações populares em luta por melhores condições de vida, por direitos sociais e laborais, liberdade e democracia e pela exigência de soberania e afirmação de independência face ao conluio de decadentes oligarquias com o imperialismo, as potências imperialistas buscam, em renovados moldes e por via da violência quando necessário, prosseguir a sua intromissão e exploração económica dos países desta região. É esse o cenário de sinistra ameaça sobre a Líbia hoje. No entretanto, conspiram contra os movimentos populares no Egipto e Tunísia e enviam forças militares da cruel ditadura Saudita para reprimirem a revolta popular no Bahrein.
O CPPC, reafirmando a sua solidariedade com o povo líbio que será a primeira vítima desta agressão:

  • Condena a intervenção imperialista contra a Líbia e exige o fim imediato desta agressão em respeito pela independência e soberania deste país;
  • Deplora a co-responsabilidade assumida pelo Governo português nesta agressão, posto que votou favoravelmente a resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas;
  • No respeito pelo consagrado no artigo 7º da Constituição da República Portuguesa e na Carta das Nações Unidas, recusa liminarmente a participação de Portugal neste acto de agressão;
  • Solidariza-se com os povos da Líbia e do Bahrein vítimas de agressões imperialistas;
  • Expressa a sua grande apreensão quanto às repercussões que a presente acção terá sobre outros povos no Próximo e Médio Oriente.

O CPPC convoca uma concentração de repúdio pelas agressões imperialistas aos povos da Líbia e do Bahrein e pela exigência da paz - frente à Embaixada dos EUA, em Lisboa (Avenida das Forças Armadas, junto a Sete Rios), para dia 23 de Março, Quarta-feira, pelas 18h00.


O Conselho Português para a Paz e Cooperação
18/Março/2011

 


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Encobrimento dos impactos devastadores da radiação nuclear

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16:36

 

Encobrimento dos impactos devastadores da radiação nuclear:
Estabelecer uma rede para monitorar radiação formada por cidadãos de todo o mundo

por Washington's Blog

Se pudéssemos confiar nos governos japonês e americano para nos informar de qualquer perigos, não teríamos de ser tão vigilantes.
Mas dado o encobrimento do governo americano da gravidade do desastre petrolífero da BP, do risco saúde para os nova-iorquinos após o 11/Set e numerosas outras questões de saúde , teremos de instruir-nos nós próprios.
Exemplo: o chefe da saúde pública dos EUA (U.S. Surgeon General) recomendou que os residentes da Costa Oeste que se abastecessem de iodeto de potássio , ao passo que outros responsáveis do governo disseram que é desnecessário porque os níveis de radiação não serão bastante altos. Mas nenhum governo revelou leituras de radiação na Costa Oeste, de modo que não podemos verificar por nós próprios se sim ou não actualmente há qualquer perigo. Ver isto e isto .
Como observa a ABC News, peritos dizem que o Japão tem um longo historial de encobrimentos nucleares.
O New York Times destaca :

Os diferentes materiais nucleares que são relatados em acidentes nucleares no Japão vão desde o relativamente benigno ao extremamente inquietante.
O problema central em avaliar o grau de perigo é que as quantidades de várias fugas radioactivas para o ambiente agora são desconhecidas, pois são os ventos e outros factores atmosféricas que determinam como a radioactividade será dispersa em torno das centrais atingidas.

A BBC informa (rolar a coluna à esquerda):

O engenheiro japonês Masashi Goto, que ajudou a desenhar o vaso de contenção para o núcleo do reactor de Fukushima, afirma que a concepção não era suficiente para aguentar terramoto ou tsunami...

Na verdade, disse Goto:

"É difícil dizer, mas haveria uma fusão do núcleo (core meltdown). Se as varetas caírem e misturarem-se com água, o resultado seria uma explosão de material sólido como um vulcão a propagar material radioactivo. Uma explosão de vapor ou de hidrogénio provocada pela mistura propagaria resíduos radioactivos a mais de 50 km. Além disso, esta seria multiplicada. Há muitos reactores na área de modo que haveria muitos Chernobyls.

E Goto acusou o governo japonês de reter deliberadamente informação vital que permitiria a peritos externos ajudar a resolver os problemas:

Exemplo: não tem havido informação suficiente acerca do hidrogénio que está a ser expelido. Não sabemos quanto foi expelido e quão radioactivo era.

O antigo editor do Japan Times – Yoichi Shimatsu – declara que após uma reunião de alto nível do governo, "as agências japonesas não já estão a divulgar reportagens independentes sem a aprovação prévia do topo" e que a censura do que realmente está a ocorrer na instalação está a ser efectuada sob o Artigo 15 da Lei de Emergência. A França também está a acusar o Japão de subestimar a ameaça nuclear.
E o Haarertz observa :

Uma vez que o governo japonês não tem proporcionado informação precisa a respeito da possível ameaça apresentada pela explosão na central nuclear de Fukushima, peritos em Israel e no estrangeiro estão divididos sobre o âmbito do desastre as ramificações para o ambiente.

Há algumas redes muito incompletas de monitoração em tempo real tais como esta e esta . Mas o número de monitores e muito pequeno e incompleto e é difícil saber quem dirige as redes.
Assim, devemos aproveitar o poder da Internet a fim de nos instruirmos.
Como?
É simples... Toda a gente que tenha um contador Geiger pode apresentar um fluxo de dados na web tal como este rapaz:

 

(e estes outros ).
Assegure que informa a sua localização (cidade, estado e país) a fim de que as pessoas saibam onde está, o fabricante e o modelo do seu contador Geiger e as unidades de radiação que estão a ser contadas (isto é, contagem por minuto, milli-roentgens por hora ou micro-sieverts por hora ).
Quando bastantes pessoas fizerem isto, teremos uma rede cidadã a monitorar radiação e não teremos de confiar na falta de informação vinda de governos.

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O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=23743

 


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Em um mês Dilma já mostrou a que veio

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19:05

 

dilma_fernao_campos

por Renato Nucci Junior

[*]

Em seu primeiro mês à frente da presidência da República, as medidas tomadas por Dilma Roussef desvanecem paulatinamente as ilusões quanto ao caráter do seu governo.

Em um ambiente internacional marcado pelo aprofundamento da crise econômica, fica claro o papel do governo Dilma: preparar o país para os seus efeitos deletérios, garantindo prioritariamente os interesses do grande capital monopolista. Para tanto, aplicam-se e anunciam-se duras medidas de ajuste tais como privatizações e ataques aos interesses e direitos dos trabalhadores, todas com o intuito de atenuar suas conseqüências para o capital, mas impingindo aos trabalhadores um custo infinitamente maior.  


A primeira medida anunciada por Dilma logo no início de seu mandato é a da abertura do capital da Infraero e a privatização na gestão dos aeroportos. Alegam-se dificuldades do Estado em mobilizar o volume de recursos necessários, cerca de R$ 5,5 mil milhões, para modernizar e ampliar os aeroportos, tendo em vista a crescente demanda por passagens aéreas e a execução de reformas que prepararem a infra-estrutura do país para receber a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Indisposta a negociar e debater o projeto com a atenção merecida, expondo sua face truculenta e pouco afeita ao diálogo, pois a aplicação de duras medidas de ajuste não deixam margem para negociação, Dilma avisou que o projeto de privatização da Infraero será encaminhado por meio de medida provisória.

Em suas linhas gerais a proposta aponta para uma gestão compartilhada entre Estado e empresas privadas, que passariam a administrar os novos terminais de Cumbica e Viracopos, através de concessão de 20 anos. As principais interessadas e maiores beneficiadas seriam as duas maiores empresas aéreas do país, a Tam e a Gol.


Mais uma vez, como sempre ocorre no Brasil, fato igualmente comum nos governos petistas, o Estado burguês faz cortesia com chapéu alheio, usando dinheiro público para financiar o lucro privado. Afinal, dentre todos os terminais aeroportuários do Brasil, Cumbica e Viracopos representam o filé mais suculento, pois são respectivamente os maiores em volume de passageiros e de cargas.

Outro caso emblemático da entrega do patrimônio público para o capital privado é o do aeroporto de São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte. Concluído, será o primeiro do país concedido totalmente à iniciativa privada, cujo investimento de R$ 450 a R$ 600 milhões para a sua construção receberá 80% de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social (BNDES).
No bojo dessa onda de ataques patrocinada pelo governo Dilma, inclui-se a decisão tomada pelo Banco Central na primeira reunião do Conselho de Política Monetária (Copom), em 2011, de aumentar a taxa básica de juro de 10,75% para 11,25% com a justificativa de conter a alta da inflação.

Esse aumento na taxa Selic atende aos interesses do capital financeiro, uma das frações hegemônicas da burguesia no bloco no poder. O recurso ao aumento da taxa básica de juro como forma de controle da inflação, além da emissão de títulos públicos indexados pela taxa Selic do BC para retirar dinheiro de circulação, igualmente atendem ao interesse do capital financeiro. Entretanto, levam a um crescimento desmesurado da dívida pública.

Esta, em 2010, fechou com a extraordinária quantia de R$ 1,69 milhão de milhões e a previsão do Tesouro para 2011 é que ela atinja entre R$ 1,8 e R$ 1,93 milhão de milhões. A garantia para o seu pagamento é feita pelo Estado através do superávit primário, ou seja, cortes nos gastos públicos. Para 2011 está previsto um superávit primário de 3,1%, representando um corte de cerca de R$ 60 mil milhões no Orçamento.

Essa farra faz a alegria dos credores da dívida pública, majoritariamente o grande capital bancário e financeiro nacional cujo poder e influência impõem ao Orçamento Geral da União reservas cada vez maiores que garantam a amortização da dívida, bem como o pagamento de juros e encargos. Em 2010, para um Orçamento de R$ 1,848 milhão de milhões, estavam destinados R$ 777 mil milhões, ou 42,04%, para a amortização da dívida.

Outros R$ 138 mil milhões serviriam para o pagamento de juros e encargos. O compromisso de privilegiar o pagamento da dívida pública, mantido pelo governo Dilma, resultará na continuação da política de corte dos gastos públicos, principalmente os chamados gastos de custeio como pagamento do funcionalismo, os gastos com a previdência social, com a assistência social e com a manutenção da máquina pública.

Esse compromisso só pode ser mantido impondo grandes sacrifícios aos trabalhadores, congelando o salário do funcionalismo público, reduzindo-se drasticamente o alcance e a universalização das políticas públicas e dos direitos sociais, além da ameaça de uma nova onda de reformas regressivas como a da previdência.

Neste caso, o ministro da Previdência Social, Garibaldi Alves Filho (PMDB), anunciou a necessidade de se fazer uma nova (contra) reforma da previdência sob a surrada alegação de conter um déficit inexistente. Mais do que um debate pautado por gélidos cálculos matemáticos, trata-se, em verdade, de um debate político, em torno de quais classes e camadas da sociedade serão priorizadas na destinação das verbas do Orçamento. O que se pretende, portanto, com essa nova reforma regressiva da previdência, onde previsões sombrias apontam para um aumento na idade e no tempo de contribuição, é garantir o pagamento da dívida pública aos seus credores.

Ao mesmo tempo relegam-se a um segundo plano os gastos públicos voltados ao atendimento das necessidades da grande maioria do povo, sucumbindo o governo aos interesses da acumulação capitalista. Além do mais, no caso da previdência, o governo Dilma mantém o seu compromisso em não mexer no fator previdenciário, que reduz as aposentadorias em até 50%, e o reajuste com índice menor para quem recebe benefícios previdenciários acima de um salário mínimo.


Além do mais, se o problema da previdência fosse realmente o seu déficit, a proposta não incluiria a diminuição das alíquotas que as empresas pagam sobre a folha de salários, voltadas para o financiamento da previdência, de 20% para 14%. O objetivo, aqui, é permitir um aumento ainda maior dos lucros das empresas no Brasil, principalmente setores industriais que afetados pela concorrência chinesa e pela apreciação da taxa de câmbio, perdem competitividade.

Por outro lado, pesquisa feita com 321 empresas de capital aberto, mostra que o lucro médio cresceu no segundo trimestre de 2010, 39% em relação ao mesmo período de 2009. Em alguns setores esse crescimento esteve muito acima da média, chegando a 87,8% para 38 empresas de energia elétrica e a 83,86% para 26 empresas da construção civil. Esses dados mostram o quanto é falso o debate que atribui à carga tributária a responsabilidade por um suposto fraco desempenho da economia, pois mesmo o crescimento da arrecadação fiscal em 2010, previsto para 34,7%, um ponto percentual maior do que em 2009, não travou o crescimento do lucro das empresas. Desse modo, o debate em torno da desoneração da folha de salários nada mais pretende do que permitir um aumento na acumulação do capital.


O debate em torno do reajuste do salário mínimo é outro bom exemplo sobre como o governo Dilma opta por privilegiar os interesses do capital e dos credores da dívida pública. Como o aumento do mínimo baliza o reajuste de outras categorias, além de atrelar o pagamento dos benefícios previdenciários e do seguro-desemprego, o governo Dilma já avisou às centrais sindicais governistas (CUT, CTB, NCST, CGTB, UGT e Força Sindical), de que o aumento ficará em R$ 545 [€203]e não em R$ 580 [€216] como pretendem as centrais.

Ainda que o debate sobre o assunto carregue consigo uma boa dose de demagogia, pois cálculos do Dieese indicam que, para dezembro de 2010, o necessário para garantir uma vida minimamente digna para uma família trabalhadora seria de R$ 2227,53 [€829], ela é uma boa medida da disposição do governo Dilma de impedir o aumento dos gastos públicos no que tange aos interesses dos trabalhadores, privilegiando no Orçamento Geral da União os interesses dos credores da dívida. O impasse tem causado inúmeros atritos entre a equipe do novo governo e as centrais governistas. Estas têm sido obrigadas a reconhecer a presteza do governo, tanto de Lula como de Dilma, em tomar medidas extraordinárias na defesa dos interesses do capital, relegando a um segundo plano assuntos de interesses dos trabalhadores.

Somam-se a essas críticas reclamações quanto a falta de diálogo e de um canal de interlocução mais permanente entre as centrais e o atual governo. Esse é mais um exemplo do modo como Dilma, eleita para aplicar duras medidas de ajuste contra os trabalhadores, será truculenta e adotará uma relação intransigente mesmo com os seus aliados, pois seu compromisso será o de atenuar os efeitos da crise para o capital.


Mas o conjunto de ataques não para por aí. O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, principal entidade filiada à CUT e berço do "sindicalismo autêntico", cujo principal expoente foi o ex-presidente Lula, prepara um projeto de lei que propõe reforma da CLT. Este não consiste em retirar direitos consagrados na Consolidação e no artigo 7º da Constituição Federal, incluindo mecanismo mais sutil de precarização do trabalho. Operando sob a lógica neoliberal da livre negociação, o projeto quer instituir garantias para fazer prevalecer o negociado sobre o legislado, alterando o artigo 618 da CLT.

Com isso, a CLT deixa de significar um patamar mínimo sobre o qual devem se assentar as relações de emprego e de exploração da força de trabalho, com as convenções e acordos coletivos ampliando direitos e conquistas. Alegando querer garantir maior segurança jurídica aos acordos pactuados entre trabalhadores e empresas, impedindo que sejam questionados pela justiça do trabalho, um projeto de lei em que prevaleça o negociado sobre o legislado tornará legal a precarização já praticada pelas empresas. Tendo um movimento sindical como o nosso, conduzido em sua maioria por dirigentes pelegos e que operam na lógica da conciliação de classe, não é difícil prever o quão nefasto será para os trabalhadores retirar da CLT o seu papel em assegurar um patamar mínimo de direitos e de impor certos limites à exploração do trabalho pelo capital.
Como vemos, aos trabalhadores brasileiros se impõem inúmeros desafios.

Os ajustes programados pela burguesia com apoio do governo Dilma, como forma de lhes atenuar os efeitos da crise econômica mundial, representam uma nova ofensiva do capital sobre o trabalho. Dessa empreitada, porém, também participam setores do movimento sindical que compartilham com o governo Dilma as responsabilidades por essa nova onda de ataques. Diante dessa conjuntura se exigirá do sindicalismo classista e combativo uma resposta inequívoca.

Esta passa obrigatoriamente por ver que nosso adversário não é apenas a burguesia e o governo de turno que controla o Estado burguês, mas igualmente setores do movimento sindical que, em nome dos trabalhadores, aliam-se ao capital na aplicação das medidas de ajuste. Para isso, só nos resta um caminho: o da luta e da organização dos trabalhadores pela base, unificando lutas e construindo um programa mínimo capaz de oferecer uma saída classista e anticapitalista que derrote os planos de ajuste do capital.

Campinas, fevereiro/2011

[*] Do Comité Central do PCB
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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NOTA: O OPORTUNISMO IMPERIALISTA E AS DESGRAÇAS DO HAITI

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21:25

Pobre e infeliz Haiti. Primeiro a longa e feroz ditadura de Duvalier, com os seus sinistros ton-ton macoute. Depois um brevíssimo governo democrático, cujo presidente foi deposto por uma intervenção militar dos EUA & da França.

Segue-se uma longa ocupação militar, com a cumplicidade activa de países latino-americanos que se prestaram a enviar tropas para colaborar com o império. Mais recentemente um terramoto gigante que deixou o país destruído.

E este foi seguido de imediato por uma invasão em grande escala de tropas estado-unidenses. O estado calamitoso do país, com as infraestruturas de saneamento básico arruinadas, levou à epidemia de cólera iniciada em 2010.

E agora, 17 de Janeiro, para culminar, Baby Doc , o filhote do antigo ditador Duvalier, retorna de Paris . Ele volta protegido pelas tropas do imperialismo e dos governos latino-americanos que o servem – como o do Brasil, Chile e Uruguai. Vem tomar posse dos despojos. Tal como os abutres, também quer um naco do moribundo

 

 

 

original em> Resistir

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Planos do império revelados: WikiLeaks e a ação dos EUA na Venezuela

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08:20
 

Por>  Opera Mundi


O diplomata norte-americano Craig Kelly, que foi embaixador dos Estados Unidos em Santiago do Chile, enviou um despacho em julho de 2007 com o título “Plano de Ação para isolar Hugo Chávez no continente e reafirmar a liderança dos Estados Unidos”.


O documento revela a preocupação do embaixador com a influência de Chávez e diz que “apesar das diabruras e travessuras”, Chávez não pode ser considerado um “simples caudilho”. Em outro trecho ele classifica o presidente da Venezuela como sendo um “inimigo formidável, mas que pode ser derrotado”.


No texto, Kelly afirmou que a entrada da Venezuela no Mercosul afetaria as relações dos EUA com os países membros do acordo: “não devemos ser tímidos ao afirmar que a Venezuela pode afetar nossos interesses com o bloco comercial”. O embaixador indica que uma possível solução seria o investimento em tratados de livre-comércio individuais com cada país.


O embaixador também recomendou que os EUA investissem mais na região e, por meio da diplomacia, vendesse uma imagem exaltando os valores “da democracia, do comércio livre e do trabalho para fazer frente aos males do socialismo”.

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Tunísia: A lógica da revolução

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10:30

por Dyab Abou Jahjah

[*]

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A revolução tunisina continua a ditar a sua própria lógica a todos os níveis... Após tentativas de remanescentes do regime de difundirem através de várias técnicas (carros em movimento nas ruas a dispararem aleatoriamente sobre pessoas e casas, destruição de infraestrutura, etc), o povo tunisino organizou-se em comités que se disseminam por todo o país, em todo bairro e em toda cidade, começando a patrulhar as ruas e a proteger o povo. Comités populares perseguiram mesmo as milícias do velho regime e em um caso, numa troca de tiros, um deles caiu como mártir enquanto dois homens da milícia foram executados pelo povo.
Há relatos de actividade israelense na Tunísia em apoio da contra-revolução e também de infiltrados enviados da Líbia para sabotagem. Ainda não é claro se isto é um padrão ou são casos isolados.


A nível político, os remanescentes do velho regime ainda estão oficialmente no poder e estão a negociar com a falsa oposição que sempre serviu ao regime como decoração. Contudo, os comités populares, a central sindical e a oposição real estão a trabalhar para mudar isto e traduzir a revolução em efeitos políticos. Acredito que não levará muito tempo até ser traçado um caminho político rumo à preparação de eleições. É importante notar que eleições feitas em conformidade com o velho regime não produzirão mudança, de modo que a oposição real e o povo estão a exigir primeiro a mudança da constituição e então ir para eleições.


Os regimes árabes estão a ser sacudidos e os povos árabes estão eufóricos mesmo em lugares como o Oman e os Emirados. No Twitter, a juventude saudita também está a mostrar apoio à revolução tunisina e a exprimir vergonha pelo seu país tolerar a tirania. O regime egípcio adiou medidas planeadas para revogar o subsídio do estado a alguns bens de consumo básicos. Quanto a Qadafi, exprimiu o seu lamento e disse que os tunisinos deveriam ter mantido Ben Ali para sempre. Qadafi está claramente nervoso acerca de uma revolução real na fronteira líbia contrária à sua própria falsa revolução. A outro nível, a oposição egípcia agora está mais convencidas de que a resposta está na rua e nada mais. Este reviver do ideal revolucionário é universal sobre todo o mundo árabe. Na Argélia há relatos de três casos de cidadãos a atearem-se fogo, um deles confirmadamente morto. O Egipto e a Argélia parecem ser os dois países árabes em que mais repercute o que aconteceu na Tunísia.


O Hezbollah saudou a revolução tunisina e pediu a todos os líderes árabes que retirassem conclusões da mesma.
Internacionalmente, os franceses e os americanos emitiram declarações que revelam um alto nível de hipocrisia. Eles sempre apoiarem o velho regime, sabendo muito bem da sua natureza como revelou o WikLeaks , e agora não podem nos vender o seu chamado apoio às opções do povo. Eles não gostam de ver revoluções a menos que sejam orquestradas pela CIA e pelas ONGs financiadas pela CIA, como na Ucrânia, Geórgia e Líbano. Isto é uma revolução real e portanto sentem-se inquietos acerca dela.

16/Janeiro/2011

Ver também:

  • Mulher de Ben Ali pode ter levado 1,5 t de ouro da Tunísia
  • The Lesson of the Tunisian Revolution , de Hassan Nasrallah
  • http://angryarab.blogspot.com/
  • Detenido el jefe de seguridad de Ben Alí cerca de la frontera con Libia
  • Manifestation à Tunis pour exiger la dissolution du parti de Ben Ali
  • Parti communiste des ouvriers de Tunisie
  • Appel du parti communiste des ouvriers de Tunisie à l’attention du peuple tunisien et ses forces démocratiques
  • Revolta no Magrebe
    [*] Fundador e antigo presidente da Arab European League .
    O original encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/2011/jahjah160111.html e em Abou Jahjah comments

  • Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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    Notas sobre o [EUA] império: A guerra à WikiLeaks

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    18:35

    por John Pilger

     

     

     

     

    Os ataques à WikiLeaks e ao seu fundador, Julian Assange, constituem uma resposta à revolução na informação que ameaça as velhas ordem de poder, na política e no jornalismo. A incitação ao assassínio trombeteada por figuras públicas nos Estados Unidos, juntamente com tentativa da administração Obama de corromper o direito e remeter Assange para um buraco prisão infernal durante o resto da sua vida são as reacções de um sistema opressor revelado como nunca o fora antes.


    Nas últimas semanas, o Departamento da Justiça dos EUA estabeleceu um grande júri secreto do outro lado do rio de Washington, no distrito Leste do estado de Virgínia. O objectivo é acusar Julian Assange sob uma desacreditada lei de espionagem utilizada para prender activistas da paz durante a Primeira Guerra Mundial, ou uma lei da "guerra ao terror" que degradou a justiça estado-unidense. Peritos judiciais descrevem o júri como uma "preparação deliberada", destacando que este canto da Virgínia é onde residem empregados e famílias do Pentágono, CIA, Departamento de Segurança Interna e outros pilares do poder americano.


    "Isto não é boa notícia", contou-me Assange quando falámos na semana passada, sua voz era sombria e preocupada. Ele diz que pode ter "dias maus – mas recupero". Quando nos encontrámos em Londres no ano passado, eu disse, "Você está a fazer alguns inimigos muito sérios, nada menos que o governo mais poderoso empenhado em duas guerras. Como é que trata essa sensação de perigo?" A sua resposta foi caracteristicamente analítica. "Não é que não haja medo. Mas a coragem é realmente o domínio intelectual sobre o medo – por um entendimento do que são os riscos e de como navegar através deles".


    Sem pensar nas ameaças à sua liberdade e segurança, ele diz que os EUA não são o principal "inimigo tecnológico" do WikiLeaks. "A China é o pior ofensor. A China tem tecnologia agressiva e refinada de intercepção que posiciona entre cada leitor dentro da China e toda informação de fonte exterior à China. Temos estado a combater numa batalha para assegurar que possamos obter informação dali e há agora toda espécie de meios pelos quais os leitores chineses podem acessar o nosso sítio".


    Foi neste espírito de "obter informação" que o WikiLeaks foi fundado em 2006, com uma dimensão moral. "O objectivo é justiça", escreveu Assange na homepage, "o método é a transparência". Ao contrário de uma lenga-lenga corrente nos media, o material da WikiLeaks não é "rejeitado". Menos de um por cento dos 251 mil telegramas de embaixadas dos EUA foram divulgados. Como destaca Assange, a tarefa de interpretar e editar material que possa prejudicar indivíduos inocentes exige "padrões [condizentes] com altos níveis de informação e fontes primárias". Para o poder dissimulado, este jornalismo é o mais perigoso.
    Em 18 de Março de 2008, foi prevista uma guerra à WikiLeaks num documento secreto do Pentágono preparado pelo "Cyber Counterintelligence Assessments Branch".

    A inteligência dos EUA, dizia, pretendia destruir o sentimento de "confiança" o qual é o "centro de gravidade" do WikiLeaks. Ela planeou fazê-lo com ameaças de "revelação [e] processo criminal". Silenciar e criminalizar esta fonte rara de jornalismo independente era o objectivo, enlamear o método. O inferno não contem uma fúria tão grande quanto a de um mafiosi imperial desdenhado.
    Outros, também desdenhados, acabaram por desempenhar um papel de apoiantes, intencionalmente ou não, na caçada a Assange, alguns por razões de pequenos ciúmes. Sordidez e decadência descrevem o seu comportamento, o qual serve apenas para destacar a injustiça contra um homem que corajosamente tem revelado o que temos o direito de conhecer.


    Quando o Departamento da Justiça dos EUA, na sua caça a Assange, intima o Twitter e contas de email, registos bancários e de cartões de crédito de pessoa por todo o mundo – como se todos nós fôssemos súbditos dos Estados Estados – grande parte dos media "livre" em ambos os lados do Atlântico dirigem a sua indignação contra o perseguido.


    "Então, Julian, porque não volta à Suécia agora?" perguntava o título que encimava a coluna de Catherine Bennett, no Observer de 19 de Dezembro, a qual questionava a resposta de Assange a alegações de má conduta sexual com duas mulheres em Estocolmo em Agosto último. "Continuar a adiar o momento da verdade, para este campeão das revelações sem medo e da abertura total", escreveu Bennett, "pode começar a parecer quase desonesto, assim como inconsistente". Nem uma palavra na peçonha de Bennett considerava as ameaças que se aproximam contra os direitos humanos básicos de Assange e à sua segurança física, como foram descritas por Geoffrey Robertson QC na audiência de extradição em Londres a 11 de Janeiro.


    Em resposta a Bennett, o editor on line da Nordic News Network, da Suécia, Al Burke, escreveu ao Observer explicando que "respostas plausíveis à questão tendenciosa de Catherine Bennett" eram criticamente importantes e [as respostas] estavam livremente disponíveis. Assange permaneceu na Suécia durante mais de cinco semanas depois de ter sido feita a acusação de violação – ignorada a seguir pela promotora chefe em Estocolmo – e de terem falhado repetidas tentativas dele e do seu advogado sueco para encontrar a segunda promotora que reabriu o caso após a intervenção de um político do governo. E ainda assim, como destacou Burke, esta promotora concedeu-lhe permissão para voar a Londres onde "também se ofereceu para ser entrevistado – uma prática normal em tais casos". Assim, parece pelo menos muito estranho que a promotora haja então emitido um Mandado de Prisão Europeu (European Arrest Warrant). O Observer não publicou a carta de Burke.


    Este registo claro é crucial porque descreve o comportamento pérfido das autoridades suecas – uma sequência bizarra que me foi confirmada por outros jornalistas em Estocolmo e pelo advogado sueco de Assange, Bjorn Hurtig. Não é só isso. Burke destacou o perigo que Assange enfrenta caso seja extraditado para a Suécia. "Documentos divulgados pelo Wikileaks desde que Assange foi para a Inglaterra", escreveu ele, "indicam claramente que a Suécia submeteu-se sistematicamente à pressão dos Estados Unidos em matérias relativas a direitos civis. Há amplos motivos para a preocupação de que se se verificar Assange ser posto sob a custódia das autoridades suecas possa ser entregue aos Estados Unidos sem a devida consideração dos seus direitos legais.


    Estes documentos foram virtualmente ignorados na Grã-Bretanha. Eles mostram que a classe política sueca afastou-se muito da visível neutralidade de uma geração atrás e que o aparelho militar e de inteligência do país está quase absorvido dentro da matriz de Washington em torno da NATO. Num telegrama de 2007, a embaixada dos EUA em Estocolmo louva o governo sueco dominado pelo conservador Partido Moderado do primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt como vindo "de uma nova geração política e não preso às tradições [anti-EUA] [e] na prática um parceiro pragmático e forte com a NATO, tendo tropas sob comando NATO no Kosovo e no Afeganistão.


    O telegrama revela como a política externa é amplamente controlada por Carl Bildt, o actual ministro dos Estrangeiros, cuja carreira foi baseada na lealdade aos Estados Unidos. Ela remonta à guerra do Vietname, quando ele atacava a televisão pública sueca por difundir a evidência de que os EUA estavam a bombardear alvos civis. Bildt desempenhou um papel importante no Comité para a Libertação do Iraque, um grupo de lobby com laços estreitos com a Casa Branca de George W. Bush, a CIA e a extrema-direita do Partido Republicano.


    "A significância de tudo isto para o caso Assange", observa Burke num estudo recente, "é que será Carl Bildt e talvez outros membros do governo Reinfeldt quem decidirá – abertamente ou, mais provavelmente, de modo furtivo por trás de uma fachada de legalidade formal – sobre aprovar ou não o esperado pedido dos EUA para a extradição. Tudo no seu passado indica claramente que um tal pedido será atendido".


    Exemplo: em Dezembro de 2001, com a "guerra ao terror" em andamento, o governo sueco abruptamente revogou o estatuto de refugiado político de dois egípcios, Ahmed Agiza e Mohammed al-Zari. Eles foram entregues a um esquadrão de sequestros da CIA no aeroporto de Estocolmo e "rendered" para o Egipto, onde foram torturados. Quando o ombudsman sueco para a Justiça investigou e descobriu que os seus direitos humanos haviam sido "gravemente violados", já era demasiado tarde.


    As implicações para o caso Assange são claras. Ambos os homens foram removidos sem o devido processo legal e antes que os seus advogados pudessem apelar ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos e em resposta a uma ameaça dos EUA de impor um embargo comercial à Suécia. No ano passado, Assange requereu residência na Suécia, esperando basear ali a Wikileaks. Acredita-se geralmente que Washington tenha advertido a Suécia através de contactos mútuos de inteligência das consequências potenciais. Em Dezembro, a promotora Marianne Ny, a qual reactivou o caso Assange, discutiu no seu sítio web a possibilidade da extradição de Assange para os EUA.


    Quase seis meses após as alegações sexuais terem sido tornadas públicas, Julian Assange foi acusado sem crime, mas o seu direito à presunção de inocência foi negado deliberadamente. O desdobrar dos acontecimentos na Suécia tem sido no mínimo grotesco. O advogado australiano James Catlin, que actuou a favor de Assange em Outubro, descreve o sistema de justiça sueca como "uma gargalhada... Não há precedente para isto. Os suecos estão a inventar à medida que avançam". Além de notar contradições no caso, ele afirma que Assange não criticou publicamente as mulheres que fizeram as alegações contra ele. Foi a polícia que deu informação ao equivalente sueco do Sun, o Expressen, com material difamatório, iniciando um julgamento pelos media por todo o mundo.


    Na Grã-Bretanha, este julgamento foi saudado ainda mais por acusadores ávidos, com a BBC à dianteira. Não houve presunção de inocência no tribunal Newsnight de Kirsty Wark, em Dezembro. "Porque não pediu desculpas às mulheres?", perguntou ela a Assange, seguido por: "Você nos dá a sua palavra de honra de que não se evadirá?" No programa Today da Radio 4, John Humphrys, o parceiro de Catherine Bennett, disse a Assange que ele era obrigado a voltar à Suécia "porque a lei diz que deve".

    O vociferante Humphrys, contudo, tem interesses mais prementes. "Será você um predador sexual?", perguntou. Assange respondeu que a sugestão era ridícula, pelo que Humphrys perguntou com quantas mulheres ele havia dormido.
    "Será que mesmo a Fox New desceu a esse nível", espantou-se o historiador americano William Blum. "Oxalá Assange tivesse sido educado nas ruas de Brookly, como eu fui. Ele então teria sabido como responder precisamente a tal pergunta: "Você quer dizer incluindo a sua mãe?"


    O que é mais impressionante acerca destas "entrevistas" não é tanto a sua arrogância e falta de humildade intelectual e moral; é a sua indiferença para com questões fundamentais de justiça e liberdade e a sua imposição de termos de referência estreitos e lascivos. Fixar estas fronteiras permite ao entrevistador diminuir a credibilidade jornalística de Assange e do WikiLeaks, cujos feitos notáveis se erguem em contraste vivo com os seus próprios. É como observar os velhos e rançosos guardiões do status quo a lutarem para impedir a emergência do novo.


    Neste julgamento dos media há obviamente uma dimensão trágica para Assange, mas também para o melhor do jornalismo de referência. Ao publicar uma grande quantidade de edições profissionalmente brilhantes com as revelações do WikiLeaks, festejadas por todo o mundo, a 17 de Dezembro o Guardian recuperou a sua cidadania no establishment ao virar-se contra a sua fonte em apuros. Um artigo de Nick Davies, correspondente sénior do jornal, afirmava que lhe havia sido dado o ficheiro "completo" da polícia sueca com "novos" e "reveladores" excertos lascivos.
    O advogado sueco de Assange, Bjorn Hurtig, diz que faltam provas cruciais no ficheiro dado a Davies, incluindo "o facto de que as mulheres foram reentrevistadas e lhes foi dada oportunidade de alteraram a suas estórias", assim como o tweets e mensagens SMS entre elas, as quais são "críticas para trazer justiça a este caso". Também é omitida evidência escusatória vital, tal como a declaração da promotora original, Eva Finne, de que "Julian Assange não é suspeito de violação".


    Depois de examinar o artigo de Davies, James Catlin, o antigo advogado de Assange, escreveu-me: "A ausência completa do processo devido é a estória e Davies ignora-a. Por que o processo devido importa? Porque os poderes maciços dos dois braços do governo estão a ser mobilizados para serem usados contra o indivíduo cuja liberdade e reputação está em causa". Eu acrescentaria: e também a sua vida.


    O Guardian aproveitou-se enormemente das revelações do WikiLeaks, sob muitos aspectos. Por outro lado, o WikiLeaks, que sobrevive principalmente com pequenas doações e já não pode mais receber fundos através de numerosos bancos e companhias de crédito devido à intimidação de Washington, nada recebeu do jornal. Em Fevereiro, a Random House publicará um livro do Guardian que certamente será um best-seller lucrativo, que a Amazon está a anunciar como O fim do segredo: a ascensão e queda do WikiLeaks (The End of Secrecy: the Rise and Fall of WikiLeaks). Quando perguntei a David Leigh, o executivo do Guardian responsável pelo livro, o que significava "queda", ele respondeu que a Amazon estava errada e que o título fora A ascensão (e queda?) do WikiLeaks. "Note o parênteses e a interrogação", escreveu ele. "Não destinado a publicação, de qualquer forma". (O livro agora é intitulado no sítio web do Guardian como WikiLeaks: Inside Julian Assange's War on Secrecy). Ainda assim, considerando tudo isso, a sensação é de que jornalistas "reais" estão outra vez a dominar. Falta de sorte para o rapaz, que nunca realmente fez parte [desse jornalismo].


    Em 11 de Janeiro, a primeira audiência para a extradição de Assange foi efectuada no Belmarsh Magistrates Court, um endereço infame porque aqui, antes do advento das ordens de controle, eram despachadas pessoas para a própria Guantanamo britânica, a prisão de Belmarsh. A mudança do habitual tribunal de magistrados de Westminster foi devida a uma falta de instalações para a imprensa, segundo as autoridades. Sem dúvida não foi coincidência que eles tenham anunciado isto no dia em que o vice-presidente dos EUA Joe Biden declarou Assange um "terrorista high tech".


    Da sua parte, Julian Assange está preocupado acerca do que acontecerá a Bradley Manning, o alegado informante, que preso em condições tão horrorosas que a US National Commission on Prisons classifica como "tortuosas". O soldado Manning é o mais eminente prisioneiro de consciência do mundo, tendo permanecido fiel ao Princípio de Nuremberg de que todo soldado tem o direito a "uma opção moral". O seu sofrimento ridiculariza a noção da "terra da liberdade".


    "Informantes [acerca] do governo", dizia Barack Obama em 2008, na campanha para a presidência, "são parte de uma democracia saudável e devem ser protegidos de represálias". Obama tem desde então perseguido e processado mais informantes do que qualquer outro presidente na história americana.


    "Quebrar Bradley Manning é o primeiro passo", disse-me Assange. "O objectivo é claramente rompe-lo e forçá-lo à confissão de que de alguma forma conspirou comigo para prejudicar a segurança nacional dos Estados Unidos. De facto, nunca ouvi o seu nome antes de ter sido publicado na imprensa. A tecnologia WikiLeaks foi concebida desde o princípio para assegurar que nunca saibamos as identidades ou nomes das pessoas que submetem material. Somos tão indetectáveis como incensuráveis. Este é o único meio de assegurar que as fontes são protegidas".


    Ele acrescenta: "Penso que o que está a emergir nos media de referência é a consciência de que se posso ser acusado outros jornalistas também o podem. Mesmo o New York Times está preocupado. Isto não costumava ser assim. Se um informante fosse processado, editores e repórteres eram protegidos pela Primeira Emenda que os jornalistas consideravam como garantida. Isso está a ser perdido. A divulgação dos registos da guerra do Iraque e do Afeganistão, com as suas provas da matança de civis, não provocou isto – é a revelação e o embaraço da classe política: a verdade do que governos dizem em segredo, de como mentem em público; de como são principiadas guerras. Eles não querem que o público saiba destas coisas e têm de encontrar bodes expiatórios".


    O que há acerca da "queda" do WikiLeaks? "Não há queda", disse ele. "Nunca publicámos tanto como agora. A WikiLeaks agora é reproduzida (mirrored) em mais de 2000 sítios web. Não posso manter o registo de todos os sítios que o imitam: aqueles que estão a fazer os seus próprios WikiLeaks... Se algo acontecer a mim ou ao WikiLeaks, ficheiros de "segurança" serão divulgados. Eles falam mais da mesma verdade ao poder, incluindo os media. Há 504 telegramas de embaixadas numa organização de difusão e há telegramas sobre Murdoch e Newscorp".


    A propaganda mais recente acerca do "dano" provocado pelo WikiLeaks é uma advertência do Departamento de Estado dos EUA de "possíveis ameaças à segurança de centenas de activistas de direitos humanos, responsáveis de governos estrangeiros e homens de negócio identificados em telegramas diplomáticos". Foi assim que o New York Times submissamente o anunciou a 8 de Janeiro, mas é falso. Numa carta ao Congresso, o secretário da Defesa Robert Gates admitiu que nenhumas fontes sensíveis de inteligência haviam sido comprometidas. Em 28 de Novembro, McClatchy Newspapers informou que "responsáveis dos EUA reconheceram que não tinham evidência até à data de que a divulgação [anterior] de documentos levasse à morte de alguém". A NATO em Cabul disse à CNN que não podia descobrir uma única pessoa que precisasse de proteger.


    O grande dramaturgo americano Arthur Miller escreveu: "A ideia de que o estado... está a punir tantas pessoas inocentes é intolerável. E por isso a evidência tem de ser negada internamente". O que o WikiLeaks nos tem dado é a verdade, incluindo raras e preciosas visões de como e porque tantas pessoas inocentes sofreram em domínios de terror disfarçados como guerras e executadas em nosso nome; e de como os Estados Unidos secretamente e desenfreadamente intervieram em governos democráticos desde a América Latina ao seu mais leal aliado, a Grã-Bretanha.
    Javier Moreno, o editor de El Pais, que publicou os registos WikiLeaks na Espanha, escreveu: "Acredito que o interesse global activado pelos documentos WikiLeaks é devido principalmente ao simples facto de que revelam conclusivamente a extensão em que políticos do ocidente têm estado a mentir aos seus cidadãos".
    Esmagar figuras individuais como Julian Assange e Bradley Manning não é difícil para uma grande potência, ainda que de forma covarde. O que está em causa é que não deveríamos permitir que isto aconteça, o que significa que aqueles de nós que pretendem esclarecer a situação não deveriam colaborar por qualquer meio. Transparência e informação, para parafrasear Thomas Jefferson, são a "moeda" da liberdade democrática. "Toda organização noticiosa", disse-me um importante constitucionalista americano, "deveria reconhecer que Julian Assange é um deles e que processá-lo terá um enorme e gélido efeito sobre o jornalismo".
    O meu documento secreto favorito – divulgado pelo WikiLeaks, naturalmente – é do Ministério da Defesa em Londres. Ele descreve jornalistas que servem o público sem temor ou favor como "subversivos" e "ameaças". Isto é uma medalha de honra.

    13/Janeiro/2011


    O original encontra-se em www.johnpilger.com/...

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    As chuvas e o proletariado

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    00:14

    – a responsabilidade de Lula, Cabral e Paes na tragédia do Rio de Janeiro



    por Adolpho Ferreira
    No início da noite de segunda-feira, 5 de abril, várias cidades do Estado do Rio de Janeiro sofreram com as intensas chuvas. Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo e outras cidades pararam por conta dos estragos produzidos por tanta água. Os mortos confirmados já são quase duzentos, até o momento. Outras centenas ou milhares – este número é ainda mais impreciso – estão desabrigados.
    Neste momento, é necessário apontar os responsáveis por tamanha tragédia.
    A imensa maioria dos que mais sofreram com o temporal é a parte dos mais pobres trabalhadores que moram nas favelas, mais especificamente nos locais que apresentam riscos de desabamento. O que sabemos é: moram nestes locais porque são a parte mais proletarizada da população, porque compõem o setor da classe trabalhadora mais afetado pelo desemprego e pela super-exploração do trabalho, porque seus salários não permitem mais que estabelecer a moradia em local tão arriscado! Jamais porque são “loucos, irresponsáveis e suicidas”, como afirma o governador do Estado do RJ, Sergio Cabral/PMDB, de forma absolutamente desumana e descompromissada com as condições de vida da classe trabalhadora.

    O prefeito Eduardo Paes/PMDB preferiu culpar a natureza e sua tremenda força, eximindo-se de toda a responsabilidade – assim como é responsabilidade de Cabral e Lula – com a realização de políticas públicas que atendam aos interesses de moradia mais imediatos desses trabalhadores, como contenção de encostas, urbanização de favelas, sistema de drenagem etc.
    Fica nítido o descaso dos governantes ao revelar a contenção de investimentos públicos, que acarreta a precarização de áreas como a Defesa Civil. As autoridades solicitam à população para não telefonar para a Defesa Civil em caso de situação que não tenha "tanta emergência".

    O presidente Lula/PT seguiu a linha já traçada por seus grandes aliados no Rio de Janeiro. Concordando com Cabral, disse que se analisarmos “todas as enchentes brasileiras, elas atingem sempre as pessoas pobres, que moram em locais inadequados". Confirma, portanto, a tese de culpabilização das vítimas. Diz que “o mais importante nessa história é que precisamos conscientizar a população para que deixe as áreas de risco”, ou seja, que abandonem suas casas e tudo aquilo que conseguiram conquistar com seu duro trabalho, sem qualquer garantia de que estará tudo lá quando retornarem.

    Lula diz ainda que as chuvas não preocupam seus interesses nos eventos de 2014 e 2016, pois “não chove todo dia, quando acontece uma desgraça, acontece; normalmente, os meses de junho e julho são mais tranqüilos”. Portanto, contanto que em junho e julho de 2014 e 2016, a cidade esteja preparada para receber a Copa e a Olimpíada, não importa o sofrimento da população nos outros dias. Até mesmo o falso argumento do “legado dos grandes eventos esportivos” utilizado pelos governantes e pelo grande capital para justificar a importância desses eventos na vida do proletariado – que não usufruirá de seu verniz – cai por terra de vez. Tudo estará funcionando em junho e julho de 2014/2016, com todos os milhares de milhões que serão transferidos pelo Estado (governos federal, estadual e municipal) à burguesia nacional e internacional, nessa relação íntima entre governos e capital que inclui, por exemplo, o financiamento das campanhas eleitorais de PT e PSDB, os partidos brasileiros que mantêm a força da ordem burguesa no país atualmente.

    Lula, Cabral e Paes são os verdadeiros culpados pela amplitude dos desastres, assim como os governos anteriores que serviram aos interesses burgueses e corruptos. Nada fizeram para melhorar estruturalmente as condições de vida e moradia do proletariado que vive em áreas que ameaçam sua própria sobrevivência e ainda culpam os mortos pela tragédia ocorrida.
    É muito importante perceber os projetos sociais que estão em luta: de um lado, o projeto dos capitalistas e dos governos burgueses, que desejam expulsar os favelados de seu local de moradia, motivados por diversos interesses, como a expansão imobiliária nessas regiões (a que se relaciona a imagem da favela criminalizada e de fato alvo da violência policial, do tráfico e de milícias); de outro lado, o projeto do proletariado, que de imediato exige a melhoria de suas condições de vida e moradia, mas tem como objetivo final aquilo que possibilitará o fim das condições sociais que generalizam todas estas tragédias: o fim das condições sociais que causam sua miséria.

    Fundamentalmente, são estas condições sociais (que fazem com que o proletariado recorra à moradia nos locais de risco) que precisam ser combatidas. Este é o horizonte necessário que não pode sair de vista de todos aqueles que sentem profundamente as perdas humanas e sociais e lamentam diante das terríveis reações dos governantes burgueses.
    O objetivo final de nossa luta, para além da necessária melhoria imediata das condições de vida dos trabalhadores que habitam as regiões mais precárias, precisa ser o fim da sociedade de classes!
    O original (Abril/2010) encontra-se em http://coletivomarxista.blogspot.com/2010/04/as-chuvas-o-proletariado-e.html ; a transcrição (Janeiro/2011) em pcb.org.br/...



    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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    Ou se trata seriamente a incitação ou haverá mais assassinatos

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    23:33

     

    por WikiLeaks [*]

    Wikileaks apresentou hoje sentimentos de simpatia e condolências às vítimas do tiroteio de Tucson, bem como os melhores desejos quanto à recuperação da deputada Gabrielle Giffords. Giffords, democrata do 8º distrito do Arizona, foi o alvo de uma orgia de tiros num evento político de 8 de Janeiro no qual seis outras pessoas foram assassinadas.


    Clarence Dupnik, sheriff de Tucson que dirige a investigação dos tiros sobre Gifford, afirmou que a "retórica vitriólica" destinada a "inflamar o público numa base diária ... tem impacto sobre as pessoas, a principiar especialmente por aquelas que têm personalidades desequilibradas". Dupnik também observou que responsáveis e personalidades dos media empenhadas em retórica violenta "têm de considerar que têm alguma responsabilidade quando ocorrem incidentes como este e com os que possam ocorrer no futuro".


    A equipe e os colaboradores do WikiLeaks também tem sido alvo de retórica violenta sem precedentes por parte de personalidades eminentes dos media dos EUA, incluindo Sarah Palin, a qual instou a administração estado-unidense a "perseguir e capturar o chefe do WikiLeaks tal como o Taliban".

    O conhecido político dos EUA Mike Huckabee, no fim de Novembro, apelou à execução do porta-voz do WikiLeaks, Julian Assange, no seu programa da Fox News; e um comentarista da Fox News, Bob Beckel, referindo-se a Assange, apelou publicamente a "disparar ilegalmente sobre o filho da puta". Rush Limbaugh, personalidade da rádio dos EUA, pressionou Roger Ailes , presidente da Fox News, a "Dar a ordem e [então] já não há Assange, garanto-lhes, e não haverá impressões digitais sobre isto", ao passo que o colunista Jeffery T. Kuhner, do Washington Times, intitulou a sua coluna como "Assassinato de Assange" acompanhada por uma foto de Julian Assange com um local de tiro assinalado, a pingar sangue e a legenda "PROCURADO MORTO OU VIVO" com a palavra "vivo" riscada.


    John Hawkins de Townhall.com declarou: "Se Julian Assange leva um tiro na cabeça amanhã ou se o seu carro explodir quando ele virar a chave, que mensagem pensa você que enviaria acerca da divulgação de dados americanos sensíveis?".


    Christina Whiton, num artigo de opinião da Fox News, apelou à violência contra os editores do WikiLeaks, dizendo que os EUA deveriam "designar o WikiLeaks e os seus responsáveis como combatentes inimigos, abrindo o caminho para acções não judiciais contra eles".


    Julian Assange, porta-voz do WikiLeaks, declarou: "Nenhuma organização em qualquer parte do mundo é um advogado mais dedicado do livre discurso do que WikLekas mas quando políticos seniors e comentaristas dos media à procura de atenção apelam à morte de indivíduos ou grupos específicos eles deveriam ser acusados de incitação – ao assassínio. Aqueles que apelam a um acto de assassínio merecem parte tão significativa da culpa quanto aqueles que empunham uma arma e puxam o gatilho".


    "WikiLeaks tem uma equipe muito jovem, voluntários e apoiantes na mesma vizinhança geográfica daqueles que difundem ou circulam estas incitações à morte. Também temos visto pessoas mentalmente instáveis viajarem dos EUA e outros países para outros locais. Consequentemente temos de nos empenhar em medidas de segurança extremas".


    "Apelamos às autoridades dos EUA e outras a protegerem a regra da lei processando agressivamente estas e semelhantes incitações a matar. Um país civil com leis não pode ter membros eminentes da sociedade a apelarem constantemente ao assassínio e à morte de outros indivíduos ou grupos".


    Mais exemplos: http://www.peopleokwithmurderingassange.com/

    10/Janeiro/2011

    O original encontra-se em http://uruknet.net/?p=m73783&hd=&size=1&l=e


    Este comunicado de imprensa encontra-se em http://resistir.info/ .

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    URGENTE: WikiLeaks revela 'guerra dos transgênicos'

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    10:22

     

    Estados Unidos é o país maior produtor de transgênicos do mundo

    Um novo vazamento de despachos diplomáticos dos Estados Unidos revelou que o governo americano foi orientado a travar uma guerra comercial contra países da União Europeia que se opusessem a alimentos geneticamente modificados.

    Segundo o documento revelado ao jornal britânico "The Guardian" pelo WikiLeaks, a embaixada americana em Paris advertiu Washington a iniciar uma guerra comercial "ao estilo militar" em resposta à proibição da França de comercialização do milho transgênico da Monsanto, em 2007. O despacho foi assinado por Craig Stapleton, embaixador em Paris e também amigo e parceiro de negócios com o ex-presidente George Bush.

    "Recomendamos a elaboração de uma lista de retaliação que cause alguma dor na União Europeia - já que essa é uma responsabilidade coletiva -, mas também mire os piores culpados", afirma o documento divulgado ontem. "A lista deve ser de longo prazo, já que não esperamos uma vitória tão cedo".

    Outros despachos, acrescenta o "The Guardian", mostram que os diplomatas americanos pelo mundo encaram o progresso das culturas geneticamente modificadas como uma estratégia governamental e comercial "imperativa".

    O diário britânico afirma ainda que os EUA deveria exercer "particular pressão" sobre os conselheiros do papa, uma vez que bispos de países em desenvolvimento se posicionam "veementemente contra culturas controversas". "As oportunidades existem para pressionar o Vaticano e influenciar um amplo segmento da população europeia e de países em desenvolvimento".

    Dados do Serviço Internacional para Aquisições de Aplicações de Biotecnologia (ISAAA, em inglês), organização favorável à tecnologia, os Estados Unidos estão na dianteira de produtos e área plantada com variedades modificadas. Em 2009, plantaram soja, milho, algodão, beterraba, canola e alfafa transgênicos em 64 milhões de hectares. O Brasil está em segundo lugar, com 21,4 milhões de hectares de soja, algodão e milho.

    As culturas transgênicas são controversas devido à falta de uma série histórica científica que aponte seus possíveis impactos no ambiente e na saúde humana.

    Fonte: Valor Econômico

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    2011: ‘novo’ governo permanecerá na esfera da naturalização da desigualdade

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    22:00

     

    Escrito por Valéria Nader, da Redação

    04-Jan-2011

    Encerra-se o mandato do primeiro presidente-operário e tem início o governo da primeira mulher eleita presidente do Brasil. Além de primeira mulher, a primeira presidente que o governo antecessor, após duplo mandato, conseguiu levar ao poder em todo o período de ‘democracia’ em nosso país.

    Este poderia ser o início de uma nova era. Nada indica, no entanto, que o será. E não há nenhuma grande descoberta, e muito menos a tal ‘visão catastrofista’, nesta constatação. Ela é nada mais do que realista, respaldada em pelo menos duas situações relevantes.

    Em primeiro lugar, respalda-se na avaliação mais profunda - aquela que vai além da citação das melhorias sociais dos últimos oito anos - dos dados estatísticos produzidos sob o governo Lula. Por último, estão aí as já notórias, recorrentes e reiteradas declarações do ‘andar de cima’ da equipe da presidente Dilma. Elas apontam claramente para a preocupação principal que deve rondar o governo: os índices de inflação, com a continuidade da política macroeconômica.

    O atual quadro, não somente de desigualdade social, mas de deterioração patente das contas externas do país, combinada com a especialização regressiva do país exportador de commodities na divisão internacional do trabalho, não é negado nem mesmo pelos economistas mais conservadores. Não há como alterá-lo sem, no mínimo, reverter o atual modelo econômico do Brasil, de forte abertura financeira. O ‘acordo’ em torno ao crescimento caminha, no entanto, rumo ao clássico processo de ‘modernização conservadora’.

    E fica uma anotação final. O novo governo, que teve como grande patrocinador o operário que em 2006 se reelegeu sob a bandeira de ácida crítica às privatizações tucanas, ordenou, como sua primeira medida do ano, estampada com alarde nas manchetes da grande mídia, a concessão à iniciativa privada da ampliação de dois dos maiores aeroportos do país.

    Nosso entrevistado especial para esta primeira edição do ano é o historiador Mario Maestri. Para Maestri, a eleição de Dilma Rousseff no último pleito foi "uma enorme vitória do capital, que avançou seu projeto de reduzir as eleições a uma disputa bipartidária no interior de seu campo". Confira abaixo a entrevista.

    Correio da Cidadania: Qual o seu balanço dos oito anos do governo de Lula?

    Mario Maestri: O balanço central é a derrota econômica, social, política e ideológica dos trabalhadores, que emergem do período desorganizados e fragilizados na confiança em suas forças, programas, organizações e partidos. Derrota de grande dimensão, enquadrada por mais de vinte anos de refluxo do movimento social no mundo e no Brasil, após a vitória da maré liberal de fins dos anos 1980.

    Correio da Cidadania: Estatísticos apontam crescimento do PIB, do emprego, dos rendimentos, dos reajustes do salário mínimo e do assistencialismo no governo Lula da Silva. Tudo isso resultaria na redução da pobreza e miséria e no crescimento da classe média. Procedem tais propostas?

    Mario Maestri: O que desperta maior interesse, sociológico e político, é o consenso que tais sandices alcançam, mesmo entre segmentos sociais politizados. O que não pode ser explicado apenas pelo controle quase total da mídia, já que é explícita a precariedade quanto à saúde, moradia, educação, lazer, segurança etc. da enorme maioria da população.

    Essa imensa credulidade parece dever-se em boa parte à incompletude da revolução burguesa no Brasil, realizada sem a intervenção dos oprimidos. Para enorme parcela dos segmentos médios, a população trabalhadora não é, nos fatos, gente de plena essência e direito. Consideram a situação de super-exploração e sub-cidadania em que vive como inevitável, se não necessária.

    Vejamos o salário mínimo, o grande vetor de distribuição de renda, no qual o governo propõe ter feito grandes avanços: em verdade, descontado o aumento da produtividade, o concedido foi ínfimo, em valor. O salário mínimo segue sendo arbitrado, pelo governo, de forma impiedosa, radicalmente abaixo de seu valor real, para a alegria dos exploradores grandes, médios e pequenos e miséria dos trabalhadores.

    Correio da Cidadania: Dessa forma, como avalia o processo eleitoral de 2010, que resultou na eleição de Dilma Rousseff?

    Mario Maestri: Uma enorme vitória do capital, que avançou seu projeto de reduzir as eleições a uma disputa bipartidária no interior de seu campo. O capital manteve os partidos e programas dos trabalhadores fora da audiência e opções populares. Consolidou suas instituições e propostas pró-sistêmicas como únicas alternativas, com a adesão da enorme maioria das direções sindicais, populares, cidadãs.

    Uma operação que não pode ser explicada apenas devido ao controle da mídia ou como produto da "crise" ou "traição" de direções. A cooptação das lideranças populares nasce também da enorme desorganização e alienação dos trabalhadores no Brasil, que realizaram escassamente sua constituição como classe para si. Entre nós, inexiste largo operariado esperando a direção revolucionária que supere a reformista.

    Correio da Cidadania: A expressiva votação de Marina Silva permitirá constituir uma terceira via ambientalista, ou se trata de fenômeno eleitoral passageiro?

    Mario Maestri: A senhora Marina Silva foi engana-bobo para o segundo turno. Sua votação foi viabilizada pela cobertura da mídia e pelas revelações sobre a ministra Erenice Guerra, do círculo próximo da senhora Dilma Rousseff. O eco-capitalismo não possui força para conformar pólo político sólido, como registra a despreocupação com ele na formação do atual governo. A verdadeira luta ambientalista é programa reprimido pelo capital.

    Correio da Cidadania: Na formação do novo ministério, destacaram-se as exigências do PMDB por mais postos, a troca de comando no Banco Central, a saída de Amorim das Relações Exteriores, tido como progressista. Como avalia o ministério?

    Mario Maestri: O ministério nasce senil, repetindo os vícios tradicionais: loteamento partidário; despreocupação com a capacidade técnica dos ministros; descaso com a opinião pública etc.

    São paradigmáticos o retorno ao Ministério de Minas e Energia do advogado Édison Lobão, que explicou o mega-apagão de 2009 como motivado pelas chuvas e trovoadas, e a entronização do senhor Antônio Palocci na Casa Civil, objeto de incessantes denúncias desde o início de sua vida política institucional.

    O senhor Celso Amorim apoiou a ocupação do Haiti, as pressões sobre o Paraguai, Equador, Bolívia etc. Eu o definiria como defensor de política mais autônoma, necessária aos interesses capitalistas no Brasil. Seu afastamento, a escandalosa continuidade do senhor Nélson Jobim, após alcaguetar o ministro Samuel Pinheiro Guimarães ao embaixador USA, e a designação do general Carvalho Siqueira, ex-comandante da ocupação militar do Haiti, para o Gabinete de Segurança Institucional, sugerem vontade de aproximação ao governo USA.

    Manter o Meirelles, moço de recados do capital financeiro, era algemar o governo quanto a qualquer esforço real de redução da taxa de juros, único remédio para superar a valorização do real que mina a economia.

    Correio da Cidadania: Qual a sua avaliação da conjuntura mundial e nacional, quanto à crise de 2008-2009? A economia estabilizou-se realmente, apesar dos países europeus mais fragilizados, como a Irlanda?

    Mario Maestri: A população européia paga o custo do mega-financiamento do capital bancário e financeiro detonador da crise. Irlanda, Grécia, Espanha, Portugal, Inglaterra, Itália sofrem o peso de radicalização estratégica do confisco de conquistas e direitos já acelerado quando da contra-revolução neoliberal. À exceção da Grécia, a resposta operária tem sido fraca, devido à fragilidade do mundo do trabalho e à falta de política alternativa a essa neobarbarização social geral.

    As políticas de austeridade − enormes cortes de salários, de investimentos, gastos sociais − minam a frágil retomada da produção no Velho Mundo. Realidade que golpeará também a Alemanha, que exporta sobretudo para a União Européia. É real o perigo de uma segunda onda recessiva, com os governos nacionais agora incapazes de financiar novas medidas anticíclicas.

    Com a fragilidade econômica USA, a retomada da crise na Europa teria fortes reflexos na China, com conseqüências para a economia brasileira, dependente da exportação de commodities para o mercado oriental. Em tal cenário, os trabalhadores brasileiros perderiam, em um piscar de olhos, as migalhas obtidas no passado período de bonança.

    Correio da Cidadania: Paulo Bernardo, ministro do Planejamento, justifica com o alegado déficit da Previdência o não aumento dos benefícios acima do mínimo. Propõe também política fiscal com despesas correntes primárias − previdência, salários do funcionalismo, assistência social etc. − crescendo menos que o PIB. Devemos esperar duras restrições aos gastos sociais?

    Mario Maestri: Também no Brasil quem paga as liberalidades governamentais com o grande capital são os trabalhadores e a população. Também aqui já se iniciou a retirada das medidas anticíclicas: aumento da taxa de juro; acréscimo do depósito bancário compulsório; maior exigência para empréstimos de longo prazo; reajuste draconiano do salário mínimo etc. Certamente 2011 será ano de rigor, ainda mais que se espera que a provável expansão econômica minimize as conseqüências do aperto geral. Em 2012, haveria maior liberalidade, devido às eleições municipais.

    Correio da Cidadania: A bancada do PT, PMDB e partidos governistas cresceu e a do PSDB e DEM encolheu. A maioria governamental facilitará um desmonte de direitos sociais ou há uma remota chance de que avancem iniciativas progressistas − reforma agrária, direitos sociais e democráticos?

    Mario Maestri: A senhora Dilma Rousseff ajoelhou-lhe e pediu perdão pela passada defesa do direito de interrupção da gravidez indesejada, dos direitos dos homossexuais, do direito ao laicismo. Seu governo já está se movendo para trazer o abjeto Joseph Ratzinger ao Brasil, em 2012, a fim de consolidar a vergonhosa aliança explícita com os setores religiosos integralistas e não integralistas. Será uma mulher e ex-combatente que manterá no garrote da arbitrariedade esse direito democrático da mulher e a reivindicação da punição dos criminosos da ditadura!

    Como nos últimos anos, será o PT − abraçado ao PMDB − que governará em nome do grande capital, com a certeza do apoio do PSDB e DEM, quando a pauta anti-social exigir. Talvez a única grande diferença entre o ex-presidente e a atual é que a senhora Dilma Rousseff não tem base social histórica para preservar.

    Correio da Cidadania: Como o Brasil enfrentaria nova crise econômica, como a de 2008? Ela seria mais difícil de ser contornada sem Lula, já que Dilma Rousseff não tem a mesma experiência e prestígio político?

    Mario Maestri: Não creio que o senhor Lula da Silva tenha contribuído pessoalmente para contornar a crise. A economia do Brasil foi golpeada relativamente menos devido a razões estruturais e conjunturais, nem sempre positivas. Não tínhamos créditos imobiliários podres, pois a população não tem condições para financiar a moradia; não havia exposição das finanças familiares, devido à baixa renda popular; possuíamos fortes bancos estatais. Sobretudo, a valorização do real, devido aos juros altos, recuara as exportações industriais e crescera as de commodities, direcionadas fortemente para a China, que manteve seu dinamismo.

    Nossa situação hoje é talvez pior para enfrentar uma nova crise − cresceu o endividamento familiar, com o escandaloso crédito consignado e a expansão do uso do cartão de crédito, que talvez chegue em 2011 a uns 26% dos gastos familiares.

    Aumentaram drasticamente os gastos com a subvenção do crédito ao setor produtivo, sobretudo via BNDES. A valorização do real mina a economia. É crível que a senhora Dilma Rousseff encontre condições piores, no caso de nova recessão.

    Correio da Cidadania: Em entrevista ao Correio da Cidadania, o sociólogo Francisco de Oliveira propôs que o governo petista seria mais privatista que o do FHC. Não em função das privatizações sorrateiras via Parcerias Público-Privadas, mas por ter consolidado o "capitalismo monopolista de Estado". Isso lhe parece certo?

    Mario Maestri: Não. O governo do senhor Lula da Silva não pode ser mais privatista, pois o de FHC liquidou as jóias da coroa − Siderúrgica Nacional, Vale do Rio Doce, Telebrás, energia, bancos públicos etc. A proposta de consolidação de "capitalismo monopolista de Estado" sugere que o petismo promoveu a superação da dependência semi-colonial do capitalismo brasileiro, metamorfoseando o país em Estado imperialista ou sub-imperialista.

    O avanço do capital monopólico é fenômeno antigo, que se acelerou no governo FHC, com as privatizações e internacionalizações. O Brasil sedia interesses monopolistas, não necessariamente nacionais, que exigem uma mãozinha do Estado para a conquista-domínio de mercados, sobretudo nas nações vizinhas − Petrobrás, Banco do Brasil, Bradesco, Embraer, Gerdau, Votorantim, JBS-Friboi, empreiteiras etc. Apesar da importância dessas empresas, o Brasil mantém situação marginal na hegemonia capitalista mundial.

    O Brasil é país de investimentos, e não investidor; é enorme seu handicap no confronto entrada-saída de juros, dividendos, royalties, amortizações etc. A espoliação financeira de nossa economia e sociedade registra o caráter semi-colonial do país, ou seja, sua independência política formal e submissão econômica. Somos país sem autonomia econômica, tecnológica, militar e sem pretensão de conquistá-la.

    O atual rearmamento das forças armadas visa supremacia sobre nossa população e vizinhos, e não autonomia mundial. Somos a única grande nação que não possui e não quer possuir a arma atômica, única defesa efetiva diante do imperialismo. O Brasil imperialista ou sub-imperialista é auto-ilusão complacente e envergonhada de nacionalismo pindorama influenciado pelo ufanismo lulista.

    Correio da Cidadania: Apesar da orientação privatista do governo Lula, apoiadores e opositores propõem a ‘retomada’ do papel gerenciador e referencial do Estado na economia, com destaque para o PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento. O que pensa disto?

    Mario Maestri: Como quer sempre mais, o capital não cessa de acusar o Estado de banquetear-se com os recursos nacionais. No passado governo, não houve esforço algum para nacionalizar as mega-empresas privatizadas, essenciais à gestão estatal. Ao contrário, prosseguiu-se no fim do monopólio da exploração do petróleo; na privatização das rodovias, portos, ferrovias, aeroportos, produção de energia etc.

    Qual foi a autonomia na fixação da taxa de juro, a pedra de toque da espoliação nacional e popular? Certamente a gerência/controle governamental não avançou no sistema bancário, industrial, educacional etc. Ao contrário, aprofundaram-se a desnacionalização da economia, o avanço relativo da agroindústria, o privatismo selvagem. Se houve dirigismo, seria interessante saber aonde queria chegar.

    Por necessidade da economia capitalista desenvolvida, o Estado é enorme expropriador e centralizador da renda pública − realidade exacerbada por exigência do capital financeiro. Esse enorme monte de capital é transferido pelo Estado ao capital privado, por diversas vias. É devido a essa função repartidora que o governo se torna reino da corrupção, no Brasil literalmente legalizada pelo mundo político. O PAC é uma super-estrada da redistribuição privada da renda nacional.

    Correio da Cidadania: Qual sua visão sobre a evolução do MST no governo passado e presente?

    Mario Maestri: O MST é a síntese dos paradoxos da esquerda no Brasil. Durante décadas, sua direção propôs a democratização constitucional da propriedade da terra, portanto, com a indenização da propriedade improdutiva expropriada. A esse programa, associou a luta estratégica anti-sistêmica. Essa proposta de "revolução por etapas", primeiro democrático-burguesa, a seguir socialista, consubstanciou-se no programa petista de ampliação gradativa e crescente da democracia política, social e econômica.

    Com tal proposta, a direção do MST galvanizou ampla base social, satisfeita na luta por naco de terra, e amealhou enorme capital político no Brasil e no exterior. Apenas paradoxalmente, a metamorfose social-liberal do PT, ao avançar na administração do Estado, obrigou a direção do MST a liquidar-se como proposta política; primeiro estratégica, logo tática, para manter-se como direção sindical de pequenos agricultores com e sem terra.

    É antiga a idéia de democratização-modernização capitalista do campo através da divisão do latifúndio improdutivo, expandindo assim o consumo e a produção pequeno-mercantil familiar. Seguindo sua natureza, a subordinação do campo ao capital deu-se com a liquidação do trabalho vivo, ao introduzir novas tecnologias, maquinarias e insumos. Processo em grande parte patológico, potenciado pela expansão do mercado mundial de alimentos, que enxugou o latifúndio improdutivo, elevou o preço da terra, barateou o preço de produção e o valor unitário da mercadoria agro-pastoril. Com o novo "modelo", a reforma agrária parcelar mostrou-se social e economicamente "não mais viável", em um sentido econômico, como assinalou o dirigente do MST Gilmar Mauro, ao Correio da Cidadania, em 27 de setembro de 2010.

    A incapacidade de prática auto-sustentada; o encolhimento das terras improdutivas e do apoio social; os recursos necessários às desapropriações, ao apoio à pequena propriedade, ao sustento dos acampados, à manutenção da organização etc. exigiam que a direção do MST mantivesse estreitos laços com o Estado. Apesar da opção cabal pelo agronegócio, o PT prosseguiu com política contemporizadora e compensatória para com a pequena agricultura familiar − Bolsa Família, merenda escolar, financiamento subsidiado e a fundo perdido etc.

    Correio da Cidadania: Essa realidade influenciou a orientação eleitoral do MST nas eleições de 2010?

    Mario Maestri: A dependência intrínseca ao Estado e ao petismo levou a direção do MST ao rompimento de fato dos vínculos políticos que mantinha com a frágil esquerda classista organizada. Processo que se consubstanciou nas eleições, no apoio implícito à senhora Dilma Rousseff no primeiro turno, e desbragado no segundo, voltando assim as costas a velhos aliados históricos da reforma agrária parcelar, como Plínio Arruda Sampaio, do PSOL. Uma política que contribuiu para a derrota brutal da esquerda e a consolidação das políticas e instituições burguesas no Brasil, como assinalado.

    Entretanto, é injusto responsabilizar a direção do MST por não perseguir práticas e objetivos políticos socialistas e classistas em contradição com a própria essência democrático-radical do movimento que impulsiona. Foi a incapacidade da classe trabalhadora desorganizada de ocupar o centro da arena política e orientar os demais segmentos sociais aliados que ensejou a miragem da esquerda de vanguarda rural de pequenos camponeses pautando as soluções estruturais do país.

    Ao contrário dos trabalhadores industriais inexoravelmente socializados na produção, os camponeses sem terra podem tentar resolver suas contradições pessoais imediatas no contexto da ordem capitalista, com a conquista de gleba para trabalhar. E devem ser apoiados incondicionalmente pelo mundo do trabalho e da democracia, na luta por este direito inalienável, mesmo se mostrando essa estratégia crescentemente aleatória, como assinalado por Gilmar Mauro, na dilacerante declaração ao Correio da Cidadania já citada.

    Correio da Cidadania: O que pensa da atuação da esquerda socialista nesta eleição, sobretudo o PSOL, PCB, PSTU e PCO?

    Mario Maestri: A assinalada vitória da contra-revolução mundial arrasou conquistas históricas do mundo do trabalho, com destaque para as organizações sindicais e políticas. Partidos fortíssimos, como os partidos comunistas francês e italiano, meios da resistência, apesar do colaboracionismo que praticavam, dissolveram-se como sorvete sob o sol. A despolitização, derrotismo, conservadorismo etc. dominaram multidões de trabalhadores das nações de capitalismo avançado.

    No Brasil, o golpe foi terrível, devido à tardia e frágil conformação político-sindical dos trabalhadores que emergiram da escravidão, havia pouco mais de um século. A banda podre do Partidão, travestido em PPS, pôs-se a serviço do conservadorismo; o PC do B fez o mesmo, com alguma compostura. Nascido das vigorosas lutas operárias da segunda metade dos anos 1970, o PT avançou por poucos anos a luta pela autonomia operária, antes de receber do capital a direção do país, já como partido social-liberal.

    As direções militantes e políticas da esquerda foram também golpeadas pelo período regressivo, fato agravado pelas superficiais raízes históricas; frágil implantação em operariado desorganizado; extração social, sobretudo estudantil e profissional. Tudo isso, somado à frágil formação e experiência das direções e da militância, criou e cria uma forte dissociação entre aparência e essência, um indiscutível hiato na realização efetiva da auto-proclamação como vanguarda dos trabalhadores.

    É muito difícil ensaiar balanço mesmo telegráfico da atuação eleitoral dos grupos que se reivindicam anti-sistêmicos. Hoje, me auto-critico pela expectativa subjetivista da construção de frente, com programa classista, viabilizada pela magnífica vitória da pré-candidatura de Plínio Arruda Sampaio. Uma frente de esquerda pela base que reagrupasse política e organicamente a esquerda classista organizada e dispersa, na procura da construção de instrumentos e espaços para uma efetiva apresentação-concretização, mesmo embrionária, do programa do trabalho.

    Não houve ainda um balanço efetivo, pelas direções dos partidos de esquerda com registro eleitoral, da verdadeira organização da derrota histórica que sofremos − menos de 1% dos votos, todos somados. Hecatombe acrescida do apoio à senhora Dilma Rousseff pela maior parte do PSOL e pelo PCB.

    Correio da Cidadania: Quais são as perspectivas da Esquerda nos próximos anos? Acredita que deva ou possa ser reconstituída uma frente de esquerda?

    Mario Maestri: Pelas razões assinaladas, mantendo-se as tendências atuais, creio que, caso ocorra uma frente de esquerda em 2014, ela possivelmente terá um sentido meramente eleitoreiro, como em 2006. Não deixará rastro quanto à construção da esquerda classista que necessitamos. Marx propôs que a emancipação dos trabalhadores devia ser necessariamente obra dos trabalhadores. Creio que sem salto qualitativo, mesmo exemplar, das lutas dos trabalhadores no Brasil ou no mundo, a tendência da esquerda no Brasil seja regressiva, ainda que avance parlamentar e numericamente.

    O cenário nacional não é radioso, com o enorme colaboracionismo e governismo das organizações e direções sindicais e populares e com a impressionante desorganização e alienação dos trabalhadores. Internacionalmente, a tendência é também regressiva: avanço da restauração capitalista em Cuba; colaboração entre os governos da Venezuela e Colômbia; medidas antipopulares na Bolívia; isolamento do esforço titânico dos trabalhadores na Grécia; perda incessante de conquistas populares etc. Um duro cenário que exige um enorme esforço de ação e reunificação da vanguarda organizada e dispersa.

    A idéia da história como linha circular onde, ao se perder o ônibus, paga-se apenas um bilhete mais caro no próximo, embota a consciência do drama atual. Os tempos esgotam-se e o declínio da humanidade é hoje tendência mais factível que a sua necessária superação socialista. Temos que nos apressar para não perdermos a última condução: a barbárie não é mais promessa e já se aninha perversa entre nós.

     

    Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.

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